terça-feira, 24 de maio de 2016

Carol Saboya evolui bem na dança da voz da MPB 'jazzy' que pauta 'Carolina'

Resenha de álbum
Título: Carolina
Artista: Carol Saboya
Gravadora: AAM / Rob Digital (distribuição no Brasil)
Cotação: * * * *

Cantora carioca que debutou no mercado fonográfico em 1997 quando a MPB já estava jogada à margem do mercado fonográfico brasileiro, Carol Saboya é do tipo de intérprete brasileira mais valorizada no exterior - sobretudo em nichos mercadológicos dos Estados Unidos e do Japão - do que no próprio Brasil. Admiradores estrangeiros da MPB saúdam e consomem com gosto a música refinada cantada por Carolina Job Saboya, filha do pianista e arranjador carioca Antonio Adolfo. É para esses nichos que Carolina - o 12º título da discografia da cantora - se dirige primordialmente, embora o álbum também esteja sendo lançado no Brasil em edição física em CD distribuída via Rob Digital. Carolina reitera atributos de Carol como cantora ao longo de dez gravações que transitam pela MPB com o toque jazzy da banda virtuosa formada pelos músicos André Siqueira (percussão), Jorge Helder (baixo), Leo Amuedo (guitarra), Marcelo Martins (saxofone e flauta), Rafael Barata (bateria e percussão) sob a liderança do pianista Antonio Adolfo, produtor de Carolina. Sobretudo a afinação e emissão exemplares, expostas no canto límpido do samba A felicidade (Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, 1959), por exemplo. Passarim (Antonio Carlos Jobim, 1985) voa em harmonia nessa fina mistura de música brasileira com a tal influência do jazz. É o mesmo voo feito em segurança por Avião (1989), samba de Djavan, compositor cultuado nesses nichos jazzísticos dos EUA pelas harmonias inusitadas da singular obra autoral. A voz de Carol evolui bem nessa dança entre a MPB e o jazz posto como o tempero sutil das dez gravações de Carolina, jamais como o gênero-guia dos fonogramas. É fato que Carol Saboya não é cantora que chama especial atenção pelo sentimento posto na interpretação - o que fica evidente na abordagem de outra composição de Djavan, Faltando um pedaço (1981), na lembrança de Olha, Maria (Antonio Carlos Jobim, Chico Buarque e Vinicius de Moraes, 1970) e no canto de Fragile (1987), sucesso da discografia solo do cantor e compositor inglês Sting. Mesmo que falte a densidade sugerida pelos versos que abrem fendas emocionais na canção de Djavan, Faltando um pedaço é mais um exemplo da afinação e emissão perfeitas da cantora. O trunfo de Carol Saboya é a musicalidade apurada do canto - cujo senso rítmico a capacita para o gol feito em 1 x 0 (Pixinguinha e Benedito Lacerda, 1946), o choro que Carol segura bem com a letra escrita em 1993 pelo compositor mineiro Nelson Angelo. Com joias raras como Senhoras do Amazonas (1984), única parceria de João Bosco com o atualmente arisco Belchior, Carolina é disco pautado pela sofisticação, apto a encantar admiradores da música brasileira mundo afora. Como ressalta Zanzibar (Edu Lobo, 1970), tema instrumental levado por Carol nos vocalises, a voz de Carolina Job Saboya por vezes funciona como um instrumento na dança em que cantora e músicos se afinam em registros que evidenciam musicalidade refinada, biscoito finíssimo para quem tem apurado paladar musical. Carolina é disco para poucos e bons...

Coletânea de 'brazilian pop' fecha série lançada pela Som Livre para Rio 2016

Com a edição neste mês de maio de 2016 da coletânea dedicada ao elástico gênero rotulado como brazilian pop (eufemismo que agrega ritmos populares como pagode, sertanejo e funk), a gravadora Som Livre completa a série de quatro compilações produzidas para o público estrangeiro que virá ao Brasil - em especial, à cidade do Rio de Janeiro - por conta dos jogos olímpicos a serem realizados no Rio em agosto deste ano de 2016. A coletânea de brazilian pop abarca gravações de Luan Santana, Sorriso Maroto, Thiaguinho e Wesley Safadão, entre nomes em evidência no atual mercado fonográfico do Brasil. Inspirada pelo evento esportivo batizado como Rio 2016, a série de coletâneas temáticas Brasil encanta teve início em janeiro deste ano de 2016 com a edição da compilação dedicada à Bossa Nova (clique aqui para reler o post sobre o best of da bossa). Ao todo, a série Brasil encanta é composta por quatro coletâneas. Além das compilações de Bossa Nova e de braziian pop, há coletâneas de MPB (cuja seleção inclui fonogramas de Alceu Valença, Chico Buarque, Maria Gadú, Milton Nascimento, Moraes Moreira, Novos Baianos e Sandra de Sá, entre outros) e de samba (com gravações de Almir Guineto, Beth Carvalho, Fundo de Quintal Roberta Sá, Zeca Pagodinho e os mesmos Novos Baianos alocados na compilação de MPB). A Som Livre é a única gravadora autorizada a lançar produtos fonográficos associados (oficialmente) ao evento Rio 2016.

Dois primeiros álbuns de Cartola serão encaixotados com compilação inédita

A gravadora Universal Music produz, para o segundo semestre deste ano de 2016, caixa com reedições em CD dos dois primeiros álbuns do cantor, compositor e músico carioca Angenor de Oliveira (1908 - 1980), o Cartola. Intitulada Todo tempo que eu viver, a caixa tem curadoria de Eduardo Magossi, feita sob a supervisão de Luiz Garcia. Com capas restauradas e reproduções das letras das músicas e dos textos dos LPs originais, os dois álbuns do artista - ambos intitulados Cartola e editados em 1974 e 1976, respectivamente, pela gravadora Discos Marcus Pereira - serão encaixotados em edições remasterizadas ao lado de coletânea inédita do bamba da escola de samba Mangueira. Intitulada Tempos idos, a compilação vai reunir fonogramas avulsos até então dispersos na discografia de Cartola. São gravações feitas por Cartola - visto no traço de Elifas Andreato - para projetos especiais e discos de outros artistas. A caixa vai trazer textos inéditos - escritos por Magossi - sobre os álbuns e as gravações reunidas na inédita compilação, produzida para o projeto.

Single 'A vida pede mais abraço que razão' anuncia o álbum 'Líquido' de Azul

Disponível nas plataformas digitais a partir de hoje, 24 de maio de 2016, com capa que expõe arte de Raul Luna, o single com a música A vida pede mais abraço que razão (Tibério Azul, André Julião, Lucas Araújo e Yuri Queiroga) anuncia o lançamento de Líquido, segundo álbum solo de Tibério Azul, cantor e compositor pernambucano que se radicou há um ano na cidade do Rio de Janeiro (RJ). O sucessor de Bandarra (Joinha Records, 2011) tem produção assinada por Yuri Queiroga.  Com sopros orquestrados pelo trombonista Nilsinho Amarante, a música A vida pede mais abraço que razão foi gravada nos estúdios Muzak (no Recife - PE) e MiniStereo (no Rio de Janeiro). O álbum  Líquido  vai chegar ao mercado fonográfico brasileiro em edição da Superlativa.

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Trilha original de 'Auê' é editada em CD com as 25 músicas do vivaz musical

A trilha sonora original do musical Auê - estreado em janeiro deste ano de 2016 na cidade do Rio de Janeiro (RJ), onde voltou à cena neste mês de maio - está sendo lançada em CD editado pela Sarau, empresa produtora do vivaz espetáculo estrelado pela companhia teatral Barca dos Corações Partidos. Sob direção musical de Alfredo Del-Penho e Beto Lemos, autores do arranjos, o elenco da companhia - Adrén Alves, Alfredo Del-Penho, Beto Lemos, Fábio Enriquez, Eduardo Rios, Renato Luciano e Ricca Barros - interpreta no disco os mesmos 25 temas da trilha sonora, alocados em 24 faixas no CD. A maioria das músicas foi composta para o espetáculo pelos integrantes da Barca. Mas três composições - a música-título Auê, Ciúme e Remendo - têm a assinatura do baterista Rick de La Torre, músico convidado do (vibrante) espetáculo. Clique aqui para (re)ler a resenha de Auê.

