Mauro Ferreira no G1

Aviso aos navegantes: desde 6 de julho de 2016, o jornalista Mauro Ferreira atualiza diariamente uma coluna sobre o mercado fonográfico brasileiro no portal G1. Clique aqui para acessar a coluna. O endereço é http://g1.globo.com/musica/blog/mauro-ferreira/


quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Musical sem conflito repisa andanças firmes de Beth pelo terreirão do samba

Resenha de musical
Título: Andança - Beth Carvalho, o musical
Texto: Rômulo Rodrigues
Direção: Ernesto Piccolo
Direção musical: Rildo Hora
Elenco: Jamilly Mariano, Stephanie Serrat, Eduarda Fadini e Ana Bertinnes, entre outros
Foto: Fernanda Sabença
Cotação: * * * 1/2
Musical em cartaz no teatro Maison de France, no Rio de Janeiro (RJ), de quinta-feira a 
  domingo, até 31 de janeiro de 2016

O musical sobre os 50 anos de carreira de Beth Carvalho - recém-estreado no teatro Maison de France, na cidade do Rio de Janeiro (RJ), onde ficará em cartaz até 31 de janeiro de 2016 - passou pelo crivo da cantora carioca. O que é visto e ouvido em cena, ao longo dos dois atos que totalizam quase três horas de espetáculo, foi aprovado pela artista. Mas esse caráter de homenagem oficial jamais tira o mérito e o valor de Andança - Beth Carvalho, o musical. Mesmo que o texto de Rômulo Rodrigues se ressinta da falta de ação e de conflito (matéria-prima da dramaturgia), o nobre caminho percorrido por Beth na música brasileira é interessante e legitima o que o espetáculo conta por meio de cenas ágeis e números musicais. É boa demais a história da menina criada na abastada Zona Sul do Rio - berço da Bossa Nova - que pôs os pés no terreirão do samba e, sem tirá-los de lá, fez seu nome na música do Brasil. A vivacidade da direção de Ernesto Piccolo - valorizada pelo competente elenco - contribui para diluir a sensação de que, a rigor, o espetáculo segue a receita dos musicais biográficos, centrada na exposição dos fatos mais relevantes do artista enfocado para encaixar números musicais entre cenas curtas. No caso do musical de Beth, a força vital reside nas andanças da artista pelos caminhos do samba. É como se o espetáculo fosse, em última análise, um convite ao espectador para cair no samba com Beth. Convite feito, aliás, já no número que abre o roteiro musical, Quem é de sambar (Sombrinha e Marquinho PQD), uma das muitas pérolas do pagode gravadas pela cantora em sua digníssima discografia. Nenhum das três atrizes escolhidas para interpretar Beth em diferentes fases da vida - Jamilly Mariano (a criança nascida em família de Esquerda e torcedora do Botafogo, fatos enfatizados pelo texto), Stephanie Serrat (a Beth dos anos 1960 e 1970) e Eduarda Fadini (a artista na fase da maturidade) - consegue mimetizar o jeito e a voz da sambista, mas todas têm críveis desempenhos, com ligeiro destaque para Serrat. A comunicabilidade de Ana Berttines - no papel cômico de Isaura, fã de Beth que protagoniza cenas isoladas ao telefone com uma amiga que nunca aparece para o espectador - também merece menção honrosa. A criação da personagem é sagaz recurso do autor para narrar fatos da vida de Beth omitidos no desenvolvimento da narrativa principal. O que se vê em cena é uma andança romantizada, mas, como já dito, legitimada pela condução impecável da carreira de uma artista exigente, de temperamento reconhecidamente forte. Os únicos grandes conflitos encenados no musical são a saída da cantora do conjunto 3D e, bem mais tarde, o impedimento da artista de desfilar em carro da escola de samba Mangueira. Entre um e outro, o primeiro ato põe em cena ícones da MPB em início de carreira. Maria Bethânia e Milton Nascimento são retratados sem traços caricaturais por Rebeca Jamir e André Muato em números musicais de bom nível - Carcará (João do Vale e José Cândido, 1965) e Travessia (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1967), respectivamente - só que esses números parecem sobrar em longo primeiro ato que ainda pode ser condensado sem prejuízo para o espetáculo. Afinal, Bethânia e Milton podem ter fascinado uma Beth ainda à procura de seu caminho, quando apareceram na segunda metade dos anos 1960, mas suas conexões com a artista ao longo desses 50 anos de carreira jamais tiveram a força das ligações de Beth com Cartola (1908 - 1980) e Nelson Cavaquinho (1911 - 1986), compositores fundamentais na construção da ponte que conduziu Beth ao samba do morro. Cartola é bem retratado na pele de Leo França. Já Nelson convence na pele do versátil André Muato, que ainda brilha como Arlindo Cruz - com direito a uma pança cenográfica - no segundo ato, de tom mais emocionante. O segundo ato já conquista o espectador na abertura quando Stephanie Serrat dá voz a Viola enluarada (Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle, 1968) em número vibrante. A presença certeira de Rildo Hora - produtor dos discos mais importantes da obra fonográfica de Beth - na direção musical do espetáculo é selo de qualidade. É garantia de que o samba não vai atravessar em cena. O que valoriza números musicais como os que retratam a descoberta do grupo Fundo de Quintal por Beth em 1978. O segundo ato é povoado por números mais sedutores. O uso do samba Senhora rezadeira (Dedé da Portela e Dida, 1979) em feitio de oração - reforçada pelo coro de enfermeiras do hospital onde Beth se recuperava de grave problema de coluna que a tirou forçosamente de cena por mais de um ano - é especialmente criativo por sair do universo mais óbvio do samba. Contudo, o samba é o dom mais forte de Beth Carvalho. Exposto em Coisa de pele (Acyr Marques e Jorge Aragão, 1986), esse amor pelo samba é o combustível que faz o musical  Andança  chegar ao fim do caminho com doses fartas de emoção.

