Mauro Ferreira no G1

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terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Sem abrir alas, João Senise preserva o requinte da obra de Ivan Lins em CD

Resenha de CD
Título: Abre alas - Canções de Ivan Lins
Artista: João Senise
Gravadora: Fina Flor
Cotação: * * * 

Primeiro tributo aos 70 anos de Ivan Lins, a serem festejados em 16 de junho de 2015, o segundo álbum do cantor carioca João Senise, Abre alas - Canções de Ivan Lins, preserva o requinte harmônico da obra do compositor carioca neste disco de produção luxuosa orquestrada pelo próprio Senise sob a direção musical do pianista Gilson Peranzzetta, criador dos arranjos das 14 músicas selecionadas dentre as centenas de títulos de obra grandiosa em quantidade e qualidade. Parceiro de Ivan, Peranzzetta é um dos músicos que mais conhecem as entranhas desse cancioneiro por ter atuado como arranjador dos discos do compositor em período - de 1974 a 1985 - no qual Ivan apresentou a maioria dos standards de sua obra de alcance já planetário. Ao repetir a parceria com Peranzzetta, diretor musical e arranjador de seu primeiro álbum, Just in time (Independente, 2013), Senise acaba oferecendo um olhar já dèjá vu sobre a obra de Ivan, fato perceptível já na arquitetura de Abre alas (Ivan Lins e Vitor Martins, 1974), música que literalmente abre alas para este álbum que expõe o canto correto e afinado de Senise. Canto de atmosfera íntima que favorece o clima jazzy que ambienta certas passagens de Virá (Ivan Lins e Vitor Martins, 1979) - boa surpresa de seleção de repertório que equilibra bem sucessos e músicas pouco ouvidas - e Dois córregos (1999), originalmente um tema instrumental criado pelo compositor para a trilha sonora do filme homônimo, mas que Senise reaviva com a letra feita posteriormente por Caetano Veloso e gravada por Ivan em 2000. Entre tantos convidados, a presença improvável de Leo Jaime em Dinorah, Dinorah (Ivan Lins e Vitor Martins, 1979) desvia o CD da rota mais previsível. Já a entrada da voz grave e profunda de Dori Caymmi em Doce presença (Ivan Lins e Vitor Martins, 1983) vai soar menos inusitada para quem lembra que Nana Caymmi gravou essa balada no mesmo ano em que Ivan a lançou em disco. Em contrapartida, a escolha de Leila Pinheiro para dividir Madalena (Ivan Lins e Ronaldo Monteiro de Souza, 1970) com Senise chega a ser óbvia, já que a cantora paraense de técnica admirável chegou a ser associada a Elis Regina (1945 - 1982) - intérprete original deste samba cheio de soul - no início de sua carreira. Cantora da mesma geração de Leila, a polivalente Zélia Duncan faz harmonioso dueto romântico com Senise em Lembra de mim (Ivan Lins e Vitor Martins, 1995), balada propagada na trilha sonora da novela História de amor, exibida pela TV Globo em 1995. Sozinho, Senise manda Bilhete (Ivan Lins e Vitor Martins, 1980) sem drama - em registro em que o sofrimento parece estar mais embutido no toque da gaita de Gabriel Grossi do que na voz do cantor - e segue bem a toada sertaneja de Olhos pra te ver (Ivan Lins e Gilson Peranzzetta), música mais recente da seleção de Abre alas que tem seu acento ruralista sublinhado por acordeom tocado por Gilson Peranzzetta. Cantor de boa divisão, Senise não escapa da armadilha de soar como um Ivan genérico em Daquilo que eu sei (Ivan Lins e Vitor Martins, 1981) - apesar da pulsação incomum dos metais no fim da faixa - e em Vitoriosa (Ivan Lins e Vitor Martins, 1985). De todo modo, é nítida a afinidade do cantor com o compositor que homenageia e com o qual já havia gravado em seu primeiro disco na música Love dance (Ivan Lins, Gilson Peranzzetta e Paul Williams, 1987). Além de ter avalizado de imediato o projeto, tendo sugerido apenas a inclusão da música Art of survival (Ivan Lins, Vitor Martins e Brock Walsh, 1988), Ivan participa duplamente do disco, fazendo os vocalises do jazzístico tema Setembro (Ivan Lins e Gilson Peranzzetta,1985) e cantando com Senise sua salsa brasileira Ai, ai, ai (Ivan Lins e Vitor Martins, 1991) em gravação turbinada com os sopros e a percussão da Orquestra do Cerrado. Enfim, mesmo sem abrir alas ao abordar o cancioneiro de Ivan Lins, João Senise reitera em seu segundo disco a intimidade com o universo da MPB de tom mais jazzístico. Mas lhe faltou a coragem de cantar Ivan em outro tom.

4 comentários:

Mauro Ferreira disse...

