sábado, 5 de setembro de 2015

Eis capa e faixas de '1985', disco de André Whoong bancado pela parceira Tiê

Primeiro álbum do cantor, compositor e multi-instrumentista paulistano André Whoong, 1985 vai ser lançado neste mês de setembro de 2015 pelo selo indie Rosa Flamingo. Precedido pelo single Vou parar de beber, parceria de Whoong com Cauê Benetti gravada com a adesão vocal do cantor Leo Cavalcanti e já lançada na web, o álbum 1985 foi batizado com o ano do nascimento do artista, que veio ao mundo há 30 anos. A produção é assinada pelo próprio Whoong com Fabio Pinczowski. Já a produção executiva é da cantora e compositora paulistana Tiê, que bancou o disco do amigo e parceiro em várias músicas de seu terceiro álbum Esmeraldas (Warner Music, 2014). Eis, na ordem do álbum, as 12 músicas que compõem o repertório essencialmente autoral de 1985:

1. Vila Ipojuca
2. Parece
3. Vou parar de beber
4. Coisas
5. Acho que só você
6. Botas
7. Amigos
8. Deixa pra lá
9. Cicatriz
10. Ócio criativo
11. Pensei bem
12. Vim aqui

Single 'Desculpe aí' precede o quinto disco do cantor Pablo, 'a voz romântica'

Desculpe aí é o novo single de Pablo, nome artístico de Agenor Apolinário dos Santos Neto, cantor baiano nascido em Candeias (BA) há 30 anos e autointitulado "a voz romântica" desde que saiu em carreira solo em 2010. Lançado nas plataformas digitais ontem, 4 de setembro de 2015, o single Desculpe aí segue a linha popular romântica do cancioneiro deste artista associado ao gênero musical rotulado como arrocha. Já tocada em programas de TV, música precede a edição do quinto álbum de Pablo.  O disco vai ser lançado pela gravadora Som Livre neste segundo semestre de 2015.

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Álbum de estreia da banda Maskavo sai em vinil 20 anos após edição original

Gravado em 1994 e lançado em 1995 pela gravadora Banguela Records, com distribuição da Warner Music e com produção assinada por Carlos Eduardo Miranda e Nando Reis, Maskavo Roots - álbum de estreia da homônima banda de Brasília (DF) que mistura reggae e ska com pop rock - não chega a ser um clássico da discografia do pop brasileiro. Mas é um bom retrato da mistura que deu o tom do rock nacional dos anos 1990. O que justifica seu relançamento - no formato de vinil - vinte anos após a edição original do álbum. Maskavo Roots ganha neste ano de 2015 edição em vinil viabilizada por parceria firmada entre o selo Assustado Discos, do Recife (PE), a loja Dom Pedro Discos, de Brasília (DF). Limitada, a tiragem é de apena 500 cópias. Maskavo Roots foi o único lançada pela banda com seu nome original. A partir do segundo álbum, Melodia que eu conheço (Independente,  2007), o grupo perdeu integrantes e passou a se chamar apenas Maskavo.

Marx põe em EP versão de música de Stevie que gravou com Xuxa em 1986

Como integrante do grupo infantil Trem da Alegria, a cantora paulistana Patricia Marx gravou com Xuxa Miragem viagem, versão em português - escrita por Ronaldo Bastos - de Black orchid (Stevie Wonder e Yvonne Wright, 1979), música lançada pelo cantor e compositor norte-americano Stevie Wonder há 36 anos. Música que encerrava o LP Xou da Xuxa (Som Livre, 1986), Miragem viagem ganha novamente a voz de Marx (em foto de Jair de Assis). Miragem viagem é uma das cinco músicas do EP que Marx pretende gravar neste segundo semestre de 2015. Para viabilizar a gravação e a edição do EP,  Marx faz campanha de financiamento coletivo na plataforma Kickante.

Jussara lança o álbum em que dá voz a dez parcerias de Guedes com Bastos

Parceria de Beto Guedes e Ronaldo Bastos com Ricardo Milo, O amor não precisa razão - música lançada há 31 anos na abertura de Viagem das mãos (EMI-Odeon, 1984), LP de Guedes - é o primeiro single do álbum (capa à esquerda) em que a cantora mineira (de criação baiana) Jussara Silveira dá voz a dez parcerias do cantor e compositor mineiro Beto Guedes com o poeta e compositor fluminense Ronaldo Bastos, lançadas entre 1977 e 1984. O single O amor não precisa razão está sendo lançado hoje, 4 de setembro de 2015, nas plataformas digitais, simultaneamente com o início da pré-venda do álbum no iTunes. O título do álbum - Pedras que rolam, objetos luminosos - faz alusão a duas músicas da parceria, Pedras rolando (1979) e Objetos luminosos (1986), música assinada por Guedes e Bastos com Milton Nascimento e lançada nas vozes de Guedes e Zizi Possi no álbum Alma de borracha (EMI-Odeon, 1986), de Guedes. Mas Objetos luminosos curiosamente não entrou no repertório do disco, anunciado desde 2014. Eis - na ordem do álbum que chega ao mercado fonográfico a partir de 11 de setembro em edição da gravadora Dubas, inclusive no formato de CD - as dez parcerias de Beto Guedes com Ronaldo Bastos que  ganham a voz  cristalina de Jussara Silveira no álbum  Pedras que rolam,  objetos luminosos:

1. Pedras rolando (Beto Guedes e Ronaldo Bastos, 1979)
2. O amor não precisa razão (Beto Guedes, Ronaldo Bastos e Ricardo Milo, 1984)
3. Rio doce (Beto Guedes, Tavinho Moura e Ronaldo Bastos, 1981)
4. Amor de índio (Beto Guedes e Ronaldo Bastos, 1978)
5. Lumiar (Beto Guedes e Ronaldo Bastos, 1977)
6. A página do relâmpago elétrico (Beto Guedes e Ronaldo Bastos, 1977)
7. Tanto (Beto Guedes e Ronaldo Bastos, 1977)
8. Choveu (Beto Guedes e Ronaldo Bastos, 1977)
9. Sol de primavera (Beto Guedes e Ronaldo Bastos, 1979)
10. O sal da terra (Beto Guedes e Ronaldo Bastos, 1981)

'De onde você vem?' anuncia solo de Flanders, 'Uma temporada fora de mim'

Vocalista e principal compositor da banda mato-grossense Vanguart, Hélio Flanders vai lançar seu primeiro álbum solo, Uma temporada fora de mim, neste mês de setembro de 2015 em edição da gravadora Deck. Gravado no estúdio carioca Tambor, com produção assinada pelo próprio Flanders com o maestro Arthur de Faria, o disco está sendo anunciado com o lançamento do clipe da música De onde você vem? - dirigido por Ricardo Spencer e já em rotação no YouTube desde ontem. De onde você vem? é música de autoria de Flanders, que assina todas as nove composições de seu CD solo, criadas pelo artista com inspiração na passionalidade do tango e das canções melodramáticas. 

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

BNegão 'bate tambor' em álbum que age (mais) forte fora do tom messiânico

Resenha de CD
Título: TransmutAção
Artista: BNegão & Seletores de Frequência
Gravadora: Edição independente do artista
Cotação: * * *

