sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Mallu se expõe como capista em álbuns de Bruno Capinam e de Tom Zé

Mallu Magalhães está se expondo cada vez mais como capista de discos. Dois álbuns lançados quase simultaneamente exibem capas com artes assinadas pela artista paulistana. Trata-se do CD de Bruno Capinam - cantor e compositor baiano radicado no Canadá - e de Vira lata na Via Láctea, o 15º álbum de inéditas do também baiano Tom Zé, cujo recente EP Tribunal do Feicebuqui (Independente, 2013) também teve capa feita por Mallu. No caso do disco autoral de Capinam, Tudo está dito, produzido por Luizão Pereira e com lançamento agendado para 4 de novembro pelo selo Maravilha 8, Mallu assina a pintura da capa e as aquarelas expostas no encarte do CD, além de participar da música Sambolento. Ambas as capas são bem expressivas.

CD solo de Cintra, 'Animal' expõe desconexão entre letras e sons dos 80

Resenha de CD
Título: Animal
Artista: Adriano Cintra
Gravadora: Deck
Cotação: * * 

Como produtor de discos,  o paulistano Adriano Cintra impôs seu nome ao longo deste ano de 2014. Além de ter assinado com Jesse Harris a produção do disco mais bem acabado de Tiê, Esmeraldas (Warner Music), o artista paulistano é copiloto do irretocável terceiro álbum de Thiago Pethit, Rock'n'roll sugar darling (Independente), agendado para novembro. Diante de tamanho êxito na formatação de obras alheias, esperava-se mais de Cintra na produção de seu primeiro álbum solo, Animal, lançado via Deck neste mês de outubro. O melhor do disco é a capa assinada por Rodrigo Maltchique. Batizado com o nome da parceria de Cintra com Marcelo Segreto (da Filarmônica de Pasárgada), Animal, o disco teve seu repertório composto originalmente com letras em inglês. Por sugestão de Marcus Preto, diretor artístico do álbum, as letras foram refeitas em português por time heterogêneo que vai de Alice Caymmi (autora dos versos de Toque) a Guilherme Arantes (parceiro de Cintra em Não vai dominar), passando por Gaby Amarantos, letrista de Duda, música de refrão pegajoso, já previamente exposta na rede, para promover Animal. A ideia em si é boa, mas o álbum expõe a falta de sintonia entre as letras e as músicas. Basta ouvir A sedução de um desejo - composição cantada por Nana Rizzini com versos típicos da obra popular de Odair José, autor da letra - para entender a desconexão entre músicas e letras. Musicalmente, Animal se escora nos beats acelerados do tecnopop dos anos 1980, sem sintetizar visão nova do gênero, como já deixam evidentes as batidas de Desagradável aparelho (Adriano Cintra, John Ulhoa e Nana Rizinni) e Não ladrão (Adriano Cintra), as duas músicas que abrem o CD. Poeticamente, Animal transita por outra via. Passionais, intensas e despudoradas, as letras quase nunca se afinam com o som pop, dançante e desencanado do disco, que traz a voz de Rogério Flausino em Desde o início (Adriano Cintra, Rogério Flausino e Péricles Martins), uma das três faixas produzidas por Boss in Drama (as outras duas são as já mencionadas Duda e Não vai dominar). Essa falta de sintonia acentua o fato de Cintra ser cantor meramente eficaz e compositor irregular. Músicas como Deu ruim (Adriano Cintra) estão longe de roçar o bom acabamento melódico e pop dos hits da década de 1980. Mentor do superestimado grupo Cansei de Ser Sexy (CSS), do qual saiu de forma bem ruidosa em novembro de 2011, Cintra ainda está envolto em aura hype. O que deverá livrar Animal das garras de muitos críticos. Mas o fato é que, citando verso de Fracaso favorito, música em espanhol que fecha o disco, Animal tem tudo para ser o fiasco preferido da turma descolada. De todo modo, Adriano Cintra tem futuro como produtor de discos alheios.

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Justiça faz justiça ao devolver a Dado e Bonfá o direito da marca Legião

Editorial - Em comunicado expedido hoje, 30 de outubro de 2014, por meio de sua assessoria de imprensa, os músicos Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá (à direita) anunciaram que readquiriram na Justiça o direito de também usar a marca Legião Urbana em produtos e atividades artísticas relacionadas à banda que mantiveram de 1982 a  1996 com Renato Russo (1960 - 1996). Pela sentença proferida em 28 de outubro de 2014 na 7ª vara empresarial do Rio de Janeiro (RJ), o herdeiro de Russo - seu filho Giuliano Manfredini - já não pode mais impedir Dado e Bonfá de usar a marca da banda do qual eles também fizeram parte desde a fundação até a dissolução por conta da saída de cena de Russo. Com tal sentença, a Justiça fez justiça. Por mais que Renato Russo tenha sido informalmente o mentor, o líder e o porta-voz da Legião Urbana, Dado e Bonfá eram membros ativos da banda, para cujo repertório também contribuíram, e estavam em posição de igualdade com Russo - como ressaltado na sentença, aliás- de forma legal. Já que houve impossibilidade de acordo (por parte de Manfredini, como frisa o comunicado de Dado e Bonfá), é justo que os dois músicos também tenham o direito de usar a marca que ajudaram a erguer. Que sejam feitas a paz e a justiça!

Coletânea da série 'Mega hits' inclui tributo a Elvis na discografia de Ana

Em 16 de agosto de 2012, Ana Carolina fez coro com os tributos mundiais a Elvis Presley (1935 - 1977) - por ocasião dos 35 anos de morte do cantor norte-americano, completados naquele dia - e jogou na rede uma belíssima gravação inédita e caseira da balada And I love you so (Don McLean, 1970), gravada por Elvis em 1975. Até então dispersa na web, a gravação de Ana - feita somente o violão da artista mineira e o violoncelo de Lui Coimbra - acaba de ser incluída de forma oficial à discografia de Ana. And I love you so é o 15º e último fonograma da compilação dedicada à cantora e compositora na série de coletâneas Mega hits, editada neste mês de outubro de 2014 pela Sony Music. Por ser fonograma inédito em CD, And I love you so é a isca para fisgar fãs da artista para a compilação. Já à venda em CD físico, em magazines, a compilação é diferente do best of homônimo lançado em 2013 exclusivamente no iTunes. Na coletânea editada em CD, And I love you so perde a introdução original do registro, feita pelo violoncelo de Lui, mas a qualidade da gravação está preservada pela masterização feita por Carlos Savalla e Luigi Hoffer. Outro detalhe é que a música que abre a compilação, Problemas (Ana Carolina, Chiara Civello e Dudu Falcão, 2011), é erroneamente creditada como gravação ao vivo quando, na verdade, foi a faixa-bônus do CD ao vivo de 2011 que reproduz números do show Ensaio de cores. A coletânea Mega hits de Ana Carolina inclui algumas das melhores baladas do cancioneiro de Ana, como Pra rua me levar (Ana Carolina e Totonho Villeroy, 2001), Nua (Ana Carolina e Vítor Ramil, 2003) e Encostar na tua (Ana Carolina, 2003) - entre outras.

Festa Ploc grava, no Rio, DVD de 10 anos com Rosanah e Uns & Outros

De contrato assinado com a gravadora Som Livre, para edição de DVD e CD ao vivo previstos para 2015, a produção da Festa Ploc promove a gravação do show que vai ser feito em 7 de novembro de 2014 no Circo Voador, no Rio de Janeiro (RJ), com elenco que inclui nomes como a cantora Rosanah Fienngo e os grupos Dr. Silvana e Uns & Outros. Trata-se do terceiro registro ao vivo de show da Ploc, festa criada para reviver a música e as modas dos anos 1980.

