Mauro Ferreira no G1

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domingo, 15 de novembro de 2015

Leila Maria mostra total domínio do jazz ao cantar Billie no CD 'Holiday in Rio'

Resenha de CD
Título: Holiday in Rio - Leila Maria canta Billie
Artista: Leila Maria
Gravadora: Biscoito Fino
Cotação: * * * * 1/2

Sem informações prévias, é difícil detectar a nacionalidade brasileira de Leila Maria pela audição de Comes love, primeira das 13 músicas do álbum em que a extraordinária cantora carioca dá voz a composições gravadas pela cantora norte-americana Billie Holiday (1915 - 1959). Standard do jazz que debutou em 1939 em musical da Broadway, Comes love (Sammy H. Stept, Lee Brown e Charles Tobias) ganha registro irretocável, arranjado pela pianista Délia Fischer e cantado por Leila sem nada dever às cantoras norte-americanas de jazz. É assim com quase todas as 13 faixas de Holiday in Rio - Leila Maria canta Billie, álbum gravado em 2012 que chega ao mercado fonográfico, com distribuição da gravadora Biscoito Fino, somente neste ano de 2015 - coincidentemente quando o universo pop celebra o aniversário de nascimento de Lady Day - por conta de questões jurídicas, uma vez que o empresário patrocinador do disco morreu durante o processo e o álbum acabou arrolado no espólio do mecenas. Produzido pelo pianista Paulo Midosi, o disco chega em tempo de celebrar os 100 anos de nascimento de Billie - embora não tenha sido idealizado com tal objetivo - e de mostrar, mais uma vez, que Leila Maria é uma das maiores cantoras do Brasil. É fato que Billie foi mais fundo na interpretação deste fino repertório. Isso fica bem claro na comparação entre os registros de Good morning, heartache (Ervin M. Drake, Irene Higginbotham e Dan Fischer, 1946) - doído jazz bluesy lançado por Billie em 1946 - feito pelas duas cantoras. Uma música cheia de mágoa como Everything happens to me (Tom Adair e Matt Dennis, 1949) também foi prato cheio para uma intérprete à flor da pele como Billie e, nesse quesito, Leila não a supera. Só que Leila, sagaz, resistiu à tentação de imitar Billie no canto dessas 13 músicas, seguindo seu próprio caminho, dividindo os arranjos das 13 músicas entre sete pianistas. E o resultado é um disco de jazz à clássica moda norte-americana que serve de modelo para qualquer cantora que queira se aventurar pelos standards do gênero. Leila faz a festa ao cantar Billie porque domina a língua do jazz. Tem apurado senso rítmico como provam sua abordagem de Love me or leave me (Walter Donaldson e Gus Kahn, 1928), arranjada pela pianista Sheila Zagury, e sobretudo seu registro de Swing, brother, swing (Walter Bishop, Lewis Raymond and Clarence Williams, 1936), o tributo à era do swing que encerra o disco com arranjo de Rodrigo Braga. Tem também um perfeito entendimento musical do que pede canções como You got to my head (Fred Coots e Haven Gillespie, 1938), esta arranjada por Paulo Midosi com cordas orquestradas por Fernando Moura. A propósito, cordas também adornam The very thought of you (Ray Noble, 1934) - música gravada por tantos cantores norte-americanos que nem é associada de imediato a Lady Day - em indício de que Leila Maria teve, desta vez, à sua disposição uma produção com recursos financeiros compatível com a grandeza de sua voz. O único título da discografia de Leila que se aproxima da sofisticação de Holiday in Rio é Off key (Rob Digital, 2004), disco produzido por José Milton com repertório formado por famosas versões em inglês de músicas brasileiras - a maioria de compositores associados à Bossa Nova como Antonio Carlos Jobim (1927 - 1994). Recursos à parte, Leila dá aula de canto ao longo das 13 faixas deste álbum. Por mais que tenha senso de improvisação, a cantora jamais joga nota fora ao interpretar músicas como You've changed (Carl Fischer e Bill Carey, 1941) - ouvida em arranjo do pianista Cristóvão Bastos -  e Easy leaving (Ralph Rainger e Leo Robin, 1937), faixa que teve seu arranjo confiado ao pianista Itamar Assiere. Não há exibições egoicas de virtuosismo vocal em Holiday in Rio. A maestria da cantora - de afinação e emissão perfeitas - se revela naturalmente, sem esforço. E a naturalidade com que Leila Maria encara músicas já gravadas por vozes icônicas como a de Billie e a de Frank Sinatra (1915 - 1998) somente reitera a grandeza de seu canto. Um canto jazzístico que merecia mais atenção do Brasil, ainda que Holiday in Rio jamais faça concessões ao Brasil. Em bom português, Leila canta jazz como as grandes cantoras norte-americanas de jazz, com um inglês tão perfeito que, se quisesse, poderia se passar por uma cantora de lá. E Leila canta jazz sem qualquer resquício de uma brasilidade que atentaria contra a natureza desses 13 standards. Mas Leila Maria é daqui, do Brasil. E cabe ao Brasil se dignar a ouvir com mais atenção e zelo uma de suas mais injustiçadas cantoras. 

6 comentários:

Mauro Ferreira disse...