♪ A partir de amanhã, 4 de setembro de 2015, quem sintonizar lá - nas plataformas digitais - o terceiro álbum de BNegão & Seletores de Frequência vai captar a mensagem de TransmutAção. Sim, o disco - cuja edição física em CD está prevista para ser lançada ainda neste mês de setembro - dá um recado místico aos ouvintes. O rapper carioca e seu grupo pós-Planet Hemp nunca soaram tão messiânicos. "...Seja você a mudança", propõe BNegão em Nós (Ponto de mutação) (música de Fabio Kalunga, Fabiano Moreno, Pedro Selector e Robson Riva com letra de BNegão), dub que encerra o disco com versos que falam em "mestres da mutação" e "jardim da sabedoria". Não é só: "Dias luminosos virão", sentencia BNegão, encarnando mais uma vez o messias, em Dias da serpente (música de Pedro Selector com letra de Bnegão), dub que corrobora o tom místico de parte do disco produzido pelo próprio BNegão com recursos financeiros obtidos no edital do projeto Natura musical. Rap que gira na roda da ciranda, com tambores que evocam a Mãe África, No ar (Convocação) (música de BNegão, Maga Bo e Pedro Selector com letra de BNegão) corrobora o tom messiânico deste álbum que, inevitavelmente, remete por vezes aos discos gravados pelo cantor e compositor carioca Tim Maia (1942 - 1998) na sua fase Racional, entre 1974 e 1975, anos em que o então futuro Síndico virou adepto da seita Universo em Desencanto. No caso de Tim, a pregação foi feita em ritmo de funk. BNegão não nega a raça, o funk e o soul, mas recorre também à percussão de matriz africana. Com repertório menos inspirado do que os cancioneiros dos dois álbuns anteriores do grupo, Enxugando gelo (OutraCoisa, 2003) e Sintoniza lá (Coqueiro Verde Records, 2012), TransmutAção adiciona tambores ao groove black de BNegão & Seletores de Frequência. Composições de inspiração afro-brasileira como Agô (domínio público) - a saudação em Iorubá que abre o disco com a voz e a percussão de Alexandre Garnizé - e o instrumental Um tema para Iemanjá (Pedro Selector) sinalizam a presença maior dos atabaques no som de BNegão & Seletores de Frequência. Felizmente, o grupo bate tambor sem esquecer o balanço do funk e do soul dos anos 1960 e 1970 que o rapper e seus músicos tão bem souberam trazer para os dias de hoje com o uso da batida do rap. Para quem sintonizou com prazer o som do álbum anterior do grupo, No momento (100%) (música de Fabiano Moreno, Pedro Selector, Robson Riva e Nobru Pederneiras com letra de BNegão) é o melhor exemplo da habilidade da turma para reprocessar o suingue Black Rio dos anos 1970 com toque contemporâneo. Contudo, o coquetel rítmico de TransmutAção tem sabor mais diversificado e extrapola o universo Black Rio. Se o tema instrumental Surfin' astatke (Pedro Selector) pega a onda retrô do surf rock, No amanhecer (música de Pedro Selector com letra de BNegão) cai no samba à moda carioca, abrindo alas para a subversão de Fita amarela (1933), um dos sambas mais conhecidos da lavra nobre do compositor carioca Noel Rosa (1910 - 1937). BNegão & Seletores de Frequência preparam o velório em clima de gafieira, em gravação de longas passagens instrumentais - o canto é ouvido somente quando a faixa já contabiliza dois minutos - feita com inspiração no arranjo do registro original do samba, lançado pelos cantores cariocas Francisco Alves (1898 - 1952) e Mário Reis (1907 - 1981) em gravação feita em 1932 com a orquestra da gravadora Odeon e editada em disco no ano seguinte. O grupo dá um baile com sua releitura. Com tudo, músicas menos sedutoras como Giratória (Sua direção) (música de Pedro Selector e BNegão com letra de BNegão) deixam o repertório do álbum TransmutAção roçar perigosamente a irregularidade. Em contrapartida, Mundo tela (BNegão) afia o discurso, direcionado às pessoas que vivem a vida presas às telas de celulares, computadores e televisores. Quando põe sua raiva para fora e prega seus valores sem tom messiânico, BNegão age com mais força no universo pop, podendo - quem sabe?! - provocar a mudança que, acredita, virá.

Quarto disco de Roberta Campos abriga parceria com Takai e voz de Camelo

Roberta Campos vai lançar seu quarto álbum, Todo caminho é sorte, em outubro de 2015. Com 10 músicas inéditas da lavra autoral da cantora e compositora mineira, o disco chega ao mercado em edição da gravadora Deck. O sucessor de Diário de um dia (Deck, 2012) traz a participação do cantor e compositor carioca Marcelo Camelo. O hermano pôs voz em Amiúde, música gravada com o piano de Marcelo Jeneci. Amapaense de criação mineira, Fernanda Takai é parceira de Roberta na faixa Abrigo. Já a música Ensaio de amor  é o primeiro single do álbum Todo caminho é sorte.

'Derivacivilização', segundo CD de Ian Ramil, tem Catto e dez faixas autorais

Filho do cultuado Vitor Ramil, o cantor e compositor gaúcho Ian Ramil gravou seu segundo álbum, Derivacivilização, em janeiro deste ano de 2015. Mas busca financiamento coletivo na plataforma Catarse para viabilizar a edição física do disco, gravado em Pelotas (RS) - em estúdio improvisado no quarto da casa onde o artista viveu sua infância e adolescência - com banda formada por Felipe Zancanaro (guitarra), Guilherme Ceron (baixo) Martin Estevez (bateria) e Pedro Dom (piano e clarinete). Ian - em foto de Tuane Eggers - assina com Ceron a produção do disco, finalizado com as gravações adicionais dos convidados de algumas das dez faixas. Sucessor do ótimo Ian (Escápula Records, 2014), álbum gravado em 2012 e lançado em 2014, Derivacivilização alinha - em dez músicas autorais, compostas entre 2012 e 2014 - participações de artistas de origem gaúcha como Alexandre Kumpinski (vocalista da banda porto-alegrense Apanhador Só), o cantor Filipe Catto e Gutcha Ramil. Pela ordem do disco, mixado por Moogie Canazio e masterizado por André Dias, as dez músicas do álbum são Coquetel molotov, Derivacivilização, Salvo-conduto, Corpo vazio, Devagarinho, Artigo 5°, A voz da indústria, Quiproquó, Rita-Cassete (a re par ti ção) e Não vou ser chão pros teus pés. Todas as dez músicas são de Ian, sendo seis compostas solitariamente e quatro assinadas com os parceiros Daniel Mã, Guilherme Ceron, Leo Aprato e Poty Burch. Precedido pelo duplo single digital que adianta as músicas Coquetel molotov e Devagarinho, já em rotação no portal SoundCloud, o álbum Derivacivilização vai ser lançado de forma independente via Escápula Records. Clique aqui se quiser contribuir com o custo da edição física em CD de Derivacivilização.

Kessous lança single sobre cantada gay gravado com Ney e feito com Chico

Monique Kessous apresenta mais uma música de seu quarto álbum, Dentro de mim cabe o mundo, o terceiro de repertório autoral. Mais de um ano após lançar na web Volte para mim (Monique Kessous e Denny Kessous), balada pop de grande potencial radiofônico, a cantora e compositora carioca apresenta Meu papo é reto, single que entrou hoje, 3 de setembro de 2015, em rotação no Spotify. Primeira parceria de Kessous com o compositor paraibano Chico César, Meu papo é reto foi a última música a ser gravada para o disco produzido por Berna Ceppas. Música que versa sobre uma cantada entre dois homens gays, passada na porta de uma boate, Meu papo é reto foi gravada com a participação realmente especial do cantor Ney Matogrosso. Com a gravação, a artista - vista em foto de Yuri Sardenberg postada em sua página oficial no Facebook - afasta o fantasma da comparação com Marisa Monte que vem rondando sua carreira desde o álbum anterior, Monique Kessous (Sony Music, 2010), por conta de equivocada estratégia de marketing da gravadora Sony Music. Gravado com músicos como Alberto Continentino e Domenico Lancellotti, Dentro de mim cabe o mundo segue a linha essencialmente autoral de seu antecessor e traz no repertório (geralmente composto por Monique com seu irmão Denny Kessous) o samba Acorde - gravado com coro formado pelas cantoras Ana Claudia Lomelino, Anna Ratto, Lia Sabugosa, Nina Becker e Silvia Machete - e Espiral, música gravada com o piano de Daniel Jobim e com a harpa de Cristina Braga.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Catto acende a chama das paixões fugazes na voltagem branda de 'Tomada'

Resenha de CD
Título: Tomada
Artista: Filipe Catto
Gravadora: Agência de Música / Radar Records
Cotação: * * *

