Mauro Ferreira no G1

Aviso aos navegantes: desde 6 de julho de 2016, o jornalista Mauro Ferreira atualiza diariamente uma coluna sobre o mercado fonográfico brasileiro no portal G1. Clique aqui para acessar a coluna. O endereço é http://g1.globo.com/musica/blog/mauro-ferreira/


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quarta-feira, 25 de novembro de 2015

CD com trilha de 'Chico - Artista brasileiro' é produto que brilha além do filme

Resenha de CD
Título: Chico - Artista brasileiro
Artista: vários
Gravadora: Biscoito Fino
Cotação: * * * * 1/2

Com estreia programada nos cinemas para amanhã, 26 de novembro de 2015, o documentário Chico - Artista brasileiro entra em circuito nacional com sua trilha sonora já disponível em álbum lançado pela gravadora Biscoito Fino nas plataformas digitais e em edição física em CD. Com trilha irretocável que toca muito bem fora da tela, o disco alinha dez fonogramas produzidos para o filme em que o cineasta Miguel Faria Jr. traça perfil documental de Chico Buarque a partir de entrevista-guia concedida pelo cantor e compositor carioca. Os dez números musicais foram gravados em estúdio sob a direção musical do violonista Luiz Cláudio Ramos com banda-base formada pelo pianista João Rebouças, o baixista Jorge Helder e o baterista Jurim Moreira. Sopros e percussões foram adicionados de acordo com a necessidade de cada arranjo. A surpresa do disco reside mais na escalação do time de intérpretes do que nos registros reverentes, feitos dentro do universo musical do compositor, sem inventar moda. Bom cantor mineiro que conquistou a admiração de Chico com suas intervenções no circuito de shows da Lapa, bairro boêmio do Centro da cidade do Rio de Janeiro (RJ), Moyseis Marques dá conta da tarefa de levar o samba Mambembe (Chico Buarque, 1972) para um salão de gafieira. Nome mais surpreendente da escalação, o cantor paulista Péricles - projetado como vocalista do grupo de pagode Exaltasamba - se mostra um intérprete de primeira ao defender o samba Estação derradeira (Chico Buarque, 1977). Já Mônica Salmaso dá o habitual show de técnica ao seguir a fluente correnteza melódica de Mar e lua (Chico Buarque, 1980) em registro de emoção corretamente dosada que jamais tira de Simone o mérito de ter feito há 23 anos a melhor gravação da canção no álbum Sou eu (Sony Music, 1992), registro do homônimo show dirigido por Ney Matogrosso. A propósito, Ney figura na trilha e também exibe o costumeiro rigor estilístico ao encarar As vitrines (Chico Buarque, 1981). Mais leves, Adriana Calcanhotto e Mart'nália se afinam como o casal às voltas com as questões conjugais do samba Biscate (Chico Buarque, 1993).Já Laila Garin dá voz a Uma canção desnaturada (Chico Buarque, 1977) sem carregar no drama. Cantora portuguesa que já gravou com Chico Buarque, Carminho marca presença em dose dupla na trilha sonora de Chico - Artista brasileiro. Faz Sabiá (Antonio Carlos Jobim e Chico Buarque, 1968) voar alto em gravação que dispensa o instrumental típico do fado, além de fazer dueto com Milton Nascimento em Sobre todas as coisas (Edu Lobo e Chico Buarque, 1993). Mesmo sem a potência e o viço de tempos idos, a voz de Milton tem lampejos divinos na gravação. E o artista brasileiro retratado com humor por Miguel Faria Jr. no documentário brilha - ao regravar Sinhá (João Bosco e Chico Buarque, 2011) e Paratodos (Chico Buarque, 1993) em registros que roçam o êxito das abordagens originais das composições - por ter evoluído como cantor e por ter obviamente pleno entendimento da obra exposta na trilha sonora do filme através de 10 músicas lançadas entre 1968 e 2011. Acima do brilho individual dos intérpretes, paira a genialidade do compositor, artista brasileiro que nunca saiu do tom quando exerce a arte de fazer música. O filme pode até sair de cartaz e da memória. Mas as dez músicas do CD ficarão.

sábado, 10 de outubro de 2015

Disco com trilha de filme sobre Chico tem fonogramas de Moyseis e Péricles

Cantor paulista projetado como vocalista do grupo de pagode Exaltasamba, posto que ocupou de 1986 a 2012 antes de sair em carreira solo, Péricles canta (muito bem) o samba Estação derradeira (Chico Buarque, 1987) em gravação feita para Chico - Artista brasileiro, filme em que o cineasta Miguel Faria Jr. foca a vida e a obra de Chico Buarque. Os registros inéditos de músicas do cantor e compositor carioca serão lançados em CD que a gravadora Biscoito Fino põe nas lojas em novembro de 2015, mês em que o filme entra em circuito nacional. A trilha sonora inclui fonogramas inéditos de Adriana Calcanhotto (dueto com Mart'nália no samba Biscate, lançado por Chico Buarque em 1993), Carminho (Sabiá, Antonio Carlos Jobim e Chico Buarque, 1968), Laila Garin (Uma canção desnaturada, Chico Buarque 1979), Mônica Salmaso (Mar e lua, Chico Buarque, 1980), Moyseis Marques (Mambembe, Chico Buarque, 1972) e Ney Matogrosso (As Vitrines, Chico Buarque 1981). O próprio Chico Buarque participa da trilha sonora com registros inéditos de Sinhá - a parceria com João Bosco, gravada por Chico no seu último álbum de estúdio, lançado em 2011 - e de Paratodos, a música-título do álbum lançado pelo artista em 1993. Milton Nascimento também figura no disco, fazendo dueto com a citada Carminho em Sobre todas as coisas (Edu Lobo e Chico Buarque, 1983).

