sexta-feira, 22 de maio de 2015

Ainda no papel de crooner, Boaventura vai de Elvis a Roberto em 'Your song'

Já devidamente acomodado na personagem do crooner galã, papel assumido desde que engatou carreira fonográfica na gravadora Sony Music a partir de 2009 após anos de atuação em musicais de teatro, o ator e cantor baiano Daniel Boaventura acentua a aura romântica de seu repertório em seu segundo registro ao vivo de show. Sucesso na voz do cantor norte-americano Elvis Presley (1935 - 1977), a adocicada balada Love me tender  (Elvis Presley e Ken Darby, 1956) é um dos sucessos interpretados por Boaventura no repertório do show gravado em 6 de dezembro de 2014 - em apresentação no Teatro Bradesco do Rio de Janeiro (RJ) -  e eternizado no CD duplo e no DVD Your song - Ao vivo, recém-lançados pela Sony Music. As inclusões no roteiro de nada menos do que três músicas românticas do repertório de Roberto Carlos - Como é grande o meu amor por você (Roberto Carlos, 1967), Como vai você? (Antonio Marcos e Mário Marcos, 1972) e Olha (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1975) - reiteram a ênfase nesse viés sentimental. Ao longo dos 25 números do show, Boaventura recebe os cantores Carlos Rivera, Filippa Giordano e Kiara Sasso para duetos em standards estrangeiros. Com o mexicano Rivera, o dueto acontece em Perhaps, perhaps, perhaps, versão em inglês (de Joe Davis) da canção cubana Quizás, quizás, quizás (Osvaldo Farrés, 1947). Já a italiana Giordano entra em cena em Come fly with me (Sammy Cahn e James Van  Heusen, 1957) e permanece no palco para um segundo dueto com Boaventura em Smile (Charles Chaplin, 1936, com letra de John Turner e Geoffrey Parsons, 1954), composição erroneamente creditada na ficha técnica a Pete Murray, compositor australiano autor de canção homônima. Já a carioca Kiara Sasso participa de Time stand still, balada da compositora norte-americana Diane Warren lançada por Boaventura em seu último disco de estúdio, One more kiss (Sony Music, 2014).

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Caixa embala reedições dos cinco álbuns feitos por Renato Teixeira na RCA

Renato Teixeira completou 70 anos de vida ontem, 20 de maio de 2015. Para festejar o aniversário do cantor, compositor e músico paulista, o departamento de marketing estratégico da gravadora Sony Music produziu - sob o comando de Hugo Pereira Nunes - a caixa Renato Teixeira - Obra completa na RCA de 1978 a 1982, que traz reedições remasterizadas (por Luigi Hoffer e Carlos Savalla) dos cinco álbuns lançados pelo artista na gravadora RCA entre 1978 e 1982. Garapa (1980), Uma doce canção (1981) e Um brasileiro errante (1982) eram títulos até então inéditos no formato de CD. Romaria (1978) e Amora (1979) já tinham saído reeditados em CD, mas Amora volta ao catálogo com três faixas-bônus. Além da gravação original de Frete (Renato Teixeira, 1979), tal como feita pelo cantor para a abertura da série Carga pesada (TV Globo, 1979), Amora apresenta a gravação (feita na época) de música que permaneceu inédita em disco, Murro n'água (Renato Teixeira, 1979), e recupera Minha triste casa grande (Renato Teixeira 1979), música lançada em 1979 somente como lado B do compacto de Cavalo bravo (Renato Teixeira, 1979). A reedição de Garapa também vem turbinada com repertório adicional. Trata-se da inédita gravação original de Terumi (Renato Teixeira, 1980), música que somente seria incluída pelo artista em sua discografia oficial no álbum Renato Teixeira, editado em 1986, sem repercussão, pela extinta gravadora 3M. A caixa embala os discos em miniaturas das capas das edições originais em LP. Mas toda a arte gráfica e as informações dos discos estão reproduzidas no libreto iniciado com o texto Renato Teixeira, o fino estilista do Brasil caipira, assinado por Mauro Ferreira, editor de Notas Musicais. Isca para colecionadores de discos, o box está sendo lançado neste mês de maio de 2015.

Selo de Emicida vai lançar edição digital de álbum de inéditas de Chico César

Caberá ao selo do rapper paulistano Emicida, Laboratório Fantasma, orquestrar o lançamento digital do nono álbum do cantor e compositor paraibano Chico César (de vermelho na foto ao lado de Emicida - de boné - e do executivo Evandro Fióti e de seu empresário André Bourgeois). Primeiro trabalho de repertório inédito lançado por Chico desde Francisco, forró y frevo (Chita Discos / EMI Music, 2008), o disco se chama Estado de poesia, nome da belíssima música lançada por Maria Bethânia no show Carta de amor (2012 / 2013). O primeiro single do álbum - ainda não revelado - vai estar nas plataformas digitais a partir de 2 de junho de 2015. Já o lançamento do disco completo - que reúne 14 composições de autoria de Chico -  está agendado para 23 de junho.

Roberto Mendes é compositor predominante no quinto CD de Fabiana Cozza

Com lançamento programado para junho de 2015, o quinto CD da cantora paulistana Fabiana Cozza, Partir, alinha 14 músicas em seu repertório. Nada menos do que cinco são assinadas pelo compositor baiano Roberto Mendes (com Cozza na foto postada pela artista em seu Facebook). Mendes assina Orixá (com Jorge Portugal), Teus olhos em mim (com Nizaldo Costa), Não pedi (outra parceria com Nizaldo Costa), Voz guia (com Jorge Portugal) e Seu moço (com Hermínio Bello de Carvalho). Em Partir, disco produzido por Swami Jr., Cozza também dá voz a Velhos de coroa (Sérgio Pererê), Entre o mangue e o mar (Alzira E e Arruda), Chicala (João Cavalcanti), Fim da dança (Vidal Assis com Moyseis Marques) e Mama Kalunga (Tiganá Santana),  entre outras músicas.

Luz reza pela cartilha do samba nobre ao festejar os 10 anos do 'Trabalhador'

Resenha de CD
Título: 10 anos & outros sambas
Artista: Moacyr Luz & Samba do Trabalhador
Gravadora: Ritmiza Produções
Cotação: * * * *

Lançado neste mês de maio de 2015, o CD 10 anos & outros sambas festeja a primeira década de vida do Samba do trabalhador, roda inaugurada pelo compositor carioca Moacyr Luz em 29 de maio de 2005, no Clube Renascença, no Andaraí, bairro da Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro, reduto dos melhores pagodes. Luz abre a roda toda segunda-feira, ao lado de sambistas como Álvaro Santos e Junior de Oliveira. Ao longo desses 10 anos, o Samba do Trabalhador vem ocupando o lugar crucial que foi da quadra do Cacique de Ramos na década de 1980. Evento que aglutina sambistas e público disposto a ouvir novos sambas, o Samba do Trabalhador vem promovendo a renovação do repertório cantado nos pagodes cariocas. Terceiro produto fonográfico da roda comandada por Moacyr Luz, o CD 10 anos & outros sambas - gravado em estúdio com o revezamento da voz de Luz e dos compositores mais significativos da roda - é a prova de que o melhor samba continua brotando nos quintais do Rio, como nos tempos áureos do Cacique. Até porque o diferencial deste disco, em relação aos outros dois registros fonográficos do evento, reside no ineditismo da maior parte do repertório autoral. Dos 12 sambas alinhados no disco, nove são inéditos. Onze têm a assinatura de Luz, geralmente na coautoria (a exceção é Se parasse de chover, parceria de Mingo Silva - o mais novo integrante do Samba do Trabalhador - com Anderson Balaco). A safra inédita é de boa qualidade. E os três grandes sambas já previamente gravados - Anjo vagabundo (Moacyr Luz e Luiz Carlos da Vila, 1997), Samba de fato (Moacyr Luz e Paulo César Pinheiro, 1998) e No compasso do samba (Sereno e Moacyr Luz, 2012), lançados em disco pela cantora Simone Moreno, pelo grupo Mandingueiro e pelo grupo Dose Certa, respectivamente - se afinam com a ideologia e a cadência da roda, rezando pela mesma cartilha. Aliás, um dos maiores destaques da safra inédita é A reza do samba (Gustavo Clarão e Moacyr Luz), do poderoso refrão "Segunda-feira é das almas / É bom também de sambar / Tem uma vela pro santo / A outra é pra vadiar". A reza do samba exalta o próprio evento que inspirou o disco e a criação da composição. A propósito, parte do repertório cultua o próprio samba e o orgulho de ser sambista. Exemplo é Cria do samba (Álvaro Santos, Mingo Silva e Moacyr Luz), outro trunfo da safra. Único samba assinado somente por Luz, Camarão Vegê tem seu delicioso sabor realçado pelo acordeom de Bebe Kramer, músico convidado da faixa. Já Toda a hora (Toninho Geraes e Moacyr Luz) ergue brinde à bebida e ao espírito da boêmia que rege as rodas de samba. Em tom mais sagrado, o belo samba Joia rara exalta a realeza de Dona Ivone Lara com o toque da gaita de Rildo Hora, reiterando a maestria da parceria de Sereno com Moacyr Luz. Enfim, em seu primeiro disco de repertório inédito, o Samba do Trabalhador propaga a ideologia e os valores nobres do samba, com fé nos tambores, de peito e coração abertos. E que venham mais dez anos,  pois o samba desses trabalhadores é de primeira.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Roberta canta inédita de Martinho com compositor em CD que sai em agosto

