Mauro Ferreira no G1

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terça-feira, 29 de setembro de 2015

Faria Jr. foca o artista Chico com humor no tempo imaginativo das memórias

Resenha de filme
Título: Chico - Artista brasileiro
Direção: Miguel Faria Jr.
Roteiro: Miguel Faria Jr. e Diana Vasconcellos
Direção musical: Luiz Claudio Ramos
Cotação: * * * *
Filme com estreia no circuito de cinemas programada para 26 de novembro de 2015

Dez anos após surpreender o circuito cinematográfico brasileiro com o expressivo sucesso popular de Vinicius (2005), filme fluente que expôs a face plural da vida e da obra do compositor e poeta carioca Vinicius de Moraes (1913 - 1980), o cineasta carioca Miguel Faria Jr. apresenta Chico - Artista brasileiro, filme que vai abrir a 17ª edição do Festival do Rio em sessão para convidados programada para 1º de outubro de 2015. No documentário, Faria Jr. - amigo do artista (en)focado com a lente da generosidade - reconta o conto oficial de Chico Buarque de Hollanda, cantor, compositor, músico e escritor brasileiro, nascido no Rio de Janeiro (RJ) há 71 anos. O expressivo documentário entrelaça - com a mesma fluência de Vinicius - entrevistas (a de Chico conduz o roteiro em ordem cronológica), imagens raras de arquivo, cenas inéditas de bastidores e números musicais gravados para o filme sob a direção musical do violonista Luiz Cláudio Ramos. Só que, embora oficial, o conto do cantor recusa os ares de senhor, para citar verso de Sinhá (João Bosco e Chico Buarque, 2011), música que abre o filme em registro inédito do próprio Chico. Em essência, o filme versa sobre o tempo e o artista. Chico documenta a relação do artista com o tempo da vida e da criação ("Tudo é memória e a memória se confunde com a imaginação", ressalta Chico numa de suas lapidares sentenças proferidas ao longo da entrevista) e os efeitos do tempo na criação do artista. Dentro dos limites da intimidade consentida, Faria Jr. refaz o trilho da vida e da obra do artista ao longo desse tempo em rota que passa por imagens raras da infância de Chico, por sutis declarações sobre a relação complexa com o pai paulista, o historiador Sérgio Buarque de Holanda (1902 - 1982), pai do já falecido irmão alemão de Chico que, ao fim, o filme mostra em ação, como ator e cantor, em take antigo. A rigor, o filme poderia ser chato, porque molda o retrato oficial do artista, pintado somente com as tintas da exaltação. Mas Chico transcorre leve e envolvente porque - como ressaltam amigos entrevistados, como o compositor e parceiro Edu Lobo - Chico tem humor. Esse (bom) humor pontua toda a entrevista que conduz o filme. "Nunca fui tímido. Meus pais me chamavam de show boy", lembra Chico, demolindo mito sobre seu perfil público. Mas o artista confirma o desconforto com o palco, originário de apresentações forçadas em palcos italianos durante o autoexílio em Roma. Mas a maneira como Chico fala de sua vida é bem-humorada. O riso salta do tom da voz, da entonação de uma palavra, ajudando a aliviar o peso oficial desta cinebiografia autorizada. A parte mais séria fica com os exclusivos números musicais. Ney Matogrosso revê As vitrines (Chico Buarque, 1982) sem jamais impactar. Além de interpretar Sobre todas as coisas (Edu Lobo e Chico Buarque, 1983) com o contracanto de Milton Nascimento, Carminho faz Sabiá (Antonio Carlos Jobim e Chico Buarque, 1968) voar para os ares de Lisboa. Já a atriz e cantora Laila Garin encara Uma canção desnaturada (Chico Buarque, 1977) sem carregar no drama embutido no tema. Destaque dentre os números, o dueto de Adriana Calcanhotto com Mart'nália no samba Biscate (Chico Buarque, 1993) - dando tom lésbico ao lelê conjugal da letra - tem a espirituosidade que pauta o filme. O riso brota farto na cena de arquivo em que o compositor maranhense João do Vale (1934 - 1996) admite que, no papel de juiz de jogo de futebol armado no campo de Chico, validou gol irregular do dono da bola porque ele era o "patrão". Chico discorre com humor sobre sua vida, mas também fala sério. É corajoso ao ressaltar a gênese elitista da Bossa Nova - "E essa elite tinha o poder de se fazer ouvir no Brasil inteiro" - e o caráter democrático da música populista que domina as paradas musicais. "Essa música que toca hoje é a cara da gente", observa, sem citar gêneros e nomes, em declaração polêmica que pode decepcionar os reguladores do gosto musical alheio. Com a liberdade de quem frequenta o cotidiano do artista, Faria Jr. documenta o cantor-avô com três netos (Chico Freitas, Clara Buarque e Lia Buarque), tocando violão e cantando Dueto (Chico Buarque, 1980) com Clara. À medida em que o filme caminha para o final, o escritor ocupa progressivamente o espaço que, antes, até na vida profissional, era somente do cantor e do compositor. E aí Chico volta mais uma vez ao assunto do tempo para enfatizar que o tempo da criação é cada vez mais longo enquanto a vida que lhe resta fica presumivelmente mais curta. E assim, nessa toada soprada pelo próprio artista, Miguel Faria Jr. fez filme preciso, para todos, percorrendo no tempo imaginativo das memórias as estradas por onde vai, há mais de 50 anos, o bem-humorado artista brasileiro, soberano na arte da composição.

