terça-feira, 30 de setembro de 2014

Após Sobrado 112, Zé Vito se lança na carreira solo com CD 'Já carregou'

Músico paulista de Ribeirão Preto (SP), radicado na cidade do Rio de Janeiro (RJ) desde os 19 anos de idade, o cantor, compositor e guitarrista Zé Vito iniciou sua militância na cena indie carioca com a formação do grupo Sobrado 112. Implodido o Sobrado 112 após três discos, o artista dá início à sua carreira solo com o lançamento do álbum Já carregou (Bolacha), gravado em 2013 e lançado neste ano de 2014. Músico da Abayomy Afrobeat Orquestra, Vito alinha em Já carregou dez inéditas autorais formatadas por Bruno Giorgi, Pedro Costa e pelo próprio Zé Vito. O trio assina a produção desse álbum em que o artista costura referências de bossa nova em Atriz (Zé Vito e Matheus Silva), une rap com blues na música-título Já carregou (Zé Vito, Matheus Silva, Eduardo Brechó e Bruno Barbosa), evoca esse tal de rock'n'roll em Lady não (Zé Vito e Matheus Silva) e cai no suingue carioca em Diplomático (Zé Vito). Mixado por Bruno Giorgi, CD fecha com tema instrumental João Benedito, (Zé Vito e Bruno Barbosa).

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Arantes vai gravar ao vivo em 2015 show com sinfônica e elenco 'all-star'

Projeto arquitetado por Guilherme Arantes desde 2013, o DVD comemorativo de seus 40 anos de carreira vai ser concretizado em 2015. A intenção do cantor, compositor e músico paulista - em foto de Pedro Matallo - é gravar ao vivo um show feito com orquestra sinfônica e um elenco all-star formado sobretudo com cantores que já gravaram músicas do compositor.

Rita e Jussara cantam Cardim, Caymmi e Paulinho no álbum 'Som e fúria'

 Abolerado samba-canção de autoria do compositor paulista Lúcio Cardim (1932 - 1982) que foi lançado em 1964 na voz do cantor carioca José Bispo Clementino dos Santos (1913 - 2008), o Jamelão, Matriz ou filial ganha as vozes de Jussara Silveira (à esquerda na foto de Ana Quintella) e Rita Benneditto. O registro foi feito pelas cantoras para Som e fúria, álbum produzido por Alê Siqueira e gravado em dupla pelas cantoras -   sob direção artística de José Miguel Wisnik - em caverna situada na Chapada Diamantina, no sertão da Bahia. Outras duas músicas de Som e fúria são os sambas Para não contrariar você (Paulinho da Viola, 1970) e Maricotinha (Dorival Caymmi, 1994). Há também temas tradicionais como Saudação a Oxossi.

Zeca Baleiro lança 'single' 'Ai que saudade d'ocê' nas plataformas digitais

Canção que se tornou o maior sucesso da obra do compositor paraibano Vital Farias, Ai que saudade d'ocê - música lançada pelo autor no LP Sagas brasileiras (Lança / PolyGram, 1982) - ganhou a voz do cantor maranhense Zeca Baleiro em gravação propagada quase diariamente na trilha sonora da novela Império, exibida pela TV Globo às 21h. Tema romântico do casal formado por Cristina (Leandra Leal) e Vicente (Rafael Cardoso), o registro de Ai que saudade d'ocê com Baleiro está sendo lançado hoje - 29 de setembro de 2014 - pela gravadora Som Livre nas plataformas digitais. O single já está disponível para download e/ou para streaming.

Chega às lojas o DVD com registro integral do show dos 70 anos de Edu

Na sequência (não imediata) do CD ao vivo, lançado em julho de 2014, a gravadora Biscoito Fino pôs no mercado fonográfico, ao longo deste mês de setembro, o correspondente DVD Edu 70 anos. O DVD traz o registro (quase) integral do show comemorativo dos 70 anos do cantor e compositor carioca Edu Lobo. O quase fica por conta da supressão do (desencontrado) número coletivo que fechou o bis, encerrado com Corrida de jangada (Edu Lobo e José Carlos Capinam, 1967). Feito em 29 de agosto de 2013, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, o show - cuja resenha de Notas Musicais pode ser lida aqui - teve participações de Bena Lobo, Chico Buarque, Maria Bethânia e Mônica Salmaso. No DVD, a música Pé de vento (Edu Lobo, 2010) está alocada como faixa-bônus. Eis, na ordem do DVD, as (27) músicas de Edu 70 anos:

1. Chegança (Edu Lobo e Oduvaldo Viana Filho, 1963)
2. Canção do amanhecer (Edu Lobo e Vinicius de Moraes, 1963)
3. Zambi (Edu Lobo e Vinicius de Moraes, 1963)
4. Upa, neguinho (Edu Lobo e Gianfrancesco Guarnieri, 1967)
5. Cirandeiro (Edu Lobo e José Carlos Capinam, 1967) - com Maria Bethânia
6. Pra dizer adeus (Edu Lobo e Torquato Neto, 1967) - com Maria Bethânia
7. Zanzibar (Edu Lobo, 1970) - número instrumental
8. No cordão da saideira (Edu Lobo, 1967) - com Bena Lobo
9. Ponteio (Edu Lobo e José Carlos Capinam, 1967) - com Bena Lobo
10. Vento bravo (Edu Lobo e Paulo César Pinheiro, 1973)
11. O boto (Antonio Carlos Jobim e Jararaca, 1975)
12. O trenzinho do caipira (Heitor Villa-Lobos e Ferreira Gullar, 1978)
13. Angu de caroço (Edu Lobo e Cacaso, 1980)
14. Ave rara (Edu Lobo e Aldir Blanc, 1993)
15. A história de Lily Braun (Edu Lobo e Chico Buarque, 1983) - com Chico Buarque
16. Lábia (Edu Lobo e Chico Buarque, 2001) - com Chico Buarque
17. Choro bandido (Edu Lobo e Chico Buarque, 1985) - com Chico Buarque
18. Beatriz (Edu Lobo e Chico Buarque, 1983)
19. Opereta do casamento (Edu Lobo e Chico Buarque, 1983)
20. A mulher de cada porto (Edu Lobo e Chico Buarque, 1985) - com Mônica Salmaso
21. Coração cigano (Edu Lobo e Paulo César Pinheiro, 2010) - com Mônica Salmaso
22. Valsa brasileira (Edu Lobo e Chico Buarque, 1988) - com Mônica Salmaso
23. Noite de verão (Edu Lobo e Chico Buarque, 2001)
24. Frevo diabo (Edu Lobo e Chico Buarque, 1988)
25. Na carreira (Edu Lobo e Chico Buarque, 1983) - com todos os convidados
26. Canto triste (Edu Lobo e Vinicius de Moraes, 1967)
Faixa-bônus:

*   Pé de vento (Edu Lobo, 2010)

domingo, 28 de setembro de 2014

Elba registra dueto com Jeneci antes de gravar 'Cordas, Gonzaga e afins'

A foto de João Vicente (da Cria S/A) flagra Elba Ramalho com Marcelo Jeneci no palco da casa Chevrolet Hall, no Recife (PE). Em 24 de setembro de 2014, o cantor e compositor paulistano se encontrou com a cantora paraibana para registrar dueto com Elba na música inédita Gravitacional, de autoria de Jeneci. Na ocasião, Elba também registrou ao vivo a participação do percussionista pernambucano Naná Vasconcelos. Na noite do dia seguinte, 25 de setembro, a artista fez a gravação integral do show Cordas, Gonzaga e afins, idealizado pela produtora cultural Margot Rodrigues e dirigido por André Brasileiro. No espetáculo, que cruza referências das músicas erudita e popular a partir da obra do compositor pernambucano Luiz Gonzaga (1912 - 1989), Elba se junta ao grupo armorial SaGRAMA e ao quarteto de cordas Encore, ambos de Pernambuco. A gravação ao vivo do espetáculo vai dar origem a um CD/DVD.