Filipe Catto é cantor que arde na fogueira das paixões. O EP Saga (Independente, 2011) revelou intérprete de fôlego, de voz potente e canto quente. O talento vocal do artista gaúcho - radicado na cidade de São Paulo (SP) - foi confirmado por seu primeiro álbum, Fôlego (Universal Music, 2011). Após titubeante registro ao vivo de show (originalmente primoroso) em que o cantor flertou perigosamente com o brega por interferência dos chefões de sua ex-gravadora, Entre cabelos, olhos e furacões (Universal Music, 2013), Catto retoma as rédeas da carreira, volta para o trilho independente e reaparece neste mês de setembro de 2015 com seu segundo álbum, Tomada, produzido por Alexandre Kassin sob a direção artística de Ricky Scaff e do próprio Catto.  Disponível nas plataformas digitais a partir de 8 de setembro, mas já com o single Dias & noites (Filipe Catto) na web e no portal do projeto Natura musical, Tomada é disco menos inflamado do que Fôlego. Catto dosa a temperatura de seu canto (ainda) quente e acende em voltagem branda a chama das paixões fugazes, assunto do já citado single Dias & noites, música da lavra solitária do artista - melhor cantor do que compositor - que versa sobre amor e sexo em madrugadas que são armadilhas. O toque da guitarra tutti frutti de Luiz Carlini contribui decisivamente para manter a pressão deste rock que se conecta, pelo tom contemporâneo, com Partiu, composição tecnicamente inédita de Marina Lima, já que o registro feito pela cantora com Adriano Cintra em 2013 - ano em que a artista começou a cantar Partiu em shows - nunca chegou a ser lançado em disco. O registro de Catto conta com o violão de Marina e a guitarra de Carlini em outra incursão do cantor pelo universo do rock. Inspirada parceria de Catto com Moska, Depois de amanhã propõe reflexão sobre a perenidade de amor de tempo já ido, vivido na era da alta rotatividade das camas naufragadas. A canção ganha pegada pop no toque da banda - Danilo Andrade (teclados), Domenico Lancellotti (bateria e percussão), Kassin (baixo) e Pedro Sá (guitarra) - arregimentada para tocar nas 11 faixas do disco. "A morte é a esquina onde o amor termina", sentencia o escritor angolano José Eduardo Agualusa em verso de Auriflama, poema musicado pela cantora e compositora carioca Thalma de Freitas. Tomada é disco em que o ponto de fervura por vezes está mais nos versos das músicas sobre amores carnais do que na voz de Catto, mais andrógina do que no álbum Fôlego. Musicalmente, o toque nortista da guitarra de Felipe Cordeiro dá o tom de Auriflama. Embora tenha solicitado os serviços de Kassin, requisitado produtor carioca que tem diversificado seu leque de atuação nos estúdios diante de tamanha procura, Catto jamais se aproxima da estética cool. Tanto que, embora soe menos ardente em Tomada, o intérprete por vezes ainda peca pelo excesso. Joia romântica que batizou o segundo álbum do cantor e compositor pernambucano Zé Manoel, Canção & silêncio tem parte de sua beleza diluída no registro de Catto por conta do arranjo expansivo, pontuado por vocais proeminentes. A canção pede mais introspecção, mais silêncios. Balada do repertório da banda carioca Gang 90, Do fundo do coração (Taciana Barros e Júlio Barroso, 1985) faz sentido no repertório de disco que versa sobre noites princesas e secretas solidões remoídas na ressaca do amor e do sexo fugazes. Contudo, a participação de Ava Rocha na faixa peca pela injustificável discrição. Catto e Kassin não aproveitaram todo o potencial interpretativo dessa cantora carioca de presença forte e estranha. Canção de amor gay composta por Caetano Veloso com inspiração em Ilusão à toa (Johnny Alf, 1961), Amor mais que discreto (2007) se confirma menor - do ponto de vista melódico - dentro do grandioso cancioneiro do compositor baiano, mesmo que Catto experimente acertado tom de delicadeza a dar voz a essa canção lançada discretamente por Caetano em registro ao vivo de show. Já o rock Um milhão de novas palavras - parceria dos compositores emergentes César Lacerda e Fernando Temporão - é o ponto mais alto do disco. É rock cheio de atitude política que ecoa a poética incisiva de Cazuza (1958 - 1990) e que se impõe como porta-voz da crise que põe o Brasil na contramão da fé. Catto valoriza cada palavra da letra com sua interpretação enérgica. Na sequência, Íris & arco (Tiganá Santana, Thalma de Freitas e Gui Held) repõe o toque da guitarra do paraense Felipe Cordeiro em Tomada, mas o acento contemporâneo da gravação abafa qualquer tom regionalista. Os versos poéticos do tema sobressaem no registro. Faixa ambientada em atmosfera roqueira, Pra você me ouvir (Filipe Catto) retoma o tema central do disco - incertas de uma noite qualquer que terminam em quatro paredes delinquentes - com vocais (de Catto e Gabriela Riley) na pressão. Outro ponto alto do disco, Adorador - primeira parceria de Catto com o compositor carioca Pedro Luís - eleva novamente a voltagem de Tomada, deixando entrever a alma popular do cantor no arranjo que evoca clima de cabaré no toque do trombone de Marlon Sette e das guitarras de Manoel Cordeiro e de Felipe Cordeiro. Enfim, entre erros e acertos, o álbum representa salutar tomada de posição de Filipe Catto, que afasta o então rondante fantasma do brega e retoma o controle de sua discografia, ardendo com menor intensidade na fogueiras das paixões, mas ainda soando quente o suficiente para manter aceso o público que tem adoração por este ótimo cantor de tom inflamado.

Edição de 30 anos do álbum 'Legião Urbana' vai ser dupla e terá pérolas raras

Em comunicado expedido na tarde de hoje, 2 de setembro de 2015, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá revelaram que a edição comemorativa dos 30 anos do primeiro álbum da banda Legião Urbana é dupla e vai apresentar gravações raras. No mercado fonográfico no último trimestre de 2015, em edição do selo EMI distribuída pela gravadora Universal, a edição dupla vai trazer no disco 1 a edição remasterizada do álbum original de 1985. No disco 2, o álbum Legião Urbana - 30 anos vai apresentar registros até então guardados nos arquivos da gravadora EMI-Odeon. Entre estes fonogramas raros, há as gravações das três músicas registradas pela Legião Urbana em 1983, quando o grupo ainda era um trio e Renato Russo (1960 - 1996) acumulava as funções de vocalista e baixista da banda. No comunicado, Dado e Bonfá ressaltam que a turnê nacional a ser feita a partir de outubro - com o cantor paulista André Frasteschi no posto de vocalista da banda - tem o objetivo de promover a edição comemorativa das três décadas do disco e que não se trata de uma volta da Legião Urbana. O roteiro do show inclui o repertório integral do álbum Legião Urbana. Eis as palavras oficiais de Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá sobre o projeto  Legião Urbana - 30 anos:

"Em 2014, enquanto atravessávamos o difícil processo judicial pelos nossos direitos sobre o nome da banda, acabamos achando - em comunicados como este - uma ferramenta clara de nos comunicar de forma direta com a imprensa e, principalmente, com os fãs da Legião Urbana. 

Nesses comunicados dizíamos que, enquanto esse problema não fosse resolvido, não haveria nenhum lançamento da banda. Foi assim que, depois de termos nossos direitos reconhecidos pela justiça, recebemos da EMI - hoje parte da Universal Music - a proposta de lançar uma edição especial do nosso primeiro disco, também chamado de Legião Urbana e originalmente lançado em 1985. 

Surgia então o projeto Legião Urbana - 30 anos. Edição especial que, além de trazer o disco original remasterizado, vai trazer um outro disco contendo algumas pérolas e raridades cuidadosamente guardadas nos cofres da gravadora. Entre elas estão, por exemplo, as três músicas que a EMI nos convidou para gravar no Rio de Janeiro em 1983, quando éramos um trio de rapazes vindo de Brasília - ainda com o Renato tocando baixo e cantando! Este lançamento da EMI / Universal está previsto para o final de 2015.

O processo de mexer com todas essas fitas, de ver aquelas fotos, de ler aqueles textos e, principalmente, de ouvir aquelas primeiras versões das nossas músicas, foi realmente emocionante. Tanto que acabou despertando a vontade de estarmos juntos tocando de novo. 

Dessa vontade surgia uma segunda ideia: a de chamar alguns amigos e montar um show para tocar o nosso primeiro disco na íntegra. Mas, para evitar erros ou mal-entendidos, sentimos a necessidade de deixar bem claro que não existe possibilidade alguma de “volta” da Legião Urbana. Como já dissemos inúmeras vezes, a Legião - como banda - acabou junto com a morte do Renato, em 1996. E ninguém pode substituir o Renato. Único e insubstituível.

