Mauro Ferreira no G1

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sábado, 28 de novembro de 2015

'Pancadélico' faz a festa ao (re)avivar cores do solar pop 'black' do Jota Quest

Resenha de CD
Título: Pancadélico
Artista: Jota Quest
Gravadora: Sony Music
Cotação: * * * * *

O oitavo álbum de inéditas do Jota Quest, Pancadélico, faz a festa ao reavivar todas as cores do pop black do grupo mineiro. Melhor dizendo, o disco produzido por Jerry Barnes - e lançado neste mês de novembro de 2015 - refaz a festa da banda, já que o groove black sempre pautou a música de Marcio Buzelin (synths, pianos e órgãos), Marco Túlio Lara (guitarras e violões), Paulinho Fonseca (bateria), PJ (baixo) e Rogério Flausino (voz) ao longo dos 20 anos da discografia do quinteto de Belo Horizonte (MG). O que mudou significativamente foi um (alto) investimento - inclusive financeiro - na formatação dessa música a partir do álbum La plata (Sony Music, 2008) e, sobretudo, do álbum anterior Funky funky boom boom (Sony Music, 2013), elogiado disco que marcou a conexão do grupo com o produtor norte-americano Jerry Barnes e com o guitarrista (também norte-americano) Nile Rodgers, um dos cérebros por trás do Chic, grupo que deu contribuição decisiva para o som funky da era dos dancin' days. Barnes e Rodgers figuram na ficha técnica de Pancadélico nas mesmas funções do disco anterior. Pancadélico segue a receita festiva de Funnky funky boom boom, mas consegue escapar da sina de soar como cópia do antecessor. Os ingredientes são os mesmos, mas a combinação desses ingredientes dá sabor ligeiramente diverso ao coquetel pop black de Pancadélico. Os coros, por exemplo, estão bem mais quentes. A capa multicolorida - recorte de grafite inédito feito pela dupla Os Gêmeos para o grupo - reflete bem os tons de excelente disco que já começa em clima de festa com o groove de A vida não tá fácil pra ninguém (PJ, Jerry Barnes, Rogério Flausino, Nile Rodgers e Arnaldo Antunes). Com refrão que sintoniza o estado de espírito do brasileiro neste ano de crise, a letra de Arnaldo Antunes é convite para o baile e a festa - irrecusável chamada feita com o toque chic da guitarra do convidado Nile Rodgers. O baile permanece animado com Blecaute (Marcio Buzelin, Jerry Barnes, Wilson Sideral, Rogério Flausino e Nile Rodgers), iluminado primeiro single do álbum gravado com a voz de Anitta - a musa do funk pop carioca - e novamente com o toque chic da guitarra de Nile Rodgers, além do toque da guitarra do produtor Jerry Barnes. Blecaute tem a pegada pop típica do som do Jota Quest, com o groove em primeiro plano. O refrão - "Você chegou, quase me matou / Foi daquele jeito, todo o baile parou / Quase me levou, me levou todo ar!" - é irresistível. O uso do sample de Outstanding (Raymond Calhoun, 1982) - um dos maiores sucessos da banda norte-americana de funk & r&b Gap Band (1967 - 2010) - contribui para a perfeição pop funk da faixa. Na sequência, Sexo e paixão (Marco Túlio Lara, Rogério Flausino, Jerry Barnes e Mista Raja) esquenta mais a temperatura do baile com alta dose de erotismo, com refrão em inglês feito por Barnes e com a adição do rap do norte-americano Mista Raja, rapper