Álbum inventaria obra de Irineu de Almeida e faz ressoar o som do oficleide

Lançado pela gravadora Biscoito Fino neste mês de maio de 2016, o álbum Irineu de Almeida e o oficleide 100 anos depois chega ao mercado fonográfico brasileiro com a missão cumprida de fazer duplo resgate histórico. Além de inventariar a obra do compositor, trombonista e oficleidista (de presumível origem carioca) Irineu Gomes de Almeida (23 de novembro de 1863 - 22 de agosto de 1914), integrante da primeira formação da Banda do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro em 1896, o disco faz ressoar o som do oficleide e a sonoridade do choro tal como o gênero era tocado no fim do século XIX. Instrumento de sopro de origem francesa, inventado em 1817, o oficleide chegou ao Brasil por volta de 1850 e se tornou fundamental na construção da sonoridade inicial do choro. Mas o instrumento - celebrizado justamente por Irineu de Almeida, líder do grupo Choro Carioca - acabou sendo progressivamente deixado de lado pelos chorões posteriores, passando a ser substituído pelo violão de sete cordas. O álbum Irineu de Almeida e o oficleide 100 anos - gravado entre 3 e 6 de novembro de 2015 no estúdio da gravadora Biscoito Fino, na cidade do Rio de Janeiro (RJ) - reapresenta 14 registros inéditos de músicas de autoria de Irineu. Os temas são tocados por um grupo de choro formado por Everson Moraes (oficleide), Aquiles Moraes (cornet), Leonardo Miranda (flauta), Lucas Oliveira (cavaquinho), Iuri Bittar (violão) e Marcus Tadeu (ritmo). O embrião do disco ganhou vida em 2013, quando o trombonista e bombardinista Everson Moraes encontrou um oficleide abandonado em fazenda de café do interior do Estado de São Paulo. O músico arrematou o instrumento e começou a estudá-lo, importando da França, na sequência, outros dois oficleides, ambos centenários. É no toque do oficleide de Everson que o álbum rebobina temas da obra autoral de Irineu como o (até então inédito em disco) choro Pisca-pisca e a polca Albertina (gravada em 1911 pelo grupo Choro Carioca). De carátert histórico, o repertório eleva o valor documental do álbum Irineu de Almeida e o oficleide 100 anos depois por apresentar temas até nunca registrados em disco como Lembranças - schottisch de batida marcial - e a valsa Despedida, arranjada pelo violonista Maurício Carrilho. O repertório inclui a polca Qualquer cousa, cuja gravação original - feita em 1910 - é a única feita com um solo de oficleide de que se tem notícia em escala mundial. A composição Qualquer cousa também é registrada em ritmo de choro.

Tulipa lança single com 'Efímera', a versão em espanhol do primeiro sucesso

Em turnê por países da América Latina como Equador e México, Tulipa Ruiz expande obra autoral para além do Brasil com a edição do single Efímera, já disponível nas plataformas digitais. Trata-se da versão em espanhol - escrita por Alejandro López - de Efêmera (Tulipa Ruiz e Gustavo Ruiz, 2010), música que batizou o primeiro álbum da cantora e compositora paulista e que se tornou o primeiro sucesso da artista. Embora a gravação seja direcionada sobretudo ao mercado fonográfico de língua hispânica, o single  Efímera também foi lançado nas plataformas de streaming do Brasil.

Canto inesperado de Rosa Passos faz surpresas em grandioso disco ao vivo

Resenha de álbum
Título: Rosa Passos ao vivo
Artista: Rosa Passos
Gravadora: Biscoito Fino
Cotação: * * * * 1/2

 Grande cantora que debutou no mercado fonográfico com Recriação (Chantecler, 1979), álbum inteiramente autoral lançado no ano em que a música brasileira viveu boom feminino, a baiana Rosa Passos não fez sucesso de imediato. Contudo, aos poucos, um público fiel e bem antenado foi seguindo os passos de Rosa, cantora hábil nas divisões inusitadas. Álbum lançado neste mês de maio de 2016 em edição da gravadora Biscoito Fino, Rosa Passos ao vivo - o primeiro registro de show da cantora - reitera as qualidades desta intérprete que nunca canta uma música do jeito que ela costuma ser cantada. O clichê aplicado a Rosa - o de ser espécie de João Gilberto de saias - tem lá razão de ser, e não pelo fato de os dois cantores dominarem a arte de cantar baixinho. Aliás, Rosa chega a sussurrar em determinadas passagens do samba Você vai ver (Antonio Carlos Jobim, 1980). Nesta inédita gravação ao vivo, captada no Uruguai em show feito pela cantora em 12 de setembro de 2014 no Teatro UAMA, na cidade de Carmelo, o canto inesperado de Rosa Passos faz surpresas na interpretação de 14 sucessos da música brasileira. A voz macia de Rosa é um instrumento que se afina com o toque dos músicos da banda formada por virtuoses como o baterista Celso de Almeida, o violonista Lula Galvão (arranjador do show), o baixista Paulo Paulelli e o pianista José Reinoso, cujo piano adorna o canto sussurrado de Rosa em Eu e a brisa (Johnny Alf, 1967). Rosa passos ao vivo é basicamente um disco de sambas, embora no roteiro do show uruguaio haja até um fox do repertório de Roberto Carlos, Emoções (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1981), reconstruído por Rosa em clima cool. Com obra ideal para Rosa, Djavan é compositor recorrente no repertório do disco, assinando três das 14 músicas, porque o último álbum da artista, Samba dobrado - Canções de Djavan (Universal Music, 2013), foi todo dedicado ao cancioneiro autoral do artista alagoano. Curiosamente, A ilha (Djavan, 1980) - ora habitada pela cantora no tom do samba-jazz-canção - é música ausente do tributo. Já o samba Capim (Djavan, 1982) cresce no show com o suingue todo próprio da cantora, que também morde o samba Maçã (Djavan, 1987) com voraz apetite rítmico, explorando as síncopes do samba dobrado de Djavan. Cantora diplomada na escola da Bossa Nova, Rosa Passos fala o idioma do jazz e tem astuto senso rítmico. É por isso que, ao cantar o samba Olhos verdes (Vicente Paiva, 1950), a baiana remarca a cadência já bem marcada do sucesso da cantora Dalva de Oliveira (1917 - 1972). Com requebros e maneiras próprias, Rosa também recria Só danço samba (Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, 1962) - em inteligente diálogo com o toque acústico do baixo de Paulo Paulelli - e Meu bem meu mal (Caetano Veloso, 1981), música que canta em andamento demasiadamente acelerado, sem evidenciar a contento todos os contrastes expostos nos versos da letra. Rosa brilha especialmente nas músicas mais macias, como Verbos do amor (João Donato e Abel Silva) - (re)dividida pela cantora sem perda do sentido original da letra - e o interiorizado samba-canção Preciso aprender a só ser (Gilberto Gil, 1973), enquadrado em moldura rítmica típica do gênero. De Gilberto Gil, Rosa também canta Deixar você (1982) - veículo para o suingue do baixo de Paulo Paulelli - e a sinuosa Ladeira da preguiça (1973). O bolero Quando o amor acontece (João Bosco e Abel Silva, 1987) completa o irretocável repertório deste grandioso álbum ao vivo em que o inesperado canto de Rosa Passos ainda faz surpresas para ouvintes atentos.

domingo, 22 de maio de 2016

Joyce grava em 'Palavra e som' baião nascido rancho com letra de Torquato

Em 2014, Joyce Moreno tomou conhecimento - por meio de postagem no Facebook do poeta e compositor Ronaldo Bastos - de inédito poema do compositor Torquato Neto (1944-1972). Naquele mesmo ano, a cantora e compositora carioca musicou os versos de O poeta nasce feito, escritos em 1969 pelo poeta piauiense quando ele estava em Paris, na França, e entregues a Bastos por Torquato tão logo o poema foi feito. Composta em ritmo de marcha-rancho (certamente pelo fato de a compositora ter ficado sugestionada por saber que Torquato tinha registrado em papel a ideia de abrir a parceria com Joyce com o envio de uma letra que, na imaginação do poeta, viraria uma marcha-rancho), a música foi - enfim - registrada em disco pela artista neste primeiro semestre de 2016. Só que, em vez de marcha-rancho, a música foi gravada com batida de baião. A primeira parceria de Joyce e Torquato Neto integra o repertório do álbum Palavra e som, gravado pela cantora sob encomenda do mercado fonográfico do Japão e ainda sem previsão de edição no Brasil.