Previsto para ser lançado em agosto de 2015, em edição do selo MP,B Discos que vai chegar às lojas com distribuição da gravadora Som Livre, o sexto álbum de Roberta Sá inclui música inédita do compositor fluminense Martinho da Vila. A cantora potiguar pediu música a Martinho para o disco - gravado no Rio de Janeiro (RJ) com produção de Rodrigo Campello - e ganhou Amanhã é sabado. Martinho participou da gravação da faixa. Outras músicas do CD são Covardia (Ataulfo Alves e Mário Lago) - samba de 1938 que Roberta transformou em fado, em gravação feita em Lisboa em dueto com o cantor português António Zambujo - e Boca em boca, primeira parceria de Roberta com o compositor carioca Xande de Pilares, projetado como vocalista do Grupo Revelação.

Catto começa a gravar no Rio, com produção de Kassin, seu álbum 'Tomada'

A IMAGEM DO SOM - Postada por Ricky Scaff em seu Facebook, a foto acima flagra o cantor e compositor gaúcho Filipe Catto com o baterista carioca Domenico Lancellotti na área externa de estúdio da cidade do Rio de Janeiro (RJ). Desde a última segunda-feira, 18 de maio de 2015, Catto grava no Rio seu segundo álbum de estúdio, Tomada, sob a produção de Alexandre Kassin. Além de músicas autorais, o repertório de Tomada inclui Partiu - música de Marina Lima, lançada pela cantora e compositora carioca em shows, em 2013, mas ainda inédita em disco - e Depois de amanhã,  a primeira parceria de Catto com Moska. O álbum vai sair no segundo semestre de 2015.

Show em que Maga canta Gil e Caetano chega ao DVD entre perdas e ganhos

Resenha de CD
Título: Para Gil & Caetano
Artista: Margareth Menezes
Gravadora: Canal Brasil / Coqueiro Verde Records
Cotação: * * * 1/2

Margareth Menezes é a melhor cantora de música afro-pop-baiana, o gênero rotulado como axé music. Mas nem por isso conseguiu ser dona da melhor discografia do gênero. Nenhum CD ou DVD da artista conseguiu captar toda a força dessa voz que irradia magia e calor. Para Gil e Caetano - CD e DVD ora lançados na coleção Canal Brasil com distribuição da gravadora Coqueiro Verde Records - tampouco transmite todo esse calor, mas é um dos melhores títulos da irregular obra fonográfica de Maga. A captação da imagem - feita em 27 de maio de 2014 em apresentação do show na casa Vivo Rio, no Rio de Janeiro (RJ),  sob a direção de Darcy Burger - resultou em DVD por vezes frio. Contudo, entre perdas e ganhos, o show idealizado pela cantora em 2012 - para celebrar os 70 anos de vida então completados pelos cantores e compositores baianos Caetano Veloso e Gilberto Gil - ganha registro de maior beleza plástica na comparação com o formato original do show (clique aqui para ler a resenha da estreia carioca de Para Gil e Caetano). Entre os ganhos, há o cenário e as projeções que valorizam as exposições de músicas como Reconvexo (Caetano Veloso, 1989). Há também as participações especiais dos homenageados Gilberto Gil - mais bem aproveitado na abordagem terna de Deixar você (Gilberto Gil, 1992) do que na apropriação indébita de Refazenda (Gilberto Gil, 1975), feita com a adesão desnecessária de Preta Gil - e Caetano Veloso, visto nos extras do DVD em duetos com Margareth em Luz do sol (Caetano Veloso, 1982) e Uns (Caetano Veloso, 1983). Pela própria natureza afro-baiana da cantora, temas como Milagres do povo (Caetano Veloso, 1985), Gema (Caetano Veloso, 1980) e o samba Buda Nagô (Gilberto Gil, 1992) já parecem talhados para a voz de Maga. E ela aproveita bem essas músicas. Mas um dos méritos de Para Gil e Caetano é explorar o potencial da intérprete em outras latitudes musicais. No compasso do blues que pauta Como 2 e 2 (Caetano Veloso, 1971), Margareth mostra que é uma grande cantora fora do terreiro do axé. Talento já evidenciado pela interpretação segura de O quereres (Caetano Veloso, 1984) que abre o DVD com a cantora caminhando lentamente pelo cenário, no fundo do palco, ao alto. Se houve ganhos que vieram realmente somar na conta, como a requisição da cantora baiana Rosa Passos para (re)dividir o samba Eu vim da Bahia (Gilberto Gil, 1965) em dueto com a anfitriã, houve ganhos que parecem subtrair no saldo final. Caso da participação de Preta Gil, cantora sem maturidade para expor toda a expressão e significado de Panis et circensis (Caetano Veloso e Gilberto Gil, 1968), hino tropicalista que revive em dueto com Margareth. Já as entradas de Bem Gil e Moreno Veloso na banda - em números como Clichê do clichê (Gilberto Gil e Vinicius Cantuária, 1985), a música menos sedutora do roteiro - poderiam ter sido mais evidenciadas. Entre as perdas propriamente ditas, há Bahia de todas as contas (Gilberto Gil, 1983), samba menor de Gil que se constituíra uma das gratas surpresas do roteiro original do show por ter sido valorizado pela interpretação da cantora no show criado sob a eletroacústica direção musical da própria Margareth e do violonista Alexandre Leão, que solta a voz opaca em Força estranha (Caetano Veloso, 1978) e em Meu bem, meu mal (Caetano Veloso, 1981). Já presente no roteiro desde a estreia, Eclipse oculto (Caetano Veloso, 1983) tem sua aura pop iluminada pela presença de Saulo Fernandes, convidado do número. Sozinha, na companhia da banda que harmoniza violões e percussões, a cantora esboça clima épico em Um índio (Caetano Veloso, 1976) e tenta criar um ambiente de introspecção que favoreça a densidade sagrada de Se eu quiser falar com Deus (Gilberto Gil, 1981). Enfim, no momento em que a Bahia celebra os 30 anos do som já diluído da axé music, Margareth Menezes se aproxima da MPB em registro ao vivo que  - entre perdas e ganhos -  jamais depõe contra as obras de Caetano e Gil.

Coletânea da série 'Novelas' reúne 10 registros de Iorc veiculados em tramas

Em evidência atualmente por conta de sua abordagem da canção What a wonderful world (Bob Thiele e George David Weiss, 1967), feita para a abertura da novela Sete vidas (TV Globo, 2015), Tiago Iorc ganha coletânea editada pela gravadora Som Livre na série Novelas. O disco alinha dez gravações do cantor e compositor brasiliense (criado na Inglaterra) veiculadas em tramas exibidas pela TV Globo. Dentre as seis músicas de autoria de Iorc, a compilação Novelas inclui Scared (Tiago Iorc, 2008), Blame (Tiago Iorc, 2008), Nothing but a song (Tiago Iorc, 2008), Gave me a name (Tiago Iorc, 2011), Story of a man (Tiago Iorc, 2011) e It's a fluke (Tiago Iorc, Maycon Ananias e Jesse Harris, 2013), músicas ouvidas em trilhas sonoras das novelas Duas caras (TV Globo, 2007 / 2008), A favorita (TV Globo, 2008), Malhação (temporada de 2007 / 2008), A vida da gente (TV Globo, 2011), Malhação (desta vez na temporada de 2011) e Flor do Caribe (TV Globo, 2013), respectivamente. Fora do trilho autoral, há os covers de My girl (Smokey Robinson e Ronald White), hit do grupo norte-americano The Temptations gravado por Iorc em registro propagado na trilha sonora da novela Viver a vida (TV Globo, 2009) - e Proibida pra mim (Grazon) (Thiago, Pelado, Marcão, Champignon e Chorão, 1997), música do repertório do extinto grupo Charlie Brown Jr. ouvida com Iorc na trilha sonora da novela Geração Brasil (TV Globo, 2014). A edição é digital.

terça-feira, 19 de maio de 2015

Festejada festa de Gal, 'Estratosférica' abre e clareia recantos para a cantora

Resenha de CD
Título: Estratosférica
Artista: Gal Costa
Gravadora: Sony Music
Cotação: * * * * *

