Mauro Ferreira no G1

Aviso aos navegantes: desde 6 de julho de 2016, o jornalista Mauro Ferreira atualiza diariamente uma coluna sobre o mercado fonográfico brasileiro no portal G1. Clique aqui para acessar a coluna. O endereço é http://g1.globo.com/musica/blog/mauro-ferreira/


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domingo, 15 de novembro de 2015

Leila Maria mostra total domínio do jazz ao cantar Billie no CD 'Holiday in Rio'

Resenha de CD
Título: Holiday in Rio - Leila Maria canta Billie
Artista: Leila Maria
Gravadora: Biscoito Fino
Cotação: * * * * 1/2

Sem informações prévias, é difícil detectar a nacionalidade brasileira de Leila Maria pela audição de Comes love, primeira das 13 músicas do álbum em que a extraordinária cantora carioca dá voz a composições gravadas pela cantora norte-americana Billie Holiday (1915 - 1959). Standard do jazz que debutou em 1939 em musical da Broadway, Comes love (Sammy H. Stept, Lee Brown e Charles Tobias) ganha registro irretocável, arranjado pela pianista Délia Fischer e cantado por Leila sem nada dever às cantoras norte-americanas de jazz. É assim com quase todas as 13 faixas de Holiday in Rio - Leila Maria canta Billie, álbum gravado em 2012 que chega ao mercado fonográfico, com distribuição da gravadora Biscoito Fino, somente neste ano de 2015 - coincidentemente quando o universo pop celebra o aniversário de nascimento de Lady Day - por conta de questões jurídicas, uma vez que o empresário patrocinador do disco morreu durante o processo e o álbum acabou arrolado no espólio do mecenas. Produzido pelo pianista Paulo Midosi, o disco chega em tempo de celebrar os 100 anos de nascimento de Billie - embora não tenha sido idealizado com tal objetivo - e de mostrar, mais uma vez, que Leila Maria é uma das maiores cantoras do Brasil. É fato que Billie foi mais fundo na interpretação deste fino repertório. Isso fica bem claro na comparação entre os registros de Good morning, heartache (Ervin M. Drake, Irene Higginbotham e Dan Fischer, 1946) - doído jazz bluesy lançado por Billie em 1946 - feito pelas duas cantoras. Uma música cheia de mágoa como Everything happens to me (Tom Adair e Matt Dennis, 1949) também foi prato cheio para uma intérprete à flor da pele como Billie e, nesse quesito, Leila não a supera. Só que Leila, sagaz, resistiu à tentação de imitar Billie no canto dessas 13 músicas, seguindo seu próprio caminho, dividindo os arranjos das 13 músicas entre sete pianistas. E o resultado é um disco de jazz à clássica moda norte-americana que serve de modelo para qualquer cantora que queira se aventurar pelos standards do gênero. Leila faz a festa ao cantar Billie porque domina a língua do jazz. Tem apurado senso rítmico como provam sua abordagem de Love me or leave me (Walter Donaldson e Gus Kahn, 1928), arranjada pela pianista Sheila Zagury, e sobretudo seu registro de Swing, brother, swing (Walter Bishop, Lewis Raymond and Clarence Williams, 1936), o tributo à era do swing que encerra o disco com arranjo de Rodrigo Braga. Tem também um perfeito entendimento musical do que pede canções como You got to my head (Fred Coots e Haven Gillespie, 1938), esta arranjada por Paulo Midosi com cordas orquestradas por Fernando Moura. A propósito, cordas também adornam The very thought of you (Ray Noble, 1934) - música gravada por tantos cantores norte-americanos que nem é associada de imediato a Lady Day - em indício de que Leila Maria teve, desta vez, à sua disposição uma produção com recursos financeiros compatível com a grandeza de sua voz. O único título da discografia de Leila que se aproxima da sofisticação de Holiday in Rio é Off key (Rob Digital, 2004), disco produzido por José Milton com repertório formado por famosas versões em inglês de músicas brasileiras - a maioria de compositores associados à Bossa Nova como Antonio Carlos Jobim (1927 - 1994). Recursos à parte, Leila dá aula de canto ao longo das 13 faixas deste álbum. Por mais que tenha senso de improvisação, a cantora jamais joga nota fora ao interpretar músicas como You've changed (Carl Fischer e Bill Carey, 1941) - ouvida em arranjo do pianista Cristóvão Bastos -  e Easy leaving (Ralph Rainger e Leo Robin, 1937), faixa que teve seu arranjo confiado ao pianista Itamar Assiere. Não há exibições egoicas de virtuosismo vocal em Holiday in Rio. A maestria da cantora - de afinação e emissão perfeitas - se revela naturalmente, sem esforço. E a naturalidade com que Leila Maria encara músicas já gravadas por vozes icônicas como a de Billie e a de Frank Sinatra (1915 - 1998) somente reitera a grandeza de seu canto. Um canto jazzístico que merecia mais atenção do Brasil, ainda que Holiday in Rio jamais faça concessões ao Brasil. Em bom português, Leila canta jazz como as grandes cantoras norte-americanas de jazz, com um inglês tão perfeito que, se quisesse, poderia se passar por uma cantora de lá. E Leila canta jazz sem qualquer resquício de uma brasilidade que atentaria contra a natureza desses 13 standards. Mas Leila Maria é daqui, do Brasil. E cabe ao Brasil se dignar a ouvir com mais atenção e zelo uma de suas mais injustiçadas cantoras. 