Venturini lança 'Mantra de São João', bonito canto junino em feitio de oração

Resenha de single
Título: Mantra de São João
Artista: Flávio Venturini
Gravadora: Caramelo Edições Musicais Ltda
Cotação:  * * * *

O som das noites de São João ficará mais lírico e poético neste ano de 2016. Pelo menos no que depender de Flávio Venturini. Sem lançar músicas inéditas desde o álbum Venturini (MP,B Discos, 2013), o cantor, compositor e músico mineiro reitera o talento de inspirado melodista com edição do single Mantra de São João. Disponível nas plataformas digitais desde a última sexta-feira, 20 de maio de 2016, o single exala afeto e poesia. Na contramão dos vivazes temas juninos moldados para as quadrilhas, Mantra de São João é bonita canção em feitio de oração de amor. A letra é ambientada em noite estrelada, com balões brilhando no céu. Uma noite de paz. É nesse cenário junino que a personagem dos versos arde na fogueira das paixões ao lembrar do grande amor, alvo da declaração feita na melodiosa canção, gravada com o suave toque rural de acordeom e de viola. Tema invernal, Mantra de São João aquece corações, ecoando o amoroso canto de Flávio Venturini.

Pipa a voar no tempo, MPB4 gira renovado na roda viva em disco de inéditas

Resenha de álbum
Título: 50 anos MPB4 - O sonho, a vida, a roda viva!
Artista: MPB4
Gravadora: Selo Sesc
Cotação: * * * *

 Em mais de um sentido, o álbum 50 anos MPB4 - O sonho, a vida, a roda viva! representa uma retomada para o quarteto de origem fluminense que se profissionalizou em 1965, embora já militasse no Centro Popular de Cultural (CPC) de Niterói (RJ), inicialmente como trio, desde 1962. Além de ser o primeiro disco do grupo após a saída de cena de Antônio José Waghabi Filho (14 de novembro de 1943 - 8 de agosto de 2012), o Magro, criador da identidade vocal do MPB4, O sonho, a vida, a roda viva! renova e expande o repertório do quarteto com 13 músicas inéditas de compositores identificados com os ritmos do Brasil. Desde o álbum 4 coringas (Barclay, 1984), lançado há longos 32 anos, o MPB4 não apresentava um disco com repertório inteiramente inédito. Idealmente, O sonho, a vida, a roda viva! deve ser ouvido sem comparações com os discos do período 1966-1984, fase áurea do MPB4, para que possa ser avaliado no atual contexto do quarteto. "Pra que pensar no que ficou pra trás? / Ver a vida no retrovisor? / ... / Sai da frente que agora é que a fila vai andar / O que é passado, meu bem / Valeu pra comprovar / Jornal de ontem, nem pensar", pondera o grupo em versos do sincopado samba Jornal de ontem (Sérgio Santos e Joyce Moreno), cujo arranjo vocal (de Miltinho) remete na introdução à pioneira modernidade vocal do grupo Os Cariocas. "Eu sou pipa ao vento a voar / Vivo esse momento / Enquanto o tempo me levar", reitera o MPB4 no lirismo dos versos de A pipa e o tempo (Dalmo Medeiros e Cacau Castro). Sim, os tempos são outros. O próprio grupo já é outro, sendo atualmente formado por Aquiles Reis, Dalmo Medeiros (convidado em 2004 a ocupar o lugar do dissidente Ruy Faria), Miltinho e Paulo Malaguti Pauleira (substituto de Magro). E, por fim, a música brasileira já é outra. A produção da MPB nas décadas de 1960 e 1970 paira acima dos tempos e modismos como uma das mais vigorosas da história da música brasileira. O repertório recolhido pelo MPB4 resulta sem força no confronto com a produção daqueles anos áureos. O que não significa que não haja várias preciosidades entre as 13 músicas do disco. Compositor lançado pelo MPB4 no álbum Palhaços e reis (Philips, 1974), Guinga contribui com Brasileia, baião surreal feito em parceria com o talentoso Thiago Amud. Com a mesma espirituosidade e ainda na seara nordestina, Ateu é tu (Rafael Altério e Celso Viáfora) profana a hierarquia das instituições religiosas. Já o samba Desossado - parceria de João Bosco com Francisco Bosco - sobe o morro com as pernas tortas do Brasil retratado na letra com alta dose de crítica social. Já a Valsa do baque virado (Mario Adnet e João Cavalcanti) adentra os salões europeus do Brasil colonial com evocações da pernambucana nação do maracatu. Outra reminiscência de tempos imemoriais, Maxixe (Fred Martins e Alexandre Lemos) evoca a cadência manemolente do ritmo que batiza o tema. Contudo, o MPB4 canta e vive o Brasil de hoje, ainda que, ao término do disco, faça o inventário da jornada cinquentenária em A voz na distância (Paulo Malaguti Pauleira). Mas o Brasil do MPB4 extrapola as fronteiras do centros urbanos. Tanto que Milagres (Breno Ruiz e Paulo César Pinheiro) poderia ser a trilha de uma folia de reis de um interior que insiste em ser (também) folclórico. Bem produzido por Miltinho e Paulo Malaguti Pauleira, que se revezaram na criação dos arranjos vocais (elaborados com requinte que preserva a identidade vocal do MPB4, aludindo por vezes às vozes de Magro), O sonho, a vida, a roda viva! ostenta arranjos do pianista Gilson Peranzzetta. Na parte dos arranjos vocais, vale mencionar a embaraçada teia de voz que valoriza a metalinguística Trança de cipó (Renato Rocha). Ainda dentro do universo metalinguístico, Harmonia (Miltinho, Sirlan e Paulo César Pinheiro) dá o recado humanista com outro belo arranjo vocal (de Miltinho): "Rancor, perdão / São acordes de opção / Amar é harmonizar / O coração". No mesmo tom afetivo, o gaúcho Vitor Ramil cai no samba Filigrana e reitera em verso que "O amor é filigrana fácil de perder". Mesmo com melodia de menor estatura dentre a safra de 13 músicas inéditas do álbum, A ilha (Kleiton Ramil e Kledir Ramil) - canção orquestrada com as cordas do Quarteto Radamés Gnattali -  ajuda o MPB4 a olhar em frente neste renovador álbum em que, descartando o jornal de ontem, o quarteto se nega a reportar velhas novidades musicais, soando com pipa ao vento a voar no tempo presente.

Aos 78 anos, Martinho da Vila prepara álbum de inéditas 'De bem com a vida'

Aos 78 anos, Martinho da Vila insiste na juventude. O cantor e compositor fluminense se prepara para lançar álbum de músicas inéditas intitulado De bem com a vida. André Midani capitaneia a produção do primeiro disco de inéditas do artista desde Do Brasil e do mundo (MZA Music, 2007). O álbum tem participações de João Donato e Jorge Mautner. O lançamento está previsto para o segundo semestre deste ano de 2016 em edição da gravadora Sony Music. No CD, Martinho registra a primeira parceria com o mineiro Geraldo Carneiro, autor da letra do samba  Escuta, cavaquinho.

sábado, 21 de maio de 2016

Sandy roça ponto de maturação no melhor show da carreira solo, 'Meu canto'

Resenha de show
Título: Meu canto
Artista: Sandy (em foto de Mauro Ferreira)
Local: Vivo Rio (Rio de Janeiro, RJ)
Data: 20 de maio de 2016
Cotação: * * * 1/2