Havia entre os admiradores de Gal Costa a incerteza se a cantora daria outro passo adiante após Recanto (Universal Music, 2011) - revigorante álbum articulado por Caetano Veloso que repôs a cantora baiana na linha de frente da música brasileira - ou se, de olho no retrovisor, Gal acionaria novamente o piloto automático em disco pautado por regravações. Com edição física em CD posta nas lojas a partir de hoje, 19 de maio de 2015, Estratosférica dissipa a dúvida. Gal dá outro passo firme para frente. No lugar de Caetano, há Marcus Preto, diretor artístico do disco - produzido por Alexandre Kassin e Moreno Veloso - e articulador das conexões de Gal com compositores de uma geração contemporânea que, em sua maioria, eram até então inéditos na voz ainda cristalina da intérprete. Menos radical e eletrônico do que Recanto na questão dos arranjos, Estratosférica se ilumina pela grandeza do repertório inédito selecionado por Gal entre cerca de 150 músicas recolhidas por Preto. Estratosférica é um disco moderno, de sons contemporâneos, que amplia o diálogo com a cena musical atual sem negar o passado pop de Gal. Estratosférica é tudo o que Aquele frevo axé (BMG, 1998) quase foi e o que Hoje (Trama, 2005) poderia ter sido se a produção e os arranjos deste disco que tentou arejar o som de Gal não tivessem sido confiados a César Camargo Mariano, extraordinário músico mais identificado com o ontem do que com o hoje. Nesse sentido, Estratosférica soa como um disco de carreira como Fantasia (Philips, 1981), mas filtrado, aí sim, pelos sons dos dias de hoje. Porque produtores, diretor artístico, compositores e músicos da antenada banda arregimentada para o disco - André Lima (teclados), Guilherme Monteiro (guitarra), Pupillo (bateria) e o próprio Kassin (baixo e programações) - se afinam e olham para a mesma direção. Estratosférica é um disco enraizado no momento presente, saudado já no estupendo rock, Sem medo nem esperança (Arthur Nogueira e Antonio Cícero), que abre sintomaticamente o disco, iluminando a obra autoral do compositor paraense Arthur Nogueira e vislumbrando o futuro através de versos ("Nada do que fiz / Por mais feliz / Está à altura / Do que que há por fazer") que servem como carta de princípios da artista. Diferentemente de Recanto, disco que encantou mais pela sonoridade seca e compacta do que pelo (inspirado) conjunto de canções inéditas de seu mentor Caetano Veloso, Estratosférica é álbum que alinha grandes canções na voz monumental de sua intérprete, soando como um disco de carreira de tempos em que a música parecia mais importante do que conceitos e propostas. Tanto que abre espaço para uma balada como Jabitacá (Junio Barreto, José Paes Lira e Bactéria), cuja leve psicodelia - sublinhada pelo órgão de André Lima e o lap steel de Kassin - não encobre o romantismo latente nos versos. Entre os autores de Jabitacá, música batizada com nome de serra situada na divisa entre Pernambuco e Paraíba, há o pernambucano Junio Barreto, único compositor duplamente presente no repertório selecionado para as 14 faixas do CD e as 12 do vinil ainda indisponível no mercado fonográfico. Junio é parceiro de Céu e de Pupillo na vivaz música-título Estratosférica, espécie de refazenda de uma festa do interior perfumada por um regionalismo pop latino que o ouvido sagaz de Gal intuiu que pediria metais orquestrados por Lincoln Olivetti (1935 - 2014), no que acabou se transformando no último arranjo do maestro fluminense. Genial como arranjador, mas compositor irregular, Olivetti também comparece nos créditos de Estratosférica como parceiro do carioca Rogê em Muita sorte, outra música banhada em regionalismo pop - no caso, nas águas eternamente límpidas do compositor baiano Dorival Caymmi (1914 - 2008), cujo universo inspirou a letra de música que harmoniza no arranjo o primitivismo do ritmo do samba de roda - marcado na percussão de Armando Marçal e nas palmas das mãos de Moreno Veloso (também no ukelele) e de Kassin - com a eletrônica up to date do produtor carioca Diogo Strausz, criador de algumas programações da faixa. Estratosférica olha para o futuro sem renegar sons referenciais do passado glorioso de Gal. Ecstasy (Thalma de Freitas e João Donato) - música e letra criadas por Thalma a partir de harmonia deixada pelo parceiro em seu laptop - tem a levada donatiana do pianista acriano, piloto de seu teclado rhodes na faixa pautada por leveza e também pelo suingue dos metais orquestrados por Marlon Sette. Entre o balanço de Ecstasy e a pacificidade amorosa da lírica canção Espelho d'água (Marcelo Camelo e Thiago Camelo), única das 15 músicas inéditas já previamente cantada por Gal antes da gravação do disco no estúdio RootSans (SP), Estratosférica apresenta a afinada primeira parceria de Milton Nascimento com Criolo. Dez anjos contabiliza perdas e danos de um mundo sem esperança, esculpido pelo aço duro da dor e do medo. Impressiona a sintonia da melodia de Milton com o universo tenso no qual está entranhado o cancioneiro do rapper paulistano, porta-voz das quebradas. Contribuição da compositora paulistana Mallu Magalhães ao repertório, Quando você olha pra ela - música lançada em single no iTunes para promover o álbum - se situa na temperatura amena em que os produtores Kassin e Moreno aclimataram Estratosférica. Nessa canção que concilia toques de samba e da obra de Jorge Ben Jor, mas que não é uma coisa nem outra, Gal encarna a outra sem grandes dramas, apesar de ameaças que parecem que jamais serão cumpridas ("Eu  vou fugir de casa / Você vai ter saudade"). Música cheia de verve e erotismo, Por baixo mostra que Tom Zé ainda é um compositor cheio de tesão e graça. Encorpada por sons sintetizados por Kassin, Casca (Alberto Continentino e Jonas Sá) joga para a galera da eletrônica, espalhando no ar o perfume da paixão. Acalanto romântico dos tribalistas Arnaldo Antunes, Cezar Mendes e Marisa Monte, Amor, se acalme baixa novamente a onda e propõe o amor em paz já vivenciado em Espelho d'água. Mas Anuviar (Moreno Veloso e Domenico Lancellotti) - canção cortada por pausas intencionais cujo arranjo evoca aquelas baladas de alma soul dos anos 1970 ouvidas nos programas de flashbacks das FMs  - pesa o tempo, com sons de progressiva intensidade em que sobressaem tanto a eletrônica quanto a guitarra heavy de Guilherme Monteiro. Único registro da presença no disco de Caetano Veloso, autor da letra, Você me deu apresenta melodia terna de Zeca Veloso, filho de Caetano. É uma das faixas de tom mais eletrônico que exemplifica a habilidade dos produtores para irmanar elementos do passado e do presente sem que Estratosférica soe retrô ou futurista. Música exclusiva da edição digital, mas que somente vai estar disponível daqui a alguns meses, Vou buscar você pra mim é um sambalada que tem a bossa e a habilidade pop de Guilherme Arantes, compositor até nunca gravado por Gal. Outra faixa-bônus da edição digital que ainda está indisponível, Átimo de som (Arnaldo Antunes e Zé Miguel Wisnik) mostra que os computadores também podem fazer arte em torno da deusa música, mas que tudo começa mesmo com o som, com o brilho natural de uma voz como a de Gal, de movimentos precisos como uma hélice no centro. "Um átimo de som / Num átomo de ar / Pode ser capaz de disparar  / O que sente o pensamento / O que pensa a sensação / Antes mesmo de virar canção", canta Gal, do túnel seco de uma garganta única que tem produzido sensações estratosféricas ao longo de 50 anos de carreira festejados com este retumbante Estratosférica, festejada festa que abre e clareia recantos ainda a serem explorados por essa grande cantora hoje a caminho dos 70 anos. Disco à altura dos melhores álbuns de Gal, pela atitude rocker e pela pegada jovial que persiste até em canções de amor que poderiam soar triviais (mas que estão cheias de frescor), Estratosférica sinaliza que ainda há muito por fazer.  E Gal está aí para fazer.

Single gravado com Arnaldo anuncia álbum de Todos os Caetanos do Mundo

Em atividade em Belo Horizonte (MG) desde 2009, o quarteto mineiro Todos os Caetanos do Mundo vai lançar seu primeiro álbum em 2 de junho de 2015. Parceria da vocalista Julia Branco com o guitarrista Luiz Rocha, a música-título do álbum, Pega a melodia e engole, já está disponível para audição em algumas plataformas digitais como o portal SoundCloud. Embora a música já tenha sido lançada pela banda em EP editado de forma independente em Belo Horizonte (MG), em 2012, a atual gravação é inédita, tendo sido feita com a adesão do cantor e compositor paulistano Arnaldo Antunes. Mas o álbum Pega a melodia e engole, produzido por Chico Neves, vai apresentar músicas inteiramente inéditas em disco, caso de Tempo pra dizer. Repertório é autoral.