domingo, 20 de setembro de 2015

Eis a capa do álbum em que Leila Maria dá voz ao repertório de Billie Holiday

Esta é a capa do álbum em que a cantora carioca Leila Maria dá voz a músicas do repertório da cantora norte-americana de jazz Billie Holiday (1915 - 1959). Gravado desde 2012, o disco Leila Maria canta Billie Holiday in Rio vai enfim ganhar edição comercial neste ano de 2015 em que o universo pop celebra o centenário de nascimento de Lady Day. Por questões jurídicas (clique aqui para entender o caso), o álbum levou três anos para chegar efetivamente ao mercado fonográfico. O disco sai em outubro, em edição da gravadora Biscoito Fino. Eis, na ordem do CD, as 13 músicas:

1. Come love
2. Embraceable you
3. I'll be seeing you
4. Good morning, heartache
5. Love me or leave me
6. The very thought of you
7. You got to my head
8. Easy living
9. Everything happens to me
10. You've changed
11. The same old story
12. God bless the child
13. Swing, brother, swing

domingo, 23 de agosto de 2015

Como 'Lady Day', Lilian Valeska dá show e legitima musical de tom narrativo

Resenha de musical
Título: A vida de Billie Holiday - Amargo fruto
Texto: Jau Sant'Angelo e Ticiana Studart
Direção: Ticiana Studart
Direção musical: Marcelo Alonso Neves
Elenco: Lilian Valeska, Vilma Melo e Milton Filho
Cotação: * * *
 Espetáculo m cartaz de quinta-feira a sábado no Teatro Carlos Gomes, no Rio de Janeiro (RJ), até 27 de setembro de 2015. Temporadas agendadas na Arena Carioca Dicró, em 3 e 4 de outubro de 2015, e na Arena Carioca Fernando Torres, em 10 e 11 de outubro de 2015