Eis a capa e músicas de 'inSULar ao vivo', registro de show de Gessinger

Esta é a capa de inSULar ao vivo, kit de CD e DVD de Humberto Gessinger que vai chegar ao mercado fonográfico em novembro de 2014 em edição da gravadora carioca Coqueiro Verde Records. inSULar ao vivo perpetua a apresentação feita pelo artista gaúcho em 30 de maio de 2014 na casa Chevrolet Hall, em Belo Horizonte (MG), com o trio formado por Gessinger com o baterista Rafael Bisogno e o guitarrista Rodrigo Tavares. O mote do show é o repertório do álbum solo de Gessinger Insular (Stereophonica, 2013), mas o roteiro abarca sucessos da banda Engenheiros do Hawaii. O DVD também exibe números captados em show acústico feito por Gessinger na Serra Gaúcha. Eis as 23 músicas do CD + DVD inSULar ao vivo:

* Até o fim
* Armas químicas e poemas
* Bora
* Ilex Paraguarienses
* Surfando karmas & DNA
* Eu que não amo você
* Insular
* Ando só
* A ponte para o dia
* Voo do besouro
* Deserto freezer
* Milonga orientao
* Somos quem podemos ser
* De fé
* Sua graça - Faixa exclusiva do DVD
* Nuvem
* 3 x 4
* Dançando no campo minado
* Tchau radar
* Pra ser sincero
* Dom Quixote
* O exército de um homem só
* Tudo está parado - Faixa exclusiva do DVD

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Rap que dá título ao álbum 'Convoque seu Buda' devolve Criolo ao gueto

Resenha de single
Título: Convoque seu Buda
Artista: Criolo
Gravadora: Oloko Records
Cotação: * * * *

 Sim, existe ódio em SP. "Convoque seu Buda / O clima tá tenso / Mandaram avisar / Que vão torrar o Centro", alerta Criolo nos versos nervosos da música-título de seu terceiro álbum, Convoque seu Buda, programado para ser lançado em novembro de 2014. Convoque seu Buda, a música, é rap incisivo que devolve Criolo aos guetos do hip hop paulistano após consagrador álbum, Nó na orelha (Independente, 2011), pautado pela diversidade rítmica. O rap Convoque seu Buda é assinado por Criolo em parceria com Daniel Ganjaman, que pilota as programações da gravação disponibilizada hoje, 29 de outubro de 2014, para download no site oficial do artista. Ganjaman assina também a produção da música, cujo lyric video, feito sob direção de arte de Ricardo Fernandes com animação de Mauricio Fahd, já pode ser visto também no YouTube. A música capta a fervura da chapa na periferia de São Paulo (SP), "cidade pobre" na visão exposta nos versos que rogam aos deuses equilíbrio ao trabalhador que corre atrás do pão. "É humilhação demais que não cabe nesse refrão", resume Criolo. Gravada sob a direção artística de Daniel Ganjaman, a música ostenta scratches de DJ DanDan - colaborador fiel de Criolo - e percussão de Maurício Badé, tendo sido mixada por Mario Caldato Jr. em Los Angeles (EUA). Convoque o seu Buda, pois parece que vem por aí um álbum chapa quente, na pressão. 

Livro 'Retratos sonoros' expõe a imagem da música brasileira por Daryan

São cerca de 160 fotos. Umas são expostas em preto e branco. Outras são coloridas. Em comum, todas as imagens do livro Retratos sonoros - lançado hoje, 29 de outubro de 2014, em São Paulo (SP) - têm o fato de captarem artistas da música brasileira sob ângulos e ares inusitados. Ana Carolina, Chico Buarque, Clarice Falcão, Criolo, Dominguinhos (1941 - 2013), Fernanda Takai, Luiz Melodia, Marisa Monte, Martinho da Vila, Milton Nascimento, Nelson Sargento, Ney Matogrosso, Paulinho da Viola, Tiê e Zélia Duncan - um A a Z da música do Brasil - são artistas clicados pelo fotógrafo carioca Daryan Dornelles em retratos reproduzidos no livro. Retratos que expõem a influência do trabalho do fotógrafo Bob Wolfeson. Editado por iniciativa do próprio Daryan, via Editora Sonora, Retratos sonoros tem prefácio assinado pelo jornalista e produtor musical Marcus Preto, que ressalta a habilidade de Daryan para extrair tons pouco usuais dos cantores e músicos que coloca na mira de suas lentes atentas e refinadas.

DVD rebobina a obra resistente de Taiguara nas vozes de nove mulheres

Resenha de CD e DVD
Título: A voz da mulher na obra de Taiguara
Artistas: Vários
Gravadora: Nova Estação / Eldorado
Cotação: * * * 1/2

O oportuno revival da obra de Taiguara Chalar da Silva (1945 - 1996) - em evidência neste mês de outubro por conta do lançamento via Kuarup de disco póstumo e biografia do artista - teve início, a rigor, em fevereiro de 2011 quando a então iniciante gravadora Joia Moderna pôs no mercado fonográfico um CD viabilizado pelo DJ Zé Pedro em tributo ao cancioneiro desse compositor de origem uruguaio e vivência brasileira. Orquestradas pelo produtor Thiago Marques Luiz, 14 cantoras deram vozes a esse resistente cancioneiro no CD A voz da mulher na obra de Taiguara (Joia Moderna, 2011). Em 1º de julho daquele ano, nove das 14 cantoras subiram ao palco do Auditório Simon Bolivar do Memorial da América Latina, em São Paulo (SP), para interpretar ao vivo canções de Taiguara no show roteirizado e dirigido por Marques Luiz. O registro desse show está sendo lançado de forma tardia pela gravadora Nova Estação, mas ainda a tempo de celebrar Taiguara em gravações muito mais sedutoras do que os registros das fracas músicas inéditas apresentadas no CD póstumo Ele vive (Kuarup, 2014). Em que pese o redutor áudio 2.0 do DVD, o registro do show reitera os acertos do álbum de estúdio de 2011. Sob a direção musical do pianista Daniel Bondaczuk, as noves cantoras se afinam com as canções e os arranjos calcados no piano com adesões de violinos, violoncelo e viola. Em momento luminoso em cena, Cida Moreira se confirma grande cantora ao dar voz a Viagem (1970) - em interpretação que supera sua boa gravação de estúdio - e a Modinha (Sergio Bittencourt, 1968), uma das duas músicas do roteiro que não são de autoria de Taiguara, embora associadas ao seu canto. A outra é Helena, Helena, Helena (Alberto Land, 1968), única música ausente do disco de estúdio, belamente interpretada por Fafá de Belém, a quem foi confiado também o sucesso Universo no teu corpo (1970). Outro destaque do tributo é Verônica Ferriani. Ao clarear a psicodélica Manhã de Londres (1972) com dose exata de melancolia, Ferriani começou a mostrar o talento de intérprete que floresceria no álbum autoral que lançou no fim de 2013. No todo, as cantoras dão conta de expor toda a paixão contida num cancioneiro que mistura romantismo e consciência social. Silvia Maria desbrava Terra das palmeiras (1976) com o virtuosismo técnico que também pauta o canto de Claudia em Memória livre de Leila (1972), canção difícil composta por Taiguara em homenagem à atriz Leila Diniz (1945 - 1972), então recentemente falecida em acidente de avião. Com sua voz límpida, Vânia Bastos viaja na leveza do Tema de Eva (1970) e acende a beleza de Luzes (1972). Intérprete importante na propagação da obra de Taiguara, Claudette Soares defendeu Coisas (1971) - música que lançou em disco - e Romina e Juliano (1973). Intérprete de Hoje (1969), Fernanda Porto mostra que sobrevive como cantora sem os beats eletrônicos de sua obra fonográfica. Aretha completa o time de cantoras do show - encerrado com a voz de Taiguara, ouvida em O cavaleiro da esperança (1974) - com a defesa de Que as crianças cantem livres (1973). Para quem preferir o CD ao vivo, lançado simultaneamente com o DVD, há - como faixa-bônus - a definitiva gravação de Mudou (1972), feita por uma perfeita Célia para o álbum de estúdio que jogou luz sobre a obra guerrilheira e ainda relevante de Taiguara.