egresso do Bronx (Nova York, EUA). Nesta música, a batida é de funk, mas o toque da guitarra puxa o tema para o universo do rock em mistura azeitada. Direcionando o disco da noite para o dia, os reggaes Sendo assim (Tibless, Rogério Flausino, Marco Túlio Lara, Marcio Buzelin, PJ, Paulinho Fonseca e Jerry Barnes) e Um dia pra não se esquecer (Sunrise) (Chris Leon, Katie Tucker, Jerry Barnes, PJ e Rogério Flausino) jogam Pancadélico em praia solar. "Ser feliz, é só o que eu quero agora", repete Flausino no refrão de Sendo assim, evitando discutir a relação. Entre um reggae e outro, Mares do Sul singra na levada do baixo do inglês Stuart Zender, integrante da formação original do grupo britânico Jamiroquai, influência assumida do som do Jota Quest. Há ecos de Tim Maia (1942 - 1998) na faixa tanto na introdução falada - que remete ao início da balada Me dê motivo (Michael Sullivan e Paulo Massadas, 1983), grande hit do Síndico - quanto no fraseado soul do canto de Flausino. Nem o recado político de Risco Brasil (PJ, Play e Rogério Flausino) - faixa que cai em suingue metaleiro, embutindo sample de Approaching target (Antonious C Ton Rolk Van Der e Timothy Tim Holst Van Der, 2008), tema do grupo The Soul Snatchers - arrisca o alto astral do disco. "Eu tô sem dinheiro, mas eu não desisto, não!!", avisa o refrão valente da letra popular. Com pinta de single, Beijos em Paris (Marco Túlio Lara, Jerry Barnes, Wilson Sideral e Rogério Flausino) mantém o disco na rota da felicidade. Se está fora do baile, o Jota Quest continua indo para onde tenha sol. E há sol no clima e em verso de Pra quando você se lembrar de mim, canção de Wilson Sideral, de certeira pegada pop. Há sol também em verso de Mágica (Marcio Buzelin e Rogério Flausino), balada romântica conduzida pelo piano de seu coautor Marcio Buzelin, pelos teclados de Cris Simões (coprodutor da faixa) e pelo órgão Hammond de Cory Henry. Há sol ainda no subtítulo de Freak fonk funk (Até o sol raiar) (Paulinho Fonseca, Jerry Barnes e Rogério Flausino), música que conduz Pancadélico de volta ao baile black com evocação do som da banda norte-americana de funk e soul Funkadelic (1968 - 1981), outra influência assumida (inclusive no título de Pancadélico) do Jota Quest. Com groove que remete ao som pop da década de 1960, Doces lábios (PJ, Jerry Barnes, Rogério Flasino e Terry Troutman) tem o talk box de Terry Troutman, da banda norte-americana de funk Zapp. E, por fim, há novamente sol em verso de Daqui só se leva o amor (Rogério Flausino), a canção que propõe o amor sem interesse como o principal ingrediente da receita de bem-viver dada pelo Jota Quest em Pancadélico. Daqui só se leva o amor fecha em tese o disco, mas há falso final e, após alguns segundos, entram cordas que parecem sublinhar o poder sublime do amor na vida. Enfim, Pancadélico confirma que o Jota Quest vive o melhor momento de discografia que completa 20 anos em 2015 (o primeiro álbum do grupo saiu em 1995 por vias independentes). De volta ao começo, mas com fôlego renovado desde o álbum La plata, o grupo segue viagem sem erros em Pancadélico,  chegando de novo com força no pistão do pop black  com festivo som de cores vivas.