Metá se encontra no tempo 'hard' de EP que transita entre o punk e o samba

Resenha de EP
Título: Metá Metá EP 2015
Artista: Metá Metá
Gravadora: Edição independente do artista
Cotação: * * * * *
 Disco disponível para download gratuito e audição na web

"Penso que o tempo / Sempre quis me devorar / Me perco nesse tempo / Me perco nesse tempo...", vociferou a banda paulistana As Mercenárias, expoente feminino do punk brasileiro dos anos 1980, através dos versos de Me perco nesse tempo (Edgard Scandurra), tema do primeiro álbum do grupo, Cadê as armas? (Baratos Afins, 1986). Decorridos quase trinta anos dessa primal gravação, outro grupo paulistano, Metá Metá, se encontra nesse tempo hard em gravação pesada que valoriza EP gravado em 2 de abril de 2015 no estúdio El Rocha, em São Paulo (SP), e lançado esta semana pelo Metá Metá às vésperas de partir para turnê europeia. Disponibilizado para download gratuito e audição desde ontem, 18 de maio de 2015, o EP retrata em três gravações - que totalizam inebriantes 10 minutos e 46 minutos - o momento áureo vivido por Juçara Marçal (voz, forte), Kiko Dinucci (voz e guitarra), Thiago França (sax), Marcelo Cabral (baixo) e Serginho Machado (bateria) desde a estreia em disco, em 2011, há apenas quatro anos. A regravação de Me perco nesse tempo consegue ser tão punk quanto o registro d'As Mercenárias ao mesmo tempo em que escapa do universo punk oitentista, trazendo a música para os dias e os sons atuais. Música de autoria de Kiko Dinucci que abre o EP e que foi lançada pelo compositor paulistano há oito anos no álbum que dividiu com Juçara Marçal, Padê (Independente, 2007), Atotô tem revolvida sua raiz afro-brasileira com gás e o peso da guitarra de Dinucci. No registro do Metá, Atotô é envolvida em ambiência noise que combina distorções, ruídos e tensões sem macular a matriz afro. É a mesma tensão que pauta a terceira faixa do EP, Sozinho, um transamba de Douglas Germano que o Metá Metá já mostrava em shows, mas até então nunca tinha registrado em disco. A rigor, a gravação é acústica, mas a fricção do violão de Dinucci com o sopro intencionalmente torto do sax tenor de Thiago França produz eletricidade e se afina com o tom inquieto, hard, deste disco em que o Metá Metá se encontra em estado de ebulição,  em plena efervescência criativa, devorando o seu tempo.

Gang aumenta dose de brega no tecnomelody de 'Todo mundo tá tremendo'

Resenha de CD
Título: Todo mundo tá tremendo
Artista: Gang do Eletro
Gravadora: Deck
Cotação: * * * 

DJ Waldo Squash, Maderito, Keila Gentil e William Love estão um pouco mais bregas do que tecnos no segundo álbum da Gang do Eletro, Todo mundo tá tremendo. A batida animada do tecnomelody ainda está lá, detectável nas bases das 10 músicas do disco, que totaliza apenas 27 minutos. Há, inclusive, um tema instrumental intitulado Bass melody. Contudo, músicas como Esperança (Keila Gentil) e Declaração de amor (Tonny Brasil) indicam que a dose de brega deste segundo álbum do quarteto paraense é maior do que a do antecessor Gang do Eletro (Deck, 2012), o primeiro álbum da turma. Já a dose de autorreferência é tão grande quanto à do primeiro álbum. Balançando com a Gang (Waldo Squash), Todo mundo tá tremendo (Maderito) e Na onda do movimento (Maderito e Waldo Squash) - destaque do repertório, menos sedutor (no todo) do que o do primeiro álbum - versam sobre personagens e elementos da cena do Norte. Lobo mau digital (Maderito e Waldo Squash) faz graça ao situar o enredo da histórias em quadrinhos na era cibernética. Música eleita o primeiro single de Todo mundo tá tremendo, Dig don (Não vou mais chorar) (Edilson Moreno e Paulinho Santana) reforça o tom brega romântico que pauta o álbum. O nosso amor (Tonny Brasil) sintetiza bem a mistura de brega com com a batida do eletro sem efetivamente cativar o ouvinte. Produzido e mixado por Waldo Squash, Todo mundo tá tremendo é bom disco, mas é mais light  e não bisa a inspirada efervescência do antecessor Gang do Eletro.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Saulo junta Roberto Mendes, Tó Brandileone e Ray Lema no CD solo 'Baiuno'

Com lançamento (em edição digital) programado para o fim deste mês de maio de 2015, o segundo álbum solo do cantor e compositor baiano Saulo Fernandes, Baiuno, apresenta 13 músicas inéditas. Destas 13 composições, dez foram gravadas com convidados. O compositor baiano Roberto Mendes - ao centro com Saulo e com o produtor Munir Hossn na foto do arquivo pessoal do artista - figura na música Floresça (Saulo Fernandes e Gigi). Integrante do grupo paulistano 5 a Seco, Tó Brandileone divide com Saulo a interpretação da canção familiar Leve-me ao mar (Saulo Fernandes, João Lucas e Lau Fernandes). Já o cantor e pianista congolês Ray Lema - com quem Saulo já se conectara na gravação de Sertanejo (Saulo Fernandes), música lançada em novembro de 2014 na web, mas não incluída em Baiuno - marca presença em Perudá (Saulo Fernandes, Ênio Taquari, Alcione Rocha e Ronaldo Cavalcante), faixa em que toca o baixista africano Etienne MBAPPE. Já o baiano Dom Chicla é o convidado de Veloso cidade (Saulo Fernandes). Outra vez (Saulo Fernandes) tem o piano de Leonardo Mota. O repertório de Baiuno inclui Asa e pé (Saulo Fernandes e Munir Hossn) e Prece ao coração (Márcio Mello).Tambor menino é outra música do CD.

Roberto 'arrasta cadeira' com cantor mexicano na gravação de 'Primera fila'

De início idealizado como um projeto que teria vários duetos de Roberto Carlos com artistas do mercado latino de língua hispânica, a gravação ao vivo feita pelo cantor capixaba no estúdio Abbey Road, na Inglaterra, em 11 e 12 de maio de 2015, teve ao menos um convidado. O cantor mexicano Marco Antonio Solís - visto com Roberto na foto de Maurício Contreiras - participou da gravação do CD e DVD Primera fila. Solis fez dueto com o Rei em Arrastra una silla, versão em espanhol de Arrasta uma cadeira (Roberto Carlos e Erasmo Carlos), música lançada por Roberto em seu álbum de 2005 em gravação feita com a dupla paranaense Chitãozinho & Xororó. Primera fila festeja os  50  anos da primeira  gravação em espanhol  do cantor brasileiro para o mercado latino.

Diogo revela 'Tenta a sorte', o primeiro single do álbum 'Porta-voz da alegria'

  Samba de André Renato e Picolé, Tenta a sorte é o primeiro single promocional do álbum de músicas inéditas que Diogo Nogueira vai lançar em 9 de junho de 2015 em edição do selo EMI, da gravadora Universal Music. O single entrou hoje, 18 de maio, em rotação na web. Intitulado Porta-voz da alegria, o terceiro álbum solo de estúdio do cantor e compositor carioca tem produção assinada por Bruno Cardoso (Sorriso Maroto) e Lelê. A música-título Porta-voz da alegria também é de autoria de André Renato e Picolé. O repertório inclui A gente se liga (Serginho Meriti e Claudemir), Clareou (Serginho Meriti e Rodrigo Leite), O amor tem seu lugar (Xande de Pilares, Leandro Fab e Fred Camacho), Alma boemia (Toninho Geraes e Paulinho Rezende) e Deixa eu ir à luta (Leandro Lehart), entre sambas assinados por Arlindo Cruz, Sombrinha e Pretinho da Serrinha.