Livro mostra a evolução das criaturas da noite carioca entre sons e tribos

Resenha do livro
Título: Rio cultura da noite - Uma história da noite carioca
Autores: Leo Feijó e Marcus Wagner
Editora: Casa da Palavra
Cotação: * * * *

Vocacionada para o posto de capital cultural do Brasil, a cidade do Rio de Janeiro (RJ) sempre gerou trilhas sonoras fundamentais para a formação da personalidade musical do país. O mérito do ótimo livro Rio cultura da noite é traçar - com certo senso crítico - um painel histórico dos sons e tribos da noite do Rio ao longo dos últimos dois séculos. Tempo em que o Rio se urbanizou e se dividiu em tribos geralmente separadas por classes sociais. Os autores do livro, Leo Feijó e Marcus Wagner, são dois empresários com vocação para a boemia e para investir na cultura da noite - o que faz com que o livro apresente visão sem preconceito dessas tribos formadas por criaturas boêmias que prezam a noite (e que fazem e/ou ouvem a música propagada nessa noite). Noite que tem sua origem no Rio dos tempos imperiais. Aliás, o primeiro dos 11 capítulos de Rio cultura da noite tem importância documental porque, com base em pesquisa em jornais da época, Feijó e Wagner mostram como começou a se organizar uma cena noturna a partir da abertura de teatros, cafés-concerto e casas de chopps. De início, a noite do Rio seguiu o modelo europeu, mas logo ganhou ginga e som próprios. Sobretudo quando o samba ganhou vida e identidade a partir das rodas de batucada e capoeira armadas nos anos 1910 no centro da cidade, cuja noite começou a ficar efervescente - para os padrões da época - a partir dos anos 1920 com a abertura de cabarés (geralmente na Lapa, bairro boemio que volta a aparecer com força no fim do livro e do século XX), dancings e gafieiras. Através de suas 400 páginas, Rio cultura da noite lembra o apogeu dos cassinos - cujos palcos consagraram cantores até que o jogo foi proibido no Brasil em 1946 - e mostra como, a partir de 1946, a rota da boemia carioca se desviou progressivamente do centro do Rio para Copacabana, cenário de boates e cafés-soçaite que propagaram o samba-canção, a música dançante de instrumentistas como o pianista carioca Djalma Ferreira (1913 - 2004) e a bossa nova formatada por João Gilberto em 1958. Dessa cena e desse som, surgiria o sambalanço, trilha das boates dos anos 1960. Sempre seguindo a ordem cronológica dos fatos, os autores de Rio cultura da noite historiam o apogeu do ora revitalizado Beco das Garrafas (na segunda metade da década de 1960) e o surgimento dos bailes da pesada que deram fama, no Rio dos anos 1970, ao DJ paulista Newton Alvarenga Duarte (1943 - 1977) - o popular Big Boy - e que criaram a cena propícia para o Black Rio, movimento que ecoou na cidade o soul e o funk propagados nos Estados Unidos por cantores como James Brown (1933 - 2006). Vigorosa cena black que foi diluída (mas não extinta) pelo furacão da sedutora disco music, que arrastou tudo e todos na segunda metade dos anos 1970. Ao rememorar os dancin' days, os autores fazem justiça a Nelson Motta, compositor e jornalista que, na função de empresário, aboliu momentaneamente o preconceito de classe na noite carioca ao extinguir o couvert artístico e a consumação mínima para liberar a pista da pioneira Frenetic Dancin' Days - casa aberta por Motta em 1976 que serviu de plataforma para o lançamento do conjunto feminino As Frenéticas - para todos que se dispusessem a pagar o ingresso para soltar as feras na pista. Finda a era disco, surgiu nos anos 1980 a cena que o livro Rio cultura da noite rotula como new wave carioca. Foi a década das danceterias que tocavam o ensolarado rock ouvidos nas praias do Rio, mas também a década das boates de tom dark que serviram de laboratório para DJs que resistiriam às cenas e modismos da noite, como Felipe Venâncio e Zé Pedro. Vieram, então, os anos 1990, década em que boa parte das criaturas da noite aderiu às drogas e às músicas sintéticas nas raves. Nasceu a cultura clubber, que entrou pelos anos 2000 com festas temáticas atraentes sobretudo para o público GLS. E eis que, ao longo destes anos 2000, a Lapa retomou sua vocação boemia, revitalizada com a reabertura do Circo Voador (em 2004) e com as rodas de samba e choro armadas em bares e antiquários do bairro. É a cultura da noite do Rio, já pronta para ganhar novos capítulos neste livro convidativo a boemia.

Banda Vespas Mandarinas relança seu primeiro álbum no formato de vinil

Banda paulista de rock formada no fim dos anos 2000, Vespas Mandarinas vai ter relançado seu primeiro álbum - Animal nacional (Vigilante / Deck, 2013) - em formato de vinil de 180 gramas, fabricado pela Polysom e distribuído pela Deck. Nas lojas em outubro de 2014, o LP reproduz as mesmas 12 músicas do álbum do quarteto formado por Chuck Hipolitho (guitarra e voz), Thadeu Meneghini (guitarra e voz), Flavio Guarnieri (no baixo) e André Dea (na bateria).

Alice se arma em cena com hit do Abba, funk de Sullivan e samba inédito

Música lançada pelo grupo sueco ABBA em seu sétimo álbum, Super trouper (Polar Music, 1980), Lay all your love on me (Benny Andersson Björn Ulvaeus) foi uma das boas surpresas apresentadas em 26 de setembro de 2014 pela cantora e compositora carioca Alice Caymmi na estreia nacional do show Rainha dos raios, no Bottle's Bar, uma das boates do revitalizado Beco das Garrafas, lendário point de shows no Rio de Janeiro (RJ) dos anos 1960. Indo além das nove músicas de seu recém-lançado segundo álbum, Rainha dos rádios (Joia Moderna, 2014), já cultuado pelas tribos mais antenadas, Alice - em foto de Rodrigo Goffredo - também apresentou samba inédito de sua autoria (Sangria), cantou funk pop da dupla Michael Sullivan & Paulo Massadas (Joga fora, sucesso nacional em 1986 na voz de Sandra de Sá), exercitou seu francês ao dar voz a uma chanson lançada em 1967 pela cantora e atriz Marie Laforêt (Mon amour, mon ami, de autoria dos compositores André Popp e Eddy Marney) e mostrou a capella a versão em português de Gloomy sunday (1936) que fez na noite anterior ao show. Propagada a partir de 1941 na voz da cantora norte-americana Billie Holiday (1915 - 1959), Gloomy sunday é a versão em inglês - escrita pelo letrista norte-americano Sam M. Lewis (1885 - 1959) - de sombria canção Szomorú vasárnap, composta em 1933 pelo pianista húngaro Rezső Seress (1899-1968). A versão de Alice preserva o sombrio tom original do tema.

Alicerçada pelo toque do baixo e dos computadores do homem-orquestra Diogo Strausz (produtor do disco Rainha dos raios), da guitarra de Gabriel Mayall e da bateria de Thiago Silva, Alice Caymmi reiterou em cena a forte personalidade musical posta em seu segundo consagrador álbum. Explorando todos os tons de sua voz quente, sobretudo ao entoar a valsa Antes de tudo (Alice Caymmi, 2014), a cantora mostrou toda a força que jazia na canção do Tono Como vês (Domenico Lancellotti e Bruno Di Lullo, 2013), evocou Xuxa ao entrar na nave tecnopop dos anos 1980 que conduz Sou rebelde (Manuel Alejandro e Ana Magdalena, 1971, em versão em português de Paulo Coelho, 1978), expôs todo o soul que há no baladão romântico Meu recado (Michael Sullivan e Alice Caymmi, 2014), realçou a sedutora melodia do funk melody Princesa -  lançado pelo compositor carioca MC Marcinho no álbum Sempre solitário (Independente, 1998) - e simulou virilidade ao encarar Homem (Caetano Veloso, 2006) entre sons de dubstep e êxtases femininos. Eis o eclético roteiro seguido por Alice Caymmi em 26 de setembro de 2014 na estreia do show Rainha dos raios, no Bottle's Bar, no Rio de Janeiro (RJ):