13 comentários:

Mauro Ferreira disse...

♪ O oitavo álbum de inéditas do Jota Quest, Pancadélico, faz a festa ao reavivar todas as cores do pop black do grupo mineiro. Melhor dizendo, o disco produzido por Jerry Barnes - e lançado neste mês de novembro de 2015 - refaz a festa da banda, já que o groove black sempre pautou a música de Marcio Buzelin (synths, pianos e órgãos), Marco Túlio Lara (guitarras e violões), Paulinho Fonseca (bateria), PJ (baixo) e Rogério Flausino (voz) ao longo dos 20 anos da discografia do quinteto de Belo Horizonte (MG). O que mudou significativamente foi um (alto) investimento - inclusive financeiro - na formatação dessa música a partir do álbum La plata (Sony Music, 2008) e, sobretudo, do álbum anterior Funky funky boom boom (Sony Music, 2013), elogiado disco que marcou a conexão do grupo com o produtor norte-americano Jerry Barnes e com o guitarrista (também norte-americano) Nile Rodgers, um dos cérebros por trás do Chic, grupo que deu contribuição decisiva para o som funky da era dos dancin' days. Barnes e Rodgers figuram na ficha técnica de Pancadélico nas mesmas funções do disco anterior. Pancadélico segue a receita festiva de Funnky funky boom boom, mas consegue escapar da sina de soar como cópia do antecessor. Os ingredientes são os mesmos, mas a combinação desses ingredientes dá sabor ligeiramente diverso ao coquetel pop black de Pancadélico. Os coros, por exemplo, estão bem mais quentes. A capa multicolorida - recorte de grafite inédito feito pela dupla Os Gêmeos para o grupo - reflete bem os tons de excelente disco que já começa em clima de festa com o groove de A vida não tá fácil pra ninguém (PJ, Jerry Barnes, Rogério Flausino, Nile Rodgers e Arnaldo Antunes). Com refrão que sintoniza o estado de espírito do brasileiro neste ano de crise, a letra de Arnaldo Antunes é convite para o baile e a festa - irrecusável chamada feita com o toque chic da guitarra do convidado Nile Rodgers. O baile permanece animado com Blecaute (Marcio Buzelin, Jerry Barnes, Wilson Sideral, Rogério Flausino e Nile Rodges), iluminado primeiro single do álbum gravado com a voz de Anitta - a musa do funk pop carioca - e novamente com o toque chic da guitarra de Nile Rodgers, além do toque da guitarra do produtor Jerry Barnes. Blecaute tem a pegada pop típica do som do Jota Quest, com o groove em primeiro plano. O refrão - "Você chegou, quase me matou / Foi daquele jeito, todo o baile parou / Quase me levou, me levou todo ar!" - é irresistível. O uso do sample de Outstanding (Raymond Calhoun, 1982) - um dos maiores sucessos da banda norte-americana de funk & r&b Gap Band (1967 - 2010) - contribui para a perfeição pop funk da faixa. Na sequência, Sexo e paixão (Marco Túlio Lara, Rogério Flausino, Jerry Barnes e Mista Raja) esquenta mais a temperatura do baile com alta dose de erotismo, com refrão em inglês feito por Barnes e com a adição do rap do norte-americano Mista Raja, rapper egresso do Bronx (Nova York, EUA). Nesta música, a batida é de funk, mas o toque da guitarra puxa o tema para o universo do rock em mistura azeitada. Direcionando o disco da noite para o dia, os reggaes Sendo assim (Tibless, Rogério Flausino, Marco Túlio Lara, Marcio Buzelin, PJ, Paulinho Fonseca e Jerry Barnes) e Um dia pra não se esquecer (Sunrise) (Chris Leon, Katie Tucker, Jerry Barnes, PJ e Rogério Flausino) jogam Pancadélico em praia solar. "Ser feliz, é só o que eu quero agora", repete Flausino no refrão de Sendo assim, evitando discutir a relação. Entre um reggae e outro, Mares do Sul singra na levada do baixo do inglês Stuart Zender, integrante da formação original do grupo britânico Jamiroquai, influência assumida do som do Jota Quest. Há ecos de Tim Maia (1942 - 1998) na faixa tanto na introdução falada - que remete ao início da balada Me dê motivo (Michael Sullivan e Paulo Massadas, 1983), grande hit do Síndico - quanto no fraseado soul do canto de Flausino.

Mauro Ferreira disse...

Nem o recado político de Risco Brasil (PJ, Play e Rogério Flausino) - faixa que cai em suingue metaleiro, embutindo sample de Approaching target (Antonious C Ton Rolk Van Der e Timothy Tim Holst Van Der, 2008), tema do grupo The Soul Snatchers - arrisca o alto astral do disco. "Eu tô sem dinheiro, mas eu não desisto, não!!", avisa o refrão valente da letra popular. Com pinta de single, Beijos em Paris (Marco Túlio Lara, Jerry Barnes, Wilson Sideral e Rogério Flausino) mantém o disco na rota da felicidade. Se está fora do baile, o Jota Quest continua indo para onde tenha sol. E há sol no clima e em verso de Pra quando você se lembrar de mim, canção de Wilson Sideral, de certeira pegada pop. Há sol também em verso de Mágica (Marcio Buzelin e Rogério Flausino), balada romântica conduzida pelo piano de seu coautor Marcio Buzelin, pelos teclados de Cris Simões (coprodutor da faixa) e pelo órgão Hammond de Cory Henry. Há sol ainda no subtítulo de Freak fonk funk (Até o sol raiar) (Paulinho Fonseca, Jerry Barnes e Rogério Flausino), música que conduz Pancadélico de volta ao baile black com evocação do som da banda norte-americana de funk e soul Funkadelic (1968 - 1981), outra influência assumida (inclusive no título de Pancadélico) do Jota Quest. Com groove que remete ao som pop da década de 1960, Doces lábios (PJ, Jerry Barnes, Rogério Flasino e Terry Troutman) tem o talk box de Terry Troutman, da banda norte-americana de funk Zapp. E, por fim, há novamente sol em verso de Daqui só se leva o amor (Rogério Flausino), a canção que propõe o amor sem interesse como o principal ingrediente da receita de bem-viver dada pelo Jota Quest em Pancadélico. Daqui só se leva o amor fecha em tese o disco, mas há falso final e, após alguns segundos, entram cordas que parecem sublinhar o poder sublime do amor na vida. Enfim, Pancadélico confirma que o Jota Quest vive o melhor momento de discografia que completa 20 anos em 2015 (o primeiro álbum do grupo saiu em 1995 por vias independentes). De volta ao começo, mas com fôlego renovado desde o álbum La plata, o grupo segue viagem sem erros em Pancadélico, chegando de novo com força no pistão do pop black com festivo som de cores vivas.

