Mauro Ferreira no G1

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terça-feira, 15 de setembro de 2015

Punk e profana, Buhr peita em 'Selvática' a noção sacra da servidão feminina

Resenha de CD
Título: Selvática
Artista: Karina Buhr
Gravadora: YB Music
Cotação: * * * 1/2

O discurso de Karina Buhr em seu terceiro álbum solo, Selvática, é peitudo. Com discurso incisivo de espírito profano, a cantora e compositora peita a noção sacra da servidão feminina, presente nos textos sagrados, neste disco que chega ao mercado fonográfico a partir de 29 de setembro de 2015. Ao contradizer esta visão arcaica da mulher submissa ao homem, a artista baiana - de criação pernambucana, mas já radicada há anos na cidade de São Paulo (SP) - dá a decisão e retoma a atitude punk de seu primeiro excelente álbum solo, Eu menti pra você (Independente / Tratore, 2010). Buhr já tinha mostrado as garras de Selvática no primeiro single do álbum, Eu sou um monstro (Karina Buhr), mas há temas e letras mais punks no disco formatado por Bruno Buarque (bateria, MPC e percussões), MAU (baixo), André Lima (sintetizadores) e Victor Rice, cujo violoncelo adorna a balada Vela e navalha (Karina Buhr), de versos cortantes. Ao lado de virtuoses da guitarra (Edgard Scandurra, Fernando Catatau e Manoel Cordeiro), estes músicos formam o quarteto fantástico que vitaliza a produção autoral da artista e cria a adequada cama sonora para que Buhr deite e role, de peito aberto, entre o rock de alma punk e o regionalismo brasileiro contemporâneo. Destaque do repertório, Rimã (Karina Buhr) se banha nas águas da ciranda que inunda os mares musicais de Pernambuco, Estado que abrigou Buhr e que abriga Recife (PE), cidade que se torna irreconhecível aos olhos dessa atual forasteira no inebriante punk rock Cerca de prédio (Karina Buhr e Cannibal), hardcore de interpretação dividida pela cantora com o parceiro Cannibal, baixista e vocalista do grupo punk pernambucano Devotos. Mais leve, Dragão (Karina Buhr) se avizinha da praia do reggae na qual Alcunha de ladrão (Karina Buhr) mergulha, ecoando sons do álbum anterior da artista. Mas Selvática tem (muito) mais pegada do que Longe de onde (Coqueiro Verde Records, 2011), segundo álbum de Buhr. Por mais que haja apatia na condução de Conta-gotas (música de Karina Buhr e Guizado com letra de Karina Buhr), o conjunto da obra tem peso. Às vezes literalmente. A partir da quarta das 11 músicas, Pic nic (música de Karina Buhr e Guizado com letra de Karina Buhr) o disco vai encontrando seu tom e afiando seu discurso contra um mundo ainda machista. "Não quero saber porque você veio / Nem de sua cerveja, seu gelo / Sua ganância", dispara Buhr na alta velocidade de Pic nic. Faixa de ambiência noise, aditivada pelo toque da guitarra de Scandurra, Esôfago (Karina Buhr) enfia goela do ouvinte abaixo um doente caso de amor e morte. De digestão (musicalmente) mais fácil, a balada Desperdiço-me-te (Karina Buhr) expõe - no toque do trompete sonoro de Guizado (músico recorrente no álbum) - a desilusão e o cansaço da protagonista da canção ao ver a vida passar por ela, tal qual Carolina na janela dos anos 1960. No fim, a ópera-rock-punk que dá nome ao disco, Selvática (Karina Buhr), sintetiza o conceito do disco com peso e as vozes esbravejantes de Elke Maravilha e Denise Assunção. É quando o trio declara guerra ao mundo machista da selva de dentro. "Não lhe devemos nada / Não nos verá na escuridão / Como capacho / Nos temporais amargos", profetiza Buhr, secundada por Elke e Denise. É o grande fecho de um disco que se impõe pelo discurso e por seus rocks mais pesados. A qualidade da inédita safra autoral do álbum Selvática eventualmente oscila, mas a poética da artista jamais esmorece. Punk poeta e profana, Karina Buhr vence a guerra, por ora, na selva pop.

6 comentários:

Mauro Ferreira disse...

