Mauro Ferreira no G1

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domingo, 15 de novembro de 2015

Leoni reporta em 'Notícias de mim' sujeiras escondidas no tapete existencial

Resenha de CD
Título: Notícias de mim
Artista: Leoni
Gravadora: Outro Futuro
Cotação: * * * 1/2

"Quando que a gente perdeu a medida"?, pergunta Leoni no refrão de Amar um pouco mais, pop rock que compôs com o parceiro Roberto Frejat e que abre seu álbum de inéditas Notícias de mim, gravado e recém-editado de forma independente. A questão é pertinente e atravessa grande das 14 músicas alinhadas pelo artista carioca nas 13 faixas de disco que mostra um compositor em movimento. Por ter sido um dos grandes hitmakers do universo pop brasileiro ao longo dos anos 1980, como integrante fundamental das bandas carioca Kid Abelha e Heróis da Resistência, Leoni poderia ter ficado parado numa transversal do tempo, (sobre)vivendo de seu passado de glória. No entanto, felizmente, o hábil artesão pop tem se negado a lamber a própria obra-cria. Sem jamais perder sua aguçada veia pop, Leoni experimenta tons e climas neste disco em que abre parceria com Zélia Duncan em Pequeno labirinto, canção sedutora cuja letra vê saída para uma vida que atira flechas e flores, mortes e amores. Se Gentileza gera gentileza (Leoni) é conduzida por levada afro-caribenha para perfilar mulher desagradável que confunde sinceridade com grosseria na exposição de (suas) verdades, Glamour (Leoni e Luciana Fregolente) logo se enquadra em moldura roqueira para expor a deselegância da pobreza humana dos que correm atrás da moda. Notícias de mim é disco calcado na realidade nua, crua e feia do cotidiano. Até uma balada romântica de atmosfera clássica como Amor real (Leoni e Sergio Britto) - adornada com cordas orquestradas por Bernardo Bessler - versa sobre romance crível que alterna alegrias e tristezas, fartura e migalhas, delicadezas e brutalidades. Disco pautado por letras contundentes, Notícias de mim reporta a decomposição de valores em universo em desencanto sem aliviar a barra do ouvinte inerte diante dos acontecimentos do cotidiano. "Por que todo mundo reclama / Do que lê no jornal? / Mesmo sem mexer um dedo se acha no direito de se achar acima / Muito acima de tudo que é mau?", pergunta o artista em versos de As coisas não caem no céu (Leoni), música emendada na mesma faixa com o tema instrumental A dança (Leoni, Andrea Spada, Gustavo Corsi e Lourenço Monteiro). Na mesma levada afro-caribenha de Gentileza gera gentileza, A carne é forte (Leoni e Luciana Fregolente) perfila hedonista de espírito fraco. Mesmo que contenha faixas menos sedutoras do ponto de vista musical, como Nos olhos dela (Andrea Spada e Leoni), Notícias de mim é CD que se sustenta no todo pelo conceito coeso. O mundo anda doente e Leoni aponta em músicas como Cave canem (Leoni e Paulo Henrique Britto) que a causa da enfermidade pode ser o rancor e orgulho do próprio Homem - sem livrar a própria cara. Ao contrário. O questionador compositor traça perfil impiedoso de si mesmo na música-título Notícias de mim (Leoni), escrita na primeira pessoa. "Não sou quem pensava enxergar", sentencia. E o fato é que, em mundo automatizado, amores não são vividos, palavras não são ditas e promessas não são feitas. É sobre irrealizações da vida que versa Multiversos (Leoni e Dudu Falcão), música que instaura um tempo de delicadeza - em clima musical meio jazzy, meio anos dourados - neste álbum de tom roqueiro que espaço para solo da guitarra de Gustavo Corsi - integrante da boa banda do disco, formada também por músicos como o baixista Andrea Spada, o baterista Lourenço Monteiro e o percussionista Sidinho Moreira - no meio de Muito obrigado (Leoni), a composição autobiográfica que externa gratidão ao fim do disco ("A gratidão é a memória do coração", poetiza o artesão pop), como se apontasse uma luz no túnel escuro em que a humanidade parece presa. Notícias de mim jamais mascara a crueza da realidade - também assunto da roqueira Fingir que não dói (Chuck Hipolitho e Leoni) - mas dá uma boa notícia para os admiradores da música de Leoni: o artista permanece em salutar movimento em disco que reporta as sujeiras escondidas debaixo dos tapetes existenciais dos espíritos presos em pequenos labirintos.

9 comentários:

Mauro Ferreira disse...

