Mauro Ferreira no G1

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quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Ao cantar (bem) Cartola, Teresa expõe lirismos, cinismos e mágoas do poeta

Resenha de show
Título: Teresa Cristina canta Cartola Um poeta de Mangueira
Artista: Teresa Cristina (em foto de Rodrigo Goffredo)

Local: Theatro Net Rio (Rio de Janeiro, RJ)
Data: 16 de novembro de 2015  Sessão das 19h
Cotação: * * * *

Além da elegante arquitetura melódica, a obra do compositor Angenor Oliveira (1908 - 1980), o Cartola, embute em seus versos gama de sentimentos que, embora expostos com lirismo e poesia, projetam mágoas, tristezas, solidões e cinismos provocados pelo amor. Aliás, pela falta de amor. Teresa Cristina – cantora carioca que vem se impondo como uma das melhores intérpretes do Brasil – traduz em seu canto todos os matizes do repertório do compositor carioca no show Teresa Cristina canta Cartola  Um poeta de Mangueira. Motivado por participação da artista em evento do Real Gabinete Português de Leitura, instituição carioca em cuja solenidade Teresa deu voz a músicas de Cartola, o inédito show estreou na cidade natal do compositor, o Rio de Janeiro (RJ), em duas sessões que encheram as cadeiras do Theatro Net Rio na noite de 16 de novembro de 2015. Na primeira sessão, a das 19h, Teresa demonstrou certo nervosismo, contou ter bebido além da conta para relaxar e, em alguns momentos, foi atrapalhada por sua tensão - responsável, por exemplo, pelo branco da cantora em dois versos de Vai amigo (Cartola, 1968), samba menos ouvido do poeta de Mangueira que a portelense Teresa conheceu através de disco de Paulinho da Viola, compositor carioca (e também ilustre portelense) que descende da linhagem nobre de Cartola. Descontados estes breves tropeços, desculpáveis e compreensíveis numa estreia nacional, Teresa se confirmou grande intérprete ao cantar divinamente o repertório de Cartola. Mesmo que seja assumida portelense, Teresa pisou com propriedade em território que, afinal, é comum a todos que comungam do gosto pelo melhor samba produzido nos morros e no asfalto da cidade do Rio de Janeiro, berço de Mangueira, cujo seminal samba-enredo Chega de demanda – composto por Cartola para o Carnaval de 1929 – abriu o show de início a capella, com Teresa entrando no palco do Theatro Net Rio, onde já estava posicionado o (excepcional) violonista Carlinhos Sete Cordas, e soltando a voz sem microfone nesta que é uma das primeiras músicas da obra de Cartola. Sozinha com o toque das sete cordas de Carlinhos, Teresa cantou Cartola com toda a emoção e toda a melancolia que sai naturalmente de seu canto. A abordagem de O mundo é um moinho (Cartola, 1976) por Teresa se alinhou com os melhores registros dessa obra-prima do cancioneiro do compositor. Mesmo quando procura olhar o mundo com otimismo, como na solar Corra e olhe o céu (Cartola, 1974), o poeta deixa entrever certa tristeza com os rumos da vida. Por isso, o canto de Teresa se ajustou tão bem ao repertório de Cartola. O poeta tinha a voz do lamento, aliviado com a chegada da aurora em Disfarça e chora (Cartola, 1974) ou mesmo escondido quando chega o alvorecer da iluminada O sol nascerá (Cartola e Elton Medeiros, 1964). As próprias escolhas de Cartola como intérprete – e Teresa dá três belos exemplos no roteiro – ratificam o tom geralmente melancólico da obra lírica do poeta. Pranto de poeta (Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito, 1957) e Preciso me encontrar (Candeia, 1976), para citar os dois melhores exemplos do roteiro, são sambas tristes que se parecem tanto com as músicas de Cartola que, na voz dele, soam mesmo como se fossem da lavra elegante do poeta. Título mais obscuro do roteiro, Evite meu amor (Cartola, 1979) soa como (mais uma) prova da afinidade da cantora com a obra do compositor. Teresa brilha ao realçar o cinismo cruel de Tive sim (Cartola, 1968), o drama existencial de Sim (Cartola e Osvaldo Martins, 1952) – música cantada com especial energia – e a súplica fria de Acontece (Cartola, 1972), um dos pontos mais altos do show pela emoção da intérprete e pela beleza da música. Em Peito vazio (Cartola e Elton Medeiros), número adornado pelo toque seresteiro do violão de Carlinhos Sete Cordas, Teresa Cristina soou até teatral, acentuando com gestos o significado dos versos desse samba embebido em triste solidão. No fim, Sala de recepção (Cartola, 1976) fechou o show em grande estilo. Se Teresa Cristina dosasse suas falas espirituosas, o show – já em si sedutor – seria ainda melhor, pois os comentários da cantora quebraram o clima de emoção do recital, cujo bis exalou o lirismo de As rosas não falam (Cartola, 1976) e a esperança que ilumina a já mencionada O sol nascerá (Cartola e Elton Medeiros, 1964). Enfim, mesmo um pouco alta, Teresa Cristina cantou Cartola com toda beleza sublime que há na obra triste do poeta.