'Nelson 70' mostra que o cancioneiro de Motta resistiu às ondas do tempo

Resenha de CD
Título: Nelson 70
Artista: Vários
Gravadora: Som Livre
Cotação: * * * * 1/2

"A vida vem em ondas / Como um mar / Num indo e vindo infinito", filosofa Jorge Drexler através dos versos de Como uma onda (Zen-surfismo) (Lulu Santos e Nelson Motta, 1982). Cantados em português no CD Nelson 70 pelo artista uruguaio, no toque minimalista de guitarra eletroacústica que transforma o bolero havaiano em canção, os versos da música contradizem a perenidade do cancioneiro do multimídia Nelson Motta. Produzido para festejar os 70 anos de vida que Motta completa hoje, 29 de outubro de 2014, o CD Nelson 70 mostra que a obra musical do compositor resistiu bem às onda dos tempos, sobrevimento aos modismos, aos movimentos e às movimentações incessantes da música brasileira. "Tudo passa / Tudo sempre passará", sentencia a letra do bolero lançado por Lulu Santos há 31 anos, no começo já áureo de sua parceria com Motta. Sentença bisada na letra de Nós e o tempo (Marisa Monte, Cezar Mendes e Nelson Motta, 2014), única música inédita deste disco que apresenta novos registros das músicas mais conhecidas do compositor. "Belezas passarão", canta Marisa Monte, fluida, com o toque refinado do piano de João Donato. Nós e o tempo é canção à moda antiga. Poderia ter sido lançada nos anos 1960, era dos festivais, plataforma para a exposição da obra inicial de Motta. É de lá, da década de 1960, que vem De onde vens (Nelson Motta e Dori Caymmi, 1967), música ora revivida por Fernanda Takai com barulhinhos bons e eletrônicos. No todo, o tributo se situa bem acima da média de discos do gênero. Com a harpa virtuosa de Cristina Braga, Lenine acentua sons e silêncios de Certas coisas (Lulu Santos e Nelson Motta, 1984). Com o piano de Daniel Jobim, Ed Motta reveste Coisas do Brasil (Guilherme Arantes e Nelson Motta, 1986) de um classicismo aor que, se tira a bossa da canção, lhe aponta novos caminhos harmônicos. Ed é parceiro de Motta em Apaixonada (2001), canção ambientada em clima de fado com a sofisticação do canto da intérprete portuguesa Cuca Roseta. De repente Califórnia (Lulu Santos e Nelson Motta, 1982) pega a onda certa na levada moderna de Pupillo, produtor da faixa cantada por Céu. Na mesma onda, Max de Castro repisa Areias escaldantes (Lulu Santos e Nelson Motta,1982) com frescor, sem se afastar da levada original do tema, mas soprando ventos novos a seu favor. Já Ana Cañas transforma o rock Perigosa (Roberto Carvalho, Nelson Motta e Rita Lee, 1977) em blues sensual de tons inicialmente macios. Com a tarefa ingrata de recriar Dancin' days (Rubens Queiroz e Nelson Motta, 1978), Gaby Amarantos põe seu toque tecnobrega na música sem se desviar muito do icônico arranjo da gravação original feita pelo grupo As Frenéticas. Maria Gadú reitera em Você bem sabe (Djavan e Nelson Motta, 1989) seu talento de intérprete. Música pouco ouvida do cancioneiro de Motta, Ditos e feitos - parceria com Roberto Menescal que batizou álbum lançado por Menescal em 1992 via Warner Music - sai do universo da bossa para ganhar vocais harmoniosos no bonito registro de Leo Cavalcanti (em seu melhor momento como intérprete). Já Marina no ar, tecnobossa composta por Motta com Guilherme Arantes e lançada por Arantes em álbum de 1987, ganha moldura eletrônica contemporânea de Silva, artista volta e meia associado a Arantes (mas o fato é que, em Marina no ar, a dupla não reeditou a inspiração de Coisas do Brasil). Música mais recente dentre as 14 regravações do disco, cuja edição digital rebobina O cantador (Dori Caymmi e Nelson Motta, 1966) na voz de Lisa Ono, Noturno carioca (Erasmo Carlos e Nelson Motta, 2009) ganha a bossa e voz de Laila Garin - atriz projetada em escala nacional ao reviver Elis Regina (1945 - 1982) em musical de teatro - em registro classudo feito por Garin com seu grupo Ipanema Lab. A faixa tem clima apropriadamente carioca que evoca o ar e as paisagens de Fotografia (Antonio Carlos Jobim, 1959), comprovando que Nelson 70 é belo recorte do cancioneiro atemporal de Nelson Motta.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Canção inédita sobre o poder corrosivo do tempo reúne Nelson e Marisa

Única música inédita de Nelson 70, CD lançado esta semana pela gravadora Som Livre em homenagem aos 70 anos do compositor, jornalista, escritor e produtor musical carioca Nelson Motta, Nós e o tempo é parceria de Nelson com a cantora e compositora carioca Marisa Monte e com o compositor e violonista baiano Cezar Mendes. Canção à moda antiga, gravada por Marisa para o disco com o toque refinado do piano do acriano João Donato, Nós e o tempo versa sobre o fluxo permanentemente transitório dos sentimentos e da própria vida face ao poder corrosivo do tempo. A música marca o reencontro de Nelson com Marisa, cantora que se lançou no mundo da música em 1987 sob as bençãos do produtor. Eis a letra de Nós e o tempo:

Nós e o tempo
(Marisa Monte, Cezar Mendes e Nelson Motta)

Parece ilusão
Parece ficção
Parece destino
Se alguém contar
Ninguém acredita
Qualquer um duvida

Mas a vida é assim
E o real é mais
Do que as fantasias
Do que a razão
Parece mentira
Parece que sim
Parece que não

Quando escurecer
E a noite chegar
A luz de uma estrela
Vai brilhar no céu
Até se apagar
Ao amanhecer

Vidas vão nascer
Nuvens vão passar
Lágrimas e rios
Todos os mistérios
Todas as certezas
Também passarão
Também passarão
Também passarão...

Belezas passarão
Segredos passarão
Mistérios passarão
Tristezas passarão
Estrelas passarão
Tristezas passarão...

Também passarão
Passarão
Passarão...

Eis a capa de 'Não pare pra pensar', CD em que o Pato Fu regrava Erasmo

Esta é a capa de Não pare pra pensar, o 12º álbum da discografia do Pato Fu. Nono disco de inéditas do grupo mineiro, que não renovava seu repertório desde o álbum Daqui pro futuro (Rotomusic, 2007), o CD Não pare pra pensar vai chegar ao mercado fonográfico em  4 de novembro de 2014 em edição do selo Rotomusic distribuída em escala nacional via Sony Music. Entre as dez inéditas autorais do repertório, como Ninguém mexe com o diabo (rock cantado pelo produtor John Ulhoa), Não pare pra pensar inclui regravação de Mesmo que seja eu (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1982), sucesso de Erasmo Carlos nos anos 1980.

Eis a capa e as 16 músicas de 'Mistério', álbum em que Belo recebe Ivete

Esta é a capa de Mistério, álbum de inéditas do cantor paulistano Belo. A imagem do artista na capa deixa a impressão de que se vê um boneco de Belo. No disco, que tem lançamento programado para 11 de novembro de 2014 pela gravadora Sony Music, Belo canta com Ivete Sangalo na faixa Linda rosa, música de autoria de Umberto Tavares e Jefferson Junior, dupla de compositores que também assina o primeiro single, Porta aberta, disponível para audição e download. A música-título Mistério é da lavra de Jorge Vercillo. Já a faixa Até o sol não nascer mais traz a dupla Thaeme & Thiago. Eis - na ordem do CD - as 16 músicas do álbum Mistério:

1. Feliz
2. Tatuagem
3. Voyeur
4. Porta aberta
5. Linda rosa - com Ivete Sangalo
6. Não sou feliz sem você
7. Lembra?
8. Outra vez
9. Caso sério
10. Vi amor no seu olhar II
11. Mesmo sem entender
12. Mistério
13. Montanha russa
14. Fui eu
15. Danço com o vento
16. Até o sol não nascer mais - com Thaeme & Thiago

Duani lança 'Aproveita', primeiro single do álbum Halo, previsto para 2015

Duani se programa para lançar em 2015 seu primeiro álbum solo, Halo. O primeiro single, Aproveita, entrou ontem, 27 de outubro de 2014, em rotação no YouTube. Revelado como integrante-fundador do grupo carioca Forroçacana na década de 1990 e como músico da Orquestra Imperial nos anos 2000, o cantor e compositor carioca Duani Martins também já atuou como produtor de (recentes) álbuns da cantora e compositora paulistana Mariana Aydar.