♪ Primeiro tributo aos 70 anos de Ivan Lins, a serem festejados em 16 de junho de 2015, o segundo álbum do cantor carioca João Senise, Abre alas - Canções de Ivan Lins, preserva o requinte harmônico da obra do compositor carioca neste disco de produção luxuosa orquestrada pelo próprio Senise sob a direção musical do pianista Gilson Peranzzetta, criador dos arranjos das 14 músicas selecionadas dentre as centenas de títulos de obra grandiosa em quantidade e qualidade. Parceiro de Ivan, Peranzzetta é um dos músicos que mais conhecem as entranhas desse cancioneiro por ter atuado como arranjador dos discos do compositor em período - de 1974 a 1985 - no qual Ivan apresentou a maioria dos standards de sua obra de alcance já planetário. Ao repetir a parceria com Peranzzetta, diretor musical e arranjador de seu primeiro álbum, Just in time (Independente, 2013), Senise acaba oferecendo um olhar já dèjá vu sobre a obra de Ivan, fato perceptível já na arquitetura de Abre alas (Ivan Lins e Vitor Martins, 1974), música que literalmente abre alas para este álbum que expõe o canto correto e afinado de Senise. Canto de atmosfera íntima que favorece o clima jazzy que ambienta certas passagens de Virá (Ivan Lins e Vitor Martins, 1979) - boa surpresa de seleção de repertório que equilibra bem sucessos e músicas pouco ouvidas - e Dois córregos (1999), originalmente um tema instrumental criado pelo compositor para a trilha sonora do filme homônimo, mas que Senise reaviva com a letra feita posteriormente por Caetano Veloso e gravada por Ivan em 2000. Entre tantos convidados, a presença improvável de Leo Jaime em Dinorah, Dinorah (Ivan Lins e Vitor Martins, 1979) desvia o CD da rota mais previsível. Já a entrada da voz grave e profunda de Dori Caymmi em Doce presença (Ivan Lins e Vitor Martins, 1983) vai soar menos inusitada para quem lembra que Nana Caymmi gravou essa balada no mesmo ano em que Ivan a lançou em disco. Em contrapartida, a escolha de Leila Pinheiro para dividir Madalena (Ivan Lins e Ronaldo Monteiro de Souza, 1970) com Senise chega a ser óbvia, já que a cantora paraense de técnica admirável chegou a ser associada a Elis Regina (1945 - 1982) - intérprete original deste samba cheio de soul - no início de sua carreira. Cantora da mesma geração de Leila, a polivalente Zélia Duncan faz harmonioso dueto romântico com Senise em Lembra de mim (Ivan Lins e Vitor Martins, 1995), balada propagada na trilha sonora da novela História de amor, exibida pela TV Globo em 1995. Sozinho, Senise manda Bilhete (Ivan Lins e Vitor Martins, 1980) sem drama - em registro em que o sofrimento parece estar mais embutido no toque da gaita de Gabriel Grossi do que na voz do cantor - e segue bem a toada sertaneja de Olhos pra te ver (Ivan Lins e Gilson Peranzzetta), música mais recente da seleção de Abre alas que tem seu acento ruralista sublinhado por acordeom tocado por Gilson Peranzzetta. Cantor de boa divisão, Senise não escapa da armadilha de soar como um Ivan genérico em Daquilo que eu sei (Ivan Lins e Vitor Martins, 1981) - apesar da pulsação incomum dos metais no fim da faixa - e em Vitoriosa (Ivan Lins e Vitor Martins, 1985). De todo modo, é nítida a afinidade do cantor com o compositor que homenageia e com o qual já havia gravado em seu primeiro disco na música Love dance (Ivan Lins, Gilson Peranzzetta e Paul Williams, 1987). Além de ter avalizado de imediato o projeto, tendo sugerido apenas a inclusão da música Art of survival (Ivan Lins, Vitor Martins e Brock Walsh, 1988), Ivan participa duplamente do disco, fazendo os vocalises do jazzístico tema Setembro (Ivan Lins e Gilson Peranzzetta,1985) e cantando com Senise sua salsa brasileira Ai, ai, ai (Ivan Lins e Vitor Martins, 1991) em gravação turbinada com os sopros e a percussão da Orquestra do Cerrado. Enfim, mesmo sem abrir alas ao abordar o cancioneiro de Ivan Lins, João Senise reitera em seu segundo disco a intimidade com o universo da MPB de tom mais jazzístico.

Rafael M. disse...

Adoro a Zélia Duncan, mas devo discordar da crítica do Mauro. Achei fraquíssima a versão que ela fez para "Lembra de Mim", uma canção tão impactante e das mais belas do repertório do Ivan Lins.

Luca disse...

Zélia é protegida do Mauro, como Roberta Sá Alice Caymmi e outras

Marcelo disse...

Vamos combinar que a capa poderia ser outra né???!!