Eis os nomes das dez músicas de 'Guelã', terceiro álbum de estúdio de Gadú

Terceiro álbum de estúdio de Maria Gadú, Guelã alinha dez músicas em repertório basicamente inédito. Nove são da lavra da cantora e compositora paulistana. A exceção é Trovoa (2007), música de autoria de Maurício Pereira. Disco pautado por silêncios e salutares estranhezas, como sinalizara o single Obloco (Maria Gadú e Maycon Ananias), Guelã vai ter sua edição física em CD lançada em junho de 2015 pelo selo Slap com distribuição da Som Livre. Gadú assina a produção do disco, coproduzido por Federico Pupi, integrante da banda arregimentada para gravar Guelã e que inclui Lancaster Pinto (baixo), Doga (percussão) e Tomaz Lenz (bateria), além da própria Gadú, que toca guitarra e violão. Eis, na ordem, as dez músicas de Guelã, CD em que Gadú vira a página, de novo:

1. Suspiro (Maria Gadú)
2. Obloco (Maria Gadú e Maycon Ananias)
3. Ela (Maria Gadú)
4. Semivoz (Maria Gadú, Maycon Ananias e James McCollum)
5. Trovoa (Maurício Pereira, 2007)
6. Sakédu (Maria Gadú e Mayra Andrade)
7. Tecnopapiro (Maria Gadú)
8. Há (Maria Gadú)
9. Vaga (Maria Gadú)
10. Aquária (Maria Gadú)

domingo, 17 de maio de 2015

Lobão pretende lançar em junho seu primeiro álbum de inéditas em dez anos

Sem lançar disco de inéditas desde Canções dentro da noite escura (Independente / Tratore, 2005), Lobão pretende lançar em junho de 2015 seu primeiro álbum de repertório autoral em uma década. O álbum se chama O rigor e a misericórdia, nome de uma das músicas inéditas e autorais do repertório. Outras composições confirmadas no disco são Os últimos farrapos da liberdade, A posse dos impostores e Uma ilha na lua. Tiago Hóspede é o produtor de O rigor e a misericórdia.

Lia Paris exibe ótimo domínio do idioma pop em disco produzido por Miranda

Resenha de CD
Título: Lia Paris
Artista: Lia Paris
Gravadora: Edição independente da artista
Cotação: * * * *

Das 13 músicas autorais gravadas por Lia Paris em seu excelente primeiro álbum solo, três - A estrada, Subentendido e Wild boy  - são assinadas pela cantora e compositora paulistana com seu conterrâneo Marcelo Jeneci. Uma quarta, Foguete, dispara no universo pop a segunda (boa) parceria de Lia com o cantor e compositor mineiro Samuel Rosa. A primeira, o delicioso synth-pop Aniversário, já tinha sido lançada nas vozes dos parceiros em gravação feita para o último álbum de inéditas do Skank, Velocia (Sony Music, 2014), que serviu para projetar Lia no mercado fonográfico brasileiro, no qual ela já debutara em março de 2014 com a edição de EP, Wild boy (Aurea Music), em que apresentou três das 13 músicas do atual álbum Lia Paris. Ou seja, a artista está se conectando com dois dos mais hábeis artesãos do pop brasileiro. Contudo, é injusto tirar de Lia o crédito pelo ótimo domínio pop do cancioneiro autoral do álbum formatado pelo produtor Carlos Eduardo Miranda com banda que inclui músicos como Alexandre Kassin (no baixo) e Pupillo (na bateria). Músicas assinadas solitariamente por Lia - casos, sobretudo, de Seu jardim (de uma simplicidade sedutora que remete às melhores canções da Jovem Guarda), Azul e flores (canção - já lançada no EP pilotado por Antonio Pinto e Dudu Aram - que reitera a vocação pop de Lia com letra que alude à vivência circense da artista), Dissonantes e Tempo - revelam uma compositora apta a ter suas músicas cantadas por multidões sem jamais descer ao nível rasteiro dos hits das paradas atuais. Com voz leve que se harmoniza com a produção orquestrada por Miranda com dose sutil de eletrônica, a cantora apresenta um CD coeso. O produtor acertou ao entender que nada pode embaçar a aura pop da obra autoral de Lia Paris. O álbum de estreia da cantora é solar. Tomara que um raio de luz entre pelo (nublado) mercado do disco para iluminar o som de Lia Paris.

EP de tom contemporâneo, 'Pra ela' põe goiana Bruna Mendez na nova cena

Cantora e compositora de Goiana (GO), uma das terras mais férteis para a produção de astros sertanejos, Bruna Mendez debuta em disco com EP, Pra ela, gravado fora do trilho caipira. A artista assina músicas e letras das seis composições do disco - pela ordem, Caminho, Minha boca amarga, Faltar ar, Saudade, Sem você e a faixa-título Pra ela - produzido pela própria Bruna Mendez em colaboração com o guitarrista Eduardo Veiga e com Fernando Santos (responsável pela mixagem e masterização das seis músicas).  O tom do EP é pop contemporâneo, com ecos da MPB.

Single 'Milagre' propaga 16º álbum do grupo Nenhum de Nós, 'Sempre é hoje'

Em rotação na web desde a última terça-feira, 12 de maio, o single Milagre abre os trabalhos promocionais do 16º álbum da discografia do grupo gaúcho Nenhum de Nós. O álbum se chama Sempre é hoje e sucede o CD e DVD Contos acústicos de água e fogo (Radar Records, 2013) na obra fonográfica da banda. Gravado em Caxias do Sul (RS) em 2014, com produção de JR Tostoi, o álbum Sempre é hoje tem lançamento previsto para junho de 2015 em edição física (a cargo da Imã Records) e em formato digital (através da Deck). O título Sempre é hoje é uma reverência do Nenhum de Nós ao cantor, compositor e músico argentino Gustavo Cerati (1959 - 2014), morto no ano passado após cinco anos em coma. Projetado como líder do grupo de rock Soda Stereo, Cerati pôs esse mesmo título em seu terceiro álbum solo de estúdio,  Siempre es hoy  (Sony Music, 2002).

sábado, 16 de maio de 2015

Viúva de Donga, centenária cantora Vó Maria sai de cena no Rio aos 104 anos

Maria das Dores Santos Conceição (5 de maio de 1911 - 16 de maio de 2015), a Vó Maria, somente se casou com Ernesto Joaquim Maria dos Santos (1890 - 1974), o Donga, nos anos 1960, décadas depois de o compositor carioca ter registrado, em 1916, o samba amaxixado Pelo telefone, fundando oficialmente o ritmo. Mas Vó Maria - que saiu hoje de cena aos 104 anos, no Rio de Janeiro (RJ), em consequência de complicações derivadas de fratura no fêmur - ficou  conhecida sobretudo como a viúva do Donga talvez por carregar na figura franzina toda uma carga de ancestralidade em volta da criação do samba. Tanto que, didaticamente, Vó Maria delimitou fronteiras entre o gênero no título, Maxixe não é samba (ICCA), de seu primeiro e único álbum, produzido pela pesquisadora Marília Trindade Barbosa - sob a direção musical do violonista João de Aquino - e lançado em 2003, quando Vó Maria já contabilizava 92 anos. Sim, Vó Maria - nascida em Mendes, cidade fluminense do interior do Estado do Rio de Janeiro - também era cantora. Foi assídua frequentadora de rodas de sambas, mas somente começou  a se apresentar em público, de forma profissional, a partir dos anos 2000, geralmente em shows coletivos. Em 2013,  a reediçao do CD Maxixe não é samba  buscou ampliar o alcance desse único registro solo da voz de Vó Maria.

Período em que Gal foi musa da contracultura vai ser documentado em filme

Atual diretor artístico dos discos e shows de Gal Costa, ocupando função já desempenhada por nomes como Caetano Veloso e Waly Salomão (1943 - 2003), Marcus Preto vai lançar um olhar cinematográfico sobre o período em que a cantora foi a musa da contracultura brasileira. Preto - com Gal na foto de Lauro Lisboa Garcia - planeja com o cineasta Daniel Ribeiro um documentário sobre a carreira e a postura de Gal no período que vai de 1969 a 1972, quando Caetano Veloso e Gilberto Gil amargaram forçado exílio europeu. A ideia é começar a filmar em 2016, incluindo no documentário imagens do show Fa-Tal  -  Gal a todo vapor (1971), marco dessa fase da cantora.

Universal Music começa a explorar o acervo de Clara herdado da EMI Music

Ao comprar a EMI Music, a gravadora Universal Music levou para seu acervo toda a obra fonográfica de Clara Nunes (1942 - 1983), já que os 16 álbuns oficiais da cantora mineira foram lançados pela Odeon (extinta companhia brasileira vinculada à multinacional EMI). A transação comercial - anunciada em 2011 e concretizada em 2012 - paralisou a produção da reedição da caixa Clara (2004). Ainda está prevista, para data incerta, a reedição dessa caixa com os 16 álbuns da artista, dentro dos moldes da Universal Music. Mas, enquanto não lança a caixa, a gravadora já começa a explorar o acervo da cantora - em foto de Wilton Montenegro - com a edição de coletânea dedicada a Clara na série Novo millennium. Lançada este mês, a compilação rebobina gravações já selecionadas para coletâneas anteriores da artista. Com 20 fonogramas, a atual compilação inclui Alvorecer (Ivone Lara e Délcio Carvalho, 1974), O mar serenou (Candeia, 1975), Juízo final (Nelson Cavaquinho e Élcio Soares, 1973), Conto de areia (Romildo Bastos e Toninho Nascimento, 1974), Canto das três raças (Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro, 1976), Feira de mangaio (Sivuca e Glória Gadelha, 1977) e Morena de Angola (Chico Buarque, 1980), entre outros sucessos da artista.

