Mauro Ferreira no G1

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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Mautner conceitua os quatro discos embalados na caixa 'Zona fantasma'

Lançada no mercado fonográfico brasileiro neste mês de fevereiro de 2015, em edição do selo Discobertas, a caixa Jorge Mautner Anos 80 - Zona fantasma embala, em quatro CDs, reedições dos três álbuns lançados pelo cantor e compositor carioca ao longo dos anos 1980. Bomba de estrelas (Warner Music, 1981), Antimaldito (Nova República / Polygram, 1985) e Árvore da vida (Geléia Geral / Warner Music, 1988) - disco assinado por Mautner com o parceiro Nelson Jacobina (1953 - 2012) - são os álbuns encaixotados.  O quarto disco é um título até então inédito na discografia deste artista multimídia. O poeta e o esfomeado é o inédito registro ao vivo de show-manifesto feito por Mautner com o cantor e compositor baiano Gilberto Gil em março de 1987, em São Paulo (SP), para propagar o movimento político Figa Brasil. Para promover a edição da caixa, produzida pelo pesquisador musical Marcelo Fróes com textos em que o jornalista mineiro Renato Vieira contextualiza cada álbum na seleta discografia do artista, o próprio Mautner escreveu um texto em que discorre sobre os discos ora reeditados. Com a palavra, Jorge Mautner:

"Estes quatro discos têm 49 músicas. Não daria para comentar todas, por isso vou pinçar algumas, mas isso não quer dizer que estas sejam mais importantes do que as outras não pinçadas. O primeiro disco é Bomba de estrelas. Neste disco, eu canto com muitos amigos e muitas amigas artistas. A força secreta daquela alegria, parceria com Gil, é uma conversa com as plantas. Elas também sentem e pensam. Namoro astral, com Moraes Moreira, é um comentário kaótico sobre a Astrologia. Cidadão-cidadã é um manifesto do direitos humanos incluindo com ênfase os portadores de necessidades especiais, a diversidade sexual, a busca da felicidade na democracia. Namoro de bicicleta, com Pepeu Gomes, é um devaneio da infância permanente na cabeça dos artistas. Samba japonês é uma saudação da Amálgama em direção ao povo nipônico que, quando chegou na década de 70 a São Paulo, no bairro da Liberdade, a Umbanda de São Paulo imediatamente criou um orixá samurai. Encantador de serpentes, com Robertinho do Recife, participou do festival da Globo e é um frevo avançado com influência da Índia e, segundo Gilberto Freyre em seu livro China tropical, os séculos XVII e XVI no Brasil foram séculos hindus. Vida cotidiana, com Caetano Veloso, é uma música onde o humor resplandece no vários instantes de um dia. Negros blues, com Zé Ramalho, é a afirmação sempre renovada da importância da negritude, da cultura negra, homenageando especificamente Gilberto Gil e estes negros blues. Bomba de estrelas, parceria com Zé Ramalho e cantada por Amelinha, dá o nome ao disco e portanto se irradia em todas as outras músicas. Duas faixas-bônus: Filho predileto de Xangô, novamente a afirmação da plenitude da presença da negritude. Depois, O boi, minha em parceria com Nelson Jacobina que comigo trabalhou durante 40 anos e que está em todos meus discos e meu coração. O boi, é claro, vai para o matadouro: esta música também é extremamente histórica e política, abrangente.