Mesmo sem esboçar ruptura com o mundo musical construído nos dois anteriores shows autorais da carreira solo, o delicado Manuscrito (2010 / 2012) e o expansivo Sim (2013 / 2014), Sandy roça ponto de coesão e maturação em Meu canto, show que já está em turnê pelo Brasil antes da chegada do CD ao vivo e do DVD - prevista para junho deste ano de 2016 - com a gravação ao vivo do espetáculo dirigido por Raoni Carneiro. Se a artista paulista tivesse encerrado a apresentação de 20 de maio de 2016 na casa Vivo Rio com o luminoso revival da Cantiga por Luciana (Edmundo Souto e Paulinho Tapajós, 1969), número afetivo feito por Sandy em memória do avô Zé do Rancho, a estreia carioca do show Meu canto teria atingido esse ponto de coesão. Aos 33 anos, Sandy Leah Lima continua cantando muito bem - com a afinação notória desde os tempos infanto-juvenis - e já tem, como compositora, obra autoral que lhe permite montar roteiro somente com as melhores canções do cancioneiro que compôs sozinha e com o parceiro Lucas Lima. Meu canto perde o encanto já no final, quando Sandy - na provável tentativa de criar um arremate mais pop e extrovertido para o show - recorre a músicas pobres de rimas fáceis como Sem jeito (Sandy Leah e Lucas Lima, 2010) e a sucessos industrializados da dupla que formou com o irmão Junior Lima. Hits de Sandy & Junior, Nada é por acaso (Liah, Pedro Barezzi, Márcio Cruz e Danimar, 2001) e Desperdiçou (Liah, Dani Monaco e Rique Azevedo, 2003) são músicas que já destoam do mundo musical mais sensível construído por Sandy desde o álbum Manuscrito (Universal Music, 2010), mas que - justiça seja feita - ainda são cantadas a plenos pulmões pela plateia estridente que segue Sandy na jornada solo. Meu canto é tentativa de expor no palco a sensibilidade deste mundo musical. Povoado por elementos como abajures, janelas e portas, o cenário de Zé Carratu procura traduzir um clima de intimidade. "...Entre sem bater / Sem julgar, sem tentar entender / Deixe as armas e angústias do lado de fora / Em troca, ofereço a música e o agora / Eu lhe dou o meu canto / Nesse canto que é tão meu", propõe Sandy na abertura do show, feita com a primeira das cinco músicas inéditas do roteiro, Meu canto (Sandy Leah, 2016), entoada por Sandy na penumbra, atrás da porta que a conduzirá ao palco ao fim do número. Em seguida, Sim (Sandy Leah, 2013) e Aquela dos 30 (Sandy Leah, 2012) deram sequência ao show com sonoridade pesada, ambientada na atmosfera do pop rock. Sim, Sandy busca dar peso à obra autoral em mais de um sentido. Paradoxalmente, é na delicadeza que a cantora e compositora atinge ponto de equilíbrio e sedução. As baladas Ela / Ele (Sandy Leah e Lucas Lima, 2010) e Pés cansados (Sandy Leah e Lucas Lima, 2010) - boas lembranças do primeiro álbum - sobressaem no roteiro, em fina sintonia com a bonita e recente canção Me espera (Sandy Leah, Lucas Lima e Tiago Iorc, 2016), gravada ao vivo e em estúdio para o CD e DVD Meu canto em dueto com o cantor e compositor Tiago Iorc, coautor da canção. Outra inédita do repertório, Salto (Sandy Leah, 2016) reitera o tom confessional que pauta boa parte da obra da artista. Já Respirar (Sandy Leah, Lucas Lima e Daniel Lopes, 2016) - número feito com interação da plateia, cujas luzes dos celulares acenderam a chama impagável dos fãs fiéis - caminha na direção oposta, buscando extroversão pop. A mesma que pauta a funkeada Colidiu (Sandy Leah e Lucas Lima, 2016), a mais trivial das cinco inéditas. Mesmo que a obra autoral ainda soe irregular, Sandy já provou ser boa compositora. A inspiração da artista habita forte em Morada (Sandy Leah, Lucas Lima e Tati Bernardi, 2013), reminiscência do álbum Sim (Universal Music, 2013) que encontra espaço em Meu canto, até pelo fato de não ter feito parte do roteiro original do show Sim. O que não faz sentido é a repetição em Meu canto do cover de All star (Nando Reis, 2000), herança do show anterior. Com tanta música no mundo, bisar a canção apaixonada de Nando Reis denota certa preguiça na formatação do roteiro. Mesmo assim, pelo acabamento técnico e pela (visível) evolução da artista, Meu canto se impõe como o melhor show solo de Sandy.

Cinco inéditas tecem mundo de Sandy no roteiro autoral do show 'Meu canto'

"...Entre sem bater / Sem julgar, sem tentar entender / Deixe as armas e angústias do lado de fora / Em troca, ofereço a música e o agora / Eu lhe dou o meu canto / Nesse canto que é tão meu". Foi na penumbra, atrás da porta que compõe o cenário de Zé Carratu, que Sandy deu as boas-vindas para o público que foi à casa Vivo Rio na noite de ontem, 20 de maio de 2016, assistir à estreia carioca do show Meu canto - já o quinto show da carreira solo da cantora e compositora paulista se incluídos na conta o breve show de 2007 com standards do jazz (e músicas de Antonio Carlos Jobim) e o charmoso tributo a Michael Jackson (1958 - 2009) feito pela artista em 2011 em projeto paralelo do Centro Cultural Banco do Brasil. As boas-vindas são dadas ao som de Meu canto (Sandy Leah), música inédita que dá nome tanto ao show como ao CD ao vivo e ao DVD que serão lançados em junho deste ano de 2016 em edição da gravadora Universal Music. Além da música-título, Meu canto apresenta no roteiro mais quatro composições inéditas. Me espera (Sandy Leah, Lucas Lima e Tiago Iorc) já é sucesso por conta do clipe que já totalizou mais de três milhões de visualizações na web. As outras inéditas são Colidiu (Sandy Leah e Lucas Lima), Respirar (Sandy Leah, Lucas Lima e Daniel Lopes) e Salto (Sandy Leah). Além das novidades autorais, Sandy dá voz à Cantiga por Luciana (Edmundo Souto e Paulinho Tapajós, 1969) no roteiro do show, cuja apresentação de 20 de maio de 2016 seguiu roteiro similar ao da gravação ao vivo feita em novembro de 2015 no Theatro Municipal de Niterói (RJ). Eis o roteiro seguido por Sandy - em foto de Mauro Ferreira - na casa Vivo na estreia do show  Meu canto na cidade do Rio de Janeiro (RJ):

1. Meu canto (Sandy Leah, 2016)
2. Sim (Sandy Leah, 2013)
3. Aquela dos 30 (Sandy Leah, 2012)
4. Ela / Ele (Sandy Leah e Lucas Lima, 2010)
5. Perdida e salva (Sandy Leah, 2010)
6. Segredo (Sandy Leah e Lucas Lima, 2012)
7. Me espera (Sandy Leah, Lucas Lima e Tiago Iorc, 2016)
8. Respirar (Sandy Leah, Lucas Lima e Daniel Lopes, 2016)
9. Escolho você (Sandy Leah, Lucas Lima e Jason Tarver, 2012)
10. Salto (Sandy Leah, 2016)
11. All star (Nando Reis, 2000)
12. Olhos meus (Sandy Leah, 2012)
13. Pés cansados (Sandy Leah e Lucas Lima, 2010)
14. Colidiu (Sandy Leah e Lucas Lima, 2016)
15. Morada (Sandy Leah, Lucas Lima e Tati Bernardi, 2013)
16. Cantiga por Luciana (Edmundo Souto e Paulinho Tapajós, 1969)
17. Sem jeito (Sandy Leah e Lucas Lima, 2010)
18. Nada é por acaso (Liah, Pedro Barezzi, Márcio Cruz e Danimar, 2001)
19. Desperdiçou (Liah, Dani Monaco e Rique Azevedo, 2003)
Bis:
20. Quando você passa (Turu turu) (Francesco Boccia, Gianfranco Calliendo e Ciro Esposito
      em versão de Ricardo Moreira, 2001)
21. Ponto final (Sandy Leah, Lucas Lima e Tati Bernardi, 2013)

Zezé Di Camargo & Luciano regravam tema d'Os Nonatos na festa de 25 anos

Desde ontem nas plataformas digitais, em forma de single editado via Sony Music, a gravação inédita com a qual Zezé Di Camargo & Luciano celebram 25 anos de carreira fonográfica rebobina música, Eu e você, já conhecida em parte do universo sertanejo. A composição - ajustada ao estilo romântico da dupla goiana no arranjo de Hélio Bernal e Felipe Duran - é de autoria do cearense Raimundo Nonato Costa em parceria com o paraibano Raimundo Nonato Neto. Eles formam a dupla Os Nonatos, intérprete original de Eu e você em gravação lançada em abril de 2014 com a participação da dupla Cesar Menotti & Fabiano. Já o single Eu e você, com a gravação de Zezé Di Camargo & Luciano, chegou às plataformas digitais em 20 de maio de 2016, mas a faixa já tinha sido lançada em 16 de maio nas rádios que tocam música sertaneja, em ação prévia da Sony Music.