Esse encontro onde vamos comemorar os 30 anos do nosso primeiro disco - tocando ele na íntegra - vai levar o nome do próprio disco, e será divulgado da seguinte forma: 

Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá
em
Legião Urbana – 30 anos
Como o Renato sempre dizia nos nossos shows: "A gente está aqui no palco, mas a verdadeira Legião Urbana são vocês”. Só que, desta vez, alguns de vocês vão estar no palco junto conosco!"

URBANA LEGIO OMNIA VINCIT

Guinga abarca obras de Caymmi, Gonzaga e Tom no disco 'Porto da Madama'

Música lançada em 1957 pelo cantor e compositor baiano Dorival Caymmi (1914 - 2008), Cantiga da noiva - também conhecida como Canção da noiva - ganha arranjo de Guinga e o toque virtuoso do violão deste cantor, compositor e músico carioca em gravação feita para o álbum Porto da Madama com a voz da cantora portuguesa Maria João. Sucessor de Roendopinho (Acoustic Music Records / Rough Trade, 2014) na discografia de Guinga, Porto da Madama chega ao mercado fonográfico nesta primeira semana de setembro de 2015 em edição do Selo Sesc, unindo o violão do artista às vozes de quatro cantoras de nacionalidades distintas. Além da portuguesa Maria João, o disco - feito no Rio de Janeiro (RJ) no início deste ano de 2015 - alinha músicas gravadas com as vozes da norte-americana Esperanza Spalding, da italiana Maria Pia de Vito e da brasileira Mônica Salmaso. Além de rebobinar temas do cancioneiro de Guinga, como Cine Baronesa (Guinga e Aldir Blanc, 2001) e Passarinhadeira (Guinga e Paulo César Pinheiro, 1993), Porto da Madama abarca no repertório abordagens de obras de outros compositores, como Antonio Carlos Jobim (1927 - 1994), Luiz Gonzaga (1912 - 1989) e Vinicius de Moraes (1913 - 1980). De Tom, Guinga toca Lígia (1974) com a voz de Esperanza Spalding. Do Rei do baião, a escolhida foi a valsa Dúvida (Luiz Gonzaga e Domingos Ramos, 1946), ouvida na voz de Mônica Salmaso em Porto da Madama. De Vinicius, o disco revive Serenata do adeus (1958) na voz de Esperanza Spalding. Neste álbum de vozes e violão, Guinga geralmente assina os arranjos e toca o violão, mas o cantor também solta a voz em Cine Baronesa, em Passarinhadeira e em Caprichos do destino (Pedro Caetano e Claudionor Cruz), valsa lançada em 1938 na voz icônica do cantor carioca Orlando Silva (1915 - 1978).  Eis, na ordem do CD, as 13 músicas (e suas respectivas intérpretes) de Porto da Madama:

1. Cine Baronesa (Guinga e Aldir Blanc, 2001) - com Maria João
2. Lígia (Antonio Carlos Jobim, 1974) - com Esperanza Spalding
3. Boa noite, amor (José Maria de Abreu e Francisco Matoso, 1936) - com Maria Pia de Vito
4. Se queres saber (Peter Pan, 1947) - com Mônica Salmaso
5. Passarinhadeira (Guinga e Paulo César Pinheiro, 1993) - com Maria João
6. Caprichos do destino (Pedro Caetano e Claudionor Cruz, 1938) - com Maria Pia de Vito
7. Ilusão real (Guinga e Zé Miguel Wisnik, 2011) - com Mônica Salmaso
8. Contenda (Guinga e Thiago Amud, 2007) - com Maria João
9. Noturna (Guinga e Paulo César Pinheiro, 1987) - com Maria Pia de Vito
10. Porto da Madama (Guinga, 2009) - com Mônica Salmaso
11. Canção da noiva (Dorival Caymmi, 1957) - com Maria João
12. Serenata do adeus (Vinicius de Moraes, 1958) - com Esperanza Spalding
13. Dúvida (Luiz Gonzaga e Domingos Ramos, 1946) - com Mônica Salmaso

Naná, Baleiro e Lepetit servem 'Café no bule' com 'Caju' em CD do Selo Sesc

No fim da década de 1990, o compositor e percussionista pernambucano Naná Vasconcelos firmou parceria com o cantor e compositor amazonense Vinicius Cantuária, criando músicas registradas em álbum de Naná, Contaminação (M. Officer, 1999). Uma dessas músicas, Caju, foi reprocessada por Naná para Café no bule, disco que o percussionista gravou ao longo dos últimos dois anos como o cantor e compositor maranhense Zeca Baleiro e com o músico e compositor paulista Paulo Lepeti. Servido a partir desta primeira semana de setembro de 2015, em edição produzida pela Elo Music e distribuída através do Selo Sesc, Café no bule alinha 13 músicas. Com exceção de Caju, lançada em disco há 16 anos, todas são inéditas. O trio assina 11 das 13 composições, sendo que Eu vim foi é a única música criada por Baleiro e Petit sem a participação de Naná. De todo modo, Naná (percussão, efeitos, voz evocais), Baleiro (violão, guitarra, cavaco, ukelele, teclados, voz e vocais) e Lepetit (baixo, u-bass, violão, guitarra, teclados, voz e vocais) uniram forças, vocais e instrumentos na gravação das 13 músicas do repertório autoral que inclui a Ciranda da meia-noite, o Xote do Tarzan e o ijexá A dama do Chama-Maré. Projeto antigo, Café no bule seria servido originalmente com o aroma da música do cantor e compositor paulista Itamar Assumpção (1949 - 2003), mas, com a saída de cena do Beleléu, Petit - que já estava por perto durante a idealização do disco por tocar na banda de Itamar - completou o trio. E o repertório foi sendo criado pelos três artistas - vistos em ilustração baseada em fotos de Mathieu Rougé - sem fórmulas prontas, como conta Baleiro em texto sobre o projeto: “Há casos em que Naná gravou primeiro a levada e eu e Lepetit desenvolvemos a letra, a melodia e a harmonia conjuntamente depois, como é o caso das faixas Ciranda da meia-noite, Batuque na panela e Xote do Tarzan. Outras nasceram de groove de baixo e violão, seguido pela letra e a levada rítmica, como em Yellow taxi e Vou de candonga. Em A dama do Chama-Maré e A maré tá boa, Naná começou a letra e nos deu para musicar, fazer a segunda parte, e depois ele pôs a percussão. Fiz a letra e mandei para o Lepetit, que harmonizou”, revela Baleiro.  Eis, na ordem do CD, as 13 músicas que compõem o sabor rítmico de Café no bule:

1. Ciranda da meia-noite (Naná Vasconcelos, Paulo Lepetit e Zeca Baleiro)
2. Batuque na panela (Naná Vasconcelos, Paulo Lepetit e Zeca Baleiro)
3. A dama do Chama-Maré (Naná Vasconcelos, Paulo Lepetit e Zeca Baleiro)
4. Tem café no bule (Naná Vasconcelos, Paulo Lepetit e Zeca Baleiro)
5. Caju (Naná Vasconcelos e Vinicius Cantuária, 1999)
6. Yellow taxi (Naná Vasconcelos, Paulo Lepetit e Zeca Baleiro)
7. Mosca de bolo (Naná Vasconcelos, Paulo Lepetit e Zeca Baleiro)
8. Eu vim foi (Paulo Lepetit e Zeca Baleiro)
9. A maré tá boa (Naná Vasconcelos, Paulo Lepetit e Zeca Baleiro)
10. Vou de candonga (Naná Vasconcelos, Paulo Lepetit e Zeca Baleiro)
11. Xote do Tarzan (Naná Vasconcelos, Paulo Lepetit e Zeca Baleiro)
12. Bonne chance (Naná Vasconcelos, Paulo Lepetit e Zeca Baleiro)
13. Loa (Naná Vasconcelos, Paulo Lepetit e Zeca Baleiro)

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Eis capa e faixas de 'Delírio', CD em que Roberta vai de Ataulfo a Tom Veloso

