Mauro Ferreira no G1

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domingo, 22 de fevereiro de 2015

Livro teoriza sobre 'descaso' com disco em que Tom Zé estudou o samba

Resenha de livro
Título: O livro do disco Estudando o samba - Tom Zé
Autor: Bernardo Oliveira
Editora: Cobogó
Cotação: * * * *

Embora seja considerado atualmente um dos clássicos da discografia brasileira dos anos 1970 e uma das pedras fundamentais da obra de Tom Zé, o álbum Estudando o samba passou quase despercebido quando foi lançado em 1976 pela gravadora nacional Continental. A despeito de algumas críticas (nem sempre positivas) publicadas em jornais e revistas na época, o disco acabou contribuindo para aumentar o silêncio em torno da música do cantor e compositor baiano, tropicalista que logo se descolou da geleia geral e seguiu o bloco do eu sozinho. No volume dedicado a Estudando o samba n'O livro do disco, coleção da editora Cobogó em que álbuns históricos são dissecados por ensaístas e profissionais do meio acadêmico, o crítico, professor de literatura e músico Bernardo Oliveira faz apropriada análise do álbum, defendendo a tese de que a maldição sobre Tom Zé começou a recair quando ele questionou com ironia a importância e a postura séria dos compositores de sua geração nos versos de Complexo de Épico (Tom Zé, 1973), música lançada em seu álbum anterior, Todos os olhos (Continental, 1973), abrindo e fechando o disco em que o artista apresentou o samba Augusta, Angélica, Consolação (Tom Zé, 1973). Com linguagem clara que evita o academicismo, o autor parte desse disco de 1973 para analisar o estudo de Tom Zé sobre o samba e explicar o silêncio sobre sua obra até a redescoberta dos anos 1990. Estudo cujo método - defende Bernardo Oliveira - já vinha sendo experimentado pelo compositor desde o álbum de 1973 em que Tom Zé alternou faixas mais palatáveis - como o mencionado samba que, com o tempo, virou hit entre o público do artista -  e temas de arquitetura inusual, como Cademar, parceria concretista com o poeta Augusto de Campos. Ao detalhar a gênese e o repertório de Estudando o samba, o autor identifica os múltiplos elementos usados por Tom Zé para desconstruir e reconstruir um dos gêneros mais populares da música brasileira neste disco que buscou novas formas para o ritmo além dos tons já pré-estabelecidos. O livro mostra como o estudo de Tom Zé se valeu inclusive de articulações mais rítmicas do que semânticas - como onomatopeias e interjeições - para testar novas linguagens para a poética do gênero. Além de um detalhado faixa-a-faixa, o livro reproduz ao fim trechos de entrevistas concedidas por Tom Zé ao autor do livro, entre março e julho de 2013. Esses depoimentos do artista, ainda que breves, fundamentam a tese defendida por Bernardo Oliveira neste livro interessante para estudiosos da discografia brasileira e em particular do samba.

4 comentários:

Mauro Ferreira disse...

♪ Embora seja considerado atualmente um dos clássicos da discografia brasileira dos anos 1970 e uma das pedras fundamentais da obra de Tom Zé, o álbum Estudando o samba passou quase despercebido quando foi lançado em 1976 pela gravadora nacional Continental. A despeito de algumas críticas (nem sempre positivas) publicadas em jornais e revistas na época, o disco acabou contribuindo para aumentar o silêncio em torno da música do cantor e compositor baiano, tropicalista que logo se descolou da geleia geral e seguiu o bloco do eu sozinho. No volume dedicado a Estudando o samba n'O livro do disco, coleção da editora Cobogó em que álbuns históricos são dissecados por ensaístas e profissionais do meio acadêmico, o crítico, professor de literatura e músico Bernardo Oliveira faz apropriada análise do álbum, defendendo a tese de que a maldição sobre Tom Zé começou a recair quando ele questionou com ironia a importância e a postura séria dos compositores de sua geração nos versos de Complexo de Épico (Tom Zé, 1973), música lançada em seu álbum anterior, Todos os olhos (Continental, 1973), abrindo e fechando o disco em que o artista apresentou o samba Augusta, Angélica, Consolação (Tom Zé, 1973). Com linguagem clara que evita o academicismo, o autor parte desse disco de 1973 para analisar o estudo de Tom Zé sobre o samba e explicar o silêncio sobre sua obra até a redescoberta dos anos 1990. Estudo cujo método - defende Bernardo Oliveira - já vinha sendo experimentado pelo compositor desde o álbum de 1973 em que Tom Zé alternou faixas mais palatáveis - como o mencionado samba que, com o tempo, virou hit entre o público do artista - e temas de arquitetura inusual, como Cademar, parceria concretista com o poeta Augusto de Campos. Ao detalhar a gênese e o repertório de Estudando o samba, o autor identifica os múltiplos elementos usados por Tom Zé para desconstruir e reconstruir um dos gêneros mais populares da música brasileira neste disco que buscou novas formas para o ritmo além dos tons já pré-estabelecidos. O livro mostra como o estudo de Tom Zé se valeu inclusive de articulações mais rítmicas do que semânticas - como onomatopeias e interjeições - para testar novas linguagens para a poética do gênero. Além de um detalhado faixa-a-faixa, o livro reproduz ao fim trechos de entrevistas concedidas por Tom Zé ao autor do livro, entre março e julho de 2013. Esses depoimentos do artista, ainda que breves, fundamentam a tese defendida por Bernardo Oliveira neste livro interessante para estudiosos da discografia brasileira e em particular do samba.

Luca disse...

não li o livro mas acho essa 'tese' fraca, Tom Zé não fez sucesso por que sua música é pras massas

ADEMAR AMANCIO disse...

Eu não sabia que o Tom Zé fazia música pras massas.A diversidade de opinião só enriquece a importância desse blog.

Mauro Silva disse...

Este disco é fantástico!!! É uma criação das mais "duvidosas" que já existiu,simplesmente pelo misterioso processo de criação deste disco. Chegando ao ponto do Tom Zé fazer uma música (Índice)...uma vinheta final com o nome de todas as faixas do disco dando sentido á uma síntese genial. Incrível!