11 comentários:

Mauro Ferreira disse...

♪ Além da elegante arquitetura melódica, a obra do compositor Angenor Oliveira (1908 - 1980), o Cartola, embute em seus versos gama de sentimentos que, embora expostos com lirismo e poesia, projetam mágoas, tristezas, solidões e cinismos provocados pelo amor. Aliás, pela falta de amor. Teresa Cristina – cantora carioca que vem se impondo como uma das melhores intérpretes do Brasil – traduz em seu canto todos os matizes do repertório do compositor carioca no show Teresa Cristina canta Cartola – Um poeta de Mangueira. Motivado por participação da artista em evento do Real Gabinete Português de Leitura, instituição carioca em cuja solenidade Teresa deu voz a músicas de Cartola, o inédito show estreou na cidade natal do compositor, o Rio de Janeiro (RJ), em duas sessões que encheram as cadeiras do Theatro Net Rio na noite de 16 de novembro de 2015. Na primeira sessão, a das 19h, Teresa demonstrou certo nervosismo, contou ter bebido além da conta para relaxar e, em alguns momentos, foi atrapalhada por sua tensão - responsável, por exemplo, pelo branco da cantora em dois versos de Vai amigo (Cartola, 1968), samba menos ouvido do poeta de Mangueira que a portelense Teresa conheceu através de disco de Paulinho da Viola, compositor carioca (e também ilustre portelense) que descende da linhagem nobre de Cartola. Descontados estes breves tropeços, desculpáveis e compreensíveis numa estreia nacional, Teresa se confirmou grande intérprete ao cantar divinamente o repertório de Cartola. Mesmo que seja assumida portelense, Teresa pisou com propriedade em território que, afinal, é comum a todos que comungam do gosto pelo melhor samba produzido nos morros e no asfalto da cidade do Rio de Janeiro, berço de Mangueira, cujo seminal samba-enredo Chega de demanda – composto por Cartola para o Carnaval de 1929 – abriu o show de início a capella, com Teresa entrando no palco do Theatro Net Rio, onde já estava posicionado o (excepcional) violonista Carlinhos Sete Cordas, e soltando a voz sem microfone nesta que é uma das primeiras músicas da obra de Cartola. Sozinha com o toque das sete cordas de Carlinhos, Teresa cantou Cartola com toda a emoção e toda a melancolia que sai naturalmente de seu canto. A abordagem de O mundo é um moinho (Cartola, 1976) por Teresa se alinhou com os melhores registros dessa obra-prima do cancioneiro do compositor. Mesmo quando procura olhar o mundo com otimismo, como na solar Corra e olhe o céu (Cartola, 1974), o poeta deixa entrever certa tristeza com os rumos da vida. Por isso, o canto de Teresa se ajustou tão bem ao repertório de Cartola. O poeta tinha a voz do lamento, aliviado com a chegada da aurora em Disfarça e chora (Cartola, 1974) ou mesmo escondido quando chega o alvorecer da iluminada O sol nascerá (Cartola e Elton Medeiros, 1964).

Mauro Ferreira disse...