♪ Com capa criada por Cássia D'Elia a partir de foto de Daryan Dornelles, o sexto álbum oficial de Roberta Sá, Delírio, chega ao mercado fonográfico no início de outubro de 2015, em edição da MP,B Discos distribuída em escala nacional pela gravadora Som Livre. A capa - revelada hoje com exclusividade por Notas Musicais - tem direção de arte assinada pela própria Roberta Sá. Já o disco traz onze músicas no repertório. Oito são inéditas. Integrante do grupo carioca Tono, o compositor e músico carioca Rafael Rocha assina a música-título Delírio, já alvo de clipe gravado pela cantora no Rio de Janeiro (RJ). O compositor e violonista baiano Cezar Mendes é o nome mais recorrente no repertório, assinando três das 11 músicas de Delírio em parcerias com Arnaldo Antunes, José Carlos Capinam e Tom Veloso (filho de Caetano Veloso). O disco em que Roberta Sá canta de Ataulfo Alves (1909 - 1969) a Tom Veloso - passando por Baden Powell (1937 - 2000), Martinho da Vila e Adriana Calcanhotto - foi produzido por Rodrigo Campello sob a direção artística da cantora e compositora potiguar radicada no Rio de Janeiro (RJ). João Mário Linhares assina a direção de produção do disco.  Eis, na ordem do álbum, as onze músicas gravadas por Roberta Sá em  Delírio:

1. Meu novo Ilê (Quito Ribeiro e Moreno Veloso, 2015)
2. Me erra (Adriana Calcanhotto, 2015)
3. Um só lugar (Cézar Mendes e Tom Veloso, 2015)
4. Não posso esconder o que o amor me faz (Cézar Mendes e José Carlos Capinam, 2015)
5. Delírio (Rafael Rocha, 2015)
6. Se for para mentir (Cézar Mendes e Arnaldo Antunes, 2011) - com Chico Buarque
7. Amanhã é sábado (Martinho da Vila, 2015) - com Martinho da Vila
8. Feito Carnaval (Rodrigo Maranhão, 2015)
9. Última forma (Baden Powell e Paulo César Pinheiro, 1972)
10. Covardia (Ataulfo Alves e Mário Lago, 1938) - com António Zambujo (faixa gravada em Lisboa)
11. Boca em boca (Roberta Sá e Xande de Pilares, 2015) - com Xande de Pilares (no banjo)

Aposta da Som Livre no funk pop, Lexa revela capa e músicas de seu álbum

Aposta da gravadora Som Livre no aquecido mercado de funk pop, Lexa - nome artístico da cantora e compositora carioca Léa Araújo, de 20 anos - já está em cena para disputar fãs com Anitta e com Ludmilla, cantoras concorrentes do elenco da Warner Music, e se prepara para lançar seu primeiro álbum neste segundo semestre de 2015. Intitulado Disponível, o disco vai chegar ao mercado com doses bem calculadas de marketing. Descoberta no YouTube pelo DJ Batutinha, produtor do disco e parceiro de Lexa em boa parte das composições, a artista - devidamente repaginada pela empresa K2L - divulgou a capa do disco (foto), o título do CD e os nomes das 13 músicas do álbum. Pelos títulos das músicas, já é possível perceber que Lexa vai adotar a mesma atitude altiva de Anitta. Baladeira - música que encerra o álbum - já é conhecida, pois já foi previamente divulgada na web. Eis, na ordem do CD, os nomes das 13 músicas do disco Disponível:

1. Posso ser
2. Para de marra
3. Disponível
4. Deleta
5. Mensagem
6. Tudo certo (Maravilha)
7. Pior que sinto falta
8. Boy chiclete
9. Fogo na saia
10. Última moda
11. Bem resolvida
12. Sou mais eu
13. Baladeira

Trilha de Hareton Salvanini (e Beto Ruschel) para filme de 1974 ecoa em vinil

Compositor, pianista, arranjador e maestro paulista, Hareton Salvanini (1945 - 2006) fez seu nome como criador de trilhas sonoras de filmes e jingles. Salvanini foi cultuado em seleto universo musical pela maestria de seus arranjos e pelo raro talento de musicista, capaz de fundir linguagens do jazz e da música erudita em sua discografia autoral. É a esse público qualificado - conhecedor do talento de Salvanini - que se destina a reedição do álbum com a trilha sonora de A virgem de Saint Tropez (Awakening of Annie) - filme franco-brasileiro de 1973 dirigido pelo polonês Zygmunt Sulistrowski - na série Clássicos em vinil, da PolySom. O disco foi lançado originalmente em 1974 com os temas instrumentais criados por Salvanini - em parceria com Beto Ruschel - para a trilha do filme. Com elaborados arranjos e regências de Salvanini, o disco apresentou somente uma música com letra no repertório,  Annie (You can’t run away from your destiny),  gravada por Edu França.

Lacerda evolui como compositor em CD em que timbres absolvem voz fraca

Resenha de CD
Título: Paralelos & infinitos
Artista: César Lacerda
Gravadora: Joia Moderna
Cotação: * * *

O título do primeiro álbum de César Lacerda, Porquê da voz (Independente, 2013), pareceu justificar o pálido canto do artista diante de safra autoral de composições que trilhavam caminhos harmônicos inusitados. Embora avalizado por nomes como Lenine, que participava da música A dois (César Lacerda), o disco não aconteceu, mas deu crescente projeção na cena indie do eixo Rio-São Paulo a este cantor, compositor e músico mineiro então radicado no Rio de Janeiro (RJ). Segundo álbum do artista, que acaba de migrar para São Paulo (SP), Paralelos & infinitos atesta a nítida evolução do compositor. Lacerda cresce nessa seara - e o fato de estar sendo gravado neste ano de 2015 por cantores como Duda Brack e Filipe Catto não é mero acaso. A questão é que a opacidade vocal do cantor embaça o brilho emergente do compositor. Mesmo assim, por trás da voz fraca, Paralelos & infinitos revela a força de um repertório autoral que começa a enveredar por trilho mais pop - como já sinalizara o primeiro single do álbum, Algo a dois (César Lacerda) - sem jamais flertar com a banalidade radiofônica. Com contracapa que expõe as músicas em ordem que não corresponde ao que é ouvido (das faixas 4 a 6), Paralelos & infinitos é disco apaixonado. Com título extraído do livro Amor em segunda mão (2006), da escritora portuguesa Patrícia Reis, Paralelos & infinitos é álbum inspirado pela musa de Lacerda, a atriz Victoria Vasconcelos, vista na imagem etérea da capa em foto de Clayton Leite. Sem vocação para o canto, Victoria faz dueto com Lacerda em Guarajuba (César Lacerda). O disco louva o amor em clima pop romântico, como mostra a bonita balada Touro indomável (César Lacerda e Francisco Vervloet), mas os timbres da primorosa produção de Pedro Carneiro fogem do trivial comum do gênero na formatação das oito músicas que compõem o breve repertório do álbum. Essa timbragem, que ecoa influências do indie-folk norte-americano contempoâneo, valoriza cancioneiro que destaca outra bela balada, Olhos (César Lacerda e Luiz Rocha), gravada com o toque leve da guitarra de Lucas Vasconcellos. A propósito, muito da beleza de Love is (César Lacerda), faixa que pega atalhos pouco desbravados, resulta do clima e do tom da gravação. O refrão do tema - "Love is so essential! Love is so celestial! Love is so special! Love is so delicious! Love is... - soa de fato celestial. Sim, o disco foca o amor com olhar positivo. "Tudo dói, no entanto, tudo vibra", sentencia o cantautor em 21 (César Lacerda), em resposta a Caetano Veloso por conta de Tudo dói, música do compositor baiano lançada por Gal Costa no disco Recanto (Universal Music, 2011). No fim, Quiseste expor teu corpo a nu (César Lacerda) se apoia nas vozes - todas gravadas por Lacerda, piloto de vários instrumentos do disco - para reiterar que a louvação do amor inclui passagens por caminhos mais experimentais. O que justifica a presença do grupo Mahmundi na música-título. Apesar da voz, César Lacerda dá passo decisivo em Paralelos & infinitos para se firmar na cena musical do Brasil.