Reeditado em CD, 'Tiro de misericórdia' atinge tensão dos tempos da fera

Resenha de reedição de CD
Título: Tiro de misericórdia
Artista: João Bosco
Gravadora da edição original de 1977: RCA Victor
Gravadora da reedição em CD de 2014: Kuarup
Cotação: * * * *

 João Bosco vinha de dois álbuns consagradores - Caça à raposa (RCA Victor, 1975) e Galos de briga (RCA Victor, 1976), ambos repletos de músicas que se tornaram sucessos nas paradas brasileiras dos anos 1970, consolidando a carreira fonográfica do cantor e compositor mineiro - quando disparou Tiro de misericórdia em 1977 pela mesma gravadora RCA Victor que editara seu primeiro álbum em 1973. Gravado sob a direção artística de Durval Ferreira, com coordenação do então emergente produtor Rildo Hora, este álbum obteve menor adesão popular - ainda que o bolero Bijuterias tenha sido propagado em escala nacional na abertura da novela O astro (TV Globo, 1977 / 1978) - mas confirmou a fina sintonia entre as músicas de Bosco e as letras de seu parceiro Aldir Blanc. Parceria que já nascera pronta, no auge, em 1972 e que teve reiterada sua perfeita sincronia entre versos e melodias neste certeiro Tiro de misericórdia, álbum enfim reeditado em CD, via gravadora Kuarup, neste mês de outubro de 2014. Bosco e Blanc assinam todas as onze músicas deste disco que atingiu seu alvo ao captar as tensões urbanas dos tempo da fera. É um disco que parece ter nascido de birra, de teimoso, para parir uma radiografia do cotidiano duro das quebradas. Musicalmente, o disco alterna sambas - alguns com berros que evocam o grito sufocado da Mãe África - e canções aboleradas. Conceitualmente, o álbum começa com o nascimento retratado no samba Gênesis (Parto) e se encerra com a morte sem misericórdia do menino de 13 anos que protagoniza a narrativa épica do grande samba que batiza Tiro de misericórdia com visão premonitória dos jogos de poder que seriam armados nas comunidades e também da prosódia meio falada que daria o tom rapeado do discurso nas quebradas da vida. Entre um e outro samba, Bosco põe o bloco na rua em Plataforma com recado cifrado de Blanc para seus opressores - "Não dá ordem ao pessoal / Não traz lema nem divisa / Que a gente não precisa / Que organizem nosso Carnaval" - e divide com Cristina Buarque o enredo do samba Vaso ruim não quebra. Um clima de gafieira desanuvia - um pouco - o ar que pesa em Sinal de Caim e em todo o disco. "... E mesmo diante da hora fatal / O amor / Me dará forças / pro grito de Carnaval / Pro canto do cisne / Pra gargalhada final", relativizava Bosco em verso de Falso brilhante, música que batizara o show apresentado por Elis Regina (1945 - 1982) - cantora que avalizou de imediato a parceria de Bosco com Blanc - de dezembro de 1975 a fevereiro daquele ano de 1977 em que Bosco disparou Tiro de misericórdia com boleros (Tabelas) e sambas (Me dá a penúltima, típico samba de morro que evoca a estirpe da produção da Velha Guarda) que podem não ter repetido o sucesso de músicas de discos anteriores, mas que se encaixaram com perfeição na narrativa deste álbum tenso que pôs em campo, em sambas como Jogador, os dribles de vida e morte naqueles Tempos do onça e da fera (Quarador), explicitados já no título de outro samba do disco que chega ao CD com capa e contracapa originais e com as letras reproduzidas no encarte. Mais denso do que os dois belos álbuns anteriores de Bosco, Tiro de misericórdia reabriu feridas e expôs as fraturas de uma cidade que já se partia na cisão de morro e asfalto.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Donatinho é parceiro de Onete e Rita Benneditto em seu CD solo 'Zambê'

Tecladista com atuação relevante em discos e shows da cena contemporânea do Brasil, em especial da carioca, Donatinho se prepara para lançar seu primeiro álbum solo, Zambê. No disco, o músico - em foto de Vassia Tolstoi - apresenta parcerias com Rita Benneditto (Janaína), Dona Onete (Dança dos urubus, música assinada também por Kassin) e Maria Joana (Ladeira do samba). Zambê investe na mistura da música regional brasileira com a música eletrônica. Ritmos como samba, choro, moda de viola, coco, ponto de candomblé, batuque indígena e carimbó são reprocessados com batidas de house, electro, trip-hop, hip hop e dub.

Alceu vai reeditar álbuns dos anos 1970 em vinil e lançar livro de poesias

Alceu Valença está cada vez mais multimídia. Enquanto divulga o filme A luneta do tempo, com o qual debuta na função de diretor de cinema, o cantor e compositor pernambucano - visto em foto de Daryan Dornelles postada na página do fotógrafo no Facebook - negocia para 2015 reedições de álbuns dos anos 1970 em vinil e se prepara para lançar seu primeiro livro de poesia. As reedições já estiveram na pauta de recente conversa do artista com a diretoria da gravadora Deck. Foram cogitadas as reedições em vinil, via Polysom, dos álbuns Molhado de suor (Som Livre, 1974), Vivo! (Som Livre, 1976) e Espelho cristalino (Som Livre, 1978). Já o livro se chama O poeta da madrugada e tem lançamento programado para o início de 2015 pela Chiado Editora, de Portugal. O livro reúne poemas escritos desde 1969 - ano de Poema branco - até 2014, além de letras de músicas que se sustentam poeticamente sem melodia, caso de Cambalhotas (Alceu Valença, 1984) e Sino de ouro (Alceu Valença, 1985).

Fundo de Quintal grava álbum de inéditas no Rio com produção de Rildo

Sem lançar CD de inéditas há três anos, o grupo carioca Fundo de Quintal grava o sucessor de Nossa verdade (Biscoito Fino, 2011). O disco - gravado no estúdio Cia. dos Técnicos, no Rio de Janeiro (RJ), com produção de Rildo Hora - marca o retorno ao grupo do vocalista e cavaquinista Mário Sérgio, que anunciou em 2008 sua saída do Fundo de Quintal para seguir carreira solo que não vingou. Neste álbum de inéditas, previsto para ser lançado em dezembro de 2014 pela LGK Music, o grupo se rende ao repertório da nova geração do samba, gravando músicas de Leandro Fab, Mauro Júnior (do Grupo Revelação), Pretinho da Serrinha, Picolé e de Renan Pereira, entre outros compositores que entraram na roda mais recentemente. Contudo, entre as 14 músicas do disco, há também sambas dos integrantes Mário Sérgio (cavaquinho e voz ), Ronaldinho (banjo e voz) e Sereno (tantã e voz), que formam o sexteto com Ademir Batera (bateria) e com os pioneiros Bira Presidente (pandeiro e voz)  e Ubirany (repique e voz).

Terceiro álbum de Ed Motta, 'Entre e ouça', retorna em vinil via Polysom

Terceiro álbum do cantor, compositor e músico carioca Ed Motta, Entre e ouça - disco lançado em 1992 pela Warner Music - ganha reedição em formato de vinil. Editado na série Clássicos em vinil, da Polysom, o LP vai chegar ao mercado fonográfico em novembro de 2014. Com dez músicas autorais, como Noir em tons pastéis e O nu que valeEntre e ouça foi álbum produzido pelo próprio Ed ao lado de Bom Bom, guitarrista e baixista da banda Conexão Japeri, com a qual o cantor se lançou no mundo da música em 1988 com o álbum que emplacou hits como Manuel e Vamos dançar. Em Entre e ouça, Ed Motta fez uso pela primeira vez de instrumentos de toque vintage - opção que seria recorrente em sua futura discografia.

