Mauro Ferreira no G1

Aviso aos navegantes: desde 6 de julho de 2016, o jornalista Mauro Ferreira atualiza diariamente uma coluna sobre o mercado fonográfico brasileiro no portal G1. Clique aqui para acessar a coluna. O endereço é http://g1.globo.com/musica/blog/mauro-ferreira/


sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Tão grande é o céu de Cauby em disco em que o cantor dá voz à (sua) bossa

Resenha de CD
Título: A bossa de Cauby Peixoto
Artista: Cauby Peixoto
Gravadora: Biscoito Fino
Cotação: * * * *

Icônico cantor identificado com as vozes grandiloquentes da era do rádio por seu inconfundível registro de barítono, de potência outrora amplificada por arroubos passionais de interpretação, Cauby Peixoto é, em tese, o contraponto da leveza sincopada e cool da Bossa Nova. Nem por isso o cantor deixou de ter o privilégio de lançar em disco, em 1962, o Samba do avião (Antonio Carlos Jobim) em primazia dividida com a cantora Elza Laranjeira, que também gravou o standard de Antonio Carlos Jobim (1927 - 1994) naquele ano de 1962. Pois o Samba do avião figura entre as 10 músicas interpretadas pelo cantor no belo álbum A bossa de Cauby Peixoto - lançado hoje, 6 de novembro de 2015, pela gravadora Biscoito Fino - em gravação feita com mais propriedade do que a registrada por Cauby no álbum Canção que inspirou você (RCA-Victor, 1962). O disco de bossa nova de Cauby foi um pedido feito pelo cantor a Thiago Marques Luiz - produtor de seus últimos álbuns - neste ano de 2015, quando o artista estava na cama da UTI de hospital, lutando pela vida em batalha que resultou vitoriosa. Aos 84 anos, Cauby já canta em tons mais baixos, em registros outonais que se afinam mais com a bossa. Mas a bossa de Cauby é outra, é toda própria. E é dela que ele se vale para fazer valer este disco. Basta ouvir Wave (Antonio Carlos Jobim, 1967) para ver que Cauby não entra na onda de João Gilberto e tampouco na de Jobim ao surfar nestas melodias eternamente modernas, ainda que os arranjos do disco estejam calcados no piano de Alexandre Vianna, instrumento que guiou Jobim na criação de seu soberano cancioneiro de alcance universal (Vianna forma o trio-base do disco com o baixista Deco Telles e o baterista Humberto Zigler). A bossa de Cauby Peixoto não é, a rigor, disco de Bossa Nova assim como Canção do amor demais (Festa, 1958) - o histórico álbum da cantora carioca Elizeth Cardoso (1920 - 1990) que apresentou ao mundo, em abril de 1958, a batida diferente do violão de João - nunca foi um disco de Bossa Nova no sentido estrito do termo. Cauby tem a sua bossa - e é com ela que alonga as notas quando canta o verso que contém "sonhou demais" na letra de Este seu olhar (Antonio Carlos Jobim, 1959). Cauby é grande e, por isso, tão grande é o céu quando o cantor dá voz a Dindi (Antonio Carlos Jobim e Aloysio de Oliveira, 1959). A seu modo, sempre a seu modo, Cauby até cai em leve suingue ao fim de Até quem sabe (João Donato e Lysias Ênio, 1973), mas não sem antes dar o exato tom melancólico a esta música do compositor acriano João Donato, pianista que ajudou Jobim e João a desbravarem os caminhos harmônicos que desembocaram na Bossa Nova. Em harmonia com o estilo mais tradicional dos arranjos do CD, Cauby usa seus maneirismos vocais no canto de Amor em paz (Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, 1960), faixa que tem o arranjo mais bossa nova de disco que segue a linha musical dos últimos álbuns deste cantor magistral. O piano dá o tom dos arranjos, mas o violão (o de Ronaldo Rayol) reina soberano em Ilusão à toa (Johnny Alf, 1961), uma das joias sempre modernas do carioca Johnny Alf (1929 - 2010), outro pianista que indicou a Jobim e a João o caminho que levou à bossa. À vontade nessa canção, Cauby enfileira sequência de três "à toa", elevando os tons com sua bossa. Do cancioneiro sempre refinado de Alf, a propósito, Cauby também canta Eu e a brisa (1967) em tom mais quente do que o vento fresco que bafejava a obra do autor. Em essência, Cauby canta canções do amor demais neste disco de bossa própria. Uma é a tristonha Preciso aprender a ser só (Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle, 1964), também revivida pelo cantor em tons quentes. Assim como Elizeth, Cauby, afinal, nunca foi cool. Por isso, canções de intenso versos apaixonados como Razão de viver (Eumir Deodato e Paulo Sérgio Valle, 1964) - a menos popular das dez músicas do CD - servem tanto à voz de Cauby como às vozes mais leves como a de Claudette Soares, uma das muitas intérpretes do tema. Tão grande como o céu de Dindi, música mais sedutora no disco, Cauby Peixoto fez deste disco sua razão de viver. Como propõe o produtor Thiago Marques Luiz em texto sobre este álbum, um brinde à vida do Professor!!