Nem o repertório caipira dissipa o ar colegial do musical 'Nuvem de lágrimas'

Resenha de musical de teatro
Título: Nuvem de lágrimas
Texto: Anna Toledo (com inspiração no romance Orgulho e preconceito, de Jane Austen)
Direção: Tania Nardini e Luciano Andrey
Direção musical: Carlos Bauzys
Elenco: Lucy Alves, Gabriel Sater, Adriana Del Claro, Sérgio Dalcin, Blota Filho, Rosana
           Penna, Marcelo Várzea, Letícia Maneira Zappulla e Gabriel Staufer, entre outros
Foto: Otávio Dias
Cotação: * *
Musical em cartaz no Teatro Oi Casa Grande, no Rio de Janeiro (RJ), até 29 de maio de 2016

♪ Em grande evidência dos anos 1970 à década de 1990, a dupla Chitãozinho & Xororó se tornou emblemática na história da música sertaneja por ter sido uma das primeiras a dar vozes anasaladas a um repertório romântico que, a rigor, pouco ou nada diferia do cancioneiro de cantores populares como Amado Batista. O bom repertório acaipirado dos irmãos paranaenses é matéria-prima de Nuvem de lágrimas, musical sertanejo de 2015 que estreou na cidade do Rio de Janeiro (RJ) neste mês de maio de 2016 depois de cumprir temporada em São Paulo (SP). Escrito com inspiração no romance Orgulho e preconceito (1883), best-seller da obra literária da inglesa Jane Austen (1775 - 1817), o texto de Anna Toledo encaixa as músicas do repertório de Chitãozinho & Xororó em trama folhetinesca que entrelaça três histórias de amor em ambiente rural. A ideia é tão original quanto interessante, mas resulta pálida em cena. Nem a força popular do cancioneiro da dupla dissipa o ar colegial que embala Nuvem de lágrimas. Sem vida, a direção musical de Carlos Bauzys acentua o tom esmaecido do canto da maioria do elenco e erra ao optar pela superposição das músicas Fio de cabelo (Darci Rossi e Marciano, 1982) e Porque brigamos (I am... I said) (Neil Diamond, 1971, em versão de Rossini Pinto, 1972). Nem a protagonista Lucy Alves - intérprete de Bete Borba, a caipira orgulhosa que desperta o amor do preconceituoso advogado Darcy (Gabriel Sater) - tem oportunidade de mostrar em cena a vivacidade já exibida em shows. A trama romântica do casal começa bem, mas é desenvolvida de forma superficial e inverossímil (sobretudo na cena artificial que encerra o primeiro ato). Ambientada na fictícia cidade de Santana do Ribeirão, a história serve também para propagar o orgulho do Brasil sertanejo - sentimento manifestado logo no início quando dois violeiros tocam e o elenco começa progressivamente a cantar Caipira (Joel Marques e Maracaí, 1991). Justiça seja feita, apesar do acabamento ginasial, o musical alcança momentos de empatia com a plateia por conta da força do repertório caipira. Com boa presença em cena, Blota Filho - intérprete do Doutor Jardim, padrinho de Darcy e ex-noivo da mãe de Bete (Rosana Penna, atriz que veste bem a pele da personagem) - protagoniza um desses momentos ao cantar a melancólica Se Deus me ouvisse (Almir Rogério, 1971). E por falar em melancolia, toda a tristeza que há em Saudade de minha terra (Pascoal Todarelli e Gerson Coutinho da Silva, 1966) - obra-prima caipira que completa 50 anos em 2016, tendo sido gravada há 20 anos por Chitõazinho & Xororó no álbum Clássicos sertanejos (PolyGram, 1996) - se dilui na vivacidade imposta equivocadamente ao tema no número coletivo de Nuvem de lágrimas. Tal vivacidade soa mais adequada quando é posta a serviço das músicas calcadas na batida da música country norte-americana, casos de Sistema bruto (Cacá Moraes e Gil Cardoso, 2004) - composição de letra que parece ter sido moldada para o clima de balada que tem movimentado a produção e o mercado da música sertaneja na fase universitária - e de Nasci de bota e chapéu (Gil Cardoso e Xororó, 2009), número defendido por Letícia Maneira Zappulla, intérprete de Lídia Borba, a espevitada irmã caçula de Bete. Enquadrado em moldura simplória, Nuvem de lágrimas passa batido na cena já povoada por musicais arquitetados com maior rigor estilístico. O bailão sertanejo poderia ser mais animado.

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Caixa 'Três tons de MPB-4' revitaliza álbuns de fase áurea do politizado grupo

Resenha de caixa de CDs
Título: Três tons de MPB-4
Artista: MPB-4
Gravadora: Universal Music
Cotação da caixa: * * * * *
Cotação dos álbuns: 10 anos depois (* * * * *) Canto dos homens (* * * * ) Vira virou (* * * 1/2)

Uma das célebres parcerias de Chico Buarque com Francis Hime, Passaredo ganhou registro de Chico em 1976 e deu nome ao álbum lançado por Francis em 1977. Mas a gravação original foi feita pelo MPB-4 - com arranjo orquestrado pelo próprio Francis - em 10 anos depois (Philps, 1975), décimo álbum do grupo fluminense cujas origens remontam a 1962 no Centro Popular de Cultura de Niterói (RJ). O título 10 anos depois aludia à década de atividades oficiais do quarteto que debutara em disco com compacto simples editado em 1964 e que se profissionalizara no ano seguinte, 1965. A edição da caixa Três tons de MPB-4 é fundamental para a preservação da memória musical brasileira. De 1966 a 1984, o grupo lançou - pelas gravadoras Elenco, Philips, Ariola e Barclay - 19 álbuns pautados pela coerência e consciência social aguçada já na época do CPC. A rigor, todos estes 19 álbuns mereciam estar sendo reeditados em caixa para que o supra-sumo da discografia do grupo fosse preservada no formato de CD. Por ora, é um alento a edição de três relevantes álbuns do grupo - o já citado 10 anos depois (Philips, 1975), Canto dos homens (Philips, 1976) e Vira virou (Ariola, 1980) - na caixa da série Tons, produzida por Alice Soares (profissional do departamento de marketing da Universal Music) com seleção de títulos e textos do produtor Thiago Marques Luiz. A caixa Três tons de MPB-4 mantém o alto padrão de qualidade da série que recupera títulos do acervo da Universal Music que estavam fora de catálogo e que, no caso dos três álbuns do MPB-4, permaneciam inéditos no formato de CD. Além da reprodução da arte gráfica dos LPs originais, a remasterização - feita por Luigi Hoffer e Carlos Savalla no estúdio DMS  (Digital Mastering Solutions) - deixa o som tinindo como se os álbuns estivesse saindo neste ano de 2016. E que álbuns! O repertório em si é de bom nível. Mas o trunfo do MPB-4 residia nos arranjos vocais de Antônio José Waghabi Filho (14 de novembro de 1943 - 8 de agosto de 2012), o Magro, integrante da formação original do quarteto. Sofisticados, mas não a ponto de tornar o som do quarteto inacessível para o chamado grande público, os arranjos vocais de Magro tornavam irrelevantes o fato de a música ser ou não inédita quando gravada pelo MPB-4. Manhã de Carnaval (Luiz Bonfá e Antonio Maria, 1959), por exemplo, ressurge com outra luz no álbum 10 anos depois por conta dos surpreendentes acordes do arranjo vocal de Magro. Mas a melodia e a letra estão todas lá na gravação de Aquiles, Magro, Miltinho e Ruy Faria (que sairia do grupo em 2004). Porque o MPB-4 sempre dava o pessoal toque vocal às músicas sem desfigurar as melodias. Alguns temas soam arrepiantes, caso de Canto triste (Edu Lobo e Vinicius de Moraes, 1966), ouvido a capella em 10 anos depois. Com menor cota de clássicos da MPB no repertório, Canto dos homens é disco que deu o recado político do grupo - através de letras de músicas de Chico Buarque, Ivan Lins, João Bosco & Aldir Blanc, entre outros compositores engajados - e lançou composições como Moreno (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1976), que vem a ser versão com letra do instrumental Tema de Tostão (Milton Nascimento, 1970), apresentado por Milton Nascimento seis anos antes em gravação feita para a trilha sonora de filme sobre o jogador de futebol. No todo, Canto dos homens soa sem o frescor do antecessor 10 anos depois sem deixar de ser álbum contundente. Bola ou búlica (João Bosco e Aldir Blanc, 1975) desce redonda ao cair no suingue do samba sincopado típico da dupla de compositores. Terceiro título da caixa, Vira virou - primeiro álbum do MPB-4 na então recém-aberta (no Brasil) gravadora Ariola - acenou com mudança no som e nos arranjos vocais. O som ficou mais elétrico e mais vibrante, afinado com a revolução estética que desembocaria no tecnopop, tônica dos discos da década de 1980. Os vocais ganharam outros tons e harmonias, já sob a influência da chegada do Boca Livre, sensação da cena musical brasileira de 1979. A lua (Renato Rocha, 1980) foi o maior sucesso de um repertório abordado com pegada mais pop pelo MPB-4. Em Vira virou, disco batizado com a canção de inspiração lusitana (de autoria de Kleiton Ramil) que fez mais sucesso nas vozes da dupla gaúcha Kleiton & Kledir, o grupo lançou o xote Por toda lã - do então emergente Alceu Valença (já na estrada ao longo dos anos 1970, mas em momento de ampliação de púbico)  - e Bilhete (Ivan Lins e Vitor Martins, 1980), doída canção de separação que somente encontraria a voz certa e o sucesso ao ser gravada por Fafá de Belém em 1982. Ao longo da década de 1980, o MPB-4 teria dificuldades mercadológicas para manter o nível de discografia que atingiu o auge justamente entre 1966 e 1984. Nesse período, os tons do MPB-4 foram muitos e todos foram relevantes. Que outros tons do grupo sejam revitalizados, pois!