1. Como vês (Domenico Lancellotti e Bruno Di Lullo, 2013)
2. Homem (Caetano Veloso, 2006)
3. Sou rebelde (Soy rebelde) (Manuel Alejandro e Ana Magdalena, 1971)
    (Versão em português de Paulo Coelho, 1978)
4. Meu recado (Michael Sullivan e Alice Caymmi, 2014)
5. Princesa (MC Marcinho, 1998)
6. Speak softly love (Nino Rota e Larry Kusik, 1972)
7. Meu mundo caiu (Maysa, 1958)
8. Mon amour, mon ami (André Popp e Eddy Marney, 1967)
9. Antes de tudo (Maysa, 2014)
10. Sangria (Alice Caymmi, 2014) - samba inédito em disco
11. Joga fora (Michael Sullivan & Paulo Massadas, 1986)
12. Lay all your love on me (Benny Andersson Björn Ulvaeus, 1980)
13. Jasper (Caetano Veloso, Arto Lindsay e Peter Sheerer, 1989)
14. Domingo sombrio (Gloomy sunday) (Szomorú vasárnap) (Rezső Seress, 1933)
      (Versão em inglês de Sam M. Lewis, 1936)
      (Versão em português de Alice Caymmi, 2014)
15. Iansã (Caetano Veloso e Gilberto Gil, 1972)
Bis:
16. Sou rebelde (Soy rebelde) (Manuel Alejandro e Ana Magdalena, 1971)
      (Versão em português de Paulo Coelho, 1978)
17. Joga fora (Michael Sullivan & Paulo Massadas, 1986)

sábado, 27 de setembro de 2014

Filme sobre Elza balança ao espelhar valentias e vaidades da 'Nega fênix'

Resenha de documentário musical
Título: My name is now, Elza Soares (Brasil, 2014)
Direção: Elizabete Martins Campos
Roteiro: Elizabete Martins Campos e Ricardo Alves Jr.
Cotação: * * * 1/2
Filme em exibição na edição de 2014 do Festival do Rio, no Rio de Janeiro (RJ)
Sessões de My name is now, Elza Soares no Festival do Rio:
* 28 de setembro de 2014, às 13h - Pavilhão do Festival
* 29 de setembro de 2014, às 14h15m e às 19h15m - São Luiz 4

Quatro anos após exibir Elza (2010), documentário sobre Elza Soares em que os diretores Izabel Jaguaribe e Ernesto Baldan deixaram que a música falasse pela cantora carioca, o Festival do Rio exibe outro filme sobre a artista. Em My name is now, Elza Soares, primeiro longa-metragem da cineasta mineira Elizabete Martins Campos, a Nega fênix - como Elza se autodenomina nos créditos iniciais do filme - toma a palavra. Ao focar a intérprete frente a frente com a câmera, como se essa câmera fosse um espelho imaginário, My name is now acaba refletindo valentias e vaidades de uma artista dura na queda, orgulhosa da própria (sobre)vivência. Ao apresentar o  filme em sessão de convidados do Festival do Rio, no fim da tarde de hoje (27 de setembro de 2014), Elza ressaltou que pediu à diretora - chamada por ela pelo apelido de Bebete - que o documentário falasse de vida e não de dor e sofrimento. Mas, como a dor parece ser a mola mestra que impulsiona Elza a lutar e a viver, o discurso acaba respingando no sofrimento recorrente na vida dessa mulher negra, pobre, que soube driblar humilhações e preconceitos ao longo de seus 84 (não assumidos) anos. Tanto que, perto do fim, o discurso de Elza já soa algo redundante. "A gente se fortalece e se esconde atrás dos aplausos", diz Elza já no início do filme, entre imagens difusas. Sem recorrer ao formato convencional dos documentários biográficos, geralmente roteirizados com mix protocolar de depoimentos e imagens de arquivo, My name is now foge dos clichês até o momento em que rolam os créditos finais, ao som da música intitulada Elza Soares (Itamar Assumpção, 2010). Mas o documentário não escapa do balanço que rege a vida e a música de Elza Soares, diretora musical do filme. My name is now cai no suingue embutido na voz privilegiada e resistente dessa cantora que se apresenta na tela como compositora, interpretando temas de sua própria lavra, casos do Samba triste - cantado a capella - e de Eu sou Elza. A Nega fênix sabe fazer seu jazz, como mostram os dois temas vocalizados intitulados Improviso I e Improviso II - um alocado no início, outro no fecho do roteiro. Aliás, mostrando segurança como diretora, Elizabete dá toda a voz do filme a Elza, mas não perde o fio da meada do roteiro assinado com Ricardo Alves Jr. e turbinado com alguns números musicais do show Arrepios (2009), feito por Elza com o violonista João de Aquino, gravado ao vivo em São Paulo (SP), mas nunca efetivamente lançado em CD ou DVD. Um desses números é Cobra cainana (João de Aquino e Hermínio Bello de Carvalho, 1978). Em My name is now, a música soa tão forte quanto as falas de Elza. "Choro também de alegria, mas continuo chorando de tristeza", ressalta a cantora, a certa altura do filme, com lágrimas nos olhos. Gritos uterinos são ouvidos em outra tomada, dando ao filme um contorno mais artístico, quase no limite da experimentação. Das imagens de arquivo, vale destacar o número em que Elza canta Brasil (Cazuza, Nilo Romero e George Israel, 1988) com sotaque americanizado. Um registro do pioneiro samba-canção Linda Flor (Ai, Iôiô) (Henrique Vogeler, Luiz Peixoto, Cândido Costa e Marques Porto, 1929) ilustra as cenas que lembram, sem depoimentos, o ruidoso caso de amor da cantora com o jogador de futebol Manuel Francisco dos Santos (1933 - 1983), o Garrincha. A propósito, a morte do filho nascido dessa controvertida união, aos oito anos, é descrita por Elza como "momento de loucura" em sua vida, época em que a cantora subiu morro, se juntou a bandidos e cheirou cocaína - como a própria artista relata no depoimento aparentemente mais espontâneo e menos ensaiado do documentário. Enfim, My name is now, Elza Soares não vai surpreender quem já conhece razoavelmente bem a vida da artista. Mas tem seu mérito, tanto pela coesa forma cinematográfica quanto pela música cheia de valentia e suingue da vaidosa Nega fênix.

Mariana lança 'Desejo', álbum em que canta Caetano, Caymmi e Wisnik

Com (belíssima) capa criada a partir de foto de Cafi, o terceiro álbum solo da cantora carioca Mariana de Moraes, Desejo, vai ser lançado em outubro de 2014 pela gravadora Biscoito Fino. Produzido por Alê Siqueira, sob direção artística de José Miguel Wisnik, o disco foi gravado no estúdio Coaxo do Sapo (de Guilherme Arantes), na Bahia, no primeiro semestre de 2012. O CD Desejo alinha 13 faixas. Wisnik assina Assum branco (1994) - música da trilha sonora composta com Tom Zé para Parabelo, espetáculo do Grupo Corpo - e Cacilda (1997). Compositor recorrente no repertório pautado por regravações, Caetano Veloso é o autor da recente Morro, amor - parceria com Arnaldo Antunes, inédita quando gravada em 2012 por Mariana, mas depois registrada por Antunes em 2013 no álbum Disco - e das antigas Cá já (1976 - música lançada por Fafá de Belém no álbum Tamba Tajá) e Flor do Cerrado (1974 - música lançada por Gal Costa no álbum Cantar). Outras músicas de Desejo são A mãe d'água e a menina (Dorival Caymmi, 1985), Vai e vem (Amor de Carnaval) (Guilherme Arantes e Nelson Motta, 2007), Veleiro azul (Luiz Melodia e Rúbia, 1976) e Engomadinho (Pedro Caetano e Claudionor Cruz), samba lançado em 1942 na voz da cantora carioca Aracy de Almeida (1914 - 1988). Em Desejo, Mariana de Moraes também dá voz a Motivos reais banais, música feita por Adriana Calcanhotto a partir de versos do poeta e compositor Waly Salomão (1943 - 2003). A música era inédita na época em que Mariana gravou Desejo, mas, entre a gravação e a edição do disco, foi registrada por Calcanhotto no CD e DVD Olhos de onda (Sony Music, 2014).

Joyce Cândido requenta 'Bom e velho samba novo' em DVD que traz Elza

Em 2011, de volta ao Brasil após anos radicada nos Estados Unidos, a cantora paulista Joyce Cândido retomou sua carreira fonográfica - iniciada em 2006, em Londrina (PR), com a gravação de seu primeiro CD, Panapaná - e lançou seu segundo álbum, O bom e velho samba novo, via Biscoito Fino. Três anos depois, a artista lança seu primeiro registro ao vivo de show em DVD também intitulado O bom e velho samba novo. Produtor do disco de 2011, Alceu Maia assina os arranjos, a produção e a direção musical do DVD editado pela Warner Music neste mês de setembro de 2014. Além da gravação ao vivo realizada em show feito pela cantora no Teatro Maison de France, no Rio de Janeiro (RJ), o DVD traz cinco números captados no estúdio Visom Digital. Nestes números, Joyce Cândido faz duetos com o cantor e compositor carioca João Bosco no samba O rancho da goiabada (João Bosco e Aldir Blanc, 1977) e com o compositor mineiro Toninho Geraes em Giramundo, parceria de Geraes com o compositor paraense Toninho Nascimento, parceiro de Romildo em sambas que se tornaram sucessos na voz de Clara Nunes (1942 - 1983) na década de 1970. No show, a cantora deu voz às músicas do álbum de 2011 e recebeu Elza Soares para dueto em Espumas ao vento (Accioly Neto, 1997).

