Mauro Ferreira no G1

Aviso aos navegantes: desde 6 de julho de 2016, o jornalista Mauro Ferreira atualiza diariamente uma coluna sobre o mercado fonográfico brasileiro no portal G1. Clique aqui para acessar a coluna. O endereço é http://g1.globo.com/musica/blog/mauro-ferreira/


domingo, 13 de setembro de 2015

Álbum 'No princípio era o verbo' aponta vitória de Black Alien no jogo da vida

Resenha de CD
Título: Babylon by Gus vol. II - "No princípio era o verbo"
Artista: Gustavo Black Alien
Gravadora: Edição independente do artista
Cotação: * * * *

"Um verso estende a mão / ... / Te apresento à minha nova vida / Seja bem-vindo", convida o rapper fluminense Gustavo de Almeida Ribeiro em 1972, vinheta que introduz seu segundo álbum solo, Babylon by Gus vol. II - "No princípio era o verbo". 1972 é o ano em que o Gustavo - vulgo Black Alien - veio ao mundo. E por falar no tempo rei, onze anos separam o esperado segundo disco de Alien do primeiro volume, O ano do macaco, lançado em 2004 via Deck. Nessa década, rappers como Criolo e Emicida cresceram e apareceram na cena do hip hop nacional. Contudo, Black Alien consegue se manter relevante com este segundo álbum e dá nova prova de vida inteligente com "No princípio era o verbo". O desenho da capa - ilustração do Petit Pois Studio que remete à icônica imagem do filme O sétimo selo (Suécia, 1956), do cineasta sueco Ingmar Bergman (1918 - 2007) - traduz o momento de vida do rapper projetado no grupo carioca Planet Hemp nos anos 1990. É como se Black Alien fosse o cavaleiro que vem driblando a morte no jogo da vida. A morte pode ser simbolizada pelo vício em drogas que atrasou o disco e a carreira do artista. Mas "No princípio era o verbo" chega em tempo, com seu título bíblico, para mostrar que ainda há lugar para Black Alien na cena do hip hop brasileiro. Produzido por Alien com Alexandre Basa, parceiro fiel, o álbum procura expor visão positiva da vida e por vezes adota até discurso messiânico, como em Terra, rap turbinado com scratches do DJ Castro e com coro infantil. A faixa Terra já havia sido apresentada como single em dezembro de 2014. Outras músicas do disco - caso de Rolo compressor, rap afiado com scratches do DJ Babz - também já tinham sido jogadas previamente na rede. Mas as faixas outrora soltas se impõem no disco como peças importantes no tabuleiro de Alien e ajudam a formatar seu discurso ao lado de novidades como Somos o mundo, tema embebido em soul e gravado com os vocais da cantora paulistana Céu. Somos o mundo é instante de leveza romântica - bisada em Falando do meu bem - em álbum que pesa a mão no discurso em Rock'n'roll, rap de atitude roqueira no qual Alien prega a importância das escolhas certas em versos divididos com o colega paulistano Edi Rock, integrante do grupo Racionais MC's. Já Skate no pé - tema gravado com as adesões dos rappers Kamau e Parteum - alivia o discurso em versos autorreferentes e celebra a vida leve levada no skate em refrão de apelo pop que lembra o rap radiofônico de Gabriel O Pensador. Álbum de batidas azeitadas, formatadas sem os clichês do hip hop, "No princípio era o verbo" tem tom reflexivo que atinge pontos altos em Quem é você? - tema no qual o cantor carioca Luiz Melodia dá show com sua voz impregnada de soul e que parece brincar sobre as notas da parte mais melódica do rap - e em O estranho vizinho da frente, rap autorreferente aditivado com scratches do DJ Nutz. "O campo do pensamento é um campo de luta", ressalta Alien, no diálogo feito com sua própria consciência. Com o violão e a guitarra de Walter Villaça, músico recorrente na ficha técnica do disco, Identidade mantém o interesse em torno deste álbum que gravita em torno do rap sem deixar de embutir outras levadas. Com os sopros vitais de André Knobl (saxofone) e André Mitsuoka (trombone), Homem de família enfatiza que Alien pretende levar sua vida em sol maior. Disco encerrado com Cidadão honorário (Outro), tema autobiográfico no qual Alien saúda família e amigos ao passar sua vida a limpo, Babylon by Gus vol. II - "No princípio era o verbo" aponta a vitória da paz no jogo do cavaleiro com a morte.