Vinda de Minas, Raquel lança 'Mineral', disco produzido com Suzano e Negão

Ao gravar seu segundo álbum, Mineral (2014), lançado por via independente e ora em fase de expansão da distribuição de início restrita ao círculo musical das Geraes, a cantora e compositora mineira Raquel Coutinho procurou criar sonoridade pop eletrônica contemporânea que abarcasse os tambores de sua terra. Por isso, os sons percussivos são recorrentes ao longo do disco produzido por Marcos Suzano e Maurício Negão em parceria com Raquel. Há as percussões de Suzano - ouvidas nas nove músicas de Mineral - e há eventualmente as percussões tocadas pela artista em faixas como Tão perto (Raquel Coutinho e Maurício Negão). Sucessor de Olho d'água (Independente, 2009), Mineral é disco gravado no Rio de Janeiro, cidade na qual Raquel se radicou, vinda de Minas Gerais. Entre repertório autoral majoritariamente assinado pela cantautora com Maurício Negão, como creditado em Sigo cantando (música também ouvida em remix alocado como faixa-bônus) e no samba torto A volta do vagabundo, Raquel dá voz a uma musica da paulistana Iara Rennó, Gris.

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Música com Dudu Falcão dá continuidade ao projeto 'Extra físico' de Vercillo

Jorge Vercillo dá continuidade ao seu projeto digital Extra físico. Desde março deste ano de 2015, o cantor e compositor carioca vem lançando músicas inéditas nas plataformas digitais. Na sequência de Talismã sem par e de Silêncio na favela (música gravada com a voz e a percussão do artista baiano Carlinhos Brown), Vercillo vai apresentar neste mês de maio uma parceria com Dudu Falcão, Permissão. A letra pode ser analisada sob dois primas, podendo ser entendida tanto como um recado para o ser amado quanto como uma fala direcionada a um ser extraterrestre. O projeto Extra físico é composto por 12 canções criadas com letras de caráter social, lírico  e/ou filosófico.

'Estratosférica' já credita Paulo Junqueiro como o presidente da Sony Music

Feita em silêncio, a troca de presidente da filial brasileira da gravadora  multinacional (de origem japonesa) Sony Music - Paulo Junqueiro assumiu em abril de 2015 o posto até então ocupado por Alexandre Schiavo - já está documentada no encarte do álbum Estratosférica, de Gal Costa. O CD e o vinil - que chegam ao mercado fonográfico a partir de 26 de maio com 14 e com 12 músicas, respectivamente - já creditam Paulo Junqueiro como o presidente da Sony Music Brasil na ficha técnica publicada no encarte. Marcus Preto - que arquitetou o disco com a cantora desde setembro de 2013 - é creditado como diretor artístico e de repertório, escolhido com base numa pré-seleção de quase 150 músicas inéditas recolhidas entre vários compositores,  sobretudo os da nova geração.

CD com primeira trilha de 'Babilônia' apresenta faixa-título de disco de Celso

Celso Fonseca está prestes a lançar um álbum de inéditas, do qual já vem apresentando o single O que vai sobrar. A música que dá título a esse disco, Like nice, faz parte de Babilônia vol. 1, CD que chega às lojas na segunda quinzena deste mês de maio de 2015. A seleção de 16 fonogramas mistura gravações brasileiras e internacionais. A ala nacional inclui gravações exclusivas de Maria Bethânia - Eu te desejo amor, inédita versão em português escrita por Nelson Motta com base na letra em inglês (I wish you love) de Que reste-t-il de nos amours? (Charles Trenet e Léo Chauliac, 1942) - e Gal Costa, que fez novo registro de Ilusão à toa (Johnny Alf, 1961) especialmente para a trilha com arranjo de Felipe Pinaud e produção de Moreno Veloso e Kassin. Mart'nália também gravou o samba Pra que chorar? (Baden Powell e Vinicius de Moraes, 1964) para a abertura da novela. Ainda dentro das gravações exclusivas, o CD Babilônia vol. 1 apresenta A presença - tema instrumental de Roger Henri, compositor que assina a trilha incidental da trama - entre gravações atuais do cantor Mosquito (o seu samba Ô sorte) e da banda Melanina Carioca (Deixa se envolver). 

Eis a capa em sépia do quinto CD do cantor João Fênix, 'De volta ao começo'

Esta é a capa em sépia do CD De volta ao começo com João Fênix, quinto álbum do cantor pernambucano revelado no Rio de Janeiro (RJ), nos anos 1990, com o nome artístico de Fênix. A música-título De volta ao começo é de autoria do compositor carioca Luiz Gonzaga do Nascimento Jr. (1945-1991),  tendo batizado o álbum lançado por Gonzaguinha em 1980 através da EMI-Odeon.

quinta-feira, 14 de maio de 2015

CD em que Taviani canta hits dos Carpenters tem faixa com piano de Mancini

Já pronto, o disco em que a cantora carioca Isabella Taviani aborda o repertório do duo norte-americano The Carpenters (1969 - 1983) inclui faixa formatada com o piano do compositor, músico e arranjador norte-americano Henry Mancini (1924 - 1994). Nessa faixa, Taviani faz dueto com a cantora norte-americana Monica Mancini, filha de Henry. Outra convidada do álbum é a cantora norte-americana Dionne Warwick, que dueta com Taviani na música (They long to be) Close to you (Burt Bacharach e Hal David, 1963), gravada em 1970 pelos irmãos Karen Carpenter (1950 - 1983) e Richard Carpenter. Em seu primeiro disco feito fora de sua seara autoral, Taviani canta os hits dos Carpenters com as letras originais em inglês.  Marco Brito é um dos (dois) produtores do álbum.

Box embala reedições oportunas dos cinco álbuns de Leo Jaime nos anos 80

Nada mudou. Leo Jaime continua sendo um dos artistas mais interessantes da geração pop projetada nos anos 1980 por ter feito um som e uma discografia que passaram pelo funil estreito do tempo. Por isso mesmo, o título Nada mudou – tomado emprestado do nome de um hit radiofônico do artista em 1986 - é perfeitamente adequado para esse box em que a Sony Music embala os cinco álbuns de estúdio gravados pelo cantor e compositor naqueles anos de sexo e rock’n’roll, década do auge artístico da produção musical desse artista multimídia. Remasterizados por Carlos Savalla e Luigi Hoffer, os álbuns – Phodas “C” (1983), Sessão da tarde (1985), Vida difícil (1986), Direto do meu coração pro seu (1988) e Avenida das desilusões (1989) ­– voltam ao mercado fonográfico com faixas-bônus que completam a discografia de Leonardo Jaime, hoje com 55 bem vividos anos, naquela década. Vida difícil era - até então inédito - no formato de CD.

Para os jovens de hoje, da era dos selfies e das redes sociais, o nome de Leo Jaime está instantaneamente mais conectado à televisão, visto que o artista participa das temporadas do programa Amor & sexo, exibido sazonalmente pela TV Globo com trilha sonora assinada por Jaime. Tudo a ver. Artista multimídia, que concilia a música com trabalhos na TV e no teatro, Leo Jaime afinal expandiu seu campo de atuação ao longo de seus mais de 30 anos de carreira. Paralelamente à carreira musical, o artista exercitou sua versatilidade como cronista de jornais e revistas, ator de novelas e de séries – integrando, por exemplo, o elenco da atual temporada do programa juvenil Malhação (TV Globo) – e apresentador de reality show na TV paga. Tudo ao mesmo tempo agora!!