Terceiro álbum solo de Pipo emerge com Catto sob a direção de Romulo

Cantor, compositor e músico paulistano que iniciou sua carreira musical em 2005 como integrante do grupo Q'Saliva, Pipo Pegoraro lança seu terceiro álbum solo, Mergulhar mergulhei, com dez inéditas de sua lavra. Produzido pelo próprio Pipo sob a direção artística de Romulo Fróes, o disco emerge no mercado via YB Music, sucedendo os álbuns Intro (Independente, 2008) e Táxi imã (YB Music, 2011). Paralelamente ao trabalho com a banda Aláfia, integrada por Pipo desde 2012, o artista divulga Mergulhar mergulhei, disco que flerta com a MPB e com o jazz, tendo sido gravado com as vozes adicionais de cantores como Filipe Catto e Xênia França. Catto e Xênia - vocalista da banda Aláfia - são os convidados da faixa Indecifrável, parceria de Pipo com Romulo Fróes, que canta Pra continuar, outra parceria sua com o artista. Já Luz Marina solta a voz em O que só cabe em nós, música assinada por Pipo com o poeta arrudA, de cuja letra foi extraída o título do disco. Sob a regência de Marcelo Cabral (Metá Metá), o quarteto de cordas Alma Negra emoldura as faixas Aiye e Sabão de coco.

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Álbum 'Roendopinho' prova que Guinga se basta com seu violão especial

Resenha de CD
Título: Roendopinho
Artista: Guinga
Gravadora: Acoustic Music Records / Rough Trade
Cotação: * * * * 1/2

Cheio de dedos, Guinga caracteriza como "nada especial" o toque de seu violão. Modéstia do cantor, compositor e violonista carioca! Álbum gravado na Alemanha para o selo Acoustic Music Records e lançado no mercado europeu em agosto de 2014, com distribuição do selo Rough Trade, Roendopinho prova que, além de (muito) especial, o toque do violão de Guinga é autossuficiente, capaz de evidenciar - sozinho ou eventualmente acoplado ao assovio que ajuda a formatar Ellingtoniana (Guinga, 2012) ou aos vocalises feitos pelo artista na gravação de Cambono (Guinga e Thiago Amud, 2013) - toda a maestria do cancioneiro do compositor. Nascido no subúrbio de Madureira, terra do samba do Rio de Janeiro (RJ), Guinga embute sua alma e seu delírio cariocas nas músicas que compõe. A raiz carioca da música de Guinga brota em temas como Igreja da Penha (Carta de pedra) (Guinga, 1996) e o choro Picotado (Guinga, 1996). Mas Roendopinho - álbum solo de título engenhosamente construído com a justaposição do gerúndio do verbo roer com a palavra pinho (madeira usada para a construção do violão) - evidencia também a universalidade de um cancioneiro de raro requinte harmônico, inspirado tanto pelos choros cariocas quanto pelas valsas de origem europeia que ajudaram a compor a trilha sonora do Rio antigo. Sem fronteiras, a obra de Guinga pode incorporar também um lamento bluesy como o entranhado no Funeral de Billie Holiday (Guinga, 2014). Em Roendopinho, disco gravado de 7 a 9 de abril de 2014 em estúdio da cidade alemã de Osnabrück, essa obra derruba muros e fronteiras, reiterando a genialidade de Guinga no ofício da composição. A sós com seu violão, Guinga rebobina temas como Anjo de candura (Guinga, 2010) e Cheio de dedos (Guinga, 1996), expondo os caminhos sinuosos de sua música de complexa arquitetura harmônica. Obra que também abarca referências da música clássica, reverberando ecos do cancioneiro soberano do compositor e maestro carioca Heitor Villa-Lobos (1887 - 1959). A propósito, Roendopinho remete ao álbum Casa de Villa (Biscoito Fino, 2007) porque neste disco, editado há sete anos no Brasil, Guinga também priorizou o violão, embora não de forma totalitária - o que faz com que Roendopinho seja caracterizado pelo artista como seu primeiro disco solo. Neste sofisticado solo, os vocais (sem letras) embutidos nas músicas Pucciniana (Guinga, 2014) - tema inspirado pela obra do compositor italiano Giácomo Puccini (1858 - 1924) - e Lendas brasileiras (Guinga e Aldir Blanc, 1991) mostram que o canto de Guinga também é especial por evocar toda a força musical de um passado já bem remoto. Passado que ecoa no tempo presente através dessa obra magistral ora rebobinada no álbum Roendopinho com maestria, embora com baixo teor de novidade para quem já está imerso no universo musical de Carlos Althier de Sousa Lemos Escobar, o Guinga, o dono de violão especial.

Obra de Falcão ganha a voz de Grova em álbum arranjado por Cristóvão

Cinco meses após ter lançado o álbum Nas asas dos bordões (Sala de Som, 2014), Fred Falcão - compositor pernambucano radicado no Rio de Janeiro (RJ) - prepara outro CD autoral. Desta vez, o cancioneiro de Falcão ganha a voz da cantora carioca Clarisse Grova. Os arranjos são do pianista e maestro Cristóvão Bastos - ora visto com Falcão na foto postada no facebook.

Meirelles compila 12 fonogramas para celebrar cinco décadas de música

Aos 70 anos de vida, recém-festejados no dia 11 deste mês de setembro de 2014, o baterista, compositor e arranjador mineiro Pascoal Meirelles já completa cinco décadas de atividade profissional no mundo da música. A comemoração está sendo feita com a edição do CD "50", coletânea que compila 12 fonogramas lançados originalmente pelo músico entre 1981 e 2013. As gravações foram selecionadas e masterizadas por Ugo Marota e pelo próprio Meirelles entre janeiro e abril de 2014. A seleção é formada somente por fonogramas de músicas compostas e arranjadas por Meirelles. Entre eles, há Considerações a respeito - tema que deu título ao primeiro álbum solo do músico, lançado em 1981 - e a Suíte 1982, do posterior Tambá (Vento de Raio, 1985), álbum do qual "50" também rebobina a faixa-título. Composição feita em tributo ao maestro Antonio Carlos Jobim (1927 - 1994), com quem Meirelles gravou em Nova York (EUA) em 1979, Tom é fonograma do terceiro álbum solo do baterista, Anna (Som da Gente, 1988). Já Paula e Espero sambando são faixas lançadas no álbum Paula (CID, 1990). Integrante do grupo Cama de Gato, Meirelles celebra sua passagem pelo quarteto através de Caribé's dream, música gravada pelo Cama em seu quarto álbum, Dança da lua (Line Records, 1993). Com texto de Mauro Senise na contracapa interna, "50" chega ao mercado fonográfico em edição independente, vendida pelo artista no seu facebook.

Sob regência de Chailly, Freire toca Beethoven em CD editado via Decca

O pianista mineiro Nelson Freire tinha apenas doze anos quando tocou pela primeira vez o concerto para piano denominado Emperor, uma das últimas obras do compositor polonês Ludwig Van Beethoven (1770 - 1887). Decorridos quase seis décadas, Freire - já a caminho dos 70 anos, a serem completados em 18 de outubro de 2014, e já aclamado mundialmente no universo da música clássica - registra o Piano concerto 5 Emperor em disco que também traz gravação da Piano sonata nº 32 in C minor, op. 111, outra das derradeiras obras do genial Beethoven. No álbum, lançado em escala mundial pela gravadora Decca neste mês de setembro de 2014, Freire toca os dois temas - o último concerto e a última sonata de Beethoven - ao lado da orquestra Gewandhausorchester, sob a regência do maestro italiano Riccardo Chailly.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Ana remarca gravação ao vivo do show '#AC' para outubro em São Paulo

Ana Carolina já agendou a gravação ao vivo do show #AC. Previsto de início para ser feito em 9 de agosto de 2014, no Rio de Janeiro (RJ), o registro do show dirigido por Monique Gardenberg vai ser feito em 25 de outubro de 2014, em apresentação na casa Credicard Hall, em São Paulo (SP), para dar origem a CD ao vivo e DVD a serem editados pelo selo Armazém com distribuição da gravadora Sony  Music. No show,  a cantora - em foto de Leo Aversa - dá voz a Coração selvagem (Belchior, 1977) em interpretação que arrebata o público. E por falar em arrebatamento, Ana foi ovacionada na noite de ontem, 24 de setembro de 2014, ao cantar Sangrando (Gonzaguinha, 1980) em gravação do programa Globo de ouro, feita para o canal Viva no Espaço Tom Jobim, no Rio de Janeiro (RJ). O programa vai ao ar em novembro.