Marina Lima lança música inédita, 'Novas famílias', minando qualquer ditador

Marina Lima lançou música inédita de autoria própria na volta do show No osso à cidade do Rio de Janeiro (RJ). Em apresentação no Espaço Tom Jobim na noite de ontem, 19 de maio de 2016, a cantora e compositora - em foto de Paulo Mancini - apresentou a canção Novas famílias com versos em sintonia com a ideologia libertária dessa assumida artista.  Eis a letra de Novas famílias:

Novas famílias
(Marina Lima)

Mesmo que falte água no Estado
Eu vou cuidar de você
Grãos, shots, ervas, o diabo
E nós vamos sobreviver

É... basta olhar
O que já construímos aqui
Na força, na luz e na fé

Um carioca acrobata
Não deixa a peteca cair
Júpiter, Kepler, outras galáxias
Dou pra você decidir

Céus!... Essas novas famílias
Com terras molhadas de amor
Minando qualquer ditador

Mesmo que falte água no Estado
Marte virá acudir

É... basta olhar
O que já construímos aqui
Na força, na luz e na fé

Um carioca acrobata
Não deixa a peteca cair
Júpiter, Kepler, outras galáxias
Dou pra você decidir

Céus!... Essas novas famílias
de terras molhadas com amor
Minando qualquer ditador

Mesmo que falte água no espaço,
Marte virá acudir

Roberta Sá grava ao vivo no Rio o show 'Delírio' com Martinho e com Moreno

Show de Roberta Sá que está em turnê nacional desde novembro de 2015, Delírio vai ser gravado ao vivo na apresentação agendada para amanhã, 21 de maio de 2016, no Circo Voador, na cidade do Rio de Janeiro (RJ). O registro audiovisual do show vai originar o segundo DVD da discografia da cantora potiguar (em foto de Alice Venturi). Martinho da Vila e Moreno Veloso são os convidados da apresentação. Martinho vai bisar no palco o dueto feito no álbum Delírio (MP,B Discos / Som Livre, 2015) no samba Amanhã é sábado, feito pelo compositor fluminense especialmente para Roberta. Já Moreno é o compositor - em parceria com Quito Ribeiro - de uma das melhores músicas do disco, Meu novo Ilê, e do maior sucesso da carreira de Roberta, Mais alguém (2007), música alocada no bis do show. Clique aqui para (re)ler a resenha do show  Delírio, de Roberta Sá.

Baleiro retrata solidões cotidianas de multidões sem alma em 'Era domingo'

Resenha de álbum
Título: Era domingo
Artista: Zeca Baleiro
Gravadora: Som Livre
Cotação: * * * 1/2

Aparentemente fora de propósito, a foto tirada e exposta por Zeca Baleiro na capa do disco Era domingo passa a fazer sentido com a audição das 11 músicas autorais do nono álbum solo de inéditas do multimídia artista maranhense. Era domingo desajusta o foco solar normalmente direcionado a este dia da semana ao retratar melancolias cotidianas em flash cinzento da humanidade. Em álbum formatado por 13 produtores, a exemplo do antecessor O disco do ano (Som Livre, 2012), o cantor e compositor dá voz a tristezas e angústias entranhadas no cotidiano da sociedade automatizada. "Eu sou a multidão sem alma / Multiplicando multidões / A dor dos corações sem calma / Velando a morte das paixões", adverte em Homem só (Zeca Baleiro), faixa produzida e arranjada em adequado tom sombrio por Marcelo Lobato (do grupo O Rappa), com vocais sutis de Ellen Oléria. Sombras também encobrem a mente em decomposição da personagem de Desejo de matar (Zeca Baleiro), faixa produzida e arranjada com brilhantismo contemporâneo por Marcos Vaz. Musicalmente, aliás, Era domingo avança em relação a discos anteriores de Baleiro, minimizando a sensação de que o compositor já apresentou safras autorais melodicamente mais sedutoras. A maior força de Era domingo reside no conjunto dos cinzentos sentimentos expostos nas letras. Baleiro canta o refrão da solidão mesmo quando vai à ensolarada praia do reggae, ritmo de O amor é invenção (Zeca Baleiro), faixa produzida por Fernando Nunes. Loosers protagonizam as narrativas geralmente imagéticas das letras. Um deles é o "poeta boêmio na banguela", personagem do ska Ela parou no sinal (Zeca Baleiro) que recusa a cantada da "bela atriz de uma novela" pela baixa autoestima na faixa produzida e orquestrada (com metais vivazes) por Pedro Cunha. Não por acaso, existe no repertório uma canção intitulada Desesperança (Zeca Baleiro e Paulo Monarco) e praticamente recitada (com prosódia distinta do rap), em sintonia com o fato de embutir na letra trecho do poema Desesperança, extraído do livro Harpas selvagens (1857), do escritor e poeta maranhense Sousândrade (1833 - 1902).  A produção da faixa foi confiada a Érico Theobaldo. Sim, Era domingo alinha desesperanças nos versos de músicas como a Balada do oitavo andar (Zeca Baleiro). "Tarde fria, noite morta / Não importa aonde vou / Todos os caminhos dão no mesmo", resigna-se o poeta solitário nos versos da balada lírica formatada por Rogério Delayon. A solidão do poeta às vezes contrasta com a beleza natural da paisagem urbana, como no cenário azulado, mas blue de tristeza, desenhado na inspirada música-título Era domingo (Zeca Baleiro). O contraste é acentuado na gravação pelas guitarras e cordas proeminentes orquestradas por Tuco Marcondes, produtor da faixa. Algumas músicas - como De mentira (Zeca Baleiro), tema quase falado produzido por Kuki Stolarski cuja letra cita o metapoema português Autopsicografia (1931), de Fernando Pessoa (1888 - 1935) - já explicitam no título o estado desiludido, quase inerte, do espírito do poeta. "Ultimamente nada, nada me interessa / Nem uma conversa / Eu não sinto pressa, saudade ou paixão / E até que gosto de me sentir desse jeito / Sem frisson no peito / Sem nenhum defeito no coração", argumenta em versos de Ultimamente nada, faixa de clima cigano produzida por Adriano Magoo. Contudo, o poeta - como sabemos - é um fingidor. E, na canção com toque de baião Pequena canção (Zeca Baleiro), formatada por André Bedurê e Rovilson Pascoal, o poeta esboça reações afetivas diante da paixão pela pequena dele. Canção produzida com punch pop por Haroldo Ferretti e Henrique Portugal (baterista e tecladista do Skank, respectivamente), Deserta - parceria de Baleiro com o compositor africano Lokua Kanza - reitera o movimento amoroso. "Pegue minha mão, me leve / Pra onde quiser / Sigo você aonde for / Diga o que quer / Se falta amor aqui / Melhor partir / Aprender a voar no céu / Que nunca tem fim", propõe o poeta, com fio de esperança, na vida que parece estar por um fio na narrativa de Era domingo. Aos 50 anos, completados em 11 de abril deste ano de 2016, Zeca Baleiro se recusa a ficar parado no sinal. E avança com um disco nublado, de grande força poética e conceitual, que realça sombras existenciais escondidas atrás do sol de um (feliz?) dia de domingo.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Diogo revive dois sambas de 1983 com Beth na gravação de 'Alma brasileira'

