segunda-feira, 30 de março de 2015

Terceiro disco de Pedro Miranda tem faixa com Caetano e tema de Babão

A IMAGEM DO SOM - Postada no Facebook, a foto mostra Caetano Veloso com o cantor, compositor e ritmista carioca Pedro Miranda em estúdio da cidade do Rio de Janeiro (RJ). O artista baiano participa do terceiro álbum solo de Miranda, ex-integrante do Grupo Semente. Idealizado com o título Samba original, o sucessor de Pimenteira (Independente, 2009) - disco elogiado publicamente por Caetano - está em fase de produção desde 2013 e tem lançamento previsto para este ano de 2015. No disco, Miranda faz conexões com músicos como o guitarrista Pedro Sá - da BandaCê, de Caetano - e o baterista Domenico Lancellotti. O repertório tem Mocotó com pimenta, samba dos compositores cariocas Geraldo Babão (1926 - 1988) e Zardino, já gravado por Almir Guineto em seu primeiro álbum solo O suburbano (Beverly / Copacabana, 1982), ora em catálogo.

Além de parceria com Moska, Catto põe inédita de Marina em 'Tomada'

Música lançada por sua compositora Marina Lima em shows, em 2013, mas ainda inédita em disco, Partiu integra o repertório do segundo álbum de estúdio de Filipe Catto, Tomada. Com lançamento previsto para o segundo semestre deste ano de 2015, o disco - produzido por Alexandre Kassin - também inclui no repertório a primeira parceria de Catto com Moska. A música se chama Depois de amanhã e está disponível na web desde julho de 2014 em gravação feita pelo cantor gaúcho radicado em São Paulo (SP)  - em foto do Canal Brasil -  para o projeto Studio 62.

Elba apresenta o 33º álbum, 'Do meu olhar pra fora', pela Coqueiro Verde

Com 12 músicas, selecionadas entre as cerca de 20 gravadas com produção de Luã Mattar e Yuri Queiroga, o 33º álbum da discografia oficial de Elba Ramalho, Do meu olhar pra fora, já está disponível no mercado fonográfico brasileiro com distribuição da Coqueiro Verde Records. A convite da cantora e da gravadora, o editor de Notas Musicais, Mauro Ferreira, assina o texto que apresenta o disco aos críticos e formadores de opinião. Release no jargão da imprensa. Eis o texto:

A visão livre de Elba Ramalho nos caminhos da música

Em um de seus melhores e mais arrojados discos, Do meu olhar pra fora, cantora exterioriza humanismo positivista com som pop contemporâneo formatado pelos produtores Luã Mattar e Yuri Queiroga

“O meu andar pelo mundo
É um andar bem profundo
Vai onde tem um forró
Uma alegria, uma dança
Meu coração não se cansa
De uma festa encontrar...”

Os versos iniciais da primeira das 12 músicas do 33º álbum da discografia oficial de Elba Ramalho, Do meu olhar pra fora, sintetizam a caminhada desta grande cantora do Brasil. Intitulada Olhando o coração, a música é uma parceria inédita de Dominguinhos (1941 – 2013) com Climério Ferreira que parece feita sob medida para o canto valente da Leoa do Norte. Olhando o coração é um perfeito cartão de visitas para introduzir este disco que marca a estreia de Elba na gravadora Coqueiro Verde Records. O acordeom de Rafael Meninão se harmoniza com as batidas eletrônicas do DJ Dolores e com os pífanos de Dirceu Leite num arranjo que remete ao balanço de ritmos como xote e baião com pegada pop contemporânea.

Mantida na pressão, essa sonoridade pop contemporânea é mérito do carioca Luã Mattar e do pernambucano Yuri Queiroga, os dois produtores que formataram Do meu olhar pra fora no estúdio Gigante de pedra, na cidade do Rio de Janeiro (RJ). Fruto da união de Elba com o ator e cantor Maurício Mattar, Luã cresceu e agora aparece como um produtor antenado, cheio de jovialidade e de  informações cruzadas com a de Yuri, que já havia trabalhado com Elba num dos álbuns da cantora mais aclamados pela crítica, Qual o assunto que mais lhe interessa?, de 2007. A sintonia entre a cantora e os produtores afinou um dos melhores e mais arrojados discos de Elba.

O título do álbum – Do meu olhar pra fora, extraído de versos da canção É o que me interessa (Lenine e Dudu Falcão, 2008) – traduz com precisão o espírito do disco e o momento de maturidade, de colheita, que pauta o canto livre de Elba. Feito com liberdade, palavra-chave para o entendimento desse trabalho, Do meu olhar pra fora expande o legado dessa celebrada intérprete de veia teatral que carrega a bandeira do seu Nordeste com orgulho e com independência desde os anos 1970, década em que migrou da Paraíba natal para a cidade do Rio de Janeiro (RJ) em busca de maior projeção como cantora. Mas que há muito já ficou maior do que o Nordeste.

Com as raízes fincadas na terra de Elba, mas com as antenas ligadas no mundo, Do meu olhar pra fora exterioriza o humanismo positivista que caracteriza não somente o canto da intérprete, mas também o discurso e a postura da cidadã diante da vida e do universo. Elba tem pregado sua fé católica no Bem e nos homens de bem. Sem procurar catequizar seu imenso público, a cantora vem imprimindo na sua música a harmonia e a paz que regem sua vida dentro e fora dos palcos e dos estúdios.

Mas paz, no dicionário de Elba, rima com festa, com dança, com alegria de viver. Formatado com gravações adicionais em estúdios de São Paulo (SP), Olinda (PE) e Recife (PE), Do meu olhar pra fora não nega a força de sua raça. “Vou fazê, vou fazê / Música pra enriquecer / Os corações e o planeta”, dá a pista nos versos arretados de Fazê o quê? (Pedro Luís), música lançada pelo coletivo carioca Pedro Luís e a Parede em seu primeiro álbum, Astronauta Tupy, de 1997. Esse misto de rap-repente com embolada ganha explosiva batida roqueira no arranjo que combina um naipe de metais em brasa com a guitarra de Paulo Rafael e as programações do DJ Dolores.

Na sequência, Só pra lembrar é uma parceria inédita do compositor paulista Dani Black com a cantora e compositora fluminense Zélia Duncan. O acento pop da faixa sublinha a pressão posta pelos produtores Luã Mattar e Lula Queiroga no arranjo moldado com cordas orquestradas por Ney Conceição e com flauta (do mestre nos sopros Dirceu Leite) que remete ao universo musical dos Pífanos de Caruaru (PE). Entre raízes e antenas, Elba dá sua voz maturada a versos que brilham como fachos de luz em escuridão existencial. Na faixa, a cantora celebra o amor, alento em tempo de esperanças cansadas.

Ao mesmo tempo em que faz a festa, com a explosão de energia que a tornou uma das cantoras de maior potência e animação no palco, Elba Ramalho traz também sossego e acalma pressas em mundo assombrado pelas sobras do passado e pelas sombras do futuro. Por isso, a oportuna lembrança de É o que me interessa (Lenine e Dudu Falcão, 2008) – uma daquelas baladas encantadoras nascidas da inspiração melódica do pernambucano Lenine, companheiro de Elba nas andanças atrevidas da Leoa – faz todo o sentido no disco. A harpa celestial de Cristina Braga sobressai no arranjo adequado ao tom mais sereno da canção.

Luxo em qualquer gravação, a harpa de Cristina Braga reaparece na faixa seguinte, Nossa Senhora da Paz (Clayton Barros, Emerson Calado, José Paes Lira, Nego Henrique e Rafael Almeida, 2002), música que traduz o olhar atual de Elba diante do mundo. Mas o tom celestial reside mais no sentimento posto pela cantora na interpretação dessa música lançada há 13 anos pelo já desativado grupo pernambucano Cordel do Fogo Encantado. Composição do  primeiro álbum do grupo, Nossa Senhora da Paz ganha feitio de oração no canto de Elba, mas o incendiário mix de tambores e guitarras do arranjo tem a pressão que é motor e marca pop do álbum Do meu olhar pra fora.