Banda carioca Planar lança seu primeiro álbum, 'Invasão', após dois EPs

Banda de pop rock que milita na cena indie carioca, Planar lança por via independente seu primeiro álbum, Invasão, por ora encontrável somente em edição digital já disponibilizada para download gratuito no site oficial do trio formado por Leonardo Braga (voz, guitarra e composição), Leonardo Chapolin Villela (baixo) e Ivan Roichman (bateria). Sucessor dos EPs digitais Planar (Sony Music, 2010) e Tanto mar (Sony Music, 2013), Invasão foi gravado no Rio de Janeiro (RJ) no estúdio caseiro de Patrick Laplan, produtor do EP de 2013 e do álbum editado neste mês de setembro de 2014. Das onze músicas autorais que compõem o repertório de Invasão, três - Café, Tanto mar e 2012 - já faziam parte do EP Tanto mar, tendo sido regravadas para o álbum. As oito restantes são inéditas. A saber: o álbum traz Nossa invasão, Trens, Aqui de cima, Salão de festasVendaval, Conversa debaixo d'água, Acidental e Calma.

Livro flagra Zeca Baleiro em ponto de bala ao abordar questões musicais

Resenha de livro
Título: A rede idiota e outros textos
Autor: Zeca Baleiro
Editora: Reformatório
Cotação: * * * *

Além de afinada, a escrita de Zeca Baleiro é sagaz e por vezes irônica como o cancioneiro autoral desse cantor e compositor maranhense revelado em 1997. Ao escrever textos para jornais e revistas, o artista se revelou hábil cronista no enfoque de questões musicais e também de assuntos não necessariamente relacionados ao universo pop. O terceiro livro de Baleiro, A rede idiota e outros textos, descende da nobre linhagem coloquial do primeiro lançamento do artista no mercado editorial, Bala na agulha (reflexões de boteco, pastéis de memória e outras frituras) (Ponto de Bala, 2010), centrado nos textos publicados por Baleiro em seu blog. É como se estivesse conversando no bar que Baleiro toca nas relevantes questões musicais abordadas em A rede idiota e outros textos, livro que reúne crônicas escritas entre 2008 e 2013 para a coluna Última palavra, da revista Isto é, e textos escritos para o blog Questões musicais, da revista Piauí. Há também textos diversos como o que escreveu - com sensibilidade e conhecimento de causa - sobre Chorão para o jornal O globo por ocasião da morte de Alexandre Magno Abrão (9 de abril de 1970 - 5 de março de 2013), o compositor e vocalista da banda paulista Charlie Brown Jr., objeto de amor e ódio na rede. Na contramão do hype, Baleiro demole certezas propagadas com falsas convicções na web e se revela um pensador com luz própria, capaz tanto de iluminar uma visão sobre Waldick Soriano (1933 - 2008) como de qualificar os tipos de críticos musicais em texto hilário e certeiro. Os treze textos do blog Questões musicais são especialmente interessantes porque, sem perder a fluência típica de um papo de bar, Baleiro consegue refletir sobre tópicos fundamentais da música brasileira. No perspicaz texto O marketing dos movimentos, o artista questiona a espontaneidade de movimentos como o Mangue Beat, evidenciando a afinada orquestração de ações entre artistas e mídia na propagação desses movimentos. Em Poetas da canção, Baleiro ressalta o anonimato a que estão confinados compositores restritos a função de letristas de músicas quase nunca associadas às suas imagens sem rostos públicos. Aliás, nos dois volumes de Versão brasileira, Baleiro exalta compositores que verteram músicas estrangeiras para o português com maestria, a ponto de criar versões superiores às letras originais. Enfim, dentro ou fora do âmbito musical, a conversa flui nas crônicas de Zeca Baleiro, escritor em ponto de bala, como ressalta Chico César no prefácio e como comprova A rede idiota e outros textos.

Molejo antecipa comemoração de seus 25 anos em DVD sem Andrezinho

A rigor, o Molejo - grupo de pagode formado em 1991 no Rio de Janeiro (RJ) - tem 23 anos de vida. Contudo, para efeitos mercadológicos, o Molejo já está fazendo redondos 25 anos. A comemoração antecipada das duas décadas e meia de carreira é o mote do DVD Molejo 25 anos - #obailesemparar, recém-lançado pela gravadora Sony Music. Sucesso nos anos 1990, década em que o pagode projetou grupos como Raça Negra e Só pra Contrariar, o Molejo revisa sua trajetória em show feito em clima de baile e gravado ao vivo. A diferença é que os vocalistas Andrezinho e Anderson Leonardo não dividem mais o microfone. Embora já tenha feito as pazes recentemente com Anderson, Andrezinho permanece fora do grupo. Cabe a Anderson Leonardo comandar o roteiro de 43 números, apresentado pelo Molejo com a adesão de vasto time de convidados. Entram em cena grupos e cantores de pagode como Bom Gosto (em Caçamba, primeiro hit do Molejo), Pique Novo (em Pensamento verde), Nosso Sentimento (em Cilada), Imaginasamba (em Doidinha por meu samba), Revelação (em De Sampa a São Luís e em Pular por cima da dor), Belo (em Ah! moleque e em Amor estou sofrendo) e Mumuzinho (em Voltei). Mas também há convidados oriundos dos universos do funk - como MC Bola (em A bruxa está solta) e MC Ludmilla (no medley que agrega Polivalência e Fala mal de mim) e do axé, caso de Léo Santana, convidado de Deboche. O roteiro do baile-show inclui pot-pourri com sucessos do cantor norte-americano Michael Jackson (1958 - 2009), além de hits inevitáveis em apresentações do Molejo, casos de Brincadeira de criança e Dança da vassoura.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

'Romeo', balada do álbum roqueiro de Pethit, roda por (bela) via marginal

Resenha de single / clipe
Título da música: Romeo (Thiago Pethit e Hélio Flanders)
Artista: Thiago Pethit
Álbum: Rock'n'roll sugar darling (previsto para novembro de 2014)
Cotação: * * * *

Thiago Pethit tem se movimentado à margem, nos limites. Romeo - primeiro single do terceiro álbum do artista paulistano, Rock'n'roll sugar darling, previsto para ser lançado em novembro de 2014 - transita por essa estrada marginal em road-clipe que iniciou sua caminhada virtual nesta quarta-feira, 24 de setembro de 2014. Romeo, a música, é bela bissexta balada do álbum supostamente mais roqueiro desse cantor e compositor que ascendeu no universo pop com seu segundo álbum, Estrela decadente (Independente, 2012). Com letra bilíngue que incorpora versos em inglês em sua segunda metade, a sedutora canção Romeo é parceria de Pethit com Hélio Flanders. Os parceiros reeditam a inspiração de Forasteiro (2010) e de Devil in me (2012) em Romeo, música gravada em clima de western que se afina com o tom indie do road-vídeo filmado em  Los Angeles (EUA) e protagonizado pelos atores Lucas Veríssimo e Maria Laura Nogueira, intérpretes de um casal que vive perigosamente um amor passional e bandido a reboque de um carro conversível que passa pelas ruas de Venice, pelas montanhas de Malibu e pelo deserto de Palmdale. Roteirizado pelo próprio Thiago Pethit com Rafael Barion, o clipe de Romeo - filmado sob a direção de Rafaela Carvalho - alude aos casais marginais de filmes cults norte-americanos como Coração selvagem (David Lynch, 1990) e Assassinos por natureza (Oliver Stone, 1994) com direito a cenas de sexo, já uma marca registrada dos vídeos da obra musical de Pethit. É difícil deixar de seguir Romeo no YouTube. Disponível para download gratuito no site oficial de Pethit, a ótima música tem cacife para pavimentar uma longa estrada de sucesso (marginal) para o vindouro terceiro álbum do artista.

