Mauro Ferreira no G1

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quarta-feira, 11 de novembro de 2015

'Júpiter' sinaliza que Silva quer habitar o populoso planeta da canção popular

Resenha de CD
Título: Júpiter
Artista: Silva
Gravadora: Slap / Som Livre
Cotação: * * 

Em diversas músicas de seus dois álbuns anteriores, Claridão (Slap / Som Livre, 2012) e Vista por mar (Slap / Som Livre, 2014), o cantor, compositor e músico capixaba Lúcio Silva acenou para o universo pop. Só que uma aura cult e por vezes sombria envolvia o som de Silva, superestimando a obra autoral do artista, visto exageradamente por alguns como espécie de sucessor do artesão pop Guilherme Arantes - cantor, compositor e músico paulista que se tornou hitmaker na década de 1980 na onda tecnopop na qual Silva também vem surfando com beats eletrônicos ligeiramente mais modernos. Júpiter - o álbum que Silva vai lançar em 20 de novembro de 2015 - dissipa essa aura cult e sinaliza que o cantor quer habitar o já populoso planeta da canção popular romântica. Todo assinado pelo artista em parceria com seu irmão Lucas Silva, o repertório inédito de Júpiter gravita em torno desse universo romântico com letras mais simples. O dilema amoroso exposto nos versos de Se ela voltar, por exemplo, poderia estar na letra de qualquer uma das muitas canções simples e por isso eficazes da dupla de hitmakers Michael Sullivan & Paulo Massadas, donatários - como Guilherme Arantes - de boa parte das paradas populares dos anos 1980. O fato de a voz de Silva estar sempre à frente dos arranjos minimalistas - feitos no mesmo tom tecnopop dos discos anteriores, mas com eventuais referências ao R&B - e a notícia de que o cantor está paralelamente em cena com show em que canta o repertório pop de Marisa Monte corroboram a sensação de que Silva quer expandir seu público com a diluição de sua obra em Júpiter. A rigor, ele tem dois trunfos entre as 11 faixas do disco (cujo repertório inclui a vinheta instrumental IO) que produziu e que gravou em estúdio de Vitória (ES). E um deles não é o tom moderninho com que Silva pinta Marina (1947), o samba-canção do compositor baiano Dorival Caymmi (1914-2008). As duas músicas que roçam a perfeição pop em Júpiter são Eu sempre quis - parceria do compositor com o irmão Lucas Silva acertadamente escolhida para ser o primeiro single do álbum, já em rotação na web com direito à clipe que intercala imagens do planeta Júpiter com takes do cantor em estúdio - e Feliz e ponto, canção que versa sobre amor realizado, gravada com o próprio Silva fazendo uma segunda voz de timbre feminino. Descontadas estas duas músicas, Júpiter gravita em torno da trivialidade da canção pop romântica. Entre a súplica amorosa de Deixa eu falar (faixa que flerta de longe com o universo do miami bass e do funk melody) e a receita de bolo dada em Sufoco ("Se você sabe o que é amar, nunca irá aprisionar alguém"), Silva rima jeito com conceito e defeito em Sou desse jeito. "Vou somar você e eu / E as palavras de amor / Faço um verso e um refrão / Que eu já sei de cor", avisa Silva em Nas horas. Sim, de certa forma, Silva dá sua voz correta a versos que o ouvinte tem a impressão de saber de cor, por mais que a letra de Notícias ostente a palavra merda em seus versos. Última música do disco, Notícias expõe a intenção de fuga da personagem da letra, reverberando a insatisfação e a sensação de inadequação espacial já explicitadas na letra da faixa que abre o álbum, a canção-título Júpiter. A mudança para outro planeta é a solução proposta para escapar do tédio cotidiano ("Se por lá não houver esse povo que só quer controlar o que a gente quer", ressalva Silva na letra). Álbum mais fraco do artista, Júpiter deixa a impressão de que Silva quer migrar para o mesmo planeta pop romântico habitado por seu colega de selo, Tiago Iorc, dono de obra mais simples e, por isso mesmo, mais popular do que a do terráqueo Silva.

6 comentários:

Mauro Ferreira disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Breno Alves disse...

Silva, apesar de bem intencionado, me parece cada vez mais inócuo. Muita estampa e bem pouco conteúdo. Pouco mesmo. Essa história de querer soar mais popular só confirma a sua irrelevância. Uma pena...

Victor Moraes, disse...

Acho que a Slap/Som Livre está investindo mais no Iorc. Nota-se uma divulgação um tanto maior.
O pop romântico de Silva no single liberado me soou morno. Vou esperar o disco. Vai que...

Daniel Lima disse...

Essa insistência do Mauro em comparar o Silva ao Guilherme Arantes tem deixado suas críticas ao cantor um tanto repetitivas... Ansioso pra ouvir logo o disco e verificar se ele merece mesmo duas estrelas. Na verdade, quero mesmo é saber se o disco é pior que o da Anitta, que levou três estrelas.

Raffa disse...

Achei a sonoridade desse disco mais legal!

Vagner Souza dos Santos disse...

Meu caro, na música feliz e ponto a tal "cantora não creditada" é o próprio silva cantando uma oitava acima.Eu ri muito aqui.