3 comentários:

Mauro Ferreira disse...

♪ "Um verso estende a mão / ... / Te apresento à minha nova vida / Seja bem-vindo", convida o rapper fluminense Gustavo de Almeida Ribeiro em 1972, vinheta que introduz seu segundo álbum solo, Babylon by Gus vol. II - "No princípio era o verbo". 1972 é o ano em que o Gustavo - vulgo Black Alien - veio ao mundo. E por falar no tempo rei, onze anos separam o esperado segundo disco de Alien do primeiro volume, O ano do macaco, lançado em 2004 via Deck. Nessa década, rappers como Criolo e Emicida cresceram e apareceram na cena do hip hop nacional. Contudo, Black Alien consegue se manter relevante com este segundo álbum e dá nova prova de vida inteligente com "No princípio era o verbo". O desenho da capa - ilustração do Petit Pois Studio que remete à icônica imagem do filme O sétimo selo (Suécia, 1957), do cineasta sueco Ingrid Bergman (1918 - 2007) - traduz o momento de vida do rapper projetado no grupo carioca Planet Hemp nos anos 1990. É como se Black Alien fosse o cavaleiro que vem driblando a morte no jogo da vida. A morte pode ser simbolizada pelo vício em drogas que atrasou o disco e a carreira do artista. Mas "No princípio era o verbo" chega em tempo, com seu título bíblico, para mostrar que ainda há lugar para Black Alien na cena do hip hop brasileiro. Produzido por Alien com Alexandre Basa, parceiro fiel, o álbum procura expor visão positiva da vida e por vezes adota até discurso messiânico, como em Terra, rap turbinado com scratches do DJ Castro e com coro infantil. A faixa Terra já havia sido apresentada como single em dezembro de 2014. Outras músicas do disco - caso de Rolo compressor, rap afiado com scratches do DJ Babz - também já tinham sido jogadas previamente na rede. Mas as faixas outrora soltas se impõem no disco como peças importantes no tabuleiro de Alien e ajudam a formatar seu discurso ao lado de novidades como Somos o mundo, tema embebido em soul e gravado com os vocais da cantora paulistana Céu. Somos o mundo é instante de leveza romântica - bisada em Falando do meu bem - em álbum que pesa a mão no discurso em Rock'n'roll, rap de atitude roqueira no qual Alien prega a importância das escolhas certas em versos divididos com o colega paulistano Edi Rock, integrante do grupo Racionais MC's. Já Skate no pé - tema gravado com as adesões dos rappers Kamau e Parteum - alivia o discurso em versos autorreferentes e celebra a vida leve levada no skate em refrão de apelo pop que lembra o rap radiofônico de Gabriel O Pensador. Álbum de batidas azeitadas, formatadas sem os clichês do hip hop, "No princípio era o verbo" tem tom reflexivo que atinge pontos altos em Quem é você? - tema no qual o cantor carioca Luiz Melodia dá show com sua voz impregnada de soul e que parece brincar sobre as notas da parte mais melódica do rap - e em O estranho vizinho da frente, rap autorreferente aditivado com scratches do DJ Nutz. "O campo do pensamento é um campo de luta", ressalta Alien, no diálogo feito com sua própria consciência. Com o violão e a guitarra de Walter Villaça, músico recorrente na ficha técnica do disco, Identidade mantém o interesse em torno deste álbum que gravita em torno do rap sem deixar de embutir outras levadas. Com os sopros vitais de André Knobl (saxofone) e André Mitsuoka (trombone), Homem de família enfatiza que Alien pretende levar sua vida em sol maior. Disco encerrado com Cidadão honorário (Outro), tema autobiográfico no qual Alien saúda família e amigos ao passar sua vida a limpo, Babylon by Gus vol. II - "No princípio era o verbo" aponta a vitória da paz no jogo do cavaleiro com a morte.

Carlos Eduardo Santa Rosa disse...

Houve um lapso quanto ao nome do cineasta de O sétimo selo, Ingmar Bergman.

Mauro Ferreira disse...

Claro, Carlos Eduardo. Grato pelo toque. Abs, MauroF