As próprias escolhas de Cartola como intérprete – e Teresa dá três belos exemplos no roteiro – ratificam o tom geralmente melancólico da obra lírica do poeta. Pranto de poeta (Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito, 1957) e Preciso me encontrar (Candeia, 1976), para citar os dois melhores exemplos do roteiro, são sambas tristes que se parecem tanto com as músicas de Cartola que, na voz dele, soam mesmo como se fossem da lavra elegante do poeta. Título mais obscuro do roteiro, Evite meu amor (Cartola, 1979) soa como (mais uma) prova da afinidade da cantora com a obra do compositor. Teresa brilha ao realçar o cinismo cruel de Tive sim (Cartola, 1968), o drama existencial de Sim (Cartola e Osvaldo Martins, 1952) – música cantada com especial energia – e a súplica fria de Acontece (Cartola, 1972), um dos pontos mais altos do show pela emoção da intérprete e pela beleza da música. Em Peito vazio (Cartola e Elton Medeiros), número adornado pelo toque seresteiro do violão de Carlinhos Sete Cordas, Teresa Cristina soou até teatral, acentuando com gestos o significado dos versos desse samba embebido em triste solidão. No fim, Sala de recepção (Cartola, 1976) fechou o show em grande estilo. Se Teresa Cristina dosasse suas falas espirituosas, o show – já em si sedutor – seria ainda melhor, pois os comentários da cantora quebraram o clima intimista do recital, cujo bis exalou o lirismo de As rosas não falam (Cartola, 1976) e a esperança que ilumina a já mencionada O sol nascerá (Cartola e Elton Medeiros, 1964). Enfim, mesmo um pouco alta, Teresa Cristina cantou Cartola com toda beleza sublime que há na obra triste do poeta.

Mauro Silva disse...

Amoooo Tereza Cristina! Ela é danada e diversificada! Canta muito bem o repertório do Paulinho, como o do Roberto e neste show agora canta lindamente o Cartola. Todos os seus Cd's são uma delícia de ouvir :)

Marcos Rizzo disse...

Teresa Cristina é goiabada cascão. Sambista de primeira.

Victor Moraes, disse...

Acho que vi o Carlinhos 7 cordas com a Maria Rita num especial pro Ensaio. Não tenho certeza se foi realmente ele, mas ficou lindo-lindo no samba. Não deve ter sido diferente com a Teresa.
Falando em MR... Mauro, sabe alguma coisa sobre a gravação do DVD na Fundição dia 5? O Site da casa anunciou que, além de último show, será a gravação do DVD (anúncio que veio depois da abertura de vendas dos ingressos). Mas a MR não se pronunciou em lugar nenhum (site oficial ou redes sociais) sobre o assunto - coisa que ela geralmente costuma fazer mostrando empolgação.

Val Js disse...

Teresa Cristina é uma grande cantora. Tudo o que ela canta, canta bem, com sutileza e sentimento. O show deve estar bonito. Ela deveria gravar em estúdio cd (duplo dê preferência) dedicado a obra de Cartola, inclusive com as músicas menos conhecidas, assim como fez com Paulinho da Viola. O álbum duplo com o Grupo Semente, dedicado ao Paulinho é uma obra prima e desde que foi lançado, agreguei como fundo musical para a vida.

Mauro Ferreira disse...

Oi, Victor, nada sei sobre o DVD de Maria Rita. Mas vou apurar. Abs, MauroF

Marcelo Barbosa disse...

Parabéns pelos elogios ao EXCEPCIONAL MESMO, Carlinhos Sete Cordas, Mauro.
Tomara que a Teresa registre isso! Gosto muito dela como intérprete e compositora. Aliás, ela canta no cd da Biscoito, Sambas para a Mangueira. Espero a resenha! Adorei esse disco! Tinha que ter mesmo as mãos de Rildo Hora.
Abs

Rhenan Soares disse...

Tive a sorte de assistir a Teresa sempre em shows intimistas e acho um absurdo de bonito. Tomara que rode bastante.

André Dias disse...

Vai rolar DVD da Maria Rita, sim. Ela confirmou via video no facebook.

Luca disse...

Teresa virou uma das queridinhas do Mauro, ele sempre fala bem dela