10 comentários:

Mauro Ferreira disse...

♪ Dez anos após surpreender o circuito cinematográfico brasileiro com o expressivo sucesso popular de Vinicius (2005), filme fluente que expôs a face plural da vida e da obra do compositor e poeta carioca Vinicius de Moraes (1913 - 1980), o cineasta carioca Miguel Faria Jr. apresenta Chico - Artista brasileiro, filme que vai abrir a 17ª edição do Festival do Rio em sessão para convidados programada para 1º de outubro de 2015. No documentário, Faria Jr. - amigo do artista (en)focado com a lente da generosidade - reconta o conto oficial de Chico Buarque de Hollanda, cantor, compositor, músico e escritor brasileiro, nascido no Rio de Janeiro (RJ) há 72 anos. O expressivo documentário entrelaça - com a mesma fluência de Vinicius - entrevistas (a de Chico conduz o roteiro em ordem cronológica), imagens raras de arquivo, cenas inéditas de bastidores e números musicais gravados para o filme sob a direção musical do violonista Luiz Cláudio Ramos. Só que, embora oficial, o conto do cantor recusa os ares de senhor, para citar verso de Sinhá (João Bosco e Chico Buarque, 2011), música que abre o filme em registro inédito do próprio Chico. Em essência, o filme versa sobre o tempo e o artista. Chico documenta a relação do artista com o tempo da vida e da criação ("Tudo é memória e a memória se confunde com a imaginação", ressalta Chico numa de suas lapidares sentenças proferidas ao longo da entrevista) e os efeitos do tempo na criação do artista. Dentro dos limites da intimidade consentida, Faria Jr. refaz o trilho da vida e da obra do artista ao longo desse tempo em rota que passa por imagens raras da infância de Chico, por sutis declarações sobre a relação complexa com o pai paulista, o historiador Sérgio Buarque de Holanda (1902 - 1982), pai do já falecido irmão alemão de Chico que, ao fim, o filme mostra em ação, como ator e cantor, em take antigo. A rigor, o filme poderia ser chato, porque molda o retrato oficial do artista, pintado somente com as tintas da exaltação. Mas Chico transcorre leve e envolvente porque - como ressaltam amigos entrevistados, como o compositor e parceiro Edu Lobo - Chico tem humor.

Mauro Ferreira disse...