Instante de melancolia em álbum repleto de energia positiva, Contrato de separação reconecta Elba com o cancioneiro do cantor, compositor e sanfoneiro pernambucano José Domingos de Morais, o Seu Domingos – Dominguinhos, para o Brasil. O fato de três das 12 músicas do álbum Do meu olhar pra fora levarem a assinatura de Dominguinhos diz muito sobre a forte ligação que sempre uniu Elba ao herdeiro de Luiz Gonzaga (1912 – 1989), eterno Rei do Baião. Tanto que Elba chegou a gravar e assinar um álbum com Dominguinhos. Lançado em 2005, este disco teve repertório centrado no cancioneiro autoral de Seu Domingos. Foi uma espécie de best of da obra do sanfoneiro. Mas Contrato de separação não integrou o repertório desse disco. O que legitima a inclusão em Do meu olhar pra fora dessa canção doída de saudade, composta por Dominguinhos em parceria com sua então mulher Anastácia, lançada na voz sublime de Nana Caymmi em 1979 e ora revivida por Elba em registro valorizado pelo toque magistral do acordeom de Toninho Ferragutti. Esse acordeom tem o poder de evocar na faixa todo o rico universo musical de Dominguinhos. É como se o mestre estivesse na gravação, evocado pelas teclas manuseadas com precisão por Ferragutti.

Das três músicas de Dominguinhos cantadas por Elba em Do meu olhar pra fora, duas são inéditas em disco. Além de Olhando o coração, a outra novidade é Nos ares de Lisboa – Passarinho enganador, fado que mostra que, tal como o canto de Elba, a obra de Dominguinhos sempre cruzou oceanos rítmicos, sem fronteiras, embora esteja sempre associada ao universo musical da Nação Nordestina. Da lavra poética do compositor cearense Fausto Nilo, os versos da música são cantados por Elba em dueto com a portuguesa Carminho, a mais aplaudida cantora de fado da atualidade. A cumplicidade feminina das intérpretes é fundamental para realçar toda a beleza dessa canção que embute a melancolia típica dos fados na travessia que a conduz do sertão aos ares de Lisboa pelo toque do acordeom de Toninho Ferragutti, do bandolim de Armandinho e da viola portuguesa de Diogo Clemente, músico lusitano especialmente convidado para tocar no disco.

A rota pop universal do CD Do meu olhar pra fora inclui escala na Jamaica, feita através da Bahia. Árvore é iluminado reggae de autoria do cantor e compositor baiano Edson Gomes, lançado pelo autor em seu terceiro álbum, Campo de batalha, de 1991. Gomes é um dos artistas brasileiros mais compromissados com a ideologia positiva do reggae. Na gravação de sua música por Elba, os metais abrilhantam a abordagem da cantora. De certa forma, é como se a árvore do título simbolizasse a figura da própria Elba, balançando com suas raízes em suas andanças sobre a terra, munida de amor e música.

Inédita de Chico César, gravada por Elba com a participação do cantor e compositor paraibano, Patchuli perfuma o baile pop da cantora no toque vigoroso de metais orquestrados por Nilsinho Amarante. Nessa faixa, como em muitas outras do disco Do meu olhar pra fora, Elba parte do Nordeste para alcançar o mundo. E, nessa viagem pop por sons universais, o destino mais surpreendente é o apontado por La noyeé, música feita pelo compositor francês Serge Gainsbourg (1928 - 1991) há 44 anos para a trilha sonora do filme Romance de um ladrão (Iugoslávia / França / Itália, 1971). O criativo arranjo da faixa, que dialoga de forma moderna com as tradições da chanson française, é de Marcelo Jeneci, músico polivalente que toca piano, acordeom e cravo nessa gravação que se conecta, pelo idioma francês, como registro de La vie en rose (1945) - sucesso da cantora francesa Edith Piaf (1915 – 1963) – feito por Elba há 24 anos para um álbum em que também ampliou seus horizontes estéticos, Felicidade urgente, produzido em 1991 por Nelson Motta.

De Paris, o disco migra para a lama do mangue pernambucano, revolvida com a oportuna regravação de Risoflora (Chico Science, 1994), música menos badalada do primeiro álbum da banda pernambucana Nação Zumbi, pedra fundamental do movimento recifense dos anos 1990 batizado de Mangue Beat. Ao dar voz a Risoflora, Elba faz brotar uma pungente declaração de amor de um caranguejo arrependido que promete se regenerar. Para quem não sabe, Risoflora é música feita pelo compositor pernambucano Chico Science (1966 – 1997), mentor da Nação, para reconquistar o amor de uma ex-namorada, Maria Eduarda Belém, apelidada Maria Duda. Sem anular o romantismo, bissexto no universo incandescente do Mangue Beat, o arranjo da gravação de Elba é inserido em ambiência noise de progressiva intensidade.

No fim, Ser livre arremata o disco com o reforço do conceito de liberdade que pautou a criação do álbum Do meu olhar pra fora. A música é parceria inédita do bamba Arlindo Cruz com Zeca Pagodinho. Mas quem espera ouvir um samba – especialidade dos compositores cariocas – vai se deparar com uma canção de tom etéreo, viajante, condizente com a bela arte gráfica do disco, assinada por Daniel Edmundson. O arranjo de Ivo Senra foi urdido somente com o mix da guitarra de Luã Mattar com as programações e sintetizadores pilotados pelo próprio Senra.
 
“Vou romper de vez as algemas
(...)
Caminhar pelos bons caminhos
Num jardim com flor sem espinhos”.

Os versos de Ser livre se conectam com os de Olhando o coração pela mesma fina sintonia que liga as 12 músicas do disco. Em última instância, Do meu olhar pra fora é álbum conceitual sobre a caminhada de sua cantora ao longo de quatro décadas. Um andar atrevido que fez o canto bravo de Elba Maria Nunes Ramalho se fazer ouvir em todo o Brasil, desconstruindo a imagem masculinizada da mulher paraibana que estava enraizada no imaginário nacional com doses maciças de feminilidade, energia e valentia. Nascida em 17 de agosto de 1951, a Leoa sobreviveu na selva das cidades com uma voz que ganhou graves, maturidade, experiência e, sobretudo, liberdade nessa caminhada. Do meu ohar pra fora é fruto de tudo isso. É mais um firme passo de Elba Ramalho em direção ao infinito, ao eterno. Se os pés estão fincados nas suas raízes orgulhosamente nordestinas, as antenas captam os sinais do mundo e o espírito segue livre pelos caminhos do amor e da música.

Mauro Ferreira
Fevereiro de 2015

domingo, 29 de março de 2015

Gal oxigena coração magoado de Lupicínio sem obstruir artérias da obra

Resenha de show
Título: Ela disse-me assim - Canções de Lupicínio Rodrigues
Artista: Gal Costa (em foto de Rodrigo Goffredo)
Local: Vivo Rio (Rio de Janeiro, RJ)
Data: 28 de março de 2015
Cotação: * * * * *
Cronograma da turnê nacional do show Ela disse-me assim - Canções de Lupicínio Rodrigues:
23 de abril de 2015 - Teatro Positivo (Curitiba, PR)
26 de abril de 2015 - Teatro Castro Alves (Salvador, BA)
8 de maio de 2015 - HSBC Brasil (São Paulo, SP)