Para quem foi jovem no Brasil dos anos 1980, Leo Jaime foi um dos mais perfeitos tradutores pop das angústias, êxtases e decepções dessa fase dourada e doída da vida. Tanto que o primeiro álbum do box, Phodas “C, saiu em 1983, cheio de testosterona. Aos 23 anos, Leo Jaime pensava somente naquilo. Com o som tecnopop de sua época, Phodas “C” é, dos cinco álbuns da caixa, o que resulta mais irregular e datado. Mas é um retrato do som daquela época. Tem uma euforia adolescente, mas não ignorou o mal que assombrou aquela década. AIDS, uma das músicas do disco, tem hoje caráter histórico por trazer no título o nome da doença que ocuparia as mentes e as manchetes daquela década numa época em que o mal do século ainda era, no Brasil, assunto somente da comunidade científica e de um pequeno círculo antenado com os acontecimentos de Nova York (EUA) naquela era pré-webPhodas “C”, contudo, era um disco desencanado. O tom jocoso era perceptível já no título, que supostamente usava o nome de um navio – Leo posava de marinheiro na capa – para dar o recado pretendido. Mas a censura arbitrária da época não entrou de gaiata nesse navio e proibiu a execução pública de Sônia, por conta dos versos que nominavam práticas sexuais. Aos olhos e ouvidos da censura, tais versos tornavam a versão de Sunny – música lançada em 1966 por seu autor, o cantor e compositor norte-americano Bobby Hebb (1938 – 2010) – inadequada para a família brasileira. O que fez com que Phodas “C” chegasse lacrado às lojas de discos. Lançado no fim de 1983, Phodas “C” fez sucesso moderado, aquém das expectativas de Leo Jaime, mas a reduzida repercussão foi suficiente para dar rumo à carreira do artista. Goiano nascido na interiorana cidade de Anápolis, em 23 de abril de 1960, Leo Jaime teve a vida difícil que explicitou no título de seu terceiro álbum. Foi office-boy e faxineiro, entre outras profissões menos qualificadas na pirâmide social, antes de migrar para o Rio de Janeiro (RJ), à beira dos 17 anos, em busca de melhores oportunidades profissionais. Antes, a viagem teve escala em Brasília (DF), cidade em que Leo trabalhou como ator de musical e de espetáculo de dança, já mostrando a veia multimídia que afloraria mais forte a partir dos anos 1990. No Rio, Leo Jaime logo se enturmou na efervescente e emergente cena pop da época. E fez história.  Por ser amigo de Cazuza (1958 – 1990), indicou o Exagerado para o posto de vocalista de uma banda de rock stoniano que estava sendo formada na cidade. O convite tinha sido feito a Leo, mas este, além de já estar cantando em duas outras bandas, percebeu que sua praia musical era outra, mais voltada para o rockabilly, para a Jovem Guarda de Erasmo Carlos e para o humor. Mesmo assim, topou ouvir o som do Barão Vermelho já com o intuito de sugerir outra pessoa para o posto de vocalista da banda. Ao indicar Cazuza, o iniciante cantor retribuiu de certa forma as refeições que filou na casa do amigo em tempos em que a fome de comida era tanta ou até maior do que a fome de vida. De todo modo, Leo Jaime já tinha encontrado sua turma, integrando a formação original do divertido grupo João Penca e seus Miquinhos Amestrados. Só que a brincadeira era tanta que, percebendo que o grupo não levava a sério a possibilidade de seguir carreira profissional, Leo preferiu o porto seguro de um contrato com a gravadora CBS – a atual Sony Music – e partiu para a carreira solo, cujo pontapé inicial foi a gravação e edição de um compacto simples, em 1983, com as músicas O bolha e Vinte garotas num fim de semana. Essas duas raras gravações foram alocadas como faixas-bônus na presente reedição de Phodas “C”, com a terceira faixa adicional, Johnny pirou, versão de Johnny B. Goode, rock lançado por seu compositor Chuck Berry, a lenda viva do rock’n’roll dos anos 1950. 

Obra-prima da discografia de Leo Jaime, seu segundo álbum, Sessão da tarde, lançado em março de 1985, deu enfim ao cantor o sucesso nacional e avassalador que ele esperava ter obtido com Phodas “C”. A pose rockabilly do cantor na capa em preto e branco explicitava a mudança de rumo. Com atitude, Leo abandonou a estética tecnopop vigente na década e fez um disco mais new wave, mais Erasmo Carlos – a quem Sessão da tarde é sintomaticamente dedicado – e mais Leo Jaime, enfim. Um disco com topete, mas também melancólico, agridoce, pois focava o amor pela ótica desiludida dos menos favorecidos na pirâmide social – sentimento que Jaime conhecia bem. Tanto que a música pop que abria o disco se chamava O pobre. Com músicas deliciosas, leves e soltas, próprias para se ouvir numa sessão da tarde, o álbum enfileirou hits nas paradas. , A vida não presta, A fórmula do amor – exemplo do pop perfeito, gravado em dueto com Paula Toller, a carioca que despontava como vocalista do grupo Kid Abelha – e As sete vampiras (tema-título do filme de ‘terrir’ do cineasta Ivan Cardoso, composto por Leo para a trilha sonora do longa-metragem) se embolaram na preferência popular, quebrando a resistência inicial da diretoria da CBS com o disco. Detalhe: Sessão da tarde ainda tinha uma faixa que alcançou eco por ser endereçada à principal censora da época, Solange Hernandez. Versão de So lonely, sucesso do trio inglês The Police em 1978, Solange era o troco dado por Leo (com seu parceiro Leoni) na censura ao seu álbum Phodas “C”. Leo Jaime era o cara. Tanto que, entre este consagrador segundo álbum e o terceiro, o cantor ainda estourou nas rádios em 1986 com uma música que não fazia parte do repertório de Sessão da tarde: Rock estrela, tema-título do filme pop do cineasta paulistano Lael Rodrigues (1951 - 1989). Gravação nunca incluída nos álbuns oficiais de Leo Jaime, Rock estrela é a preciosa faixa-bônus da atual edição de Sessão da tarde. Joia (do fundo) do baú.

Com a fama, veio a ressaca do sucesso. Vida difícil, terceiro álbum de Leo Jaime, lançado em 1986, foi produto de crise existencial do artista. Incomodado com o capitalismo selvagem que transformava bandas e cantores do rock numa propaganda de refrigerante, Jaime esboçou virada neste disco menos irreverente, precocemente mais maduro. O grande sucesso foi a balada Nada mudou, boa o suficiente para fazer o álbum vender mais de 200 mil cópias. Leo Jaime queria uma ideologia para viver de música sem entrar na engrenagem. E começou a transitar por outros universos musicais. Incluída como faixa-bônus de Vida difícil, a regravação avulsa de A lua e eu (Cassiano e Paulo Zdan) – sucesso do soulman brasileiro Cassiano em 1976 – sinalizava que o coração de Leo Jaime começava a bater em outras direções. Direto do meu coração pro seu – quarto álbum do cantor, lançado em 1988 – já explicitava no título um romantismo quase pueril. Mas, no álbum, o artista também voltava a beber da fonte do rock’n’roll dos anos 1950, como deixavam claro as versões de Hound dog (Hot dog, título bem-humorado do blues de 1952 que Elvis Presley trouxe para o universo do rock em 1956) e Tutti frutti (o hit seminal de Little Richards em 1955). A faixa-título, aliás, era versão de Directly from my heart, canção gravada por Little Richards em 1959 que Jaime veio a conhecer em registro de Frank Zappa (1940 – 1993). Ao regravar ternamente a dengosa canção Gatinha manhosa, sucesso de Erasmo Carlos em 1966, Jaime mais uma vez indicava de onde vinha a sua música pop. Só que, naqueles tempos em que o rock brasileiro se engajava na luta contra a corrupção galopante de Brasília (DF), um disco de romantismo explícito soava como atentado ao pudor. Direto do meu coração pro seu fez sucesso, mas em proporções reduzidas e abriu caminho para um disco que já expressava melancolia no seu título, Avenida das desilusões, lançado em 1989. Apesar de bater em teclas antigas do cancioneiro do artista, como a irreverência sexista (nas faixas Eterno enquanto duro e Sucesso sexual) e o romantismo direto (Eu perco o rumo sem você), alguma coisa já parecia fora da ordem naquele momento. Apesar da beleza de sua música-título e da precisão da regravação de Índios (em afinada abordagem da canção da banda Legião Urbana, lançada em 1986), Avenida das desilusões jamais encontrou seu endereço, seu caminho. Não por acaso, foi o último álbum de Leo Jaime na CBS. Daí em diante, a carreira fonográfica do artista multimídia seria progressivamente desacelerada. Mas os fonogramas destes cinco álbuns – ora reunidos neste oportuno box produzido por Hugo Pereira Nunes com reprodução da arte dos LPs originais – são provas de que nada mudou. Leo Jaime ainda é – e sempre será – um dos artistas mais talentosos da geração pop dos anos 1980.