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Disco com trilha nacional de 'A regra do jogo' tem Anas, Banda do Mar e Fafá

No ar pela TV Globo a partir das 21h de hoje, 31 de agosto de 2015, a novela A regra do jogo tem sua trilha sonora nacional editada em CD programado para chegar às lojas já na primeira quinzena de setembro, em edição da gravadora Som Livre. As cantoras Alcione, Ana Cañas, Ana Carolina e Fafá de Belém estão presentes na seleção musical. Alcione dá voz ao tema de abertura da novela, o samba Juízo final (Nelson Cavaquinho e Élcio Soares, 1973). Ana Cañas figura com Tô na vida (Ana Cañas, Lúcio Maia e Arnaldo Antunes), música que batiza seu quinto álbum, lançado neste mês de agosto de 2015. Ana Carolina - uma das recordistas de gravações incluídas em trilhas de novelas da TV Globo - comparece com seu recente registro de Coração selvagem (Belchior, 1977). Por sua vez, Fafá de Belém vai ser ouvida com Nuvem de lágrimas (Paulo Debétio e Paulinho Resende, 1989), rasqueado lançado pela cantora paraense há 26 anos em gravação dividida com a dupla sertaneja Chitãozinho & Xororó. Com 17 faixas, o CD A regra do jogo alinha também fonogramas da Banda do Mar (Dia clarear - Marcelo Camelo, 2014), Dream Team do Passinho (De ladin - Rafael Mike, Rene, Breder e Lellêzinha, 2015), Gang do Eletro (Só no charminho - Maderito e Waldo Squash, 2013), Mosquito (Papel de bobão - Mosquito, 2015) e Paulinho da Viola (Para um amor no Recife - Paulinho da Viola, 1971), entre outros nomes da (diversificada) música brasileira.

Arnaldo lança 'Já é', álbum produzido por Kassin, com participação de Marisa

Décimo sétimo título da farta discografia de Arnaldo Antunes pós-Titãs, o álbum Já é chega ao mercado fonográfico brasileiro em setembro de 2015, com distribuição da gravadora Sony Music. Produzido por Kassin, o disco autoral alinha 15 músicas inéditas e tem a participação de Marisa Monte - parceira de Arnaldo - na faixa Peraí, repara. Algumas músicas foram feitas pelo cantor e compositor paulistano em recente viagem à Índia. Carlinhos Brown, Cezar Mendes, Dadi Carvalho, Davi Moraes Domenico Lancellotti, Jaques Morelenbaum, Pedro Sá, Marcelo Jeneci, Stephane San Juan e Zé Miguel Wisnik são músicos que figuram na ficha técnica do disco. Antes, Aqui onde está, As estrelas sabem, As estrelas cadentes, Azul e prateado, Dança, Na fissura, Naturalmente, naturalmente, Óbitos, O meteorologista, Põe fé que já é, Saudade farta, Se você nadar e Só solidão são as músicas que compõem o repertório inédito do disco Já é com a citada Peraí, repara. A capa (foto) tem direção de arte e fotografia de Marcia Xavier. O design gráfico é de Anna Turra.

'Dio & Baco' agrega as entidades musicais de Eugenio Dale e Suely Mesquita

Lançado de forma independente neste mês de agosto de 2015, o álbum Dio & Baco amalgama as personalidades musicais dos cantores e compositores cariocas Eugenio Dale e Suely Mesquita - como já indica a engenhosa capa criada por Francine Talina a partir de fotos de Daryan Dornelles. A festiva entidade Dionísio - Deus grego identificado como Baco na mitologia romana - pauta o disco produzido e arranjado por Dale, tendo inspirado as duas músicas mais antigas do repertório. Pactocombaco, de Dale, foi lançada na voz da cantora Paula Lima em disco de 2003. Já Zona e progresso - parceria de Suely com Arícia Mess e Pedro Luís - foi feita nos anos 1990 para Arícia cantar em shows, mas acabou lançada em disco por Pedro Luís e a Parede, dando nome ao álbum lançado pelo percussivo coletivo carioca em 2001. Em que pesem eventuais composições assinadas solitariamente por um ou outro integrante do duo, como o belo fado Bora (Eugenio Dale), solado por Dale, Dio & Baco apresenta músicas compostas pelos dois artistas em parceria que já ultrapassa uma década. Entre elas, há os sambas Fulana e Saudade, saudade (este caracterizado pela dupla como um "rock fingindo que é samba"). Quase todas as parcerias são inéditas em disco, mas há exceções. A canção De repente te amo foi lançada em 2004 em álbum da cantora Grace Venturini. Já A vela e a chama ganhou registro fonográfico da cantora Marianna Machado no disco Coisas bonitas (Independente, 2013). Em contrapartida, Até que chova dinheiro - música eleita o single do álbum, com direito a clipe dirigido por Rodrigo Sellos - e Cortina de fumaça são títulos da parceria dionisíaca de Dale e Mesquita que ganham seus primeiros registros oficiais em Dio & Baco.

Da modinha ao rock, (quase) tudo vibra no sentido dado por Cida a 'Soledade'

Resenha de CD
Título: Soledade
Artista: Cida Moreira
Gravadora: Joia Moderna
Cotação: * * * * 1/2

Décimo álbum da digna discografia de Cida Moreira, Soledade é disco aguardado com grande expectativa pelo seleto público da cantora paulistana, dama dos cabarés mais marginais. Afinal, trata-se do primeiro álbum da intérprete desde A dama indigna (Joia Moderna, 2011), trabalho que revitalizou a carreira (e a agenda) da artista. Batizado com o nome de cidade encravada no sertão da Paraíba, Soledade transita por trilhas de um Brasil ilógico em rota que vai da modinha ao rock. "Havia manhãs e havia quintais naquele tempo", lembra Cida na abertura do disco, antes de começar a destilar a melancolia poética embutida em Viola quebrada (Maroca), tema de 1928 da lavra musical do poeta paulistano Mário de Andrade (1893 - 1945). Cida canta a modinha sertaneja com o toque virtuoso da viola de Paulo Freire. Sem a preocupação de ser moderna, a cantora se eterniza ao dar voz grave - já com menor extensão na escala musical, mas com alcance cada vez maior do sentido dos versos que interpreta - a canções que parece recolher no ar. Como Moreninha, tema de domínio público ambientado em clima de seresta ruralista no arranjo do violonista Omar Campos, diretor musical - em função dividida com a própria Cida - deste álbum concebido pela cantora com o jornalista Eduardo Magossi. Soledade tem tom predominantemente caipira nesse trilho inicial em que Cida também pega no ar de um Brasil de tempos idos uma esquecida canção assinada por Nana Caymmi com Gilberto Gil, Bom dia, de 1967. Com os toques da viola de Omar Campos e do acordeom de Mestrinho, Cida louva em tom interiorano o alvorecer e o trabalho. Mas sombras também podem encobrir o raiar do sol e a existência humana, como lembra Um gosto de sol (Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, 1972), música na qual a cantora embute trecho de outra parceria de Milton com Bastos, Trastevere (1975). A interpretação maturada de Um gosto de sol - com a exposição de todas as intenções dos versos de Bastos - exemplifica a grandeza do canto atual de Cida. "Que importa o sentido, se tudo vibra?", questiona a intérprete no poema-vinheta de Alice Ruiz inserido no disco após Forasteiro (Thiago Pethit e Hélio Flanders, 2010), a angustiada balada folk contemporânea do repertório do cantautor Thiago Pethit que ganha maior dimensão no tom preciso do canto de Cida, em arranjo no qual sobressai a guitarra de Faiska Borges. Detalhe: na gravação ao vivo de Forasteiro, lançada em clipe, ouve-se somente a voz e o piano de Cida, o que realça a precisão da interpretação da artista. Pois, quase sempre, basta um piano para essa saloon singer nativa mostrar todo o poder de sedução de seu canto lapidado nos palcos e salões. É somente com um piano - o de Lincoln Antonio - que Cida desfolha o Poema da rosa (Jards Macalé e Augusto Boal, 1970, a partir de poema de Bertolt Brecht), instante menos vibrante de Soledade porque os versos acalentadores do poema soam mais fortes do que a música que lhe foi posta. Em clima de cabaré, Oitava cor (Luis Felipe Gama e Tiago Torres da Silva) também brilha com menor intensidade no arco-íris de Soledade pelo mesmo motivo. Introduzida pela voz grave do cantor paraense Arthur Nogueira, a vinheta Preciso cantar (2013) reproduz trecho de tema composto por Nogueira com o poeta Dand M (não creditado no encarte, na primeira tiragem do disco), abrindo caminho para a trilha mais contemporânea e roqueira seguida por Soledade em sua rota final. Música levada pelo piano autossuficiente de Cida, Feito um picolé ao sol (Nico Nicolaiewski, 1985) reconduz a dama do cabaré e o disco à sua melhor forma, reconectando Cida ao viés marginal que pauta seu canto desde os anos 1970. No mesmo clima de cabaré, a dama afia os agudos da voz para retratar a cortante Outra cena (1976) exposta por Taiguara (1945 - 1996) há quase 40 anos para denunciar o lado podre do sertão e do Brasil. Na sequência, Soledade atinge ponto alto de vibração com o arranjo demolidor de Construção (Chico Buarque, 1971) criado por Arthur de Faria com cordas que evocam o passo passional do tango. Com pausas estratégicas, o canto de Cida evidencia a tensão que pauta os últimos momentos da personagem épica da canção de Chico. No mesmo patamar alto, A última voz do Brasil (Tico Terpins, Zé Rodrix, Armando Ferrante Jr. e Próspero Albanese, 1985) - música do grupo paulista Joelho de Porco - ecoa o barulho do rock para destilar finas ironias sobre o país da barriga vazia e dos Carnavais dos hospitais. Com coro e guitarras (de Faiska Borges e Omar Campos), A última voz do Brasil repõe em cena a atriz, a dama indigna, com direito à breve citação do Hino Nacional Brasileiro (Francisco Manoel da Silva e Osório Duque Estrada, 1822) ao fim do arranjo. O Brasil está na U.T.I., mas o pulso ainda pulsa, como lembra Cida na arrasadora releitura de O pulso (Arnaldo Antunes, Marcelo Frommer e Tony Bellotto, 1989). Com sagaz citação de A queda (André Frateschi, 2014), o rock do grupo Titãs tem seus versos recitados por Cida em arranjo nervoso e ruidoso, formatado com a eletrônica dos teclados de Ricardo Severo. Mas a marcha As pastorinhas (Noel Rosa e João de Barro, 1934) - alocada como vinheta no fecho de Soledade - sinaliza que, mesmo com as misérias humanas e sociais, o Brasil ainda é capaz de fazer o seu Carnaval. Enfim, (quase) tudo vibra no sentido dado por Cida Moreira a Soledade, grande disco dessa dama capaz de pegar canções pelo ar para dar nova dimensão a elas com seu canto maturado, orgulhosamente marginal.