Voz do Pará, Sinimbú soa leve e feminina em álbum feito com Donatinho

Resenha de CD
Título: Una
Artista: Juliana Sinimbú
Gravadora: Na Music
Cotação: * * * 1/2

Em seu primeiro álbum, Una, a cantora e compositora paraense Juliana Sinimbú não resiste a um ou outro elemento que, de tão recorrente em discos de intérpretes do Norte do Brasil, já virou clichê. Como a inclusão de uma música da veterana conterrânea Dona Onete, por exemplo. No caso do CD de Sinimbú, produzido por Donatinho com recursos obtidos pela artista no projeto Natura Musical, a música de Onete é Não me provoca, tema arretado e turbinado com solo de guitarra de Kassin. Contudo, Juliana Sinimbú escapa dos clichês e esbanja leveza feminina em Una. O toque regionalista é suavizado por essa leveza, ainda que o universo rítmico do Pará e da América Latina esteja evocado nos arranjos de músicas como Para tal um amor (Arrocha), tema meio brega abolerado que manda recado bem direto para o eleitorado masculino que sai do tom. A música é uma das seis composições de autoria de Sinimbú inseridas entre as 11 canções de Una. Na função de produtor do álbum, Donatinho convocou músicos de ponta da cena contemporânea carioca como o baixista Alberto Continentino, o baterista Stéphane San Juan e o já mencionado Kassin, cujo lap steel dá toque havaiano ao romantismo dengoso de Abraça (Juliana Sinimbú e Renato Torres). A presença desses músicos permitiu que o disco se equilibrasse com delicadeza entre o regionalismo nortista e o pop de sotaque universal, mérito de Donatinho. Faixa em si menos sedutora, Vodka (Juliana Sinimbú e Otto) fala de paixão embriagante com direito a versos embutidos pelo cantor e compositor pernambucano Otto no tema. Já Quero quero (Iva Rothe) flerta com o suingue africano à moda do desativado Obina Shock, grupo que esteve em evidência na segunda metade da década de 1980. Com carreira pavimentada desde a segunda metade dos anos 2000, Sinimbú deixa boa impressão em Una, álbum aberto com Clarão da lua (Almirzinho Gabriel) que - ao contrário da maioria dos discos - fica mais cativante na segunda metade. Delicadeza (Juliana Sinimbú) é bonita canção - gravada com cordas da Orquestra do Theatro Municipal do Rio de Janeiro (RJ) - que faz jus ao título, trocado no encarte do CD pelo nome de outra boa música de autoria de Sinimbú, Pra você voltar, canção que reitera a leveza elegante de Una e que celebra na letra os laços que unem artista e público. Ó (Marcella Belas, Helson Hart e Tenilson Del Rey) é outra música luminosa que combina suingue e leveza. No fim, abordagem do bolero light Nua ideia (Leila XII) (João Donato e Caetano Veloso, 1990) - feita com o piano de Donato - arremata álbum feminino que apresenta Juliana Sinimbú de forma muito promissora.

domingo, 26 de outubro de 2014

Ana grava show '#AC' em São Paulo com a música de Belchior no roteiro

A foto da Ag. News flagra Ana Carolina no palco do Citibank Hall de São Paulo (SP) na noite de ontem, 25 de outubro de 2014, na gravação ao vivo do show #AC. Dirigido por Monique Gardenberg, o show foi registrado para edição de CD ao vivo, DVD e blu-ray. Entre músicas de autoria da cantora e compositora mineira, o roteiro inclui as abordagens de Coração selvagem (Belchior, 1977) - o grande (merecido) sucesso do show - e de Fire (Bruce Springsteen, 1978).

Magro registra e comenta em livro vozes que deram relevância ao MPB-4

Resenha de livro
Título: Vozes do Magro MPB-4
Autor: Magor Waghabi
Editora: Bateia Cultura
Cotação: * * * *

Antônio José Waghabi Filho (14 de novembro de 1943 - 8 de agosto de 2012), o Magro, foi o responsável pela criação e sedimentação da identidade vocal do MPB-4. Desde 1963, ano em que se integrou ao então trio fluminense criado em 1962 em Niterói (RJ) ainda sem o nome MPB-4 (dado ao quarteto somente em 1964), Magro assumiu a segunda voz do quarteto e a função de harmonizar a sua voz com as vozes de Aquiles Reis, Miltinho e Ruy Faria (dissidente do grupo desde 2004). Em Vozes do Magro MPB-4, livro fundamental para quem se interessa por arranjos vocais, o artista registra e comenta de forma analítica as vozes que harmonizou para o MPB-4 nos 15 primeiros álbuns do grupo. O registro formal desse trabalho aparece ao fim do livro através da reprodução das partituras com os arranjos vocais de 17 gravações marcantes feitas pelo quarteto no período que abrange o álbum de estreia MPB-4 (Elenco, 1966) até o último LP, Vira virou (Ariola, 1980), abordado no livro. Álbum, aliás, pautado pela renovação no som e nas vozes da discografia do MPB-4, apontando os caminhos que seriam seguidos nos anos 1980. Os comentários das faixas de cada um dos 15 álbuns são intercalados no livro com causos e com depoimentos de artistas - Cynara (do Quarteto em Cy), Guinga, Leny Andrade, Oscar Castro Neves (1940 - 2013), Roberto Menescal, Sérgio Ricardo e Zé Renato, entre outros nomes - que tiveram suas trajetórias profissionais intercaladas com a de Magro em algum momento de suas carreiras. Guinga, por exemplo, foi lançado como compositor há 40 anos pelo MPB-4, que gravou duas músicas de sua então nascente parceria com Paulo César Pinheiro, Conversa com o coração e Maldição de Ravel, ambas no álbum Palhaços e reis (Philips, 1974). Além de ratificar a importância de Magro Waghabi, nome sempre bem quisto no meio musical pelo temperamento afável, a leitura de Vozes do Magro deixa entrever a importância da discografia do MPB-4 na segunda metade dos anos 1960 e ao longo de toda da década de 1970. No álbum Canto dos homens (Philips, 1976), por exemplo, o grupo lançou músicas de Gonzaguinha (1945 - 1991) e da dupla Milton Nascimento e Fernando Brant (Chão, pó, poeira e Moreno, respectivamente, sendo que a música de Gonzaguinha, presente do compositor para o grupo, também foi registrada pelo autor no mesmo ano de 1976). Sem tom didático, mas com informações curiosas sobre a combinação das vozes, as análises faixa-a-faixa de Magro são sedutoras porque o artista exerceu seu senso crítico na feitura dos comentários. Reconheceu seus inúmeros acertos no ofício de arranjador  do grupo - como na gravação de Morena dos olhos d'água (Chico Buarque, 1966), feita para o álbum MPB-4 (Elenco, 1967) - mas também atribuiu adjetivos negativos a arranjos que acreditava terem sido infelizes. Magro considerava, por exemplo, "esquisitas" as vocalizações da gravação de Cravo e canela (Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, 1971) feita pelo MPB-4 para o disco De palavra em palavra (Philips, 1971). Tais considerações foram ditadas pelo artista para sua mulher, Mônica Thiele Waghabi, no leito do hospital em que lutava contra o câncer que o fez sair de cena aos 68 anos. Na apresentação, Mônica - responsável por concluir o projeto do livro - afirma que Vozes do Magro é presente para o artista. Na realidade, esse presente se estende a todo leitor que tenha interesse pela história da MPB. Pois parte expressiva dessa história passa pela voz e pela mente criativa de Magro no ofício de arranjador de um grupo que lançou músicas importantes como Bilhete (Ivan Lins e Vitor Martins, 1980) e Angélica (Chico Buarque, 1978), apresentada pela primeira vez no show multimídia Cobra de vidro (1978), feito com o Quarteto em Cy (que teve a primazia de lançar Angélica em disco ainda naquele ano de 1978). Um grupo que fez sua própria história ao dar vozes a um repertório que concentra o melhor da MPB de sua época - e também de épocas que o precederam, como mostram os repertórios dos dois volumes do projeto Antologia MPB-4 (Philips, 1974 e 1977) - com inspiração vocal e com consciência social. As vozes do Magro ecoam na música brasileira.