♪ "Quando que a gente perdeu a medida"?, pergunta Leoni no refrão de Amar um pouco mais, pop rock que compôs com o parceiro Roberto Frejat e que abre seu álbum de inéditas Notícias de mim, gravado e recém-editado de forma independente. A questão é pertinente e atravessa grande das 14 músicas alinhadas pelo artista carioca nas 13 faixas de disco que mostra um compositor em movimento. Por ter sido um dos grandes hitmakers do universo pop brasileiro ao longo dos anos 1980, como integrante fundamental das bandas carioca Kid Abelha e Heróis da Resistência, Leoni poderia ter ficado parado numa transversal do tempo, (sobre)vivendo de seu passado de glória. No entanto, felizmente, o hábil artesão pop tem se negado a lamber a própria obra-cria. Sem jamais perder sua aguçada veia pop, Leoni experimenta tons e climas neste disco em que abre parceria com Zélia Duncan em Pequeno labirinto, canção sedutora cuja letra vê saída para uma vida que atira flechas e flores, mortes e amores. Se Gentileza gera gentileza (Leoni) é conduzida por levada afro-caribenha para perfilar mulher desagradável que confunde sinceridade com grosseria na exposição de (suas) verdades, Glamour (Leoni e Luciana Fregolente) logo se enquadra em moldura roqueira para expor a deselegância da pobreza humana dos que correm atrás da moda. Notícias de mim é disco calcado na realidade nua, crua e feia do cotidiano. Até uma balada romântica de atmosfera clássica como Amor real (Leoni e Sergio Britto) - adornada com cordas orquestradas por Bernardo Bessler - versa sobre romance crível que alterna alegrias e tristezas, fartura e migalhas, delicadezas e brutalidades. Disco pautado por letras contundentes, Notícias de mim reporta a decomposição de valores em universo em desencanto sem aliviar a barra do ouvinte inerte diante dos acontecimentos do cotidiano. "Por que todo mundo reclama / Do que lê no jornal? / Mesmo sem mexer um dedo se acha no direito de se achar acima / Muito acima de tudo que é mau?", pergunta o artista em versos de As coisas não caem no céu (Leoni), música emendada na mesma faixa com o tema instrumental A dança (Leoni, Andrea Spada, Gustavo Corsi e Lourenço Monteiro). Na mesma levada afro-caribenha de Gentileza gera gentileza, A carne é forte (Leoni e Luciana Fregolente) perfila hedonista de espírito fraco. Mesmo que contenha faixas menos sedutoras do ponto de vista musical, como Nos olhos dela (Andrea Spada e Leoni), Notícias de mim é CD que se sustenta no todo pelo conceito coeso. O mundo anda doente e Leoni aponta em músicas como Cave canem (Leoni e Paulo Henrique Britto) que a causa da enfermidade pode ser o rancor e orgulho do próprio Homem - sem livrar a própria cara. Ao contrário. O questionador compositor traça perfil impiedoso de si mesmo na música-título Notícias de mim (Leoni), escrita na primeira pessoa. "Não sou quem pensava enxergar", sentencia. E o fato é que, em mundo automatizado, amores não são vividos, palavras não são ditas e promessas não são feitas. É sobre irrealizações da vida que versa Multiversos (Leoni e Dudu Falcão), música que instaura um tempo de delicadeza - em clima musical meio jazzy, meio anos dourados - neste álbum de tom roqueiro que espaço para solo da guitarra de Gustavo Corsi - integrante da boa banda do disco, formada também por músicos como o baixista Andrea Spada, o baterista Lourenço Monteiro e o percussionista Sidinho Moreira - no meio de Muito obrigado (Leoni), a composição autobiográfica que externa gratidão ao fim do disco ("A gratidão é a memória do coração", poetiza o artesão pop), como se apontasse uma luz no túnel escuro em que a humanidade parece presa. Notícias de mim jamais mascara a crueza da realidade - também assunto da roqueira Fingir que não dói (Chuck Hipolitho e Leoni) - mas dá uma boa notícia para os admiradores da música de Leoni: o artista permanece em salutar movimento em disco que reporta as sujeiras escondidas debaixo dos tapetes existenciais dos espíritos presos em pequenos labirintos.

Luca disse...

li em algum lugar que ele ganhou uma grana boa dos fãs pra fazer esse disco, tem que respeitar

CLECIO JAYRON DA SILVA disse...

Não ganhou grana nenhuma, o disco foi conseguido atraves de financiamento coletivo, onde arrecadou mais de 100.000 reais, onde existiam varias cotas desde cds até shows privados. isso é ganhar?

Damião Costa disse...

Será que vai ter uma distribuição nas grandes lojas?

Damião Costa disse...

Se é que ainda existe grandes nesse ramo?

Eduardo disse...

Gostaria de comprar o cd, mas o site não tem a informação e o contato deles nunca responde.

CLECIO JAYRON DA SILVA disse...

Só entrando em contato com ele, q pode se conseguir, através da pagina do face book.

italo vinicius disse...

Leoni fez como Lobão Luciana Melo e muitos outros estão fazendo campanha no crowd funding para gravar os discos independente e a galera que é fá vira tipo um patrocinador

André Gamma disse...

o disco custou caro pra caraléo... mas de 100 mil pau! e ele provou q não precisa de gravadora, de patrocínio de empresas... é um guru pop que leva um grande rebanho de fãs... tem q tirar o chapéu do frank sinatra pro cara mesmo! o cara é foda! depois, muitos artistas foi na onda, se inspiraram no leoni! principalmente o lobão, q nem sabe nem o q é.