domingo, 30 de agosto de 2015

Manuela Rodrigues recria rock de Gil e canta com Machete no terceiro álbum

 Depois de retiro necessário para parir, amamentar e acalentar seu primeiro filho, a cantora e compositora baiana Manuela Rodrigues volta à cena e se prepara para lançar, em novembro de 2015, seu terceiro álbum, Se a canção mudasse tudo, sucessor de Uma outra qualquer por aí (Garimpo Música, 2011), um dos melhores discos brasileiros de 2011. Gravado com patrocínio obtido no projeto Natura musical, o disco Se a canção mudasse tudo tem repertório basicamente autoral, como a artista já havia sinalizado há dois anos ao lançar no iTunes, em agosto de 2013, Ôxe, ôxe, ôxe! (Manuela Rodrigues e Álvaro Lemos), a primeira música do disco formatado por um time de produtores que inclui André T, Gustavo Di Dalva, Luciano Salvador Bahia, João Milet Meirelles (autor da foto que ilustra este post) e Tadeu Mascarenhas. A cantora carioca Silvia Machete figura numa das onze músicas da lavra de Manuela, Amor de carne e de osso. Também convidado do disco, João Cavalcanti dá voz à parceria sua com a artista, Nenhum homem é uma ilha. Embora o repertório seja essencialmente autoral, a cantora regrava Extra II (O rock do segurança) - música de seu conterrâneo Gilberto Gil, lançada pelo cantor e compositor baiano no álbum Raça humana (Warner Music, 1984) - e apresenta parceria inédita dos compositores paulistanos Clima e Romulo Fróes, Vai que eu desembeste. Já Risos é de autoria de Ronei Jorge, mentor da banda baiana Ronei Jorge & Os Ladrões de Bicicleta. Manuela Rodrigues assina a direção artística do disco, mixado por André T no estúdio T, em Salvador (BA), e masterizado por Carlos Freitas no estúdio Magic Master, em São Paulo (SP). Eis, na ordem do CD independente, as 14 músicas e respectivos compositores, produtores e convidados do álbum Se a canção mudasse tudo:

1. Lista (Manuela Rodrigues) - Produção de Tadeu Mascarenhas
2. Bagagem (Manuela Rodrigues) - Produção de Gustavo di Dalva
3. Amor de carne e de osso (Manuela Rodrigues) - Produção de Gustavo Di Dalva

    - com Silvia Machete
4. Rede social (Manuela Rodrigues) - Produção de Luciano Salvador Bahia
5. Desejo batuque (Manuela Rodrigues e Lara Belov) - Produção de André T
6. Qualquer porto (Manuela Rodrigues) - Produção de Tadeu Mascarenhas
    - com Nicolas Krassik
7. Ventre (Manuela Rodrigues) - Produção de Tadeu Mascarenhas e João Milet Meirelles
8. Vai que eu desembeste (Rômulo Fróes e Clima) - Produção de João Milet Meirelles
9. Extra II (O rock do segurança) (Gilberto Gil, 1984) - Produção de Tadeu Mascarenhas
10. Marcha do renascimento (Manuela Rodrigues) Produção de André T
11. Risos (Ronei Jorge) - Produção de André T
12. Ôxe, ôxe, ôxe! (Manuela Rodrigues e Álvaro Lemos) - Produção de Manuela Rodrigues e 
      Tadeu Mascarenhas
13. Nenhum homem é uma ilha (Manuela Rodrigues e João Cavalcanti) - Produção de Gustavo
      Di Dalva -com João Cavalcanti
14. Lista 2 (Manuela Rodrigues) - Produção de João Milet Meirelles

Disco quente, com pegada e baladas, 'LOV' soa à altura da voz de Toni Platão

Resenha de álbum digital
Título: LOV
Artista: Toni Platão
Gravadora: Edição independente do artista
Cotação: * * * * *
♪ Disco disponível por ora somente em edição digital

Dono de uma das vozes mais potentes da geração roqueira projetada no universo pop brasileiro dos anos 1980, Toni Platão - nome artístico de Antônio Rogério Coimbra, cantor e compositor carioca revelado naquela década como vocalista da banda carioca Hojerizah - merecia ter tido uma carreira solo de maior reconhecimento popular e artístico. Em carreira solo desde 1994, Platão seguiu receitas estragadas de gravadoras, lançou discos esporádicos e, quando ameaçou fazer real sucesso com o CD Negro amor (Som Livre, 2006), descumpriu a promessa, embora esse belo álbum tenha gerado DVD requintado, Pros que estão em casa (EMI Music, 2008), filmado em estúdio (em preto e branco) e batizado com o nome da música mais conhecida do grupo Hojerizah. Decorridos sete anos, Platão reaparece de surpresa no mercado fonográfico neste mês de agosto de 2015 com LOV, álbum produzido por Berna Ceppas que conecta Platão a alguns dos melhores músicos da cena musical carioca, como o baixista carioca Dadi Carvalho, o guitarrista Pedro Sá e os bateristas Marcelo Callado e Stephan San Juan (na percussão), entre outros virtuoses. A surpresa é grande porque LOV - álbum batizado com sigla da expressão em latim Labor omnia vincit (O trabalho tudo vence) - se impõe como o melhor e o mais coeso título da espaçada discografia de Platão. LOV é um disco quente, de pegada que não se dilui ao longo de suas breve nove músicas. A produção musical de Berna Ceppas valoriza as canções - de linguagem simples e direta, como enfatiza Platão - com arranjos cheios de vigor e energia concentrada. Com metais em brasa, orquestrados por Felipe Pinaud, a inédita Dias estranhos (Toni Platão) já dá a pista certa da temperatura aquecida do disco exemplarmente mixado no estúdio Monoaural, no Rio de Janeiro (RJ), por Daniel Carvalho (a masterização de Ricardo Garcia também contribuiu para manter o brilho do som). Na sequência, a também inédita Magia negra (Donni Araújo) mantém LOV no mesmo ponto de fervura com predomínio de sons orgânicos, ainda que a faixa embuta beats programados por Ceppas. LOV é um disco de pegada e de baladas. Duas delas, também inéditas, merecem menções honrosas. Gravada com adesões da bateria de João Barone e do acordeom de Rodrigo Ramalho, Deve ser isso que se chama amor é uma das canções mais inspiradas da lavra de Alvin L - um hit em potencial se entrar em rotação na trilha sonora de uma novela. Com o mesmo poder de sedução, Já é tarde é power balada de autoria do compositor Márvio dos Anjos, integrante da banda indie carioca Cabaret. Parceria inédita de Cabelo com Platão, Você não sabe o que te espera dialoga com a linguagem popular do cancioneiro de artistas como o cantor e compositor pernambucano Reginaldo Rossi (1944 - 2013) com o requinte caloroso do disco. Os metais do arranjo evocam o universo mariachi da música mexicana. Em sintonia com esse universo da canção popular, Platão tira do baú uma joia rara do repertório do cantor capixaba Paulo Sérgio (1944 - 1980), Agora quem parte sou eu, composição do paulistano Demétrius, lançada por Paulo Sérgio em álbum de 1972 e revivida por Platão com arranjo moderno - no qual sobressai o órgão de Roberto Pollo - que jamais desfigura a arquitetura da canção. Na sequência, com mais reverência, Platão dá voz a uma das baladas mais conhecidas do repertório do cantor e compositor norte-americano Alice Cooper, I never cry (Alice Cooper e Dick Wagner, 1976), hit no Brasil por conta de sua propagação na trilha sonora da novela Duas vidas (TV Globo, 1976). Aos 52 anos, com a voz ainda em forma, Platão canta I never cry somente com o toque da guitarra de Pedro Sá. Mais ousada ainda é a recriação de Volta por cima (Paulo Vanzolini, 1972), samba que ganha metais e toques de soul e blues no registro demolidor de Platão. Por fim, tudo acaba em (algo de) samba, com molho tropical posto na versão em português da canção My cherie amour (Stevie Wonder, Henry Cosby e Sylvia Moy, 1969), escrita por Ronnie Von para seu álbum A misteriosa luta do reino de parassempre contra o império de nuncamais (Philips, 1969). Enfim, sem aviso prévio, Toni Platão lança seu melhor disco. LOV soa com a intensidade (e à altura) de sua voz ainda viçosa.