Super Amarelo dá colorido pop ao indie rock dos 90 em 'For your babies'

Resenha de CD
Título: For your babies
Artista: Super Amarelo
Gravadora: Gangue do Beijo
Cotação: * * * 1/2
Disco disponível para download na plataforma BandCamp

 O título do primeiro álbum do trio alagoano Super Amarelo, For your babies, é o mesmo de um dos maiores sucessos do grupo inglês Simply Red. Mas não há ecos da canção For your babies (Mick Hucknall, 1991) - hit do álbum Stars (East West Records, 1991) - entre as 10 músicas cantadas em inglês desenvolto pelo trio de Maceió (AL) no álbum lançado neste mês de outubro de 2014. Formado por Gabriel Duarte (voz e guitarra), Marcos Guitarra (guitarra) e Rodolfo Lima (bateria) em meados dos anos 2000, o trio Super Amarelo está mais para Sonic Youth - como mostra a faixa Starfuck - do que para Simply Red. O som do grupo ecoa o indie rock da década de 1990, mas com forte colorido pop, como sinaliza Sparkling light, balada aditivada com as mesmas distorções embutidas no arranjo de Turn around. For your babies bebe dessa rica fonte que mata a sede de fãs do gênero em rocks como Post punk x-man, destaque de álbum pautado pelo apuro instrumental do trio. O som azeitado do trio permite que um tema como Icekiss não derreta o interesse do ouvinte até a entrada dos vocais quando a faixa já contabiliza dois minutos e 20 segundos. Saborosa, Sugar pie têm o glacê pop que cobre o indie rock do Super Amarelo. Everywhere I look aroundPam pam pamOctober 12 reiteram o fato de que as guitarras distorcidas de For your babies se harmonizam com melodias de apelo popular para sócios do clube do rock. No fim, sedutora canção que parece captada em luau, Everything is alright forever, sedimenta a boa impressão deixada pelo Super Amarelo com o seu álbum de estreia For your babies, mais para Pavement do que Simply Red. 

Em cena, Soraya e LiberTango irmanam paixões brasileiras e 'hermanas'

Resenha de show
Título: LiberTango & Soraya Ravenle
Artistas: LiberTango & Soraya Ravenle (em foto de Rodrigo Goffredo)
Local: Theatro Net Rio (Rio de Janeiro, RJ)
Data: 20 de outubro de 2014
Cotação: * * * 1/2

"O corpo canta, o sangue uiva (...), o homem escuta". Nas vozes da cantora Soraya Ravenle e da pianista Estela Caldi, as palavras do livro Romance do desterro (1926), do escritor espanhol Miguel de Unamuno (1864 - 1936),  abrem o show feito por Ravenle com o trio carioca LiberTango e traduzem o espírito deste recital centrado no tango. Em cena, as paixões do ritmo portenho se irmanam com o tom passional de músicas de compositores brasileiros, criadores de canções tão dramáticas quanto os melhores tango argentino. No fecho do bis desse show nascido de convite do grupo para a cantora participar do Festival internacional de tango produzido pelo Centro Cultural do Banco do Brasil em 2013, o samba-canção Nunca (Lupicínio Rodrigues, 1952), por exemplo, é apresentado nesse universo de tintas fortes com certa naturalidade. Já a inserção de Cristal lilás (Maurício Carrilho e Paulo César Pinheiro, 2011), samba que Ravenle já havia transformado em tango em seu álbum Arco do tempo (Biscoito Fino, 2011), soa totalmente natural. Cantora projetada nos palcos dos musicais de teatro encenados no Rio de Janeiro (RJ), Ravenle é intérprete segura, capaz de realçar a dramaticidade entranhada na alma de tangos como Los pájaros perdidos (Astor Piazzolla e Mario Trejo,1947). Sua interpretação do tango Por una cabeza (Carlos Gardel e Alfredo le Pera, 1935), ao fim do show, por exemplo, é digna dos melhores registros desse standard do gênero. Já o LiberTango - trio formado pela pianista Estela Caldi com seus filhos Alexandre Caldi (saxofone e flautas) e Marcelo Caldi (acordeom e piano) - vem se destacando pela maestria exemplar com que tem investido no repertório hermano, sobretudo no cancioneiro emblemático do bandoneonista e compositor argentino Astor Piazzolla (1921 - 1992), nome recorrente no roteiro, sobretudo na parte instrumental do show, quando o grupo fica em cena sem Ravenle. Nesse bloco instrumental, Años de soledad (Astor Piazzolla, 1974) se diferencia por ser tema moldado para saxofone. Há também a lembrança de Ernesto Nazareth (1863 - 1934), compositor carioca que criou, nos primeiros anos do século XX, estilo genérico de música rotulada como tango brasileiro. De Nazareth, o LiberTango toca Nove de julho (1917). Na parte vocal, o dueto de Soraya com Estela Caldi em El coranzón al sur (Eladia Blázquez, 1976) prima pela harmonia. Já a abordagem de Rosa dos ventos (Chico Buarque, 1971) soa quase forçada, em que pese a intensidade dos versos da canção associada à voz dramática de Maria Bethânia. Entre textos divididos com os integrantes do LiberTango, Ravenle expõe a relação do tango com a música judaica, dando voz na sequência a dois temas do cancioneiro judaico, Gey ich mir shpatzirn e a popular Balalaika. De todo modo, é quando revivem tangos argentinos, a sós ou juntos, que Ravenle e o LiberTango mais se afinam neste show dramático.

Com LiberTango, Soraya dá voz a temas passionais de Chico e Lupicínio

Duas músicas de autoria dos compositores brasileiros Chico Buarque e Lupicínio Rodrigues (1914 - 1974) - Rosas dos ventos (1971) e o samba-canção Nunca (1952), respectivamente - foram escritas no tom passional que caracteriza o tango. Por isso mesmo, ambas foram inseridas no roteiro e no universo do show que a atriz e cantora fluminense Soraya Ravenle tem feito com o grupo carioca LiberTango, formado pela pianista Estela Caldi com os músicos Alexandre Caldi e Marcelo Caldi. Especializado no ritmo argentino, o trio de virtuoses se conectou a Ravenle quando a convidou para participação no Festival internacional de tango, produzido em 2013 para a programação do Centro Cultural do Banco do Brasil. A parceria gerou show que, de acordo com planos dos artistas, vai ganhar registro em CD. Neste show, apresentado no Theatro Net Rio em 20 de outubro de 2014, os músicos e a cantora revivem tangos do bandoneonista e compositor argentino Astor Piazzolla (1921 - 1992) - referência universal no universo desse ritmo portenho - entre tangos da compositora e pianista Eladia Blázquez (1931 - 2005), temas judaicos, canções brasileiras e textos de escritores como o espanhol Miguel de Unamuno (1864 - 1936) e o brasileiro Machado de Assis (1839 - 1908). Eis o roteiro seguido por Soraya Ravenle - em foto de Rodrigo Goffredo - com o grupo LiberTango no show apresentado no Theatro Net Rio, no Rio de Janeiro (RJ), em 20 de outubro de 2014:

*  Trecho do livro Romance do desterro (1926), de Miguel de Unamuno
1. Si Buenos Aires no fuera así (Eladia Blazquez, 1973)
2. Vuelvo al Sur (Astor Piazzolla e Fernando Solanas, 1988)
3. Los pájaros perdidos (Astor Piazzolla e Mario Trejo,1947)
*  Texto Parideiras (Soraya Ravenle e Estela Caldi, 2013)
4. Pobre mi negra (motivo popular argentino) /
5. Chiquilín de Bachín (Astor Piazzolla e Horacio Ferrer, 1969)
6. El coranzón al sur (Eladia Blázquez, 1976)
*  Texto Pneumotórax (Manuel Bandeira, 1930)
7. Bandoneon (Astor Piazzolla, 1975)
8. Otoño porteño (Astor Piazzolla, 1969)
*  Texto baseado no conto O homem célebre (1883), de Machado Assis
9. Nove de julho (Ernesto Nazareth, 1917)
10. Años de soledad (Astor Piazzolla, 1974)
11. Libertango (Astor Piazzolla, 1974)
12. Cristal Lilás (Paulo César Pinheiro e Maurício Carrilho, 2011)
*    Texto livre sobre a origem judaica e o tango (Soraya Ravenle)
13. Gey ich mir shpatzirn (tema judaico)
14. Balalaika (motivo popular judaico)
15. Rosa dos ventos (Chico Buarque, 1971)
16. Por una cabeza (Carlos Gardel e Alfredo le Pera, 1935)
Bis:
17. Boedo (Dante Linyera e Julio de Caro, 1928) 
18. Nunca (Lupicínio Rodrigues, 1952)