11 comentários:

Mauro Ferreira disse...

♪ O musical sobre os 50 anos de carreira de Beth Carvalho - recém-estreado no teatro Maison de France, na cidade do Rio de Janeiro (RJ), onde ficará em cartaz até 31 de janeiro de 2016 - passou pelo crivo da cantora carioca. O que é visto e ouvido em cena, ao longo dos dois atos que totalizam quase três horas de espetáculo, foi aprovado pela artista. Mas esse caráter de homenagem oficial jamais tira o mérito e o valor de Andança - Beth Carvalho, o musical. Mesmo que o texto de Rômulo Rodrigues se ressinta da falta de ação e de conflito (matéria-prima da dramaturgia), o nobre caminho percorrido por Beth na música brasileira é interessante e legitima o que o espetáculo conta por meio de cenas ágeis e números musicais. É boa demais a história da menina criada na abastada Zona Sul do Rio - berço da Bossa Nova - que pôs os pés no terreirão do samba e, sem tirá-los de lá, fez seu nome na música do Brasil. A vivacidade da direção de Ernesto Piccolo - valorizada pelo competente elenco - contribui para diluir a sensação de que, a rigor, o espetáculo segue a receita dos musicais biográficos, centrada na exposição dos fatos mais relevantes do artista enfocado para encaixar números musicais entre cenas curtas. No caso do musical de Beth, a força vital reside nas andanças da artista pelos caminhos do samba. É como se o espetáculo fosse, em última análise, um convite ao espectador para cair no samba com Beth. Convite feito, aliás, já no número que abre o roteiro musical, Quem é de sambar (Sombrinha e Marquinho PQD), uma das muitas pérolas do pagode gravadas pela cantora em sua digníssima discografia. Nenhum das três atrizes escolhidas para interpretar Beth em diferentes fases da vida - Jamilly Mariano (a criança nascida em família de Esquerda e torcedora do Botafogo, fatos enfatizados pelo texto), Stephanie Serrat (a Beth dos anos 1960 e 1970) e Ana Berttines (a artista na fase da maturidade) - consegue mimetizar o jeito e a voz da sambista, mas todas têm críveis desempenhos, com ligeiro destaque para Serrat. A comunicabilidade de Ana Berttines - no papel cômico de Isaura, fã de Beth que protagoniza cenas isoladas ao telefone com uma amiga que nunca aparece para o espectador - também merece menção honrosa. A criação da personagem é sagaz recurso do autor para narrar fatos da vida de Beth omitidos no desenvolvimento da narrativa principal. O que se vê em cena é uma andança romantizada, mas, como já dito, legitimada pela condução impecável da carreira de uma artista exigente, de temperamento reconhecidamente forte. Os únicos grandes conflitos encenados no musical são a saída da cantora do conjunto 3D e, bem mais tarde, o impedimento da artista de desfilar em carro da escola de samba Mangueira. Entre um e outro, o primeiro ato põe em cena ícones da MPB em início de carreira. Maria Bethânia e Milton Nascimento são retratados sem traços caricaturais por Rebeca Jamir e André Muato em números musicais de bom nível - Carcará (João do Vale e José Cândido, 1965) e Travessia (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1967), respectivamente - só que esses números parecem sobrar em longo primeiro ato que ainda pode ser condensado sem prejuízo para o espetáculo. Afinal, Bethânia e Milton podem ter fascinado uma Beth ainda à procura de seu caminho, quando apareceram na segunda metade dos anos 1960, mas suas conexões com a artista ao longo desses 50 anos de carreira jamais tiveram a força das ligações de Beth com Cartola (1908 - 1980) e Nelson Cavaquinho (1911 - 1986), compositores fundamentais na construção da ponte que conduziu Beth ao samba do morro. Cartola é bem retratado na pele de Leo França. Já Nelson convence na pele do versátil André Muato, que ainda brilha como Arlindo Cruz - com direito a uma pança cenográfica - no segundo ato, de tom mais emocionante.