Cantado em português, CD 'Troco likes' faz Iorc falar a língua pop mais trivial

Resenha de CD
Título: Troco likes
Artista: Tiago Iorc
Gravadora: Slap
Cotação: * *

O título do quarto álbum de Tiago Iorc, Troco likes, já sinaliza que o cantor e compositor de origem brasiliense - criado entre Inglaterra e Estados Unidos - quer se conectar com o público jovem que vive nas redes sociais. A capa do disco - inusitado desenho do artista, visto no traço do ilustrador argentino Nestor Canavarro - corrobora a intenção de Iorc de chamar atenção para ser mais notado nas plataformas digitais. Tanto que Troco likes está sendo anunciado pelo selo Slap como o primeiro álbum inteiramente composto e cantado em português deste artista que debutou no mercado fonográfico com dois álbuns - Let yourself in (Som Livre, 2008) e Umbilical (Som Livre, 2011) - totalmente gravados em inglês. No álbum anterior, Zeski (Som Livre, 2013), Iorc já arriscou algumas faixas em português que, a rigor, nada acrescentaram ao cancioneiro do artista. Mas, desta vez, o mergulho na língua portuguesa é mais fundo - a ponto de a única música em inglês do disco, Till I'm old and gray (Tiago Iorc), estar alocada como faixa-bônus. De toda forma, Troco likes é álbum que fala essencialmente a língua pop de Iorc com approach mais popular. Só que, idiomas à parte, o disco - produzido pelo próprio Iorc com Alexandre Castilho - mostra que o fôlego autoral do compositor já se revela curto. Entre apáticas canções de amor como Amei te ver (Tiago Iorc), De todas as coisas (Tiago Iorc) e a confessional Eu errei (Tiago Iorc), há promissora parceria com o compositor paulistano Dani Black (Mil razões), mas o repertório inédito e essencialmente autoral destaca, sobretudo, Alexandria, feliz parceria de Iorc com Humberto Gessinger, mentor e vocalista do ora desativado grupo gaúcho Engenheiros do Hawaii. O refrão do tema ("Gente demais / Com tempo demais / Falando demais / Alto demais") é especialmente pegajoso. E por falar em conexão com artista dos Pampas, o compositor gaúcho Duca Leindecker - partner de Gessinger no duo Pouca Vogal - assina Bossa (1998), única composição do disco sem a assinatura de Iorc. Trata-se de regravação de música do repertório do grupo gaúcho Cidadão Quem, abordada por Iorc com energia bissexta no álbum. Troco likes dilui o acento folk da obra inicial de Iorc em favor de trivial linguagem pop radiofônica - como já dera a entender o single Coisa linda (Tiago Iorc e Leo Fressato), canção tão apaixonada quanto Cataflor (Tiago Iorc). Enfim, Tiago  Iorc já mostrou em seus discos iniciais que domina linguagens musicais menos fáceis.

'Ziriguidum' de Calixto balança entre odes ao samba e temas afro-brasileiros

Resenha de CD
Título: Meu ziriguidum
Artista: Aline Calixto
Gravadora: Edição independente da artista
Cotação: * * * 1/2

Cantora nascida no Rio de Janeiro (RJ), mas criada em Belo Horizonte (MG), Aline Calixto foi revelação superestimada quando abraçou o samba e lançou seu primeiro álbum, Aline Calixto (Warner Music, 2009). Mas desabrochou com Flor morena (Warner Music, 2011), disco no qual se refugiou nos quintais cariocas. Terceiro álbum da artista, lançado de forma independente em julho de 2015, Meu ziriguidum também busca abrigo e avais nas rodas do Rio, mas com naturais incursões pelo samba made in Minas. Transitando nessa ponte Rio-BH, o disco balança entre odes nem sempre originais ao samba e temas de acento afro-brasileiro como Lendas das matas (João Martins e Raul Di Caprio, 2015) - samba que versa sobre o universo do folclore brasileiro - e Ibamolê (Serginho Beagá, 2015), misto de samba e ijexá que sobressai no repertório. O acento afro justifica a inclusão da regravação de Conto de areia (Romildo Bastos e Toninho Nascimento, 1974), sucesso de Clara Nunes (1942 - 1983), cantora mineira que abriu alas no samba para a saudação dos orixás. Mas Conto de areia perde parte de seu encanto no registro - feito em 2013 para lembrar os 30 anos de morte da Guerreira - em que Calixto insere rap do paulistano Emicida. Talvez porque falte energia à voz afinada e límpida de Calixto. Entre odes ao samba, Eu sou assim (2015) - outra boa contribuição do compositor mineiro Serginho Beagá ao repertório do disco - é carta de intenções que soa mais interessante do que o autorretrato moldado pela artista no samba-título Meu ziriguidum, parceria de Calixto com Gabriel Moura que sinaliza na abertura do CD um viés feminino - reiterado em Musas (Arlindo Cruz e Rogê, 2015), samba lançado por Diogo Nogueira em seu recente CD Porta-voz da alegria (Universal Music / EMI, 2015) - que não se sustenta na regravação de Papo de samba (Carlos Caetano, Moisés Santiago e Flavio da Silva Gonçalves, 2001), pois esta composição que batizou álbum lançado há 14 anos pelo grupo Fundo de Quintal versa sobre universo explicitamente masculino. E por falar no quintal carioca, ele dá bons frutos em Meu ziriguidum. O compositor Leandro Fregonesi fornece um dos melhores sambas inéditos do álbum, Entre você e eu, tema que ganha o toque nordestino do acordeom de Christiano Caldas no arranjo de Thiago Delegado, cantor, compositor e (exímio) violonista mineiro que assina a produção do álbum ao lado de Paulão Sete Cordas. Já Zeca Pagodinho é o convidado que divide com Calixto o balanço de No pé miudinho (Moacyr Luz e Délcio Luiz), outra celebração do samba, assunto que deixa o disco por vezes repetitivo. Compadre de Zeca, Arlindo Cruz comparece em Toda noite, samba de cadência romântica que compôs em parceria com Maurição e que cedeu para Calixto alicerçar o ziriguidum dela. Reforçado por Pedreira, bom samba de Fabinho do Terreiro e Ricardo Barrão, Meu ziriguidum eventualmente balança, mas não cai, sustentando o samba de Aline Calixto na ponte que liga o populoso terreirão carioca aos quintais ainda pouco explorados de Minas Gerais.