Nunca houve um musical encenado no Rio de Janeiro (RJ) com Lilian Valeska no elenco em que essa atriz e cantora carioca não tenha sobressaído em cena quando soltava seu vozeirão de espírito soul, lapidado em igreja presbiteriana da Penha, bairro do subúrbio carioca. Diplomada na escola da música negra-americana, a voz de Lilian tem alma que, aliada à sua técnica, a tornou uma grande cantora. Seus dotes vocais há muito credenciavam a artista para o posto de protagonista de um musical. Papel no qual Lilian dá show ao cantar o repertório da cantora norte-americana Billie Holliday (1915 - 1959) em Amargo fruto, musical recém-chegado à cena carioca, em temporada no Teatro Carlos Gomes até 27 de setembro, no ano em que o universo pop celebra o centenário de nascimento de Lady Day. Ao cantar standards do repertório da diva do jazz como God bless the child (Billie Holiday e Arthur Herzog Jr., 1942), Lilian acerta o tom e surpreende até mesmo quem já conhece seu honroso histórico nos palcos cariocas porque o repertório de Lady Day exige inflexões e emissões vocais específicas. Sem cair no erro de imitar a inimitável cantora, Lilian põe sua voz e sua alma nesse repertório de grandes canções, afinada com sofisticada direção musical de Marcelo Alonso Neves, hábil ao arregimentar para a cena um quarteto de baixo (Berval Moraes), bateria (Emile Saubole), saxofone (Gabriel Gabriel) e piano (Rodrigo de Marsillac) capaz de evocar a íntima atmosfera jazzística dos night-clubs e boates em que Billie se apresentou em seu início de carreira. Habituada a brilhar em músicas pautadas pela intensidade dramática, Lilian também surpreende em cena ao ostentar apurado senso rítmico em números de clima mais suave como Night and day (Cole Porter, 1932) - usada no roteiro para exemplificar o sucesso de Billie em sua primeira turnê pela Europa - e All of me (Gerald Marks e Seymour Simons, 1931), número em que brilha também a atriz Vilma Melo no papel da dançarina que tenta roubar a cena de Billie. Vilma, a propósito, está muito bem nas diversas personagens que encarna ao longo do espetáculo, incluindo a mãe de Billie e a camareira que acode a estrela em suas crises de abstinência e nas adversidades existenciais. Mas Lilian Valeska - vista em cena em imagem extraída de vídeo da TV Globo - é senhora absoluta da cena nos números musicais. E são eles, os números musicais, que legitimam este musical de tom narrativo. O texto de Jau Sant'Angelo - assinado com Ticiana Studart, diretora do espetáculo - prioriza à narração em detrimento da ação. Há, sim, dramatizações de passagens importantes da vida de Billie, mas a trajetória trágica dessa cantora de temperamento tão forte quanto suas interpretações é essencialmente contada de forma narrativa. Cabe ao elenco - completado por Milton Filho, ator que se reveza nos papéis dos homens (quase todos cafajestes) que ajudaram Lady Day a se afundar no universo das drogas - narrar em ordem cronológica a vida de Billie Holiday em relatos secos, feitos com a objetividade de um texto jornalístico. A opção pela narração impede que Amargo fruto tenha dramaticidade condizente com a existência da artista. Contudo, a direção de Ticiana Studart faz com que o espetáculo seja conduzido com fluência. O drama, por vezes, está mais nas músicas cantadas por Lilian - como a que batiza o espetáculo na tradução em português, Strange fruit (Abel Meeropol, 1939) - do que no texto em si. Aliás, funciona bem o recurso de traduzir para o português e recitar os versos poéticos de Strange fruit, poema que denuncia o racismo que violentou negros norte-americanos na primeira metade do século XX, antes de Lilian cantar a música com a letra original em inglês. Distante do padrão Broadway, Amargo fruto é musical sustentado pelo talento vocal de Lilian Valeska. Não é fácil cantar músicas como Lady sings the blues (Herbie Nichols e Billie Holiday, 1956), Speak low (Kurt Weill e Ogden Nash, 1943) e Summertime (George Gershwin e DuBose Heyward, 1935) - número que fecha o roteiro musical - com propriedade e sem sair do tom que remete à atmosfera de Billie. Os arranjos estão dentro do clima, mas se desprendem dos originais. Sem procurar mimetizar Billie Holiday em cena, Lilian Valeska honra o genial repertório reunido para compor o roteiro do musical. A grande cantora é bem maior do que o espetáculo em si e vale o ingresso para ver Amargo fruto.

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Disco em que Leila canta Billie espera liberação da Justiça para ser vendido

Por força das circunstâncias, o álbum em que a cantora carioca Leila Maria dá sua voz privilegiada e bela a músicas do repertório de Billie Holiday (1915 - 1959) talvez seja enfim lançado neste ano de 2015 em que o universo pop festeja o centenário de nascimento da cantora norte-americana de jazz. O disco Leila Maria canta Billie Holiday in Rio foi gravado e fabricado entre 2012 e 2013 com produção do pianista, compositor e arranjador Paulo Midosi. Só que continua aguardando aval da Justiça para ser comercializado porque o CD ficou vinculado ao espólio de um empresário do Norte do Brasil que patrocinou a gravação do disco, mas que faleceu antes da comercialização da primeira tiragem do CD, laureado na edição de 2014 do Prêmio da Música Brasileira na categoria Melhor álbum em língua estrangeira mesmo sem edição comercial. Tão logo se resolva a questão jurídica, a gravadora Biscoito Fino lançará o álbum em que Leila Maria canta o repertório de Billie Holiday com sua rara voz jazzística.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Leila Maria finaliza no Rio álbum com músicas do repertório de Billie Holiday

♪ Cinco anos depois de dar voz a repertório de natureza supostamente gay no CD Canções do amor de iguais (Deck, 2007), a cantora carioca Leila Maria finalizou no Rio de Janeiro (RJ) as gravações de seu quarto álbum, Leila Maria canta Billie - Holiday in Rio. Como o título já explicita, a artista interpreta somente músicas do repertório da cantora norte-americana de jazz Billie Holiday (1915 - 1959). Bancado por mecenas nortista, o disco inclui Swing brother, swing (Lewis Raymond, Walter Bishop e Clarence Williams, 1936), um dos standards imortalizados na bela voz de Lady Day.