♪ O discurso de Karina Buhr em seu terceiro álbum solo, Selvática, é peitudo. Com discurso incisivo de espírito profano, a cantora e compositora peita a noção sacra da servidão feminina, presente nos textos sagrados, neste disco que chega ao mercado fonográfico a partir de 29 de setembro de 2015. Ao contradizer esta visão arcaica da mulher submissa ao homem, a artista baiana - de criação pernambucana, mas já radicada há anos na cidade de São Paulo (SP) - dá a decisão e retoma a atitude punk de seu primeiro excelente álbum solo, Eu menti pra você (Independente / Tratore, 2010). Buhr já tinha mostrado as garras de Selvática no primeiro single do álbum, Eu sou um monstro (Karina Buhr), mas há temas e letras mais punks no disco formatado por Bruno Buarque (bateria, MPC e percussões), MAU (baixo), André Lima (sintetizadores) e Victor Rice, cujo violoncelo adorna a balada Vela e navalha (Karina Buhr), de versos cortantes. Ao lado de virtuoses da guitarra (Edgard Scandurra, Fernando Catatau e Manoel Cordeiro), estes músicos formam o quarteto fantástico que vitaliza a produção autoral da artista e cria a adequada cama sonora para que Buhr deite e role, de peito aberto, entre o rock de alma punk e o regionalismo brasileiro contemporâneo. Destaque do repertório, Rimã (Karina Buhr) se banha nas águas da ciranda que inunda os mares musicais de Pernambuco, Estado que abrigou Buhr e que abriga Recife (PE), cidade que se torna irreconhecível aos olhos dessa atual forasteira no inebriante punk rock Cerca de prédio (Karina Buhr e Cannibal), hardcore de interpretação dividida pela cantora com o parceiro Cannibal, baixista e vocalista do grupo punk pernambucano Devotos. Mais leve, Dragão (Karina Buhr) se avizinha da praia do reggae na qual Alcunha de ladrão (Karina Buhr) mergulha, ecoando sons do álbum anterior da artista. Mas Selvática tem (muito) mais pegada do que Longe de onde (Coqueiro Verde Records, 2011), segundo álbum de Buhr. Por mais que haja apatia na condução de Conta-gotas (música de Karina Buhr e Guizado com letra de Karina Buhr), o conjunto da obra tem peso. Às vezes literalmente. A partir da quarta das 11 músicas, Pic nic (música de Karina Buhr e Guizado com letra de Karina Buhr) o disco vai encontrando seu tom e afiando seu discurso contra um mundo ainda machista. "Não quero saber porque você veio / Nem de sua cerveja, seu gelo / Sua ganância", dispara Buhr na alta velocidade de Pic nic. Faixa de ambiência noise, aditivada pelo toque da guitarra de Scandurra, Esôfago (Karina Buhr) enfia goela do ouvinte abaixo um doente caso de amor e morte. De digestão (musicalmente) mais fácil, a balada Desperdiço-me-te (Karina Buhr) expõe - no toque do trompete sonoro de Guizado (músico recorrente no álbum) - a desilusão e o cansaço da protagonista da canção ao ver a vida passar por ela, tal qual Carolina na janela dos anos 1960. No fim, a ópera-rock-punk que dá nome ao disco, Selvática (Karina Buhr), sintetiza o conceito do disco com peso e as vozes esbravejantes de Elke Maravilha e Denise Assunção. É quando o trio declara guerra ao mundo machista da selva de dentro. "Não lhe devemos nada / Não nos verá na escuridão / Como capacho / Nos temporais amargos", profetiza Buhr, secundada por Elke e Denise. É o grande fecho de um disco que se impõe pelo discurso e por seus rocks mais pesados. A qualidade da inédita safra autoral do álbum Selvática eventualmente oscila, mas a poética da artista jamais esmorece. Punk poeta e profana, Karina Buhr vence a guerra, por ora, na selva pop.

Luca disse...

só ouvi a música Sou um monstro e não achei isso tudo não

Mauro Silva disse...

Louco para ouvir este novo trabalho da Karina Buhr! Que passe logo estas semanas e venha rápido dia 29, tô na porta da loja! rsrsrs.

BIGODE disse...

Já estava ansioso prá ouvir, agora lendo essa resenha detalhada fiquei mega ansioso...grande disco na certa, Karina detona

Fabio disse...

Ainda não ouvi, porém parece ser um discurso bem mimimi. Depois que ela escreveu "perdeu playboy" na época das eleições eu meio que perdi o interesse. Não sou de esquerda e nem de direita, mas Karina se portou como Lobão. No aguardo para as pedras que serão jogadas.

Rafael M. disse...

Ansioso para ouvir esse novo trabalho sensível da Karina... Gostei de "Eu Sou Um Monstro" e creio que o restante do disco estará interessante... Que venha logo!!!