Pethit badala 'Quero ser seu cão', o segundo single de seu terceiro álbum

Após uma balada, um rock abusado e condizente com o título do álbum Rock'n'roll sugar darling. Quarta faixa do terceiro álbum do cantor e compositor paulistano Thiago Pethit, o rock Quero ser seu cão - de autoria do próprio Pethit - é o segundo single do disco produzido por Adriano Cintra e por Kassin. A música já faz no título referência explícita a um clássico do repertório do grupo norte-americano The Stooges, I wanna be your dog (Dave Alexander, Ron Asheton, Scott Asheton e Iggy Pop, 1969). Quero ser seu cão sucede a balada Romeo (Thiago Pethit e Hélio Flanders) na promoção do ótimo CD, cujo lançamento está programado para a primeira quinzena de novembro de 2014. Com vídeo já em rotação no YouTube, o single pode ser comprado no iTunes. Clique aqui para reler a resenha do álbum Rock'n'roll sugar darling.

sábado, 25 de outubro de 2014

Camila Honda vai do brega a Gonzagão em álbum produzido por Cordeiro

Camila Honda é cantora e compositora de origem paraense cuja árvore genealógica tem ramificações no Japão, país natal de seus avós. É por isso que a artista - que já viveu na Europa - define como brega japonês a música que abre seu primeiro álbum, Camila Honda, produzido pelo cantor, compositor e guitarrista Felipe Cordeiro, conterrâneo cult de Honda. Destaque do disco, viabilizado com patrocínio do projeto Natura Musical e editado de forma independente neste segundo semestre de 2014, a música se chama Baile saudoso e é parceria da artista com Allan Carvalho. Quase inteiramente gravado no estúdio Casa da Lua, em São Paulo (SP), o CD Camila Honda tem sonoridade pop contemporânea e inclui no repertório regravações de Embaraço - música lançada por Felipe Cordeiro em seu segundo álbum, Pop kitsch cult (Independente, 2011) - e de Sabiá (Luiz Gonzaga e Zé Dantas, 1951). Honda também dá voz a uma música do repertório do Molho Negro, grupo paraense de garage rock. Aparelhagem de apartamento (Molho Negro e Camillo Royale) - a única faixa produzida por Arthur Kunz - foi originalmente lançada pelo grupo paraense em seu primeiro álbum, de 2012.

Elevada por Wisnik e Alê, Mariana emerge nas águas do álbum 'Desejo'

Resenha de CD
Título: Desejo
Artista: Mariana de Moraes
Gravadora: Biscoito Fino
Cotação: * * * 1/2

Terceiro álbum solo de Mariana de Moraes, lançado neste mês de outubro de 2014 pela gravadora Biscoito Fino, Desejo é o título mais expressivo da discografia dessa cantora carioca de voz pequena, mas muito bem colocada no CD produzido por Alê Siqueira e Marcelo Costa sob a direção artística de José Miguel Wisnik. Aos 45 anos de vida e 30 de carreira, iniciada como atriz nos anos 1980, a artista emerge como cantora, elevada pelo trio que formatou esse álbum que versa sobre águas, amores e areias, tendo sido gravado em fevereiro de 2012 no litoral da Bahia. Na época da gravação, três músicas - A liberdade é bonita (Jorge Mautner e José Miguel Wisnik, 2014), Motivos reais banais (Adriana Calcanhoto e Waly Salomão, 2014) e Morro, amor (Caetano Veloso e Arnaldo Antunes, 2013) - eram inéditas. Com o hiato de dois anos e meio entre a gravação e a edição do disco, as três ganharam registros fonográficos - de Celso Sim, Adriana Calcanhotto e Arnaldo Antunes, respectivamente - em CDs já lançados previamente. Mas pouco importa o fato de nenhuma das 14 composições ouvidas nas 13 faixas de Desejo ser inédita. A costura inusitada do repertório - bem alinhavada pelos atabaques, programações, violões e pianos arranjados de forma coletiva pelos produtores com os músicos do disco e com a própria Mariana de Moraes - é que torna Desejo um disco bem amarrado. Se é pecado sambar, como questionou o título do CD lançado pela artista em 2001 nos Estados Unidos, a cantora jamais irá para o céu, pois Desejo cai bem no samba de distintas estirpes e vertentes. Engomadinho (Pedro Caetano e Claudionor Cruz, 1942) é o samba faceiro à moda carioca de Aracy de Almeida, sua intérprete original. É um samba que encobre o manto escuro da desilusão com a luz de um novo amor. Música embalada pelas cordas orquestradas por Lincoln Olivetti, Vai e vem (Amor de Carnaval) também se ilumina ao fluir na cadência bonita do samba em gravação que dá vida a uma música de Guilherme Arantes com Nelson Motta que passara despercebida num dos álbuns mais fracos de Arantes, Lótus (Som Livre, 2007). A leveza da leitura de Mariana está em sintonia com versos que celebram a fugacidade das paixões folionas. Outro acerto é pôr Mãe d'água e a menina (Dorival Caymmi, 1985) na roda do samba do Recôncavo Baiano. Emerge nessa faixa uma baianidade nagô que também sustenta - no caso, com a levada do samba-reggae - Flor do Cerrado (Caetano Veloso, 1974), música que já desabrochou em toda sua beleza na gravação referencial feita por Gal Costa para o álbum Cantar (Philips, 1974). Música também gravada por Gal, mas composta por José Miguel Wisnik para a trilha sonora que criou com Tom Zé para balé estreado há 20 anos pelo Grupo Corpo, Assum branco (1994) voa na pegada do baião, com o toque da sanfona de Dominguinhos (1941 - 2013), estreitando musicalmente os laços com Assum preto (Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira), já reforçados de forma poética nos versos da letra. Com aura bossa-novista, alimentada pelo violão de Marcelo Miranda e pelos assovios do tecladista Mikael Mutti, Morro, amor - a parceria com Caetano Veloso que Arnaldo Antunes registrou em seu álbum Disco (Rosa Celeste / Radar Records, 2013) - põe a paixão em palco de teatro em letra que prepara o clima para Cacilda (José Miguel Wisnik, 1997), a faixa seguinte, ponto raso no mar de significados que abarca Desejo. Cantada por Mariana de forma meramente correta, com o piano de Wisnik, Cacilda é canção talhada para intérpretes que alcançam com a voz toda uma dimensão dramática que inexiste no canto de Mariana de Moraes. Essa ausência de teatralidade - não um defeito em si, mas uma característica da cantora - dilui a lamentosa carga poética entranhada nos versos de Amor em lágrimas (Claudio Santoro e Vinicius de Moraes, 1957 / 1960), música entoada por Mariana somente com o piano de Wisnik. Desejo se banha em outras praias de forma mais feliz. Pela sagacidade dos produtores do disco, os tambores que ressoam na abertura do CD com a lembrança da Mãe África na cubana Tabu (Margarita Lecuona, 1934) - lembrança sagazmente sublinhada com a adição na faixa do afro-samba Canto de Iemanjá (Baden Powell e Vinicius de Moraes, 1966) - se harmonizam com o batidão do funk carioca que, no fecho do disco, celebra a alegria da vida em A liberdade é bonita (Jorge Mautner e José Miguel Wisnik, 2014). Mesmo que Veleiro azul (Luiz Melodia e Rúbia Mattos, 2006) navegue desbotado, Desejo é álbum interessante que deixa as cores de outra cor - para parafrasear verso de Cá já (Caetano Veloso, 1976) - nessas águas em que Mariana de Moraes se banha com frescor, emergindo, enfim, como cantora digna de atenção.