Unknown disse...

Você esmiuçou o álbum #pancadélico sem tirar as suas cores originais! Parabéns pela transparência, verdade e imparcialidade na sua crítica!

Rafael M. disse...

O disco pode ser ótimo, mas a capa é ridícula de tão feia que é...

Pedro Bó disse...

Mauro, só você pra me fazer ouvir desarmado um disco do Jota Quest.
E está realmente uma delícia.

Mauro Ferreira disse...

Pedro, que bom que vc se permitiu gostar do disco! 'Pancadélico' é delicioso mesmo. Existe muito preconceito em relação a artistas populares (eu mesmo, admito, já fui preconceituoso com uns e outros ao longo dos meus 29 anos de carreira como crítico musical) e isso nos aprisiona, mas o que importa, no fim das contas, é se a música é boa ou ruim. O Jota Quest tem feito ótimos discos. 'Funky funky boom boom' também é ótimo. Abs, MauroF

leojannuzzi disse...

Ótima crítica! O disco está realmente muito bom!

Vladimir disse...

Sempre gostei do som do Jota Quest!! E não me surpreendeu de você ter dado ao disco 5 estrelas!!

Esse é daqueles discos que quero comprar!!

Victor Moraes, disse...

É claro que eu não tenho o ouvido apurado como muita gente aqui; tenho preconceitos alguns musicais, mas o Jota não é um deles. Levando isso em conta, não posso afirmar que o Pancadelico (alguém me explica porque o cd físico se chama "pancadélico brasil") é um "1989" da vida. As letras me soaram um tanto forçadas, até amadoras - não sei bem explicar. Os arranjos estão legais, mas cansativos ao ouvir tudo em sequência. Acho que teve muita repetição de uma faixa pra outra. Isso aí é bom, dá a ideia de "obra", uma coisa completa a outra, mas nesse disco não me soou assim. Ouvi no dia lançamento e depois não ouvi mais (até repetir lendo a crítica). Achei o antecessor melhor. Mas tem coisas boas sim, "mares do sul" me agradou tanto no arranjo quanto no vocal, mas o refrão soa como a maioria dos refrões com coro do CD. Aliás, esses refrões são que mais cansa pela tentativa de criar uma coisa chiclete. "Mágica" não tem isso, é baladinha clichê e não dá vontade de passar como as outras.

Mauro Ferreira disse...

Victor, até onde sei, num primeiro momento o CD iria se chamar 'Pancadélico Brasil'. Mas acabou ficando somente 'Pancadélico'. Só que a Sony Music chegou a divulgar o título inicial, dando margem à confusão. Mas o CD se chama somente 'Pancadélico'. Tenho a edição física. Abs, Maurof

Victor Moraes, disse...

Obrigado, Mauro. Minha dúvida é pela Saraiva em que o disco é registrado como 'pancadélico brasil', apesar de não estar escrito na embalagem. Me lembrou aqueles nomes de empresa e seu nome de fantasia, até achei que fosse diferenciar o registro de alguma outra coisa com o mesmo nome (assim como a banda já teve que alterar a grafia do nome).

André Luís disse...

Jota Quest nunca entrou nos meus ouvidos, talvez principalmente pelas letras bobinhas e aquela voz horrorosa do Flausino. Musicalmente, ainda vai. Agora fazendo parceria com Anitta é que o grupo mineiro não vai me agradar mesmo!

Geilson Lopes disse...

Acompanho o Jota Quest desde os primórdios do J. Quest...e esse novo trabalho só engrandece os meus tímpanos, e a canção Um Dia Pra Não Se Esquecer, putz!...já comprando o CD e aguardando o show desses mineiros na capital baiana.