4 comentários:

Mauro Ferreira disse...

♪ Icônico cantor identificado com as vozes grandiloquentes da era do rádio por seu inconfundível registro de barítono, de potência outrora amplificada por arroubos passionais de interpretação, Cauby Peixoto é, em tese, o contraponto da leveza sincopada e cool da Bossa Nova. Nem por isso o cantor deixou de ter o privilégio de lançar em disco, em 1962, o Samba do avião (Antonio Carlos Jobim) em primazia dividida com a cantora Elza Laranjeira, que também gravou o standard de Antonio Carlos Jobim (1927 - 1994) naquele ano de 1962. Pois o Samba do avião figura entre as 10 músicas interpretadas pelo cantor no belo álbum A bossa de Cauby Peixoto - lançado hoje, 6 de novembro de 2015, pela gravadora Biscoito Fino - em gravação feita com mais propriedade do que a registrada por Cauby no álbum Canção que inspirou você (RCA-Victor, 1962). O disco de bossa nova de Cauby foi um pedido feito pelo cantor a Thiago Marques Luiz - produtor de seus últimos álbuns - neste ano de 2015, quando o artista estava na cama da UTI de hospital, lutando pela vida em batalha que resultou vitoriosa. Aos 84 anos, Cauby já canta em tons mais baixos, em registros outonais que se afinam mais com a bossa. Mas a bossa de Cauby é outra, é toda própria. E é dela que ele se vale para fazer valer este disco. Basta ouvir Wave (Antonio Carlos Jobim, 1967) para ver que Cauby não entra na onda de João Gilberto e tampouco na de Jobim ao surfar nestas melodias eternamente modernas, ainda que os arranjos do disco estejam calcados no piano de Alexandre Viana, instrumento que guiou Jobim na criação de seu soberano cancioneiro de alcance universal. A bossa de Cauby Peixoto não é, a rigor, disco de Bossa Nova assim como Canção do amor demais (Festa, 1958) - o histórico álbum da cantora carioca Elizeth Cardoso (1920 - 1990) que apresentou ao mundo, em abril de 1958, a batida diferente do violão de João - nunca foi um disco de Bossa Nova no sentido estrito do termo. Cauby tem a sua bossa - e é com ela que alonga as notas quando canta o verso que contém "sonhou demais" na letra de Este seu olhar (Antonio Carlos Jobim, 1959). Cauby é grande e, por isso, tão grande é o céu quando o cantor dá voz a Dindi (Antonio Carlos Jobim e Aloysio de Oliveira, 1959). A seu modo, sempre a seu modo, Cauby até cai em leve suingue ao fim de Até quem sabe (João Donato e Lysias Ênio, 1973), mas não sem antes dar o exato tom melancólico a esta música do compositor acriano João Donato, pianista que ajudou Jobim e João a desbravarem os caminhos harmônicos que desembocaram na Bossa Nova. Em harmonia com o estilo mais tradicional dos arranjos do CD, Cauby usa seus maneirismos vocais no canto de Amor em paz (Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, 1960), faixa que tem o arranjo mais bossa nova de disco que segue a linha musical dos últimos álbuns deste cantor magistral. O piano dá o tom dos arranjos, mas o violão (o de Ronaldo Rayol) reina soberano em Ilusão à toa (Johnny Alf, 1961), uma das joias sempre modernas do carioca Johnny Alf (1929 - 2010), outro pianista que indicou a Jobim e a João o caminho que levou à bossa. Do cancioneiro sempre refinado de Alf, a propósito, Cauby também canta Eu e a brisa (1967) em tom mais quente do que a fresca brisa que bafejava a obra do autor. Em essência, Cauby canta canções do amor demais neste disco de bossa própria. Uma é a tristonha Preciso aprender a ser só (Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle, 1964), também revivida pelo cantor em tons quentes. Assim como Elizeth, Cauby, afinal, nunca foi cool. Por isso, canções de intenso versos apaixonados como Razão de viver (Eumir Deodato e Paulo Sérgio Valle, 1964) - a menos popular das dez músicas do CD - servem tanto à voz de Cauby como às vozes mais leves como a de Claudette Soares, uma das muitas intérpretes do tema. Tão grande como o céu de Dindi, música mais sedutora no disco, Cauby Peixoto fez deste disco sua razão de viver. Como propõe o produtor Thiago Marques Luiz em texto sobre este álbum, um brinde à vida do Professor!!

Rafael M. disse...

Adoro o Cauby... Uma das maiores vozes e lendas vivas do Brasil... Disco a altura de seu talento!!!

Rafael M. disse...

No You Tube tem áudios das canções do disco upadas pela Biscoito Fino. O disco está uma delícia de se ouvir...

Segue o link de uma das músicas do disco no You Tube:

https://www.youtube.com/watch?v=Rv2bc1KyAmw

Ruth disse...

CAUBY, CAUBY!!!!