'Mantra' anuncia o terceiro álbum do Maglore, que sairá via Deck em 2015

 Como incentivo pela vitória em concurso entre artistas emergentes promovido em 2013 por emissora de rádio de São Paulo, o grupo baiano Maglore teve patrocinada - neste ano de 2014 - a gravação de uma música inédita. De autoria de Teago Oliveira, vocalista e guitarrista da banda, a música se chama Mantra e tem produção assinada por Rafael Ramos. A proximidade com Ramos conduziu o Maglore à gravadora carioca Deck, que vai editar o terceiro álbum do grupo - sucessor de Veroz (2011) e de Vamos pra rua (2013) - no primeiro semestre de 2015.

Disco póstumo de inéditas 'Ele vive' pouco acrescenta à obra de Taiguara

Resenha de CD
Título: Ele vive
Artista: Taiguara
Gravadora: Kuarup
Cotação: * * 

 Revirar o baú de cantores e compositores que já saíram de cena é tarefa a que a indústria fonográfica mundial se dedica com afinco. Exumações de obras geram discos póstumos que, em geral, pouco ou nada acrescentam às discografias dos artistas vítimas dessa exploração comercial. Ele vive - CD póstumo de inéditas do cantor e compositor Taiguara Chalar da Silva (9 de outubro de 1945 - 14 de fevereiro de 1996) - não veio ao mundo neste mês de outubro de 2014 por ganância. Fora do esquema predador que move a indústria do disco e da saudade, a gravadora Kuarup fez no disco Ele vive - sob a direção musical do produtor Pedro Baldanza - um trabalho de expansão da obra e da memória deste guerrilheiro urbano da canção, artista de origem uruguaia e criação brasileira. Infelizmente, a qualidade do repertório não faz jus ao legado de Taiguara. O que se ouve entre as onze inéditas - apresentadas ao público através de restauração de registros caseiros encontrados em fitas cassetes - são músicas com melodias fracas, compostas em épocas distintas e finalizadas para o disco com o acréscimo de bases instrumentais às vozes do cantor. Mesmo que a ideologia firme do artista pulse com força em letras como a de Conflito (Sexo escravo), libelo contra a exploração sexual da mulher, a fraqueza das melodias dilui o vigor dos versos. Não é por acaso que Manhã na Candelária - canção de cunho político - foi feita para Beth Carvalho, mas jamais foi gravada pela cantora carioca (rigorosa na seleção do repertório de seus discos). "Ninguém quer mais sambar para miséria aumentar e para sustentar bandido", dispara Taiguara em verso de Guerra pra defender, samba pouco empolgante. Entre músicas censuradas e esquecidas pelo próprio Taiguara, caso de Alba Esperanza (1974), duas ostentam centelhas da luz que iluminou um dos cancioneiros mais engajados da MPB surgida nos anos 1960. Trata-se de Moça da noite - tema no qual volta a bater na tecla da exploração da mulher em sociedade machista em gravação que parece inacabada (a faixa termina em fade out) - e de Ele vive. A propósito, a música-título Ele vive foi composta em tributo ao líder socialista Luiz Carlos Prestes (1898 - 1990), outra amostra de como Taiguara usava sua música valente na luta contra a opressão social e política. Única das onze inéditas do disco composta em parceria (no caso, com versos do poeta Sergio Napp), Te quero - canção composta para a atriz, cantora e cineasta Vanja Orico, amiga de Taigura - embaralha amor e política em versos apaixonados como "Te quero porque me ensinas justiça e liberdade".  As quatro inéditas restantes - Sou negro, Tomou rebeldia (samba de formato bem convencional), O catador de milho e Sou Samora Potiguara - corroboram a sensação de que o valor do CD Ele vive é meramente documental. Impressão reforçada pela audição das quatro músicas-bônus, captadas ao vivo em show do artista no Teatro João Caetano, no Rio de Janeiro (RJ). Entre sucessos como Hoje (1969) e Universo no teu corpo (1970), ouve-se Taiguara dar voz a Outubro (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1967), música sintonizada com o espírito politizado de Taiguara, guerrilheiro da canção que tirou do lamento um novo canto, contando sua história até sair de cena, aos 50 anos. Embora este CD póstumo pouco faça para a preservação de sua memória musical, Taiguara Chalar da Silva vive.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Virgínia canta Tiganá, Mendes e Moacir no quinto álbum, 'Mama Kalunga'

Previsto para ser lançado em março de 2015, o quinto álbum da cantora baiana Virgínia Rodrigues, Mama Kalunga, traz no repertório músicas que celebram os rituais afro-brasileiros da umbanda e do candomblé, além do samba-chula, ritmo da Bahia pouco difundido pelo Brasil. No disco, a intérprete - em foto de Ana Quintella - dá sua voz privilegiada, de tom lírico, a temas de Moacir Santos (1926 - 2006), Roberto Mendes e Tiganá Santana (autor da música-título Mama Kalunga), entre outros compositores linkados com sons da cultura negra brasileira.

Sambô tira cores de hits de pop e MPB em solução rala de samba e rock

Resenha de CD
Título: Em esdio e em cores
Artista: Sambô
Gravadora: Som Livre
Cotação: *  

Quase ao fim de seu primeiro álbum gravado em estúdio, o grupo paulista Sambô arma com o Trio Preto uma roda de samba. Nessa roda, os grupos revivem trinca de sucessos iniciais do cantor e compositor fluminense Martinho da Vila - O pequeno burguês (1969), Casa de bamba (1969) e Pra que dinheiro? (1968) - em clima de samba mesmo. É um caminho que, se tivesse sido seguido pelo Sambô no CD Em estúdio e em cores, talvez resultasse em um disco até convencional, mas certamente menos equivocado do que o álbum posto nas lojas pela gravadora Som Livre neste mês de outubro de 2014. No CD, produzido por Ricardo Gama, tecladista do Sambô, o grupo - criado em 2006 na cidade de Ribeirão Preto (SP) - apaga a gama de cores de leque variado de sucessos da música brasileira e do pop internacional. O Sambô dilui hits em solução rala de samba e rock. Em essência, o grupo põe tudo e todos em pagodão populista de clima roqueiro. O rock é evocado pela guitarra de Julio Fejuca. Mas, sem cerimônia, o Sambô traz até um sucesso dos Beatles, Come together (John Lennon e Paul McCartney, 1969), para o universo do pagode. Já a outra música do repertório dos Fab Four, Don't let me down (John Lennon e Paul McCartney, 1969), é menos agredida. Por mais que o disco tenha apelo popular, o nível das releituras é baixo. Não há um toque de fato original em nenhuma regravação. Tampouco um ganho. Há, sim, perdas e danos. Eu amo você (Cassiano e Silvio Roachel, 1970) - balada do primeiro álbum de Tim Maia (1942 - 1998) - perde sua alma soul. Primeiro hit de Beth Carvalho, Andança (Danilo Caymmi, Edmundo Souto e Maurício Tapajós, 1968) perde aquela levada irresistível que tornou a música um hit perene nas rodinhas e nos barzinhos. Primeiro sucesso de Hyldon como cantor e compositor, Na rua, na chuva, na fazenda (1973) perde seu romantismo e vira tão somente um pagode insosso quando posto na mesma roda de Tudo bem (Lulu Santos, 1984). Já Tempo perdido (Renato Russo, 1986) - primeiro single do segundo álbum da Legião Urbana, uma canção à moda introspectiva do grupo inglês The Smiths - ganha texto pretensamente filosófico recitado por Fernando Anitelli, tirando a letra original do foco absoluto. Com sua mistura uniforme de samba e rock, que nada tem a ver com o samba-rock dos anos 1970, o Sambô dilui até a simplicidade pop de Passe em casa (Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown, Marisa Monte e Margareth Menezes, 2002), um dos hits do primeiro e único álbum do trio Tribalistas. Girl on fire (Alicia Keys, Jeff Bhasker e Salaam Remi, 2012) perde o poder incendiário do refrão, cantado em tom de pagode. Enfim, o Sambô segue com fidelidade neste primeiro disco de estúdio a receita de sucesso que tem lhe rendido fama e público nos últimos anos. Pena que as cores de seu som e do canto do vocalista Daniel San sejam todas do mesmo tom. O de seu pouco exigente público.