Gal Costa bombeia sangue novo para o coração magoado de Lupicínio Rodrigues (16 de setembro de 1914 - 27 de agosto de 1974) no show em que interpreta 20 das 214 músicas do cancioneiro dramático  do compositor gaúcho. Em vez de desconfigurar esse cancioneiro em nome da modernidade, a oxigenação da obra de Lupicínio por Gal jamais obstrui as artérias de um repertório em que correm amarguras, ódios e ressentimentos nas veias dos dramas conjugais cotidianos. Em bom português, Gal canta Lupicínio de forma moderna, mas jamais modernosa. Melodias e letras estão lá, em sua arquitetura original, mas com frescor e com o sangue novo injetado no cancioneiro pelos arranjos criados pela banda formada por Fábio Sá (baixo acústico e elétrico), Guilherme Monteiro (guitarra e violão), Pupillo (bateria) e Silva (teclados e violino). Na ficha técnica, a direção artística do show Ela disse-me assim - Canções de Lupicínio Rodrigues é atribuída a J. Velloso (idealizador do projeto patrocinado via Natura Musical) e a Marcus Preto. Pelo histórico musical de ambos, é possível supor sem erro que a arregimentação da banda - e, consequentemente, o caráter contemporâneo do show - é obra de Preto, cuja conexão com Gal já se revelara produtiva no belo show anterior da artista, Espelho d'água (2014). De todo modo, o diferencial é a voz de Gal, ainda única e viçosa - uma proeza, se levado em conta que a cantora vai completar 70 anos em setembro deste ano de 2015. Ao cantar Lupicínio, Gal reproduz o vigor detectado no disco Recanto (Universal Music, 2011) e no show homônimo de 2012. É uma Gal de pegada rocker, antenada, a todo vapor. Vingança (Lupicínio Rodrigues, 1951) - samba-canção lançado em disco pelo Trio de Ouro mas consagrado na voz da cantora paulistana Linda Batista (1919 - 1988) - é o ápice do show, o momento que vai ficar na memória, imortalizando a imagem de uma Gal passional que traduz no canto (de agudos lancinantes) e no gestual do corpo o tempestuoso estado emocional da personagem da canção, evocado também pelo arranjo noise que evolui para hard rock no toque da guitarra de Guilherme Monteiro. Gal está fa-tal. Já na abertura do show - em que se ouve trecho de Esses moços (Pobres moços) (Lupicínio Rodrigues, 1948) em ambiente climático criado com os sons tirados por Silva de seu sintetizador - fica claro que a cantora espanou qualquer eventual mofo posto em cima do cancioneiro de Lupicínio. Ao longo do roteiro, Gal vai ao inferno à procura de luz no fim do túnel afetivo em que se encontram as canções de Lupicínio, dramático cronista das dores de amores. Originalmente uma guarânia lançada em 1971 pela cantora paraibana Creusa Cunha (1934 - 1993), Judiaria (Lupicínio Rodrigues, 1971) ressurge roqueira na voz enérgica de Gal, em arranjo que reverencia a releitura punk da composição gravada por Arnaldo Antunes em seu segundo disco solo, Ninguém (BMG-Ariola, 1991). Embora tenha espírito rocker, o show abarca diversidade de ritmos no amplo leque estético aberto por roteiro que reapresenta joias raras recolhidas no baú de Lupicínio sem evitar os hits que o público quer ouvir. Homenagem (Lupicínio Rodrigues, 1961), por exemplo, se aproxima da praia do reggae, mas com vestido de bolero. Gal e banda acertam ao entender que a obra de Lupicínio - calcada no samba-canção, gênero melodramático que teve seu apogeu nos anos 1940 e 1950  - é, em essência, popular. Por isso, temas como Coisas minhas (Lupicínio Rodrigues, 1958) deixam a ótima impressão, no show de Gal, de que espectador-ouvinte está diante de contemporâneo vitrolão da periferia no qual, com um toque, pode-se expiar dor-de-cotovelo ao som de músicas geralmente tristes. São canções que ultrapassam rótulos - como disse Gal no palco da casa Vivo Rio para o público que testemunhou, embevecido, a estreia do show no Rio de Janeiro (RJ) na noite de ontem, 28 de março de 2015 - e que a cantora traz para o seu universo ao lado de quarteto fantástico. Superestimado como cantor e compositor, o capixaba Lúcio Silva brilha como piloto dos teclados, único instrumento ouvido em Volta (Lupicínio Rodrigues, 1957), samba-canção que Gal já gravara em 1973, numa década em que os tropicalistas revalorizaram o então esquecido cancioneiro de Lupicínio. A propósito, Quem há de dizer (Lupicínio Rodrigues e Alcides Gonçalves, 1948) representa no show oportuna lembrança de programa feito por João Gilberto na TV Tupi, em 1971, com Gal e seu parceiro tropicalista Caetano Veloso. Não por acaso, trata-se de número de voz e violão - o do guitarrista Guilherme Monteiro - em que Gal evoca a Gracinha dos tempos iniciais, tímida devota de São João. Há também algo da bossa sempre nova no violão tocado por Monteiro em Nunca (Lupicínio Rodrigues, 1952), música interpretada por Gal com a habitual perfeição vocal. Bem menos conhecido do que o hit Nunca, o samba-canção Fuga (Lupicínio Rodrigues, 1959) é uma bela joia que Gal lapida na pulsação do baixo intencionalmente distorcido de Fábio Sá e com a adição do toque do violino bissexto de Silva. Na sequência, outra pérola rara - o samba Que baixo! (1945), parceria de Lupicínio com o cantor, compositor e ritmista gaúcho Matheus Nunes (1920 - 1971), o Caco Velho - vira carimbó em ousadia estilística que reitera a habilidade de Gal e da banda para repaginar o cancioneiro de Lupi sem diluir melodias e letras. Já Paciência (Vou brigar com ela) (Lupicínio Rodrigues, 1961) é ambientada em clima de bossa tropical no toque do bongô percutido pelo baterista Pupillo, egresso da Nação Zumbi. Sem dar sinais de apatia vocal, Gal incorpora os dramas de "personagens à flor da pele que pagam preços altíssimos por suas paixões sem limites". Feita em cena por Gal, essa boa definição do universo dramático da obra de Lupicínio tem belo exemplo em Aves daninhas (Lupicínio Rodrigues, 1954), samba-canção lançado na voz noturna da cantora carioca Nora Ney (1922 - 2003). Com efeitos dos sintetizadores de Silva, Há um Deus (Lupicínio Rodrigues, 1957) ressurge épica entre versos atormentados por traições e falsidades enquanto Eu não sou louco (Lupicínio Rodrigues e Evaldo Rui, 1960) cai em suingueira moderna que evoca o tecnobrega paraense. Tormentos como o de Loucura (Lupicínio Rodrigues, 1957) - música conhecida pela gravação feita por Maria Bethânia para o álbum Mel (Philips, 1979) - se harmonizam no repertório do compositor com melancolia nostálgica, mote de canções em que o amor parece ser maldição, como pregam os versos desencorajadores de Esses moços (Pobres moços), música retomada por Gal ao fim do show em interpretação arrebatadora que sinaliza que, acima de oportunas modernidades, pairam sobre todas as coisas o brilho cristalino da voz da cantora e a força da obra do compositor. No bis, a guitarra climática de Guilherme Monteiro prepara a apoteose de Um favor (Lupicínio Rodrigues, 1972), número em que Gal interage com o público, cujo coro a cantora rege no arremate do bis com a toada Felicidade (Lupicínio Rodrigues, 1947). Entre uma música e outra, Exemplo (Lupicínio Rodrigues, 1960) - sucesso na voz do cantor Jamelão (1913 - 2008), também intérprete original da música-título Ela disse-me assim (Vai embora) (Lupicínio Rodrigues, 1959) - deixa no ar bela mensagem de que, apesar das mágoas, o triunfo está na permanência das uniões afetivas. Em estado de graça como cantora, Gal dá com precisão todos os recados diretos do compositor. Devidamente oxigenado e revitalizado, o coração magoado de Lupicínio Rodrigues bate outra vez...