Roberta canta Roberto em CD com adesão de Dudu Braga, o filho do 'Rei'

Cantora e compositora paraibana projetada no universo sertanejo, na segunda metade dos anos 1980, Roberta Miranda entra para o reduzido time de intérpretes autorizados a gravar um disco somente com músicas de Roberto Carlos. O CD Roberta canta Roberto chega ao mercado fonográfico no fim deste mês de setembro de 2014 em edição da gravadora Som Livre. Do repertório selecionado pela cantora, Roberto vetou somente uma música - Você não sabe (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1983) - por razão ignorada. Detalhe: o filho do cantor e compositor capixaba, Dudu Braga, participa do disco no rock Quando (Roberto Carlos, 1967), gravado com o toque do grupo RC na Veia. Eis as (12) músicas do CD Roberta canta Roberto:

1. As canções que você fez pra mim (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1968)
2. Fera ferida (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1982)
3. O show já terminou (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1973)
4. Quando eu quero falar com Deus (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1995)
5. Como é grande o meu amor por você (Roberto Carlos, 1967)
6. Se você pensa (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1968)
7. A distância (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1972)
8. Do fundo do meu coração (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1986)
9. Proposta (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1973)
10. Eu te darei o céu (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1966)
11. Nossa Senhora (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1993)
12. Quando (Roberto Carlos, 1967) - com Dudu Braga e RC na Veia

15º Grammy Latino indica Caetano, mas minimiza cada vez mais o Brasil

Editorial - A cada edição, o júri do Grammy Latino minimiza mais a produção fonográfica brasileira. Divulgada hoje, 24 de setembro de 2014, a lista de indicados à 15ª edição da premiação inclui indicações para Caetano Veloso (concorrente na categoria Canção do ano com A bossa nova é foda, música do álbum Abraçaço), para Moreno Veloso (no páreo pelo troféu de Produtor do ano por conta da formatação dos álbuns Gilbertos Samba e Multishow ao vivo Caetano Veloso Abraçaço) e para instrumentistas (Antonio Adolfo, Hamilton de Holanda e Yamandú Costa) em categorias gerais. Contudo, a dupla indicação dos artistas baianos e a tripla indicação dos instrumentistas não conseguem disfarçar o fato incômodo de a produção fonográfica brasileira ter sido praticamente ignorada pelos jurados do 15º Grammy Latino na votação das categorias gerais. Afinal, não há sequer um disco brasileiro entre os dez títulos concorrentes ao prêmio de Álbum do ano. Tampouco há um fonograma nacional entre os dez indicados ao troféu de Gravação do ano. Descontadas as nomeações de Caetano Veloso e Moreno Veloso, ambos com poucas chances de vitória, a produção fonográfica nacional somente está bem representada na categoria Melhor álbum instrumental. Dos cinco álbuns indicados na categoria, três - Caprichos (do bandolinista carioca Hamilton de Holanda), Continente (do violonista gaúcho Yamandú Costa) e O piano de Antonio Adolfo (do pianista carioca Antonio Adolfo) - são brasileiros, o que indica supremacia do Brasil no gênero. No mais, a produção fonográfica do Brasil continua restrita ao seu nicho específico: as categorias dedicadas exclusivamente aos artistas brasileiros. As indicações nessas categorias podem até ser alardeadas por alguns artistas ávidos de status, mas não têm peso numa premiação já em si pouco relevante. O Grammy Latino existe apenas para disfarçar o fato de que a indústria fonográfica dos Estados Unidos - criadora do Grammy - mal olha para a produção fonográfica da América Latina. Seja como for, os vencedores da 15º edição do Grammy Latino serão conhecidos em 20 de novembro em cerimônia na MGM Gran Garden Arena em Las Vegas (EUA).

'Porta aberta' mostra som de 'Mistério', álbum que Belo lança em outubro

Já disponível para download gratuito e legalizado, a música Porta aberta é o primeiro single do álbum que o cantor paulista Belo vai lançar em outubro de 2014 via Sony Music. Lançada nas rádios e no YouTube, Porta aberta é samba de autoria de Umberto Tavares e Jefferson Jr. - compositores ligados ao pagode e ao funk - que remete à levada de hits de Belo nos anos 1990.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Música do segundo álbum de Silva, 'Janeiro' ganha cinco versões em EP

Janeiro (Lúcio Silva de Souza e Lucas Silva) - uma das melhores músicas do (irregular) segundo álbum de Silva, Vista pro mar (Slap / Som Livre, 2014) - ganha cinco versões bem diferentes da gravação original. As cinco versões estão reunidas no EP Janeiro, lançado ontem, 22 de setembro de 2014, nas plataformas digitais de venda e streaming via selo Slap. As três primeiras faixas do EP de Silva são versões em inglês da música, traduzida literalmente como January nessa versão, ouvida no registro original em inglês e em dois remixes. As duas faixas restantes do EP são remixes da gravação em português de Janeiro. Eis, na ordem, as cinco faixas de Janeiro, EP que, diferentemente do álbum Vista pro mar, não ganha edição física:

1. January
2. January (Teen Daze remix)
3. January (Marbeya sound headphone mix)
4. Janeiro (Cosmic Kids remix )
5. Janeiro (Marbeya sound loud mix )

Ana Lonardi finaliza álbum em que abre parceria com Roberto Menescal

Cantora gaúcha que concorreu na segunda temporada do programa The Voice Brasil, Ana Lonardi finaliza seu primeiro álbum. Uma das músicas do disco, Por querer, traz o violão de Roberto Menescal, parceiro de Lonardi na composição, assinada também pelo poeta gaúcho (radicado no Rio de Janeiro) Allan Dias Castro. A foto acima flagra a cantora com Menescal no estúdio Albatroz, no Rio de Janeiro (RJ), durante a produção da faixa desse álbum que, na discografia da intérprete, sucede single promocional gravado com as músicas Chocolate (Ana Lonardi e Márcio Falcão) e Sexyantagonista (Ana Lonardi) e posto à venda em Porto Alegre-RS.

Bibi grava ao vivo em outubro show em que canta o repertório de Sinatra

Aos 92 anos, a atriz e cantora carioca Bibi Ferreira continua em plena atividade profissional. Embora ainda não tenha lançado o DVD do show comemorativo de seus 90 anos, Bibi - Histórias e canções (2012), gravado em Belo Horizonte (MG) em março de 2013, a artista já se prepara para fazer outro registro ao vivo de show. Em cartaz até 7 de dezembro de 2014 no Teatro Renaissance, em São Paulo (SP), o show Bibi Ferreira canta o repertório de Sinatra - feito pela intérprete com orquestra, sob a direção musical de Flávio Mendes - vai ser gravado ao vivo em outubro de 2014 para edição de CD e DVD a serem editados em 2015 pela gravadora Biscoito Fino. Como o título do espetáculo já explicita, Bibi - em foto de Rodrigo Goffredo - interpreta músicas consagradas na voz do cantor norte-americano Frank Sinatra (1915 - 1998). A cantora dá voz a standards como Fly me to the moon (Bart Howard, 1954) e My way (1969), a versão em inglês - escrita por Paul Anka - da canção francesa Comme d'habitude (Claude François e Jacques Revaux, 1967). O lançamento do DVD - previsto para ser editado também nos Estados Unidos - vai coincidir com as comemorações pelo centenário de nascimento de Sinatra, a referência máxima de canto masculino no universo norte-americano.

'Trem' já circula no trilho virtual para promover 'Sol-te', álbum do Suricato

Música gravada com a pegada do blues, Trem já circula pelos trilhos virtuais como primeiro single do segundo álbum do grupo carioca Suricato, Sol-te. Sucessor do álbum Pra sempre primavera (Independente, 2012), Sol-te tem lançamento programado para outubro de 2014 pelo selo Slap - braço indie da gravadora Som Livre - e alinha no repertório músicas inéditas como Bobagens. O Suricato está em evidência desde que disputou o reality show Superstar, exibido pela TV Globo neste ano de 2014. A música Trem, aliás, foi apresentada em primeira mão no programa, sendo bem recebida pelo público global. Com a palavra, Rodrigo Suricato, o  vocalista do grupo e compositor de Trem, música feita em português com refrão em inglês:

"Ter uma canção com elementos tão fortes do blues se afirmando como canção popular brasileira, com cartas de boas vindas entre tantos estilos já tão populares, é um privilégio. Ouvimos isso da rainha do axé, Ivete Sangalo, reafirmando nossa ideia de que músicas com elementos diferentes como a nossa podem ser populares, sim. Nada é tão complexo como bossa nova, jazz e música clássica e todas já foram em algum momento unanimidade para as massas. Pois música não é para ser entendida mas sentida. Pedi para alguns artistas colocarem letra e, na negativa, acabei fazendo eu mesmo. O Gui Schwab sugeriu um refrão em inglês. Por que não, se já misturamos tudo como autênticos brasileiros? A ideia de constante movimento de um trem, aceitar a beleza do chegar e partir da vida foi o cenário perfeito para a canção.” Rodrigo Suricato