Entre músicas inéditas como Pé na areia, Diogo Nogueira vai reviver dois sambas de 1983 em dueto com Beth Carvalho na quarta gravação ao vivo e audiovisual da discografia do cantor e compositor carioca. Diogo e Beth vão cantar juntos os sambas Caciqueando (Noca da Portela, 1983) e Firme e forte (Efson e Nei Lopes, 1983) - ambos lançados na voz da própria Beth no álbum Suor no rosto (RCA-Victor, 1983) - na gravação ao vivo do CD e DVD intitulados Alma brasileira. Além de Beth (com Diogo na foto de Vera Donato), o filho de João Nogueira (1941 - 2000) vai receber Maria Rita - para dueto no samba Beiral (Djavan, 1983) - no show agendado para 25 de maio de 2016 na casa Vivo Rio, na cidade do Rio de Janeiro (RJ). Sozinho, Diogo vai dar voz a músicas de Cazuza (1958 - 1990), Gonzaguinha (1945 - 1991), João Nogueira, Milton Nascimento, Tim Maia (1942 - 1998) e Zeca Pagodinho, entre outros compositores. O show a ser gravado ao vivo tem direção geral de Raoni Carneiro, Afonso Carvalho e do próprio Diogo Nogueira. Dóris Farias assina a direção musical e Zé Carratu, a cenografia. O CD ao vivo e DVD Alma brasileira serão lançados no segundo semestre deste ano de 2016 pelo selo EMI, da gravadora Universal Music.

Autoramas também lançam álbum no (revalorizado!) formato de fita cassete

No embalo da crescente revalorização do vinil, alguns selos independentes começam a revitalizar o formato da fita cassete. No Brasil, a gravadora Hearts Bleed Blue acaba de pôr em pré-venda, por R$ 39,80, a edição em cassete do sexto álbum de estúdio do grupo carioca Autoramas, O futuro dos Autoramas (HBB, 2016), lançado em março em edição digital e, em abril, em edição física em CD. Motivada no Brasil pela abertura de uma fábrica de fitas cassetes na cidade de São Paulo (SP), a volta do K7 é uma tendência recente do mercado indie por conta da iniciativa de selos da Europa e dos Estados Unidos. Est (180 selo fonográfico, 2015), álbum de Edgard Scandurra com Silvia Tape, também foi lançado no revigorado formato. Lançada oficialmente em 1963, pela empresa holandesa Philips, a fita cassete - ou K7, como ficou conhecida no mercado fonográfico - teve período áureo na década de 1970, mas sobreviveu bem aos anos 1980. Foi somente a partir da popularização do CD, ao longo da década de 1990, que o cassete foi perdendo força no mercado fonográfico mundial até se tornar um formato (momentaneamente) obsoleto na era digital do MP3.

Julia Bosco suga 'Vampiro', de Mautner, para o repertório do segundo álbum

Música de Jorge Mautner, composta em 1958 e lançada por Caetano Veloso após longos 21 anos em gravação feita para o álbum Cinema transcendental (Philips, 1979), Vampiro ganha registro fonográfico de Julia Bosco. A cantora e compositora carioca sugou a música de Mautner para o repertório do segundo álbum, Dance com seu inimigo, programado para chegar ao mercado fonográfico entre junho e julho deste ano de 2016 com distribuição da Coqueiro Verde Records. Produzido pelo tecladista e compositor Donatinho, o disco alinha 10 músicas no repertório quase todo inédito. Eis - na ordem do álbum - as dez músicas e compositores de  Dance com seu inimigo:

1. Dance com seu inimigo (Julia Bosco, Gustavo Macacko e Donatinho)
2. Tanguloso (Julia Bosco e Donatinho)
3. Maçã última (Gisele de Santi)
4. Volume (Ana Clara Horta, Gabriel Pondé, Miguel Jorge e João Bernardo)
5. Quem me passa o coração (Julia Bosco, Juliana Sinimbu e Marcela Bellas) - com Tulipa Ruiz
6. Quase nada de novo (Fernando Temporão e César Lacerda)
7. Cada dia, um dia (Julia Bosco e Donatinho)
8. Cartas marcadas (Dona Onete)
9. Vampiro (Jorge Mautner)
10. Pra gozar (Julia Bosco e Emerson Leal)

Biel jamais vai além das fórmulas do funk pop em álbum egoico e hedonista

Resenha de álbum
Título: Juntos vamos além
Artista: Biel
Gravadora: Warner Music
Cotação: * * 


 Aos meros 21 anos, Biel - nome artístico do cantor e compositor paulista Gabriel Araújo Marins Rodrigues - encarna o típico caso de artista revelado via web e, depois, contratado por um grande gravadora (no caso, a Warner Music) para ter amplificada a projeção gerada nas redes sociais. Biel vem do universo do funk pop. Em Juntos vamos além, o recém-lançado primeiro álbum do artista, o artista enquadra o funk dentro dos padrões dos produtores Umberto Tavares e Mãozinha. Com uma voz sem qualquer atrativo especial, meramente eficaz, Biel registra repertório que combina músicas já previamente lançadas na web - como a sexualizada Boquinha (André Vieira e Wallace Viana), faixa com toque de rap formatada por Rick Bonadio com DJ Batata - com composições inéditas. Produzido em escala industrial, o repertório gera um disco egoico, hedonista e sexista. Biel tira onda de pegador. Aliás, o título de uma das 13 músicas é justamente Tô tirando onda (Biel, 2014). Nesse sentido, Demorô (Umberto Tavares e Jefferson Junior, 2015) - música que abre o álbum em remix de Leo Breanza - é uma espécie de cartão-de-visitas que dá o tom auto-elogioso do disco. Biel fala dele mesmo na terceira pessoa. Mas o fato é que as emoções, as batidas e o canto soam plastificados e repetitivos neste álbum em que Biel jamais vai além das fórmulas do funk pop e do R&B sintético. Morango com chocolate (Umberto Tavares e Jefferson Junior) parece requentar o Amor de chocolate de Naldo Benny. No repertório que esbanja testosterona e que ecoa um machismo que já vem desde os primórdios da música brasileira, Romeu e Julieta (Jefferson Junior, Umberto Tavares e Romeu R3) e Melhor assim (Jonathan Couto, Luan e Sarah Souza) - R&B urbano em que Biel forma casal com Ludmilla, padronizada funkeira do elenco da Warner Music - se diferenciam levemente dos outros temas por esboçar certo romantismo de tom sensual. Contudo, Juntos vamos além recoloca a mulher como objeto sexual que parece estar ali, na balada ou no baile, para ser conquistada e dar prazer aos jovens e egoicos machos. Nesse sentido, Anitta está à frente de Biel. Ela é que dá a decisão. No universo de Biel, a mulher retoma o papel de fêmea a ser conquistada e, depois, descartada. Não por acaso, o último verso ouvido no álbum  - se respeitada a ordem das 13 músicas da edição em CD de Juntos vamos além - é "Ô mulher, quero ver se tu aguenta", de Pimenta (Biel, 2014), música alocada no fecho do álbum em remix produzido por Sérgio Santos. A ardência, no caso, é artificial. Contudo, verdade seja dita, Biel faz em músicas como Química (Umberto Tavares, Jefferson Junior e Romeu R3, 2015) - faixa previamente lançada em 27 de novembro de 2015 como primeiro single oficial do álbum e confirmada na trilha sonora da próxima novela das 19h da TV Globo, Haja coração - som em grossa sintonia com as emoções plastificadas de expressiva parcela da juventude do Brasil. Por isso, Biel é sucesso nas redes sociais.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Lucas Silveira ressuscita e mata heterônimo Beeshop no segundo disco solo

Seis anos após lançar um (bom) primeiro álbum solo sem se desvincular do grupo gaúcho Fresno, The rise and fall of Beeshop (Arsenal Music / Universal Music, 2010), o cantor, compositor e guitarrista cearense Lucas Silveira ressuscita - e mata - o heterônimo Beeshop no disco que dá sequência ao projeto paralelo do artista. The life and death of Beeshop chegará ao mercado fonográfico em 20 de junho de 2016 em edição da gravadora Heart Bleed Blue (HBB). Tal como o antecessor, The life and death of Beeshop é álbum inteiramente autoral e cantado em inglês. A diferença é que, em vez do acento pop do disco de 2010, o álbum de 2016 tem sonoridade mais suja e flerta com o indie rock norte-americano da década de 1990. Das oito músicas do álbum, somente uma, We dance like idiots, já tinha sido previamente lançada em disco (em 2015, na coletânea digital de caráter beneficente SOS Mariana). As demais - Good love, Save me, Gizmo, Oneonta, Life without you, The damage e Planets allign - são inéditas. Álbum está em pré-venda.