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Faria Jr. foca o artista Chico com humor no tempo imaginativo das memórias

Resenha de filme
Título: Chico - Artista brasileiro
Direção: Miguel Faria Jr.
Roteiro: Miguel Faria Jr. e Diana Vasconcellos
Direção musical: Luiz Claudio Ramos
Cotação: * * * *
Filme com estreia no circuito de cinemas programada para 26 de novembro de 2015

Dez anos após surpreender o circuito cinematográfico brasileiro com o expressivo sucesso popular de Vinicius (2005), filme fluente que expôs a face plural da vida e da obra do compositor e poeta carioca Vinicius de Moraes (1913 - 1980), o cineasta carioca Miguel Faria Jr. apresenta Chico - Artista brasileiro, filme que vai abrir a 17ª edição do Festival do Rio em sessão para convidados programada para 1º de outubro de 2015. No documentário, Faria Jr. - amigo do artista (en)focado com a lente da generosidade - reconta o conto oficial de Chico Buarque de Hollanda, cantor, compositor, músico e escritor brasileiro, nascido no Rio de Janeiro (RJ) há 71 anos. O expressivo documentário entrelaça - com a mesma fluência de Vinicius - entrevistas (a de Chico conduz o roteiro em ordem cronológica), imagens raras de arquivo, cenas inéditas de bastidores e números musicais gravados para o filme sob a direção musical do violonista Luiz Cláudio Ramos. Só que, embora oficial, o conto do cantor recusa os ares de senhor, para citar verso de Sinhá (João Bosco e Chico Buarque, 2011), música que abre o filme em registro inédito do próprio Chico. Em essência, o filme versa sobre o tempo e o artista. Chico documenta a relação do artista com o tempo da vida e da criação ("Tudo é memória e a memória se confunde com a imaginação", ressalta Chico numa de suas lapidares sentenças proferidas ao longo da entrevista) e os efeitos do tempo na criação do artista. Dentro dos limites da intimidade consentida, Faria Jr. refaz o trilho da vida e da obra do artista ao longo desse tempo em rota que passa por imagens raras da infância de Chico, por sutis declarações sobre a relação complexa com o pai paulista, o historiador Sérgio Buarque de Holanda (1902 - 1982), pai do já falecido irmão alemão de Chico que, ao fim, o filme mostra em ação, como ator e cantor, em take antigo. A rigor, o filme poderia ser chato, porque molda o retrato oficial do artista, pintado somente com as tintas da exaltação. Mas Chico transcorre leve e envolvente porque - como ressaltam amigos entrevistados, como o compositor e parceiro Edu Lobo - Chico tem humor. Esse (bom) humor pontua toda a entrevista que conduz o filme. "Nunca fui tímido. Meus pais me chamavam de show boy", lembra Chico, demolindo mito sobre seu perfil público. Mas o artista confirma o desconforto com o palco, originário de apresentações forçadas em palcos italianos durante o autoexílio em Roma. Mas a maneira como Chico fala de sua vida é bem-humorada. O riso salta do tom da voz, da entonação de uma palavra, ajudando a aliviar o peso oficial desta cinebiografia autorizada. A parte mais séria fica com os exclusivos números musicais. Ney Matogrosso revê As vitrines (Chico Buarque, 1982) sem jamais impactar. Além de interpretar Sobre todas as coisas (Edu Lobo e Chico Buarque, 1983) com o contracanto de Milton Nascimento, Carminho faz Sabiá (Antonio Carlos Jobim e Chico Buarque, 1968) voar para os ares de Lisboa. Já a atriz e cantora Laila Garin encara Uma canção desnaturada (Chico Buarque, 1977) sem carregar no drama embutido no tema. Destaque dentre os números, o dueto de Adriana Calcanhotto com Mart'nália no samba Biscate (Chico Buarque, 1993) - dando tom lésbico ao lelê conjugal da letra - tem a espirituosidade que pauta o filme. O riso brota farto na cena de arquivo em que o compositor maranhense João do Vale (1934 - 1996) admite que, no papel de juiz de jogo de futebol armado no campo de Chico, validou gol irregular do dono da bola porque ele era o "patrão". Chico discorre com humor sobre sua vida, mas também fala sério. É corajoso ao ressaltar a gênese elitista da Bossa Nova - "E essa elite tinha o poder de se fazer ouvir no Brasil inteiro" - e o caráter democrático da música populista que domina as paradas musicais. "Essa música que toca hoje é a cara da gente", observa, sem citar gêneros e nomes, em declaração polêmica que pode decepcionar os reguladores do gosto musical alheio. Com a liberdade de quem frequenta o cotidiano do artista, Faria Jr. documenta o cantor-avô com três netos (Chico Freitas, Clara Buarque e Lia Buarque), tocando violão e cantando Dueto (Chico Buarque, 1980) com Clara. À medida em que o filme caminha para o final, o escritor ocupa progressivamente o espaço que, antes, até na vida profissional, era somente do cantor e do compositor. E aí Chico volta mais uma vez ao assunto do tempo para enfatizar que o tempo da criação é cada vez mais longo enquanto a vida que lhe resta fica presumivelmente mais curta. E assim, nessa toada soprada pelo próprio artista, Miguel Faria Jr. fez filme preciso, para todos, percorrendo no tempo imaginativo das memórias as estradas por onde vai, há mais de 50 anos, o bem-humorado artista brasileiro, soberano na arte da composição.