Gal alinha dramas conjugais de Lupicínio em roteiro de hits e joias raras

Em 1945, o compositor gaúcho Lupicínio Rodrigues (1914 - 1974) firmou parceria com um artista conterrâneo conhecido como Caco Velho, nome artístico do cantor, compositor e ritmista gaúcho Matheus Nunes (1920 - 1971). O resultado dessa parceria foi o samba Que baixo!, lançado em disco naquele ano de 1945, em gravação feita pelo próprio Caco Velho. Título obscuro do cancioneiro dramático de Lupicínio Rodrigues, Que baixo! é uma das pérolas recolhidas por Gal Costa, J. Velloso e Marcus Preto para o roteiro do show Ela disse-me assim - Canções de Lupicínio. Sob a direção artística de J. e Preto, e na companhia de banda moderna formada por Fábio Sá (baixo acústico e elétrico), Guilherme Monteiro (guitarra e violão), Pupillo (bateria) e Silva (teclados e violino), a cantora baiana dá voz aos dramas conjugais da obra de Lupicínio Rodrigues em show patrocinado pelo projeto Natura musical que vai ser gravado ao vivo, para edição de CD, ao longo da turnê que estreou em 25 de março de 2015 na terra natal do compositor, Porto Alegre (RS), e que chegou à cidade do Rio de Janeiro (RJ) na noite de ontem, 28 de março, em apresentação que embeveceu o público que lotou a casa Vivo Rio. Sem evitar os clássicos do cancioneiro de Lupicínio, apesar da ausência sentida de Nervos de aço (1947), Gal dá voz a músicas conhecidas apenas pelos estudiosos da obra do compositor. Entre as pérolas raras, o roteiro do show reaviva os sambas-canção Homenagem - lançado em 1961 na voz do cantor carioca Silvio Caldas (1908 - 1998) - e Coisas minhas, apresentado em 1958 em gravação da cantora paulista Dircinha Batista (1922 - 1999). Gal também dá voz a Fuga (1959) - até então esquecido samba-canção lançado na voz do cantor carioca Orlando Silva (1915 - 1978) - e a Eu não sou louco, samba assinado por Lupicínio em parceria bissexta com o compositor carioca Evaldo Rui (1913 - 1954), lançado em disco em janeiro de 1950 pela cantora paulista Isaura Garcia (1919 - 1993) e revivido em 2014 por Elza Soares em interpretação performática que sobressaiu no show em que a cantora carioca celebrou o centenário de nascimento de Lupicínio. Eis o roteiro seguido em 28 de março de 2015 por Gal Costa - em foto de Rodrigo Goffredo - na estreia carioca do ótimo show Ela disse-me assim - Canções de Lupicínio Rodrigues na casa Vivo Rio:

1. Esses moços (Pobre moços) (Lupicínio Rodrigues, 1948) - trecho
2. Judiaria (Lupicínio Rodrigues, 1971)
3. Homenagem (Lupicínio Rodrigues, 1961)
4. Coisas minhas (Lupicínio Rodrigues, 1958)
5. Volta (Lupicínio Rodrigues, 1957)
6. Nunca (Lupicínio Rodrigues, 1952)
7. Fuga (Lupicínio Rodrigues, 1959)
8. Que baixo! (Lupicínio Rodrigues e Caco Velho, 1945)
9. Vingança (Lupicínio Rodrigues, 1951)
10. Paciência (Vou brigar com ela) (Lupicínio Rodrigues, 1961)
11. Quem há de dizer (Lupicínio Rodrigues e Alcides Gonçalves, 1948)
12. Aves daninhas (Lupicínio Rodrigues, 1954)
13. Ela disse-me assim (Vai embora) (Lupicínio Rodrigues, 1959)
14. Há um Deus (Lupicínio Rodrigues, 1957)
15. Loucura (Lupicínio Rodrigues, 1973)
16. Eu não sou louco (Lupicínio Rodrigues e Evaldo Rui, 1950)
17. Se acaso você chegasse (Lupicínio Rodrigues e Felisberto Martins, 1938)
18. Esses moços (Pobre moços) (Lupicínio Rodrigues, 1948)
Bis:
19. Um favor (Lupicínio Rodrigues, 1972)
20. Exemplo (Lupicínio Rodrigues, 1960)
21. Felicidade (Lupicínio Rodrigues, 1947)

DVD valoriza e justifica edição especial de álbum de samba de Maria Rita

Resenha de CD + DVD
Título: Coração a batucar - Edição especial
Artista: Maria Rita
Gravadora: Universal Music
Cotação: * * * *

Embora possa irritar quem já comprou o álbum lançado por Maria Rita há um ano, a edição especial do CD Coração a batucar (Universal Music, 2014) realmente avança em relação à edição original. A adição de um DVD - com nove números do show resultante do segundo disco de samba da cantora paulistana, making of e clipe da música Bola pra frente (Xande de Pilares e Gilson Bernini, 2014) - valoriza e justifica a reedição, ainda que a gravação audiovisual dirigida por Hugo Prata (na parte visual) possa tornar redundante um possível futuro DVD com o registro integral do show Coração a batucar. O fato é que Maria Rita já cai no samba com propriedade e desenvoltura. Coração a batucar já começa a delinear uma identidade para a cantora no universo do samba que somente fora esboçada no antecessor Samba meu (Warner Music, 2007), disco de tom mais popular. O que soou há oito anos como uma aventura musical de intérprete ainda à procura de um rumo já se revela uma opção artística feita com mais segurança. O fato de Maria Rita assinar a produção e a direção musical do disco e do show atesta essa segurança. Ela está formando sua turma no mundo do samba.  E, por mais que seus detratores neguem o óbvio, vê-se e ouve-se uma grande cantora no palco armado no estúdio Na Cena, em São Paulo (SP), em 6 de outubro de 2014. Uma cantora de antenada musicalidade que segura a onda do samba-jazz que põe Fogo no paiol (Rodrigo Maranhão, 2010) em relevo no roteiro coeso que rebobina o supra-sumo do repertório do disco de estúdio. É a grandeza da cantora que irmana pagode de cepa popular como Abismo (Thiago Silva, Lele e Davi dos Santos, 2014) - tema de tamanha vocação radiofônica que vai se tornar um dos próximos singles promocionais do disco - e samba de linhagem nobre como Rumo ao infinito (Arlindo Cruz, Marcelinho Moreira e Fred Camacho, 2014). Cabe ressaltar que a música-título Coração a batucar (Alvinho Lancellotti e Davi Moraes, 2010) - lançada por Maria Rita no álbum Elo (Warner Music, 2010) - se ambienta bem no clima do show, parecendo ter encontrado seu habitat natural. Entre momentos de beleza, como o contracanto do percussionista Marcelinho Moreira em Mainha me ensinou (Arlindo Cruz, Xande de Pilares e Gilson Bernini), o DVD do show Coração a batucar reitera que, se Maria Rita não nasceu no samba, como Clara Nunes (1942 - 1983) também não nasceu, o samba está nascendo nela. O que faz entender a presença do genial Letieres Leite - e de 21 integrantes do Rumpilezzinho, projeto infanto-juvenil do maestro baiano - no clipe de Bola pra frente (Xande de Pilares e Gilson Bernini), samba em que Maria Rita trilha caminhos harmônicos mais inusitados. O clipe foi gravado em Salvador (BA). Enfim, com filmagem requintada que valoriza o tom íntimo da apresentação feita somente para convidados, o DVD-bônus da edição especial de Coração a batucar mostra uma cantora firme e forte na opção pelo samba. Rita convence. Sim, senhor, o samba dela é muito bom.