O segundo disco, Antimaldito. A direção deste disco é de Caetano Veloso, e a sua produção foi feita por Roberto Santana e o filho de Leonel Brizola, já falecido. Registra novamente a intensidade da presença da política e da história em direção à democracia do Kaos com K e da Amálgama que é o meu tema fundamental, literário, em entrevistas, na minha vida, etc. Cinco bombas atômicas, composta no início dos anos 1970, minha com Nelson Jacobina, retrata novamente a bomba atômica mas agora como força maior do ser humano e do amor. Relâmpago dourado, de minha autoria, homenageia a importância das histórias em quadrinho e humaniza também os chamados monstros. Zona fantasma, minha com Nelson Jacobina, é uma queixa amarga e simbólica-histórica de quem está preso na Zona Fantasma, perto da Criptonita. Rock comendo cereja, minha com Nelson Jacobina, é uma celebração da vida. Na realidade, é um spiritual. Fado do gatinho, de minha autoria, retrata meu amor absoluto pelos felinos numa letra cheia de humor e provocações. Índios Tupi Guarani, de minha autoria, é uma música fundamental a meu ver por conta das culturas indígenas do chamado Brasil, e onde afirmo: isso aqui já era um lugar sagrado muito antes do Cristo do Corcovado. Tataraneto do inseto, minha com Nelson Jacobina, é uma música de protesto revolucionário democrático com metáforas de diplomacia chinesa mas que transborda no grito "Canalhas! Arrependei-vos!" e também ao retratar cientificamente em termos poéticos a capacidade de adaptação dos insetos em reação aos inseticidas. Quando a canto nos shows, tenho a oportunidade de afirmar expressões fundamentais: "Deixa como está para ver como fica" e de Benedito Valadares: "na prática, a teoria é outra." Corações, corações, corações, minha com Nelson Jacobina, são três vezes corações. Iluminação foi composta em 1958 e é uma das facetas do Kaos com K em que a iluminação vem como afirma Soren Kierkegaard: "o verdadeiro cristão vive no escândalo e não tem medo do ridículo". A bandeira do meu partido, de 1958, foi aqui pela primeira vez gravada em disco. É bom lembrar que: "a bandeira do meu partido vem entrelaçada com outra bandeira, verde e amarela, a bandeira brasileira." Faixa-bônus: Flesh by flesh, Carne por carne, composta em 1967 durante meus sete anos de exílio nos USA. E, novamente, o Vampiro.

Árvore da vida. A primeira música, Yeshua Ben Joseph, é sobre Jesus de Nazaré e é de uma atualidade eterna. Jesus de Nazaré inventou e criou o Romantismo, os Direitos Humanos inclusive a desobediência civil pacífica e pacificante, através do Livre Arbítrio criou todo o liberalismo e no Sermão da Montanha criou o Socialismo. Quando digo que sou da religião dos humilhados e ofendidos é novamente a marca profunda de Dostoiévski nos meus neurônios. A segunda música, Zum-zum, é minha com Nelson Jacobina, um devaneio
bem-humorado com situação perto da monotonia da loucura. Hiroshima Brasil, de minha autoria e composta em 1958, fala dos terrores da Bomba Atômica e suas repercussões história afora até agora e muito depois. Menino carnavalesco, de minha autoria em 1958, é uma música de amor com leves incursões de ironia amarga. Perspectiva, minha autoria e composta na época da Perestroika de Gorbachev: novamente Maiakóvski e toda a Revolução Soviética que esmagou Adolfo Hitler, e nela eu afirmo brincando, traduzindo a palavra perspectiva que em russo quer dizer Avenida. Maracatu atômico: minha e de Nelson Jacobina, é um hino das simultaneidades e da exuberância do Brasil, lembra da fundamental importância da nação que foi construída pelos heróis africanos que se tornaram escravos. A força atômica aqui é o coração do povo brasileiro e da natureza deste país-continente. Vampiro, já composta em 1958, foi gravada pela primeira vez em 1979 por Caetano Veloso no disco Cinema transcendental. Lágrimas negras, que está com o nome de Lágrimas secas, minha e de Nelson Jacobina, foi gravada pela primeira vez por Gal Costa e alguns anos atrás pelo Otto. Novamente, a força da negritude e sua capacidade de arrancar do terror o seu oposto que é a felicidade do impossível. Samba jambo, novamente minha com Nelson Jacobina, novamente o fascínio do nosso entrelaçamento com todos os batuques das Américas. O teu olhar, de Ismael Silva. Minha admiração por Ismael é infinita. Tanto é que este O teu Olhar também está gravada em outro disco. Lembrar que Ismael Silva fundou a primeira escola de samba no Rio e que se chamava Deixa Falar, depois transformada em Estácio de Sá. Ismael Silva = Wolfgang Amadeus Mozart. Árvore da vida, minha com Nelson Jacobina, inspirada em um verso de Goethe que diz "Cinza é toda teoria, mas verde, meu amigo, é a cor da árvore da vida!".