DVD e CD 'Toca + Lulu ao vivo' exaurem cancioneiro genial do pop brasileiro

EDITORIAL - O cantor e compositor carioca Lulu Santos é um dos mais habilidosos artífices do universo pop. Poucos têm - como Lulu - o dom de chegar à perfeição pop na composição de uma canção. E foram várias. Rei do pop brasileiro, Luiz Maurício Pragana dos Santos construiu, ao longo de 35 anos de carreira solo, um cancioneiro tão monumental que tem cacife para ser a trilha sonora de um país, como já conceituou certa vez Caetano Veloso, um dos ilustres admiradores desse repertório. Lulu Santos é um gênio do pop inclusive em âmbito mundial. Poucos compositores no mundo ostentam manancial de hits que atravessam gerações. Contudo, por mais que resista esplendidamente bem ao tempo, esse cancioneiro tem sido exaurido pela voraz indústria do disco. Toca + Lulu ao vivo - registro de show da turnê Toca Lulu, captada em apresentações feitas na Fundição Progresso, no Rio de Janeiro (RJ), nas madrugadas de 4 e 5 de outubro de 2014 - é um produto que reitera o sucateamento dessa obra inspirada. Na função de diretor musical da gravação ora editada em CD e DVD via Sony Music, Lulu - justiça seja feita - procura variar os arranjos, criar levadas diferentes, enfim, tenta dar sutil ar de novidade a esse repertório. Mas o fato é que já há numerosos registros ao vivo de 19 das 21 músicas do roteiro. E as duas únicas estreantes em DVD - Sócio do amor (Lulu Santos, 2014) e Luiz Maurício (Lulu Santos, 2014) - não chegam a amenizar a sensação de que esse show já foi visto e ouvido. O que torna dispensável o lançamento de mais uma gravação ao vivo calcada em hits, uma vez que Lulu acabou de lançar bom álbum de inéditas, Luiz Maurício (Sony Music, 2014). Quando o cantor subiu ao palco da Fundição Progresso, o disco Luiz Maurício já estava prestes a ser lançado. Não teria sido o caso de incluir no roteiro músicas novas como Torpedo (Lulu Santos, 2014), cujo potencial para hit é evidente? Mas o fato é o novo disco acabou passando despercebido, estando pouco representado no DVD, embora os extras exibam os clipes de Fogo amigo (Lulu Santos, 2014) e SDV (Segue de volta) (Lulu Santos e Dadi Carvalho, 2011). Enfim, o cancioneiro de Lulu Santos já soa exaurido em DVDs. Como o artista lançou periodicamente discos de inéditas ao longo dos anos 2000, a questão talvez seja dar uma chance a pérolas perdidas no fundo do baú do artista para dar descanso em sucessos que já soam inevitavelmente batidos.  É possível tocar + Lulu sem recorrer às mesmas músicas de sempre.

Disco 'Made in Brazil' de Eliane Elias podia ter sido feito nos Estados Unidos

Resenha de CD
Título: Made in Brazil
Artista: Eliane Elias
Gravadora: Concord Jazz / Universal Music
Cotação: * * *

Como já alardeado no título, o álbum Made in Brazil é o primeiro disco feito pela pianista, compositora e cantora paulistana Eliane Elias no seu país natal desde que a artista se radicou nos Estados Unidos em 1981. Mas o fato é que Made in Brazil - álbum que teve gravações adicionais nos estúdios Abbey Road em Londres, cidade onde foram captados os instrumentos da orquestra regida pelo maestro Rob Mathes e ouvida em sete das 12 músicas - soa como se tivesse sido feito nos Estados Unidos. Por mais que tenha sido gravado com adesões eventuais de músicos brasileiros como Roberto Menescal, cuja guitarra eletroacústica é ouvida em Você (Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli em versão em inglês de Ray Gilbert, 1966) e em Rio (Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli, 1963), Made in Brazil filtra o samba e a bossa nova pela estética americanizada que pauta a discografia de Elias. Esse tom fica nítido já na abordagem desbotada do samba Aquarela do Brasil (Ary Barroso, 1939) que abre o disco. De qualquer modo, Made in Brazil reforça o sotaque pop que vem dando o tom da obra fonográfica da artista. Essa face pop é exposta inclusive nas músicas inéditas compostas por Elias para Made in Brazil. Balada melodiosa da lavra solitária da artista gravada com o vocal de Ed Motta, Vida (If not you) - destaque desse repertório autoral - exemplifica a guinada pop dada por Elias, em movimento similar ao feito por sua colega canadense Diana Krall. Sim, o jazz também está entranhado no disco em passagens instrumentais nas quais sobressaem o piano de Elias, como na parte final do registro do samba Águas de março (Antonio Carlos Jobim, 1972). Aliás, por mais que apresente inéditas autorais como Seaching, Made in Brazil acaba se escorando na música soberana de Jobim, representada também pelo medley que junta Este seu olhar (Antonio Carlos Jobim, 1959) e Só em teus braços (Antonio Carlos Jobim, 1959), música creditada com seu título alternativo Promessas. Enfim, há indiscutível refinamento na produção orquestrada por Elias, Marc Johnson e Steve Rodby. Mas falta a brasilidade sugerida pelo título. No fecho do disco, o registro do samba No tabuleiro da baiana (Ary Barroso, 1936) reitera que falta um sabor mais nativo aos quitutes preparados por Eliane Elias em Made in Brazil.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Mohandas antecipa, em 'single', duas músicas de álbum produzido por Lucas

A banda carioca Mohandas grava seu segundo álbum no estúdio Maravilha 8, no Rio de Janeiro (RJ), com produção de Lucas Vasconcelos (sentado de camisa branca, com o grupo, na foto de Diana Sandes). O sucessor de Etnopop (Independente, 2012) tem lançamento previsto para o segundo semestre deste ano de 2015. Mas duas músicas do disco, Seres e Your eyes, já serão antecipadas pelo sexteto em single duplo que tem lançamento agendado para 25 de maio de 2015. Seres, aliás, já está sendo alvo de clipe filmado neste mês de maio. A banda Mohandas é formada por Diogo Jobim,  Micael Amarante, Bel Baroni,  Dudu Lacerda,  Nana Orlandi  e por Pedro Rondon.

Voz destacada em musicais de teatro, Lilian Valeska encara riscos em 'Elas'

Resenha de CD
Título: Elas
Artista: Lilian Valeska
Gravadora: Edição independente da artista
Cotação: * * *

Lilian Valeska corre riscos ao longo das 10 faixas de seu primeiro álbum solo, Elas, disco ainda sem distribuição comercial. Atriz e cantora carioca revelada em musicais de teatro, nos quais costuma roubar a cena quando solta seu vozeirão diplomado na escola da black music e lapidado no coral de Igreja Presbiteriana situada no bairro carioca da Penha, Valeska encara músicas já gravadas de forma emblemática por cantoras importantes em suas formação musical. Sob a direção musical de Josimar Carneiro e Jorge Aílton, autores dos arranjos do CD, Valeska  enfrenta o desafio de cantar músicas associadas a elas - o que impede o disco-tributo de começar a cavar um terreno musical próprio para essa artista projetada em escala nacional no ano passado como uma das quatro protagonistas da série Sexo e as nega (TV Globo, 2014). No disco, gravado sob a direção artística da própria Lilian Valeska, são elas por ela. Equação injusta quando, no meio delas, há cantoras icônicas como Elis Regina (1945 - 1982) - de cujo repertório Valeska pesca a pérola Jardins de infância (João Bosco e Aldir Blanc, 1975), música do show e disco Falso brilhante (Philips, 1976) - e Marlene (1922 - 2014), celebrada com reverente abordagem do samba Lata d'água (Jota Junior e Luiz Antônio, 1952). Injustas com Valeska, mas inevitáveis porque algumas escolhas de repertório soam óbvias, as comparações mostram que uma cantora de recursos vocais precisa ficar atenta ao criar o conceito de um disco para fugir da armadilha de soar como genérica de colegas como Elza Soares. Valeska cai bem no suingue de Edmundo (1960) - a versão marota de Aloysio de Oliveira (1914 - 1955) para In the mood (Wingy Manone, Joe Garland e Andy Razaf, 1939) - sem que seu registro seja páreo para a gravação original da Mulata assanhada. De todo modo, a beleza da voz de Valeska salta aos ouvidos no disco, sobretudo no registro - em tom de câmara - de Derradeira primavera (Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, 1962), música lançada em disco por Elza Laranjeira (1925 - 1986), porém mais associada à divina Elizeth Cardoso (1920 - 1990). Aberto com Me deixa em paz (Monsueto e Aírton Amorim, 1952), música associada à voz de Alaíde Costa, o disco reapresenta música de autoria da própria Lilian Valeska. Trata-se de Procura, balada sensual de alma soul lançada em disco, em 1990, por ninguém menos do que Lady Zu, uma das rainhas nativas da disco music. A propósito, o fraseado soul da voz de Valeska está entranhado em todo o álbum, mesmo quando a cantora cai no samba, como em Não vá (Sandra e Mirna, 1986) - faixa que tributa a pioneira voz feminina da era Black Rio, Sandra de Sá, que lançou o tema em gravação de registro mais caloroso do que o tom ameno adotado por Valeska - e em Não deixe o samba morrer (Edson e Aloísio, 1975), carro-chefe do primeiro álbum de Alcione. Por causa de você (Antonio Carlos Jobim e Dolores Duran, 1957) reitera a beleza da voz de Valeska, mesmo que essa voz transite no disco - gravado no estúdio Tenda da Raposa, no Rio de Janeiro (RJ) - sem a dramaticidade imponente dos registros feitos pela cantora nos palcos em que encena musicais de teatro. A faixa de maior dramaticidade do disco é Dancei, inédita versão em português - escrita pelo ator e dramaturgo carioca Miguel Falabella - de Last dance (Paul Jabara, 1978), um dos sucessos da cantora norte-americana Donna Summer (1948 - 2012) na era da disco music. Ao mesmo tempo em que evoca o som dos dancin' days, a música embute atitude que valoriza o canto - vocacionado para o drama - de Lilian Valeska, cantora que corre riscos neste merecido disco solo.