Mariene lança música inédita em clipe e prepara DVD a ser feito na Bahia

Canção de autoria de Flávia Wenceslau, compositora paraibana radicada em Salvador (BA), Eu quero ir com você é a próxima música de trabalho da cantora baiana Mariene de Castro. Inédita em disco, Eu quero ir com você vai ser promovida por Mariene através de clipe gravado em Imbassaí, no litoral da Bahia. Belíssima, a canção de Flávia Wenceslau - compositora presente no roteiro do atual show de Maria Bethânia com a também inédita Silêncio - ecoa influências da obra autoral do compositor pernambucano Dominguinhos (1941 - 2013). Simultaneamente com a divulgação da canção de Flávia, já incluída no roteiro de seu show Colheita, Mariene já prepara seu terceiro DVD. A gravação ao vivo vai ser realizada no segundo semestre deste ano de 2015 em Salvador (BA) em show agendado dentro da programação de reinauguração do Parque da Cidade Joventino Silva.

sábado, 28 de março de 2015

Show 'Férias em videotape' confirma a grandeza de Mazzer como cantora

Resenha de show
Título: Férias em videotape
Artista: Simone Mazzer (em foto de Rodrigo Goffredo)
Local: Teatro Rival (Rio de Janeiro, RJ)
Data: 24 de março de 2015
Cotação: * * * * 1/2
Agenda do show Férias em videotape:
15 de abril de 2015 - Tom Jazz (São Paulo, SP)
16 de abril de 2015 - Teatro Paiol (Curitiba, PR)
23 e 24 de abril de 2015 - Circo Funcart (Londrina, PR)
29 de abril de 2015 - Bar Ocidente (Porto Alegre, RS)

"Babilônica!", gritou um espectador na plateia lotada do Teatro Rival. Hiperbólica, a saudação a Simone Mazzer foi referência ao fato de sua gravação do Tango do mal (Luciano Salvador Bahia, 2014) - uma das 12 músicas do primeiro álbum solo da cantora parananense, Férias em videotape (Pimba, 2015) - estar em rotação na trilha sonora da recém-estreada novela Babilônia. O entusiasmo da plateia fez parte do show realizado pela artista em 24 de março de 2015, no Rio de Janeiro (RJ). A noite era especial. Além de ser a estreia nacional do show Férias em videotape, a apresentação foi feita no dia em que uma reportagem com a cantora - publicada na capa do suplemento cultural de jornal carioca - revelou para público global o que alguns críticos e formadores de opinião já tinham detectado em 2012 na temporada feita pela artista no teatro Café Pequeno, na mesma cidade do Rio de Janeiro: Simone Mazzer é uma grande e necessária cantora. A apresentação do Teatro Rival confirmou para uns e revelou para outros a grandeza do canto dessa artista projetada inicialmente como atriz da Cia. Armazém de Teatro, mas que canta desde 1989. Ao longo de roteiro que distribuiu 20 músicas em 21 números, Mazzer eletrizou o público com interpretações teatrais, quentes, como a de Mente, mente (Robinson Borba, 1986), música que ganha ar flamenco no toque das castanholas percutidas pela própria cantora. É preciso ter personalidade forte para imprimir suas digitais numa música conhecida na voz de Ney Matogrosso. Mazzer tem e torna Mente, mente vibrante. E, quando a cantora se encontra em cena com a atriz, como na performance teatralizada de Parece que bebe (Itamar Assumpção, 1994), o resultado é memorável. O compositor paulista Itamar Assumpção (1949 - 2003), aliás, aparece duplamente no roteiro, pois também é o autor de música menos envolvente, Elza Soares (2010), cuja presença se justifica no show por evocar literalmente o nome da cantora que, no CD Férias em videotape, canta com Mazzer música, Essa mulher (Bernardo Pellegrini, 2015), que, no roteiro do show, vem na sequência de Elza Soares. A propósito, Mazzer acaba de lançar um ótimo disco. Mas seu show é ainda melhor porque é no palco que cantoras de tom teatral se mostram em toda sua plenitude dramática. Sob a direção musical do pianista Marcos Scolari, integrante da banda que inclui também o baixista André Bedurê e o guitarrista Ricco Viana, Mazzer ressalta o drama conjugal que há por trás da animação carnavalesca do samba Camisa listrada (Assis Valente, 1939) e mergulha nas perturbações existenciais expostas pela compositora norte-americana Fiona Apple, autora de Valentine (2012), música cantada por Mazzer na ainda inédita versão em português escrita por Maurício Arruda Mendonça, o compositor do blues Estrela blue, gravado por Mazzer no disco e cantado no show. Com habilidade para escolher repertório longe do trilho da obviedade, a cantora deu voz a um tema regionalista de Gilberto Gil - O amor aqui de casa (2000), de brasilidade abafada pela pegada rocker da banda  - sete números após ter se jogado na pista anos 1990 de Hyper Ballad (Björk, Nellee Hooper e Marius De Vries,1995). Entre um número e outro, Mazzer cantou - somente com a levada do violão de Ricco Viana - uma das baladas mais românticas do repertório do cantor britânico Joe Cocker (1944 - 2014), You're so beautiful (Billy Preston, Bruce Fisher e Dennis Wilson, 1974). Música do primeiro álbum de Angela Ro Ro, cantora e compositora carioca cuja obra arde na fogueira das paixões, Balada da arrasada (Angela Ro Ro, 1979) se ajustou com perfeição ao tom teatral de Mazzer e ao clima de cabaré que pauta o show Férias em videotape. No mesmo ponto de fervura, Vaca profana (Caetano Veloso, 1984) derramou leite bom na cara do público enquanto Sanguessuga & Serafim (Adriano Garib, 1992) espremeu mais gotas de sangue em forma verbal em número que evidenciou o fato de Mazzer cantar também com o corpo, mexido em sintonia com o toque nervoso da bateria de Eduardo Norato. No fim, I feel love (Donna Summer, Giorgio Moroder e Pete Bellotte, 1977) - sucesso da cantora norte-americana Donna Summer (1948 - 2012) na era dos dancin' days - tentou se afastar do arranjo visionário de Moroder e Bellotte sem deixar de evocá-lo. Foi o fecho festivo - antes do bis em que a cantora recaiu no mambo Babalu (Margarita Lecuona, 1939) com devoção ao arranjo do grupo paranaense Chaminé Batom - de noite em que Simone Mazzer se confirmou grande cantora.

Em cena, Mazzer adiciona Ro Ro, Caetano e Gil a 'Férias em videotape'

Com direito a um caco que incorpora à letra citação nominal do Buraco da Lacraia, point underground do bairro carioca da Lapa, Simone Mazzer transita pelos densos caminhos noturnos da Balada da arrasada - uma das músicas do irretocável primeiro álbum da cantora e compositora carioca Angela Ro Ro, lançado em 1979 - no roteiro de seu novo show, Férias em videotape. Destaque da estreia nacional do show, em apresentação que lotou o Teatro Rival (RJ) na noite de 24 de março de 2015, Balada da arrasada figura no roteiro ao lado de outras novidades na voz da cantora paranaense, casos de O amor aqui de casa (Gilberto Gil, 2000), de You're so beautiful (Billy Preston, Bruce Fisher e Dennis Wilson, 1974), de Vaca profana (Caetano Veloso, 1984) e de I feel love (Donna Summer, Giorgio Moroder e Pete Bellotte, 1977), hit da cantora norte-americana Donna Summer (1948 - 2012) em seu reinado na era da disco music. Apesar das novidades na voz potente e teatral da cantora e atriz, o roteiro do show está centrado no repertório do primeiro álbum solo de Mazzer, Férias em videotape, lançado neste mês de março de 2015 pelo selo Pimba, da gravadora Dubas Música. Aliás, o atual roteiro herda números do show de 2012 que gerou o disco produzido por Leonel Pereda. Todas as 12 músicas do CD estão no show. Eis o roteiro seguido em 24 de março de 2015 por Simone Mazzer - em foto de Rodrigo Goffredo - na estreia nacional do show Férias em videotape no Teatro Rival, no Rio de Janeiro (RJ), com os títulos das músicas, os nomes dos compositores e os anos em que elas foram lançadas em disco:

1. Férias em videotape (Elton Mello, Silvio Ribeiro e Simone Mazzer, 2015)
2. Mente, mente (Robinson Borba, 1986)
3. Tango do mal (Luciano Bahia, 2014)
4. Hyper ballad (Björk, Nellee Hooper e Marius De Vries,1995)
5. Elza Soares (Itamar Assumpção, 2010)
6. Essa mulher (Bernardo Pellegrini, 2015)
7. Camisa listrada (Assis Valente, 1939)
8. Estrela blue (Maurício Arruda Mendonça, 2015)
9. Valentine (Fiona Apple, 2012, em versão em português de Maurício Arruda Mendonça)
10. You are so beautiful (Billy Preston, Bruce Fisher e Dennis Wilson, 1974)
11. O amor aqui de casa (Gilberto Gil, 2000)
12. Back to black (Amy Winehouse e Mark Ronson, 2006)
13. Parece que bebe (Itamar Assumpção, 1994)
14. Balada da arrasada (Angela Ro Ro, 1979)
15. Vaca profana (Caetano Veloso, 1984)
16. Dei um beijo na boca do medo (Bernardo Pellegrini, 2015)
17. Sanguessuga & Serafim (Adriano Garib, 1992)
18. Você não sacou (Celso Fonseca e Ronaldo Bastos, 1997)
19. I feel love (Donna Summer, Giorgio Moroder e Pete Bellotte, 1977)
Bis:
20. Babalu (Margarita Lecuona, 1939)
21. Balada da arrasada (Angela Ro Ro, 1979)

Gadú anuncia chegada do terceiro CD de estúdio, 'cheio de amor pra dar'

"Novo álbum chegando, cheio de amor pra dar". Com essa frase sucinta, sem entrar em maiores detalhes, a cantora e compositora paulistana Maria Gadú anunciou ontem em sua página oficial no Facebook o lançamento próximo de seu terceiro álbum de estúdio. O sucessor de Mais uma página (Slap / Som Livre, 2011) vai chegar ao mercado fonográfico ainda neste primeiro semestre de 2015 em edição do selo carioca Slap distribuída pela gravadora Som Livre. Com repertório majoritariamente autoral,  o álbum está sendo produzido em São Paulo (SP)  desde o fim de 2014.

Enfim solo, Martin canta outras histórias e sons em 'Quando um não quer'

Resenha de CD
Título: Quando um não quer
Artista: Martin
Gravadora: Deck
Cotação: * * * 

Martin Mendonça sempre foi perfilado como o guitarrista da banda de Pitty. O que de fato ele é desde 2004. Mas, aos poucos, o artista baiano foi arriscando sair da sombra da patroa conterrânea. Em 2010, o compositor e músico apresentou álbum, Dezenove vezes amor (Independente), assinado com o baterista baiano Duda Machado. Na sequência, a partir de 2011, Martin obteve mais visibilidade ao formar com Pitty o duo de folk Agridoce, atualmente em recesso por tempo indeterminado. Talvez a exposição inevitável no Agridoce - cujo primeiro e (por ora) único álbum originou turnê de sucesso - tenha encorajado Martin a se lançar em carreira solo. Lançado neste mês de março de 2015 pela gravadora Deck, por enquanto em formato exclusivamente digital, o primeiro álbum solo de Martin, Quando um não quer, alinha nove músicas, sendo oito de autoria de Martin. A primeira impressão não é boa, por conta da disposição equivocada das nove faixas no disco. A levada pop folk que conduz Linda até estabelece conexão sutil com o som do Agridoce, mas o refrão de versos como "Linda, dona do meu pensamento / Mãe de todo o meu tormento" caberia mais numa canção popular radiofônica dentre as muitas compostas nos anos 1980 pela dupla de hitmakers Michael Sullivan e Paulo Massadas. Na sequência, Outra história é contada no compasso do rock, evidenciando que o canto é o ponto fraco do excelente guitarrista e (ainda) oscilante compositor. Não por acaso, o álbum está repleto de convidados que colaboram com Martin no canto das nove músicas. Contudo, o cantor paulistano Leo Cavalcanti - convidado de Algum lugar, faixa que se desenvolve num crescendo instrumental que culmina com zoeira hard - tampouco altera a apatia vocal (de parte) do álbum. Sem chamar atenção em O fimQuando um não quer começa a dizer a que veio e a engrenar a partir da quinta música, Mesmo, parceria de Martin com José Paes Lira. Vocalista do extinto grupo pernambucano Cordel do Fogo Encantado, Lirinha faz enérgico dueto com Pitty nessa faixa que evoca o som gutural do cantor e guitarrista norte-americano Josh Homme, motor da banda norte-americana Queens of the Stone Age e influência assumida de Martin. Única música não assinada por Martin, Coisas boas (Fabio Cascadura e Ricardo Flash Alves) mantém o disco na pressão, cantada por Martin com Chuck Hipólitho (da banda paulistana Vespas Mandarinas). Sun ilumina ecos do grunge na voz de Fabio Cascadura, parceiro de Martin no tema. Já o hard rock Caos se faz ouvir na multidão com a adesão de Jajá Cardoso, vocalista e guitarrista da banda baiana Vivendo do Ócio. Dos cinco minutos da faixa, os dois últimos são de pura porradaria instrumental. Aliás, no quesito instrumental, o disco - produzido pelo próprio Martin - é muito bem tocado. Tanto pelo criador do disco como por músicos como Pupillo (bateria), Duda Machado (também na bateria) e Marcelo Gross (bateria, guitarra e bandolim). No fim, o tema instrumental Rotina arremata o disco com delicadeza que contrasta com o peso de outras músicas, sinalizando o caráter multifacetado do som solo de Martin. O artista canta outras histórias em Quando um não quer sem se prender a um gênero específico. O que talvez contribua para que Martin Mendonça continue sendo apontado na mídia musical - sem demérito... - como o guitarrista da banda de Pitty.

sexta-feira, 27 de março de 2015

Coletânea 'É festa funk' põe na pista gravações de Anitta, Naldo e Sandra

Posta nas lojas pela gravadora Som Livre neste mês de março de 2015, a coletânea É festa funk - Non-stop junta no disco - e na pista - gravações de nomes como Anitta, Koringa, Ludmilla, Naldo Benny e até Sandra de Sá. Pioneira voz feminina dos bailes da pesada, a cantora carioca figura na compilação em Freneticão, fonograma dividido por Sandra com DJ Detonna, seu parceiro no tema. Já Anitta abre a compilação com Na batida (Jefferson Junior, Umberto Tavares e Anitta), hit de seu segundo álbum de estúdio, Ritmo perfeito (Warner Music, 2014). Ludmilla aparece na seleção com Sem querer, música de autoria da própria Ludmilla. Já Naldo Benny comparece com Te pego de jeito. Por sua vez, Koringa é o único nome ouvido em duas músicas, de sua autoria, Dance mais um pouco e Ostentando o amor, esta gravada com MC Bola. A festa funk também é animada ao som de fonogramas de MC Sapão (Doidelícia, de Sapão e Thiago Alves) e Mali (Se prepara, de Mali), entre outros nomes associados ao funk carioca de tonalidade mais pop e popular.

Jane dá voz à canção de Fátima Guedes em gravação para CD de Navas

A cantora paraense Jane Duboc gravou hoje à tarde no Drum Studio, no Rio de Janeiro (RJ), participação no décimo álbum do cantor paulistano Carlos Navas, Crimes de amor, já em fase de finalização. Na gravação realizada na tarde desta sexta-feira, 27 de março de 2015, Jane fez dueto com Navas em canção de Fátima Guedes, Óbvio, lançada na voz da cantora Juliana Martins em disco de 2003. Com som calcado nas cordas de violões e contrabaixos, o CD Crimes de amor tem lançamento previsto para maio, numa edição independente que vai ser distribuída pela Tratore.