Fernanda Abreu purga beleza e caos no impulso vital que move 'Amor geral'

Resenha de álbum
Título: Amor geral
Artista: Fernanda Abreu
Gravadora: Garota Sangue Bom
Cotação: * * * * 1/2

♪ Muito da beleza evidenciada em Amor geral - o primeiro álbum de Fernanda Abreu em uma década - nasceu do caos existencial vivido pela cantora e compositora carioca nos dez anos que separam o revisionista CD e DVD MTV ao vivo (Garota Sangue Bom / Universal Music, 2006) do disco de músicas inéditas que vai chegar ao mercado fonográfico na próxima sexta-feira, 20 de maio de 2016. Ao longo das dez músicas inéditas que compõem o repertório quase inteiramente autoral, Amor geral vê beleza no movimento irrefreável da vida, mas tal visão foi gerada pelo antídoto que diluiu a tristeza decorrente do fim do casamento de 28 anos de Abreu com o artista gráfico Luiz Stein e também do longo coma enfrentado pela mãe da artista, Vera Marina, por oito anos, antes de sair de cena em 2014. O purgatório do caos existencial é feito na beleza da canção Antídoto (Fernanda Abreu), criada em madrugada de inspiração instantânea. Escrita com base no calvário da mãe de Abreu, a letra de Antídoto busca a transcendência da dor pela beleza sentida no coração. A harpa chinesa tocada por Rodrigo Campello - produtor da faixa - traduz essa busca com toque etéreo que faz a canção subir ao céu na escalada imaginada nos poéticos versos do tema. Na canção O que ficou (Fernanda Abreu, Thiago Silva e Qinho), faixa produzida pela dupla T.R.U.E. (Qinho e Gui Marques) que sucede Antídoto na ordem do álbum, a jovial senhora sangue bom de 54 anos desce às profundezas do mundo afetivo para fazer o inventário emocional do casamento desfeito em letra escrita com raso nível poético, no único ponto baixo de Amor geral, álbum que volta a elevar a cota de Abreu no mercado da música após dois discos feitos em estúdio com menor teor progressista, Entidade urbana (EMI Music, 2000) e Na paz (Garota Sangue Bom / EMI Music, 2004). Ainda assim, O que ficou - canção meio letárgica que soa como (boa) lembrança parada no ar - está revestida da modernidade que pauta todo o álbum. Amor geral tem beats eventualmente desacelerados. Contudo, o veneno da lata está todo lá, sobretudo na batida funky de Tambor (Fernanda Abreu, Gabriel Moura, Jovi Joviniano e Afrika Bambaataa), ode ao batuque entranhado na gênese e na música do Brasil, do samba ao funk. Pai do electro-funk, aliás, o DJ e produtor norte-americano Afrika Bambaataa diz (breves) palavras de ordem na faixa produzida por Sérgio Santos, piloto também de Double louve (Amor em dose dupla), única música não assinada por Abreu no repertório de Amor geral. Compositores presentes desde o primeiro álbum solo da artista, Fausto Fawcett e Carlos Laufer são os autores deste libertário funk que exemplifica a habilidade de Amor geral na conciliação de sons orgânicos e sintéticos. No meio da cidade nua, nervosa, Abreu prega em Double love a liberdade sexual e afetiva, embora a Valsa do desejo (Fernanda Abreu e Tuto Ferraz) flagre a senhora sangue bom enredada nas cordas da paixão vivida com o parceiro Tuto Ferraz. Sem amarras estéticas, Amor geral dá revigorante passo à frente na discografia de Abreu, embora ouvintes mais atentos possam identificar na batida black-house de Deliciosamente (Fernanda Abreu, Alexandre Vaz e Jorge Ailton) - uma das grandes músicas do disco, formatada pelo produtor Liminha - uma evocação da mistura de disco music e dance music feita pela artista no primeiro álbum solo, Sla radical disco dance club (EMI-Odeon, 1990), disco pioneiro no Brasil no uso de samples. Da mesma forma, a já citada Double love ecoa a estética cinematográfica e musical do segundo álbum de Abreu, Sla 2 ~ Be sample (EMI-Odeon, 1992). Contudo, Amor geral flagra Fernanda Abreu nos dias de hoje. Mesmo quando a música não é especialmente inspirada, caso de Por quem (Fernanda Abreu e Qinho), a faixa - no caso, produzida por Tuto Ferraz - faz sentido no conjunto de obra que prega afeto amplo e irrestrito na discursiva música-título Amor geral (Fernanda Abreu, Pedro Bernardes e Fausto Fawcett), tema de batida contemporânea que reitera o fato de Abreu estar seguindo adiante sem se apegar às glórias do passado. Amor geral, o disco, se alimenta dos impulsos de vida que estimulam a batida do coração do mundo. "Tá tudo aí pra nós / Agora é só deixar rolar / A vida não espera / O tempo não vai parar / O amor é um jogo arriscado / Não quer saber se é certo ou errado", avisa Abreu nos versos de Saber chegar (Fernanda Abreu, Donatinho, Tibless e Play Pires), tema formatado pelo produtor Liminha com bela levada charme-house. Sim, "sempre haverá outra esquina", como já sinalizara Fernanda Abreu em verso da melhor música de Amor geral, Outro sim (Fernanda Abreu, Gabriel Moura e Jovi Joviniano), faixa produzida por Pedro Bernardes e previamente lançada em 13 de abril de 2016 como primeiro single do álbum gravado sob direção musical de Fernanda Abreu. Ao expor o fluxo incessante da vida indomável, em ágil sucessão de versos cantados sobre inebriante batida contemporânea, Outro sim reafirmou a modernidade (ainda) em movimento de Fernanda Abreu. Já Amor geral confirma a relevância da artista na música do Brasil, purgatório da beleza e do caos.

Lançado há 55 anos, terceiro álbum de Alaíde Costa ganha reedição em vinil

Embora nunca tenha sido reeditado no formato de CD, o terceiro álbum da cantora carioca Alaíde Costa - Jóia moderna (RCA-Victor, 1961), lançado originalmente há 55 anos - ganha reedição em vinil neste ano de 2016. Produzida pela gravadora Sony Music, herdeira do acervo da RCA-Victor, a reedição em vinil de Jóia moderna vai chegar ao mercado fonográfico na primeira quinzena de junho de 2016. Neste disco, Alaíde regrava Sem você (Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, 1959), lança o Samba de nós dois (Baden Powell e Billy Blanco, 1961) e apresenta parceria com Geraldo Vandré, Canção do amor sem fim. O repertório do álbum Jóia moderna reúne 12 músicas.

Primeiro álbum solo de Zé da Flauta, 'Psicoativo' tem a participação de Naná

Aos 61 anos, Zé da Flauta - nome artístico do músico, produtor e compositor pernambucano José Vasconcelos de Oliveira - se prepara para lançar o primeiro álbum solo de carreira iniciada no Recife (PE) natal no início da década de 1970. Psicoativo vai ser lançado no segundo semestre deste ano de 2016 pelo selo Passa Disco, vinculado à homônima loja de discos do Recife (PE). Com nove músicas no repertório majoritariamente autoral, o álbum Psicoativo traz a participação de Naná Vasconcelos (1944 - 2016), percussionista pernambucano que saiu de cena em 9 de março. O percussionista gravou as vozes de Nanáturalmente, música dedicada por Zé da Flauta ao colega conterrâneo. Em Psicoativo, Zé da Flauta expande a obra autoral com temas como Ativamente, Influenciadamente, Progressivamente e Propositalmente (todas as dez músicas do álbum trazem o sufixo mente no título). A obra do compositor - cabe lembrar - inclui parcerias com Alceu Valença como Escorregando no pífano (1983), Fé na perua (1981) e Rajada de vento (1984). Psicoativo tem produção assinada pelo próprio Zé da Flauta com o guitarrista Tuca Araújo, compositor das faixas Ludicamente, Pesadamente - tema turbinado com solo de guitarra de Paulo Rafael - e Surubinamente. Embora seja o primeiro álbum solo de Zé da Flauta, Psicoativo é o terceiro título da espaçada discografia do músico, sucedendo Caruá (Independente, 1980) e Engenho de meninos (Independente, 2003), álbuns gravados e assinados por Zé da Flauta com o já citado guitarrista pernambucano Paulo Rafael e com o percussionista (paraibano) Fernando Falcão, respectivamente.