♪ Sem informações prévias, é difícil detectar a nacionalidade brasileira de Leila Maria pela audição de Comes love, primeira das 13 músicas do álbum em que a extraordinária cantora carioca dá voz a composições gravadas pela cantora norte-americana Billie Holiday (1915 - 1959). Standard do jazz que debutou em 1939 em musical da Broadway, Comes love (Sammy H. Stept, Lee Brown e Charles Tobias) ganha registro irretocável, arranjado pela pianista Délia Fischer e cantado por Leila sem nada dever às cantoras norte-americanas de jazz. É assim com quase todas as 13 faixas de Holiday in Rio - Leila Maria canta Billie, álbum gravado em 2012 que chega ao mercado fonográfico, com distribuição da gravadora Biscoito Fino, somente neste ano de 2015 - coincidentemente quando o universo pop celebra o aniversário de nascimento de Lady Day - por conta de questões jurídicas, uma vez que o empresário patrocinador do disco morreu durante o processo e o álbum acabou arrolado no espólio do mecenas. Produzido pelo pianista Paulo Midosi, o disco chega em tempo de celebrar os 100 anos de nascimento de Billie - embora não tenha sido idealizado com tal objetivo - e de mostrar, mais uma vez, que Leila Maria é uma das maiores cantoras do Brasil. É fato que Billie foi mais fundo na interpretação deste fino repertório. Isso fica bem claro na comparação entre os registros de Good morning, heartache (Ervin M. Drake, Irene Higginbotham e Dan Fischer, 1946) - doído jazz bluesy lançado por Billie em 1946 - feito pelas duas cantoras. Uma música cheia de mágoa como Everything happens to me (Tom Adair e Matt Dennis, 1949) também foi prato cheio para uma intérprete à flor da pele como Billie e, nesse quesito, Leila não a supera. Só que Leila, sagaz, resistiu à tentação de imitar Billie no canto dessas 13 músicas, seguindo seu próprio caminho, dividindo os arranjos das 13 músicas entre sete pianistas. E o resultado é um disco de jazz à clássica moda norte-americana que serve de modelo para qualquer cantora que queira se aventurar pelos standards do gênero. Leila faz a festa ao cantar Billie porque domina a língua do jazz. Tem apurado senso rítmico como provam sua abordagem de Love me or leave me (Walter Donaldson e Gus Kahn, 1928), arranjada pela pianista Sheila Zagury, e sobretudo seu registro de Swing, brother, swing (Walter Bishop, Lewis Raymond and Clarence Williams, 1936), o tributo à era do swing que encerra o disco com arranjo de Rodrigo Braga. Tem também um perfeito entendimento musical do que pede canções como You got to my head (Fred Coots e Haven Gillespie, 1938), esta arranjada por Paulo Midosi com cordas orquestradas por Fernando Moura.

Mauro Ferreira disse...

A propósito, cordas também adornam The very thought of you (Ray Noble, 1934) - música gravada por tantos cantores norte-americanos que nem é associada de imediato a Lady Day - em indício de que Leila Maria teve, desta vez, à sua disposição uma produção com recursos financeiros compatível com a grandeza de sua voz. O único título da discografia de Leila que se aproxima da sofisticação de Holiday in Rio é Off key (Rob Digital, 2004), disco produzido por José Milton com repertório formado por famosas versões em inglês de músicas brasileiras - a maioria de compositores associados à Bossa Nova como Antonio Carlos Jobim (1927 - 1994). Recursos à parte, Leila dá aula de canto ao longo das 13 faixas deste álbum. Por mais que tenha senso de improvisação, a cantora jamais joga nota fora ao interpretar músicas como You've changed (Carl Fischer e Bill Carey, 1941) - ouvida em arranjo do pianista Cristóvão Bastos - e Easy leaving (Ralph Rainger e Leo Robin, 1937), faixa que teve seu arranjo confiado ao pianista Itamar Assiere. Não há exibições egoicas de virtuosismo vocal em Holiday in Rio. A maestria da cantora - de afinação e emissão perfeitas - se revela naturalmente, sem esforço. E a naturalidade com que Leila Maria encara músicas já gravadas por vozes icônicas como a de Billie e a de Frank Sinatra (1915 - 1998) somente reitera a grandeza de seu canto. Um canto jazzístico que merecia mais atenção do Brasil, ainda que Holiday in Rio jamais faça concessões ao Brasil. Em bom português, Leila canta jazz como as grandes cantoras norte-americanas de jazz, com um inglês tão perfeito que, se quisesse, poderia se passar por uma cantora de lá. E Leila canta jazz sem qualquer resquício de uma brasilidade que atentaria contra a natureza desses 13 standards. Mas Leila Maria é daqui, do Brasil. E cabe ao Brasil se dignar a ouvir com mais atenção e zelo uma de suas mais injustiçadas cantoras.

luis claudio de oliveira disse...

Adoro Billie! Amo Leila desde o seu primeiro cd. Considero esse o seu melhor cd. Bem melhor que Off Key. Leila merece.

Rafael M. disse...

Adoro a Leila e a Billie Holiday também! Acho esse CD lindo!!! Tenho ele e cada faixa é melhor do que a outra!!!

Denilson Santos disse...

Esse sim já deveria estar na lista dos melhores do ano.
Abração
Denilson

geber disse...

A Leila é do tipo, tudo se torna brisa em sua voz. A amo desde sempre. Abraços/Beijos do Geber