Esse (bom) humor pontua toda a entrevista que conduz o filme. "Nunca fui tímido. Meus pais me chamavam de show boy", lembra Chico, demolindo mito sobre seu perfil público. Mas o artista confirma o desconforto com o palco, originário de apresentações forçadas em palcos italianos durante o autoexílio em Roma. Mas a maneira como Chico fala de sua vida é bem-humorada. O riso salta do tom da voz, da entonação de uma palavra, ajudando a aliviar o peso oficial desta cinebiografia autorizada. A parte mais séria fica com os exclusivos números musicais. Ney Matogrosso revê As vitrines (Chico Buarque, 1982) sem jamais impactar. Além de interpretar Sobre todas as coisas (Edu Lobo e Chico Buarque, 1983) com o contracanto de Milton Nascimento, Carminho faz Sabiá (Antonio Carlos Jobim e Chico Buarque, 1968) voar para os ares de Lisboa. Já a atriz e cantora Laila Garin encara Uma canção desnaturada (Chico Buarque, 1977) sem carregar no drama embutido no tema. Destaque dentre os números, o dueto de Adriana Calcanhotto com Mart'nália no samba Biscate (Chico Buarque, 1983) - dando tom lésbico ao lelê conjugal da letra - tem a espirituosidade que pauta o filme. O riso brota farto na cena de arquivo em que o compositor maranhense João do Vale (1934 - 1996) admite que, no papel de juiz de jogo de futebol armado no campo de Chico, validou gol irregular do dono da bola porque ele era o "patrão". Chico discorre com humor sobre sua vida, mas também fala sério. É corajoso ao ressaltar a gênese elitista da Bossa Nova - "E essa elite tinha o poder de se fazer ouvir no Brasil inteiro" - e o caráter democrático da música populista que domina as paradas musicais. "Essa música que toca hoje é a cara da gente", observa, sem citar gêneros e nomes, em declaração polêmica que pode decepcionar os reguladores do gosto musical alheio. Com a liberdade de quem frequenta o cotidiano do artista, Faria Jr. documenta o cantor-avô com três netos (Chico Freitas, Clara Buarque e Lia Buarque), tocando violão e cantando Dueto (Chico Buarque, 1980) com Clara. À medida em que o filme caminha para o final, o escritor ocupa progressivamente o espaço que, antes, até na vida profissional, era somente do cantor e do compositor. E aí Chico volta mais uma vez ao assunto do tempo para enfatizar que o tempo da criação é cada vez mais longo enquanto a vida que lhe resta fica presumivelmente mais curta. E assim, nessa toada soprada pelo próprio artista, Miguel Faria Jr. fez filme preciso, para todos, percorrendo no tempo imaginativo das memórias as estradas por onde vai, há mais de 50 anos, o bem-humorado artista brasileiro, soberano na arte da composição.

Ronaldo disse...

Caro Mauro, se não me engano, Biscate é de 1993, do álbum Paratodos. Excelente resenha.

Mauro Ferreira disse...

Claro, Ronaldo. Grato pelo toque do erro de digitação. Abs, MauroF

ADEMAR AMANCIO disse...

Na minha cidade e região a bossa nova não chegou.

Rodrigo disse...

Belo texto, Mauro!

Bernardo Barroso Neto disse...

Ótimo saber que Chico saiu da toca, louco para ver esse documentário. O filme Vinicius foi muito bom e acredito que esse também tenha ficado.

Clayton Moreira disse...

Chico Buarque deveria se pronunciar apenas sobre o que entende: música.

Eduardo disse...

Duvido que o filme seja melhor que essa resenha!

Grande texto, como sempre. Abraços.

Victor Moraes, disse...

Afinal: Se Roberto é Rei, Chico é Deus!

O "Vinicius" foi muito, muito bom! Não será diferente com o do Chico. Chico é um mito, e precisa mesmo aparecer em projetos assim pra registrar essa importantíssima memória da nossa arte que é a vasta, rica, bem feita e generosa (as vezes até demais)!

p.s.: Eu só queria saber porque esse ano os cinemas não sabem a data de estréia de absolutamente NADA, e quando marcam uma data, estreiam antes.