Mauro Ferreira disse...

O segundo ato já conquista o espectador na abertura quando Stephanie Serrat dá voz a Viola enluarada (Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle, 1968) em número vibrante. A presença certeira de Rildo Hora - produtor dos discos mais importantes da obra fonográfica de Beth - na direção musical do espetáculo é selo de qualidade. É garantia de que o samba não vai atravessar em cena. O que valoriza números musicais como os que retratam a descoberta do grupo Fundo de Quintal por Beth em 1978. O segundo ato é povoado por números mais sedutores. O uso do samba Senhora rezadeira (Dedé da Portela e Dida, 1979) em feitio de oração - reforçada pelo coro de enfermeiras do hospital onde Beth se recuperava de grave problema de coluna que a tirou forçosamente de cena por mais de um ano - é especialmente criativo por sair do universo mais óbvio do samba. Contudo, o samba é o dom mais forte de Beth Carvalho. Exposto em Coisa de pele (Acyr Marques e Jorge Aragão, 1986), esse amor pelo samba é o combustível que faz o musical Andança chegar ao fim do caminho com doses fartas de emoção.

Marcelo Barbosa disse...

Bela resenha, meu caro crítico. Estou ansioso para assistir! Salve Beth! A maior cantora de samba (maiúsculo!) deste país e fim de papo!

Val Js disse...

Beth Carvalho é merecedora de todas as homenagens. Voz cativante, imprimiu com muita personalidade um estilo único de cantar samba. Sua discografia é impressionante. Tudo que ela canta fica bonito. Carreira impecável. Salve Beth!

Marcelo Barbosa disse...

Mauro, uma correção! Eduarda Fadini é a Beth da maturidade e não Ana Berttines.

Mauro Ferreira disse...

Obrigado pelo toque, Marcelo. Já corrigido!

.love.luh. disse...

Olá Mauro,

Bela crítica, vale lembrar também que os arranjos vocais são de Pedro Lima que criou o número Senhora Rezadeira.

Abraço!

ROBERTO SERRÃO SERRÃO disse...

Olá Mauro, meus respeitos.
Perfeito Mestre, belo resumo; apenas reforço a lembrança pelo trabalho de Pedro Lima, na criação dos arranjos vocais.
Saúde, sucesso e abs.
Roberto Serrão
www.robertoserrao.com.br

Luca disse...

Fala da briga com a Elis, Mauro?

Mauro Ferreira disse...

Não, Luca. O musical mostra Beth ouvindo 'Folhas secas', mas não toca no assunto de a Elis ter tido acesso ao samba, através do César Camargo Mariano, e gravado a música dada a Beth pelo Nelson Cavaquinho.

ADEMAR AMANCIO disse...
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