O poeta e o esfomeado, o quarto disco, foi gravado de um show importantíssimo que precedeu as atividades políticas de Gilberto Gil como vereador em Salvador, do qual fui chefe de gabinete durante um ano e meio e também sua magnífica gestão como Ministro da Cultura. Positivismo, de Noel Rosa e Orestes Barbosa, foi escolhida porque é um show político e nem Borges de Medeiros nem Júlio de Castilho podiam estar de fora, e claro a presença de Getúlio Dornelles Vargas. Marcha turca: foi Gil o diretor musical e executivo deste show e me fez tocar minha versão de Marcha turca dada minha eterna afirmação de que arte erudita e popular são uma coisa só. Ou como dizia Villa Lobos: "estude harmonia e contraponto a fundo, depois esqueça tudo." E também, por que não?, Marcha turca se refere à Turquia que é produto da grande e luminosa cultura e civilização do Califado de Bagdá. Novamente, O teu Olhar de Ismael Silva. Casinha feliz, de Gilberto Gil: o nome já diz tudo. Gil, mesmo quando preso, compôs três músicas na cela. Você me chamou de nêgo, Gasolina: é uma música muito ousada por atacar o racismo em tons escandalosos de comparações. A Oração pela libertação da África do Sul, de Gilberto Gil, foi uma das primeiras manifestações contra o Apartheid quando Nelson Mandela estava preso. Foi um pedido do professor Mário Schenberg para que Gil a fizesse. Novamente, o Vampiro, pois o Vampiro sempre está aí. O rouxinol, minha com GG, é uma das minhas canções mais lindas e trata novamente sobre a ternura da sobrevivência de todos nós animais incluindo o rouxinol os gatos os cães e é uma canção sinobrasileira. Hesíodo, autor da Teogonia dos deuses, também escreveu um trabalho chamado O trabalho e os dias, no qual ele conta: "No final do dia, todos os animais se reúnem bem alimentados e o rouxinol então quer saudar a beleza desse dia cantando. Ele canta e depois o gavião diz: coisa mais linda do mundo, mas mesmo sem fome vou matar o rouxinol." O filho predileto de Xangô, em nova versão, e Mama de Gilberto Gil, imortal e universal, Maracatu atômico e finalmente o Hino da Figa. Composto por Gilberto Gil, nestes mais de 40 shows que tinham já listas de inscrições para o Movimento da Figa Brasil, show em que é comemorado o poeta Jorge de Lima e todas as noções e intenções da Amálgama de José Bonifácio de Andrada e Silva, da eterna segunda abolição de Joaquim Nabuco, proclamando nossa união e igualdade dentro das diferenças como símbolo da Figa como metáfora de tudo isso. Destaque também para o genial percussionista Reppolho.

Todos estes quatro discos se enfeixam, fazem parte das minhas ideias, dos meus livros, entrevistas, minha vida, com duas motivações simultâneas: nunca mais novamente o Holocausto e que a ressureição da humanidade é o Brasil. Recomendo duas leituras: China tropical e o último livro de Domenico de Masi, O futuro chegou.

Aquele abraço!
Jorge Mautner
Fevereiro, 2015
Em tempo: gostaria de lembrar e comemorar o trabalho impecável de Marcelo Fróes e Renato Vieira com esta caixa. Para mais e variadas informações e ligações com minha obra e outras, consultem meu portal Panfletos da Nova Era."

4 comentários:

Mauro Ferreira disse...

♪ Lançada no mercado fonográfico brasileiro neste mês de fevereiro de 2015, em edição do selo Discobertas, a caixa Jorge Mautner Anos 80 - Zona fantasma embala, em quatro CDs, reedições dos três álbuns lançados pelo cantor e compositor carioca ao longo dos anos 1980. Bomba de estrelas (Warner Music, 1981), Antimaldito (Nova República / Polygram, 1985) e Árvore da vida (Geléia Geral / Warner Music, 1988) - disco assinado por Mautner com o parceiro Nelson Jacobina (1953 - 2012) - são os álbuns encaixotados. O quarto disco é um título até então inédito na discografia deste artista multimídia. O poeta e o esfomeado é o inédito registro ao vivo de show-manifesto feito por Mautner com o cantor e compositor baiano Gilberto Gil em março de 1987, em São Paulo (SP), para propagar o movimento político Figa Brasil. Para promover a edição da caixa, produzida pelo pesquisador musical Marcelo Fróes com textos em que o jornalista mineiro Renato Vieira contextualiza cada álbum na discografia do artista, o próprio Mautner escreveu um texto em que discorre sobre os discos ora reeditados. Com a palavra, Jorge Mautner:

Rafael M. disse...

Essa caixa de Jorge Mautner é incrível. Os fãs dele não podem a oportunidade de tê-la.

CARLOS EDUARDO FEIJO BITTENCOURT disse...

Que pena que este CD "O poeta e o esfomeado" não será lançado separado. Eu vi o show no Rio de Janeiro e gostei muito

ADEMAR AMANCIO disse...

A única coisa que eu posso dizer, é que gostei do que li,e adoro Maracatu Atômico.