Dez inéditas autorais vão dar na praia do terceiro álbum do carioca Cícero

Com foto de Daryan Dornelles na capa, o terceiro álbum do cantor e compositor carioca Cícero, A praia, já está disponível para download gratuito e legalizado no site oficial do artista. Sucessor de Sábado (Deck, 2013), A praia  alinha dez músicas inéditas e autorais formatadas pelo próprio Cícero nos estúdios El Rocha (em São Paulo - SP) e Tambor (no Rio de Janeiro - RJ) em produção dividida com Bruno Schulz. Cícero assina todas as músicas e letras de A praia. Pela ordem do CD lançado nesta última semana de março de 2015, as dez músicas de A praia são Frevo por acaso nº 2, A praia, Camomila, De passagem, O bobo, Soneto de Santa Cruz, Isabel (Carta de um pai aflito), Albatroz, Cecília & a máquina e Terminal Alvorada. Edição é independente.

Kim Lírio assina com Universal Music para lançar CD com Santa Hellena

Finalista da terceira temporada no programa The Voice Brasil, o cantor e compositor gaúcho Kim Lírio assinou esta semana o contrato que acordara com a gravadora Universal Music após a final do reality musical exibido pela TV Globo em 2014. Esse contrato prevê a edição pela Universal Music do CD gravado por Lírio com a banda gaúcha Santa Hellena desde fevereiro deste ano de 2015 no estúdio Soma, em Porto Alegre (RS). O repertório do disco de Kim Lírio & Santa Hellena inclui uns covers entre músicas autorais. Seguem a guerra e Viver por viver figuram entre as músicas autorais do disco. Lírio faz som calcado no rock, como mostrou ao público do The Voice.

quinta-feira, 26 de março de 2015

Com o fado na ponta da língua lusa, Jussara se banha em águas límpidas

Resenha de show
Título: Água lusa
Artista: Jussara Silveira (em foto de Rodrigo Goffredo)
Local: Theatro Net Rio (Rio de Janeiro, RJ)
Data: 23 de março de 2015
Cotação: * * * *

Foi na penumbra que Jussara Silveira abriu a apresentação carioca do show Água lusa cantando um dos mais belos fados de todos os tempos, Foi Deus (Alberto Janes, 1952), com sua voz límpida sendo emoldurada somente pelos sons sintetizados tirados pelo pianista Sacha Ambach dos teclados. Ali, naquele pungente número inicial, a cantora mineira (de vivência baiana) já ganhou o público que foi na noite de 23 de março de 2015 ao Theatro Net Rio, no Rio de Janeiro (RJ), assistir à estreia carioca do show baseado no disco Água lusa (Dubas Música / Universal Music, 2013). Neste álbum, Jussara se banhou de portugalidade ao dar sua voz a fados e a canções portuguesas que têm em comum o fato de terem versos do poeta Tiago Torres da Silva. Compositor, Tiago pôs novas letras em melodias de fados tradicionais como o Fado Margaridas, tema dos anos 1930 que, desde 2013, passou a se chamar também Na companhia de fadistas por conta da parceria póstuma de Tiago com o compositor português Miguel Ramos (1904 - 1982) lançada por Jussara no disco. Em cena, tendo como mote a própria língua portuguesa, Água lusa também abarca músicas brasileiras e temas angolanos gravados pela cantora em seus álbuns Ame ou se mande (Joia Moderna, 2011) e Flor bailarina (Maianga Discos, 2012), respectivamente. Uma das grandes cantoras do Brasil, Jussara Silveira não canta fado em tom magoado de dor e de pranto. Ao contrário, seu canto é delicado, mas, pelo filtro dessa suavidade, passam os sentimentos contidos em versos como os de Tenho dó das estrelas, escritos pelo poeta português Fernando Pessoa (1888 - 1935) e recentemente musicados pelo compositor paulista José Miguel Wisnik para feitura de canção de 2011, levada por Jussara no ritmo da morna, ritmo de Cabo Verde, país africano que se avizinha do Brasil pela lusofonia. Mesmo que tenha tropeçado nos versos da canção A voz do coração (Celso Fonseca e Ronaldo Bastos, 2011) e do fado Beijo alentejano (Carlos Gonçalves e Tiago Torres da Silva, 2013), Jussara jamais deixou de se portar em cena como a grande cantora que sempre foi. Jussara nunca perdeu a classe em cena, seja cantando clássico fado-canção como Confesso (José Galhardo e Frederico Valério, 1952), número feito sem a percussão sutil de Marcelo Costa, seja caindo no semba angolano em temas como Canta meu semba (Paulo Flores, 1996). Número de voz e piano (o de Sacha Amback), O mar fala de ti (Ernesto Leite e Tiago Torres da Silva, 2013) engoliu com sua beleza pungente qualquer eventual resistência dos espectadores ao nobre repertório português reunido por Jussara em roteiro que somente pareceu sair do tom em Babylon (Zeca Baleiro, 2000), já que a prosódia informal da canção de Baleiro se banha em outra praia, mais pop. Babylon foi um dos números cantados por Jussara com Emanuelle Araújo, convidada da apresentação carioca de Água lusa. Fora das águas movidas por seu grupo Moinho, a baiana Emanuelle mostrou boa presença vocal e cênica no canto de Doce esperança (Roberto Mendes e J. Velloso, 1992). O violonista Fabio Nin também entrou em cena, a partir de Meu amor abre a janela (Fado Santa Luzia) (Armando Machado e Tiago Torres da Silva, 2013), e permaneceu no palco na maior parte dos números, ajudando Jussara a harmonizar fados, canções e sembas com unidade, delicadeza e até algum humor, detectável no maroto Fado da contradição (João Nobre e Lourenço Rodrigues, 1957), tema do repertório da fadista Hermínia Silva (1907 - 1993). No fim, quando arrematou o bis com citação a capella de Maria particularmente (Luiz Melodia, 1991) quando já estava saindo de cena, Jussara Silveira sintetizou o espírito do show. Em Água lusa, o fado esteve (quase sempre) na ponta da língua (lusa) e o samba - ou o semba... - na ponta do pé, emergindo de águas límpidas.

'Água lusa' de Jussara abarca Brasil, Angola e Emanuelle na cena do Rio

Álbum lançado por Jussara Silveira há dois anos, Água lusa (Dubas Música / Universal Music, 2013) tem se esparramado pela cena nacional em belo show cujo roteiro abarca as músicas brasileiras do disco Ame ou se mande (Joia Moderna, 2011) e os temas angolanos do CD Flor bailarina (Maianga Discos, 2012) em arco que se completa pelo repertório ter em comum a língua portuguesa. No Rio de Janeiro (RJ), onde o show Água lusa aportou pela primeira vez no cais do Theatro Net Rio na noite da última segunda-feira, 23 de março de 2015, a cantora mineira (de criação baiana) misturou músicas desses seus três últimos álbuns em roteiro que também trouxe para a cena a voz da atriz e cantora baiana Emanuelle Araújo, convidada de Doce esperança (Roberto Mendes e J. Velloso, 1992) e de Babylon (Zeca Baleiro, 2000). No bis, Emanuelle voltou a se juntar com Jussara - e com o trio formado pelos músicos Fabio Nin (violão), Marcelo Costa (percussão) e Sacha Ambach (teclados) - para cantar o fado Coimbra (É uma lição) (José Galhardo e Raul Ferrão, 1947). Sagaz citação a capella de Maria particularmente, música lançada por Luiz Melodia em seu álbum Pintando o sete (PolyGram, 1991), arrematou e de certa forma sintetizou a costura do repertório do belo show em que a cantora une Portugal, Brasil e Angola. Eis o roteiro seguido por Jussara Silveira - com Emanuelle Araújo na foto de Rodrigo Goffredo - na estreia carioca de Água lusa no Theatro Net Rio, no Rio de Janeiro (RJ), em 23 de março de 2015:

1. Foi Deus (Alberto Janes, 1952)
2. A voz do coração (Celso Fonseca e Ronaldo Bastos, 2001)
3. Ifá (Cezar Mendes e José Carlos Capinam, 2011)
4. Tenho dó das estrelas (José Miguel Wisnik sobre poema de Fernando Pessoa, 2011)
5. Na companhia de fadistas (Fado Margaridas) (Miguel Ramos e Tiago Torres da Silva, 2013)
6. Meu amor abre a janela (Fado Santa Luzia) (Armando Machado e Tiago Torres da Silva, 2013)
7. Uma canção por acaso (Pedro Jóia e Tiago Torres da Silva, 2005)
8. Confesso (José Galhardo e Frederico Valério, 1952)
9. O mar fala de ti (Ernesto Leite e Tiago Torres da Silva, 2013)
10. Beijo alentejano (Carlos Gonçalves e Tiago Torres da Silva, 2013)
11. Fado da contradição (João Nobre e Lourenço Rodrigues, 1957)
12. Doce esperança (Roberto Mendes e J. Velloso, 1992) - com Emanuelle Araújo
13. Babylon (Zeca Baleiro, 2000) - com Emanuelle Araújo
14. Canta meu semba (Paulo Flores, 1996)
15. Lemba (José Manuel Canhanga, 2006)
16. Ramiro (Givago, 1989)
17. Cantiga do ladrão (Rão Kyao e Tiago Torres da Silva, 2013)
Bis:
18. Nem às paredes confesso (Artur Ribeiro, Francisco Ferrer Trindade e Maximiano de Souza, 1957)
19. Coimbra (É uma liçao) (José Galhardo e Raul Ferrão, 1947) - com Emanuelle Araújo
20. Maria particularmente (Luiz Melodia, 1991)

Disco roqueiro de inéditas, 'Dia 16' repõe Odair José no seu devido lugar

Resenha de CD
Título: Dia 16
Artista: Odair José
Gravadora: Saravá Discos
Cotação: * * * 1/2

Antes minimizado pela crítica elitista que nos anos 1970 julgava tudo e todos pelos padrões estéticos da MPB, hoje superestimado por conta de aura cult que encobre os vícios de seu cancioneiro às vezes repetitivo, o cantor e compositor goiano Odair José alcança bom momento artístico com seu álbum de inéditas Dia 16, lançado neste mês de março de 2015 pelo selo Saravá Discos, de Zeca Baleiro. Produzido por Alexandre Fontanetti, o disco repõe Odair no seu devido lugar com 12 canções inéditas e autorais compostas com a simplicidade de sempre e gravadas com espírito roqueiro. Aos 66 anos, o ídolo das empreguetes da década de 1970 faz pulsar novamente a veia roqueira que, com maior ou menor força, bombava nos discos feitos por Odair em seus áureos tempos, sobretudo no ambicioso álbum O filho de José e Maria (RCA-Victor, 1977), concebido como ópera-rock. Não por acaso, uma música composta para este (comercialmente) fracassado disco de 1977, mas descartada na seleção final, Fera, reaparece em Dia 16 com sutil acento bluesy e com a pegada roqueira que é amplificada na música-título Dia 16. Em Fera, Odair fala de sexo ("Seu amor é tão gostoso") da forma direta com que sempre abordou temas-tabus em suas músicas. Em Dia 16, um dos assuntos em pauta é a paixão de homens velhos por mulheres jovens. Odair parte em defesa dos tiozinhos na canção cujo título, A moça e o velho, já exemplifica a habilidade do compositor de ir sempre direto ao ponto, sem fazer rodeios em suas letras escritas sem metáforas. Por mais que traga no repertório eventuais rocks como Começar do zero, faixa que ecoa influências de Erasmo Carlos e Paul McCartney na obra do artista, Dia 16 é, em essência, um disco em que o rock está mais presente em espírito jovial do que pelo toque das guitarras (também presentes, diga-se). As canções dominam o repertório de tom pop radiofônico. Conduzida pela levada do ukelele tocado pelo produtor Alexandre Fontanetti, Encontro vislumbra bonanças em verso feito em tom de autoajuda ("Depois de todo deserto, sempre tem um jardim"). Se Cores tem tonalidades solares, avisando no arremate do disco que é tempo de amor,  Me desculpe se revela a clássica balada banhada por lágrimas de trivial chororô romântico. Com mais atitude na letra, Odair afasta o sofrimento de amor na melodiosa balada Sai de mim. Já Morro do Vidigal é flash nostálgico que rememora, em clima folk, amor vivido na comunidade da cidade do Rio de Janeiro (RJ) que dá nome à balada. Há também toque de folk em Deixa rolar, composição na qual Odair receita dicas de bem-viver. Mais melancólica, Lembro é canção impregnada de nostalgia em que o artista expia a dor da saudade da mãe com lembranças dos carinhos da infância. Já Sem compromisso celebra a música influente do cantor e compositor norte-americano Roy Orbinson (1936- 1988) mais para o country do que para o rockabilly. Enfim, Dia 16 prova que ainda há inspiração no calendário de Odair José. Sem trair a ideologia do artista, o disco sinaliza que o cantor permanece em ebulição, embora já acomodado em seu devido lugar.

Eis as faixas do CD gravado ao vivo por Roberto em show em Las Vegas

Canção norte-americana composta por Jimmy McHugh (1894 - 1969) com letra de Dorothy Fields (1905 - 1974), lançada há 80 anos no filme Às oito em ponto (Estados Unidos, 1935) e desde então regravada por alguns dos maiores cantores dos Estados Unidos e da Europa, o standard I'm in the mood for love ganha a voz de Roberto Carlos. Ao lado do samba-exaltação Aquarela do Brasil (Ary Barroso, 1939), enfim registrado em disco pelo cantor capixaba, I'm in the mood for love é a maior novidade do CD e DVD Roberto Carlos em Las Vegas. O CD duplo chega ao mercado fonográfico a partir de 7 de abril de 2015 com distribuição da Sony Music. O DVD correspondente sai na sequência, ainda no mês de abril. Eis, na ordem do CD, a disposição das músicas captadas ao vivo no show de repertório poliglota feito por Roberto Carlos na MGM Gran Garden Arena,  em Las Vegas (EUA), em 6 de setembro de 2014,  e ordenadas em 19 faixas:

CD 1
1. Abertura (pot-pourri instrumental com sucessos de Roberto Carlos)
2. Emoções (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1981)
3. Como vai você? (Antonio Marcos e Mário Marcos, 1972) /

    Que será de ti? (versão em espanhol de Como vai você?)
4. Detalhes (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1971) /
    Detalles (versão em espanhol de Detalhes)
5. Desabafo (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1979) /
    Desahogo (versão em espanhol de Desabafo)
6. Mulher pequena (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1992) /
    Mujer pequeña (versão em espanhol de Mulher Pequena)

7. Proposta (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1973)
8. Cóncavo y convexo 
    - versão em espanhol de O côncavo e o convexo (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1983)
9. O calhambeque (Road hog) 
    (John Loudermilk e Gwen Loudermilk, 1962, em versão de Erasmo Carlos, 1964)
10. Canzone per te (Sergio Endrigo e Sergio Bardotti, 1968)

CD 2
1. El gato que está triste y azul (1979)
    - Versão em espanhol de Un gatto nel blu (Totò Savio e Giancarlo Bigazzi, 1972)
2. I'm in the mood for love (Jimmy McHugh e Dorothy Fields, 1935)
3. Breakfast (1981)
     - Versão em inglês de Café da manhã (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1978) 
4. Cavalgada (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1977)
5. Esse cara sou eu (Roberto Carlos, 2012) / 
    - Ese tipo so yo (Roberto Carlos em versão em espanhol de Roberto Livi, 2014)
6. Aquarela do Brasil (Ary Barroso, 1939)
7. El día que me quieras (Carlos Gardel e Alfredo Le Pera, 1935)
8. Amigo (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1977)
9. Jesus Cristo (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1970)