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Primeiro álbum do Mundo Livre S/A faz 20 anos e ganha reedição em vinil

Pedra tão fundamental para a construção do movimento pernambucano Mangue Beat quanto o álbum de estreia da Nação Zumbi, Da lama ao caos (Chaos / Sony Music, 1994), o primeiro álbum do Mundo Livre S/A - grupo então formado por Fred Zeroquatro (guitarra, cavaquinho e vocais), Fábio Goró (baixo), Bactéria (teclados), Xef Tony (bateria) e Otto (percussão) - está ganhando edição em vinil. A edição celebra os 20 anos de vida do álbum lançado originalmente pelo selo Banguela Records em 1994. Samba esquema noise - cujo título é trocadilho que alude ao primeiro revolucionário álbum de Jorge Ben Jor, Samba esquema novo (Philips, 1963) - está sendo relançado em vinil de 180 gramas pelo selo pernambucano Assustado Discos, dirigido no Recife (PE) por Rafael Cortes. A tiragem da edição em LP é de mil cópias, sendo 700 em vinil preto as outras 300 em vinil amarelo. Por conta da edição em vinil, Samba esquema noise foi remasterizado por Iuri Freiberger sob a supervisão de Fred Zeroquatro. Eis a disposição das faixas no LP que rebobina 10 das 13 músicas do álbum Samba esquema noise:

Lado A:
1. Manguebit (Fred Zeroquatro)
2. A bola do jogo (Fred Zeroquatro)
3. Livre iniciativa (Fred Zeroquatro e Chef Tony)
4. Saldo de Aratú (Fred Zeroquatro, Fabio Goró, Chef Tony, Otto e Bactéria)
5. Homero, o junkie (Fred Zeroquatro, Fabio Goró e Chef Tony)


Lado B:
1. Musa da Ilha Grande (Fred Zeroquatro)
2. Cidade estuário (Fred Zeroquatro)
3. Rios, pontes & overdrives (Fred Zeroquatro)
4. O rapaz do bonezinho preto (Fred Zeroquatro, Fabio Goró, Chef Tony, Otto e Bactéria)
5. Terra escura (Fred Zeroquatro)

Martinho e Mart'nália gravam número para extras de DVD solo de Pedro

♪ A foto acima mostra Martinho da Vila e Mart'nália na gravação dos extras do primeiro DVD solo do cantor Pedro Luís. A gravação ao vivo aconteceu hoje, 22 de setembro de 2014, no Rio de Janeiro (RJ), cidade aonde Pedro gravou a primeira etapa do DVD em 31 de agosto de 2014.

CD autoral 'Das coisas que surgem' empalidece o canto de Marcia Castro

Resenha de CD
Título: Das coisas que surgem
Artista: Marcia Castro
Gravadora: Edição independente da artista
Cotação: * *

Em abril de 2014, quando Lucas Santanna jogou na web a canção Partículas de amor, composta pelo artista baiano em parceria com o produtor paulistano Gui Amabis, houve um encantamento geral pela beleza melódica e poética dessa apaixonada canção lançada por Santtana em seu recente sexto álbum Sobre noites e dias (Diginois, 2014). Pois boa parte da beleza de Partículas de amor evapora no registro feito pela baiana Marcia Castro para seu terceiro álbum, Das coisas que surgem, lançado hoje - 22 de setembro de 2014 - nas plataformas digitais. Intérprete de personalidade forte que seduziu o universo pop indie com seu desafiador primeiro álbum, Pecadinho (Independente, 2007), Castro vem diluindo a força de seu canto a cada disco. Pecou por excesso de produção no segundo álbum, De pés no chão (Deck, 2012), e seguiu neste decepcionante Das coisas que surgem uma fórmula rala que empalideceu seu canto outrora tão expressivo e mordaz. Não dá para reconhecer a assinatura vocal de Marcia Castro nas onze músicas do disco. Tampouco dá para reconhecer nas letras geralmente inexpressivas das inéditas a força dos versos de arrudA, parceiro de Castro nas cinco inéditas autorais deste disco em que a cantora se apresenta como compositora. Os versos de baladas como a desiludida Beijos de ar (Marcia Castro e arrudA) e O amor tem dessas (Marcia Castro e arrudA), por exemplo, soam quase tão triviais quanto as músicas em si - o que causa até surpresa, já que a poesia do paulistano arrudA costuma voar mais alto, como já provaram discos como Asa (2014), belo álbum solo de Gustavo Galo. Dentro desse esmaecido painel poético, O que me move (Marcia Castro e arrudA) é o destaque absoluto com seus versos dialéticos ("O que me move / É o que me falta / O que não mais espanta / É o que me mata"). Mas o fato é que Das coisas que surgem patina em trilho pop que, não fosse a produção musical de Gui Amabis, jamais se desviaria do convencional mais banal. Mesmo assim, a assinatura de Amabis parece enfraquecida em arranjos feitos com o toque recorrente dos músicos Juninho Costa (guitarra), Régis Damasceno (baixo) e Samuel Fraga (bateria) e do próprio Amabis, responsável pelos teclados e programações. A impressão deixada pelo disco é que Castro quis fazer um disco com possibilidades comerciais, mas sem coragem para sair do mundinho indie no qual está imersa. Nesse sentido, parece que Gui Amabis quis (em vão) ser Michael Sullivan ao compor a balada Esculacho sobre amor extinto. Se o repertório resulta irregular, o canto de Castro soa sem vida e sem emoção. O que esvazia a interpretação de Três da madrugada (Torquato Neto e Carlos Pinto, 2013), feita sem o clima de tristeza nostálgica que permeia a música lançada por Gal Costa em compacto de 1973. Se não há a necessária melancolia em Três da madrugada, falta pegada ao inédito rock Mau caminho, parceria de Arnaldo Antunes com Alice Ruiz em que os poetas se queixam dos precipícios surgidos inevitavelmente na estrada da vida humana. Um clima roqueiro também ambienta Sem mistério (Marcia Castro e arrudA) sem diluir a apatia reinante em Das coisas que surgem. Já Um bom filme perde o foco dado por seu compositor, Gui Amabis, na gravação original feita pelo produtor para seu álbum Trabalhos carnívoros (YB Music, 2012). Já na primeira música, Atalhos (Marcia Castro e arrudA), de ritmo quase tão veloz quanto o ska que pauta a recriação do samba Na menina dos meus olhos (Monsueto e Flora Mattos, 2012) feita com a adesão da cantora Mayra Andrade, Das coisas que surgem mostra que Marcia Castro pegou a onda errada. Não somente porque parece ter fôlego curto como compositora, mas também - e principalmente - por ter diluído o que tem de melhor: a força irônica de seu canto.

Segundo álbum solo de Gal Costa vai ser reeditado em vinil via Polysom

Segundo álbum solo de Gal Costa, o roqueiro e psicodélico Gal - disco lançado em 1969 pela Philips - está de volta ao formato original de LP. A Polysom produziu reedição em vinil de 180 gramas - prevista para chegar ao mercado fonográfico neste mês de setembro de 2014 - deste antológico álbum gravado pela cantora baiana sob direção musical do maestro carioca Rogério Duprat (1932 - 2006). Duprat é o autor dos arranjos de músicas como Cinema Olympia (Caetano Veloso) - composição que abre o disco em clima roqueiro, com o canto de Gal em tom janisjopliano - e Tuareg (Jorge Ben Jor), tema incluído pela cantora no seu atual show Espelho d'Água. Imerso no universo tropicalista, Gal é o álbum em que a cantora gravou pela primeira vez Meu nome é Gal, música feita por Roberto Carlos e Erasmo Carlos para a artista.

domingo, 21 de setembro de 2014

David Feldman evoca Chopin e Jobim em seu segundo disco solo, 'Piano'

Pianista carioca de formação clássica, mas com livre trânsito pela Bossa Nova e pelo jazz, David Feldman reitera seu talento e sua técnica em piano, seu segundo álbum solo, lançado neste mês de setembro de 2014 em edição independente distribuída via Tratore. A grafia em letra minúscula do título piano realça o fato de o nome do disco significar não somente o instrumento do músico, mas a suavidade e o intimismo do som ouvido no álbum que sucede O som do Beco das Garrafas (EMI Music, 2009) na discografia de Feldman. Aos 36 anos, o pianista e compositor apresenta no CD instrumental seis temas de sua autoria (Bad relation, Chobim, Esqueceram de mim no aeroporto, O latido do cachorro, Sliding ways e Tetê) entre abordagens de Conversa de botequim (Noel Rosa e Vadico, 1935), Primavera (Carlos Lyra e Vinicius de Moraes, 1964) e Sabiá (Antonio Carlos Jobim e Chico Buarque, 1968). Detalhe: piano inclui também registro de Tristeza de nós dois (Maurício Einhorn, Durval Ferreira e Bebeto Castilho, 1961), música já gravada por David Feldman em seu álbum anterior. Da safra autoral do pianista compositor, Chobim se destaca no álbum por sintetizar influências musicais de Feldman entre referências às obras do pianista polonês Frédéric Chopin (1810 - 1849) e do compositor carioca Antonio Carlos Jobim (1927 - 1994). piano também está à venda no iTunes.

Rosanah grava 'Summer breeze', o maior sucesso do duo Seals & Crofts

Cantora paulista que esteve em evidência nas paradas de música popular entre a segunda metade dos anos 1980 e o começo da década de 1990, Rosanah Fienngo dá voz a Summer breeze (Jim Seals e Dash Crofts, 1972) - sucesso do duo norte-americano Seals & Crofts - em gravação inédita cujo áudio já foi posto em rotação no YouTube. Sucesso mundial desde seu lançamento, em agosto de 1972, a música Summer breeze deu título ao quarto álbum de Seals & Crofts e já originou vários covers. O de Rosanah foi produzido e arranjado por Daniel Lemos.

Tiê brilha no movimento renovador de 'Esmeraldas' sem perder a doçura

Resenha de CD
Título: Esmeraldas
Artista: Tiê
Gravadora: Warner Music
Cotação: * * * *

"Tô a fim de me reeducar / Tanta coisa boa pra aprender / Sobre os deuses, os astros e o ar", pondera Tiê em versos de Mínimo maravilhoso (Tiê e Vitor Steinberg), rock que se impõe entre o cancioneiro autoral do terceiro álbum da artista paulistana, Esmeraldas. Tais versos são condizentes com o espírito libertador de um disco que mostra que já há flores mais raras no doce jardim de Tiê. Com lançamento programado para 23 de setembro de 2014, o CD Esmeraldas expande o universo musical da cantora e compositora que se projetou em 2009 com fofo disco de folk, Sweet jardim (Levi's Music, 2009), calcado no seu violão. Sweet jardim floresceu na cena musical contemporânea de São Paulo (SP) e ecoou fora das fronteiras de sua cidade natal quando obteve o aval público de Caetano Veloso. Dois anos depois, já contratada pelo gravadora Warner Music, Tiê ensaiou - sem perder a ternura - uma expansão além do universo do folk com um segundo álbum de som, instrumental e repertório mais diversificados. Contudo, ainda que tenha tido até música em trilha sonora de novela da TV Globo, A coruja e o coração (Warner Music, 2011) obteve menor atenção e repercussão na cena pop paulistana, representando reversão de expectativa. Alvo de alto investimento da Warner Music, Esmeraldas tenta reposicionar Tiê no mercado fonográfico com som pop, de pegada eventualmente roqueira. Disco nascido de uma (assumida) crise criativa da artista, Esmeraldas começou a ser gestado em dezembro de 2013 na interiorana cidade de Minas Gerais que dá nome ao disco. No álbum, Tiê renova seu som com a abertura de parcerias com nomes como Adriano Cintra e André Whoong - nome fundamental na arquitetura do disco - e, sim, David Byrne, o conceituado artista escocês (de vivência norte-americana). Admirador do som de Tiê desde que assistiu a um show da artista em Nova York (EUA), em 2011, Byrne é coautor e convidado da canção bilíngue All around you (David Byrne, André Whoong, Tiê e Tim Bernardes), outro trunfo do repertório de Esmeraldas. O fato de o álbum ter sido produzido em dois países diferentes (Brasil e Estados Unidos) por dois nomes de universo musicais tão díspares - o paulistano Adriano Cintra (convidado por Tiê) e o nova-iorquino Jesse Harris (sugerido pela diretoria da Warner Music) - é surpreendente, já que há total unidade entre o som das 12 faixas do CD. Tal unidade talvez venha mais da onipresença de André Whoong na ficha técnica do disco. Parceiro de Tiê em canções como Meia horaDepois de um dia de sonho (joia de delicadeza poética e melódica), Whoong assina os arranjos de sopros, metais e cordas que encorpam o som de oito das doze músicas de Esmeraldas. A propósito, Isqueiro azul (Tiê e Rita Wainer) acende a ideia que a ruptura do disco reside mais no som do que na composição do repertório. Tanto que Tiê abre Esmeraldas com música gravada em seu primeiro disco, um EP de 2007, na qual a então desconhecida cantautora apresentou quatro temas de sua lavra autoral. Trata-se de Gold fish (Tiê e Flávio Juliano), balada cantada em inglês e adornada com cordas orquestradas pelo maestro norte-americano Rob Moose, arranjador também de A noite. Faixa equivocadamente eleita o primeiro single do álbum, A noite - versão em português (de Tiê, Adriano Cintra, André Whoong e Rita Wainer) da canção italiana La notte (Giuseppe Anastasi), lançada pela cantora italiana Arisa no álbum Amami (Warner Music, 2012) - se ajusta ao espírito pop do disco sem arrebatar. Pop por pop, Urso (Tiê, Adriano Cintra, André Whoong, Naná Rizizni e Rita Wainer) mostra mais garra para encarar a selva do mercado com seu corinho sedutor. A propósito, Esmeraldas brilha em detalhes como o piano e o órgão hammond tocados por Guilherme Arantes na suave Máquina de lavar (Tiê e André Whoong). Ou a bateria hipnótica bem marcada por Naná Rizinni na canção-título Esmeraldas, única música assinada por Tiê sem parceiros. Em contrapartida, a ordem com que as 12 músicas estão dispostas no CD é significante detalhe que prejudica o álbum. Fica a sensação de que músicas eventualmente menores como Par de ases (Tiê e Flávio Juliano) - a segunda das 12 faixas - ofuscam composições mais inspiradas alocadas na segunda metade do CD. Seja como for, Esmeraldas mostra que Tiê vem se movimentando e plantando sementes que fazem seu doce jardim florescer a cada disco lançado sem que a artista perca a resistente ternura. Afinal, há tanta coisa boa para aprender sobre os deuses, os astros e o ar.

Disco de Platina da Malta é um sinal de vitalidade do mercado fonográfico

Editorial - Postada pelo empresário Simon Fuller em seu facebook, a foto acima mostra a banda Malta posando no palco da lotada casa Vivo Rio, no Rio de Janeiro (RJ), com o Disco de Platina a que o quarteto paulistano já fez jus pelas vendas superiores a 100 mil cópias de seu álbum de estreia, Supernova, lançado pela gravadora Som Livre neste mês de setembro de 2014. A rigor, já foram contabilizados 130 mil discos vendidos neste primeiro mês de lançamento. Expressivo, o número é um sinal de vitalidade do mercado fonográfico brasileiro. Por mais que o tradicional modelo comercial da indústria do disco tenha entrado em decadência ao longo da última década, por conta das piratarias física e virtual, as vendas rápidas de milhares de cópias do álbum da Malta indicam que, se um artista consegue mobilizar o público em mercado cada vez mais segmentado, ainda é possível obter um relevante sucesso de vendas com discos. É fato que a Malta tem as máquinas da gravadora Som Livre e da TV Globo acionadas a seu favor desde que a banda se sagrou vitoriosa no recente reality musical Superstar - exibido pela emissora - e conquistou o direito de gravar um disco pela companhia fonográfica associada à Globo. É fato também que a Malta faz um pop rock bem trivial, com direito a baladas palatáveis. Mesmo assim, ou talvez por tudo isso, a entusiasmada adesão do público é real - como prova a foto tirada diante da plateia que lotou a casa Vivo Rio na noite de 19 de setembro de 2014 para ver o show da Malta - e atesta que o tradicional modelo comercial do mercado fonográfico ainda pode, sim, dar sinais vitais desde que haja verdadeira conexão entre público e artista. Estabelecer essa conexão é que tem sido cada vez mais difícil.