Mauro Ferreira no G1

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terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Aline Paes chega - bem - no Brasil de fés, festejos, batuques e canções

Resenha de CD
Título: Batucada canção
Artista: Aline Paes
Gravadora: Biscoito Fino
Cotação: * * * *

"Eu cheguei agora / Foi agora que eu cheguei foi pra vadiar", anuncia a carioca Aline Paes através de versos de Congo vadio (Bernardo Aguiar), tema que compõe com tradicionais sambas de roda o pot-pourri Chegada, quarta das 11 faixas de seu primeiro excelente álbum solo. Primeiro lançamento da gravadora Biscoito Fino neste ano de 2015, o CD Batucada canção revela cantora igualmente excelente, dona de canto quente, seguro e extremamente afinado. Em cena desde 2009, ano em que debutou nos palcos com o show solo Noite aberta, Aline Paes venceu o I Prêmio Divas da Música Brasileira em 2010, ano em que também se juntou a outras intérpretes para dar voz à obra do compositor Pedro Ivo Frota em show que gerou o CD coletivo Leve o porto - Mulheres que cantam Pedro Ivo (Tundum, 2010). Cinco anos depois, o lançamento de Batucada canção mostra uma cantora com voz, técnica, personalidade e identidade artística, pronta para se fazer ouvir neste Brasil de fés, festejos, batuques e canções. É sobre esse Brasil caboclo e de barro, poetizado por Paulo César Feital em Destoada - parceria com Guinga lançada por Feital em 2004 e ora revivida por Aline - que Batucada canção se debruça com a intenção de aliar o calor dos batuques nacionais ao lirismo das canções. Valorizado pela direção musical de Bernardo Aguiar, percussionista que produziu o álbum em parceria com a própria Aline Paes, Batucada canção é disco enraizado na tradições percussivas da música brasileira. Músicas como Malunguinho (Guitinho da Xambá), Quando o lampião apaga (Pedro Ivo e Diogo Brandão) - introduzida por citação de Acorda, Maria Bonita, tema de autoria atribuída ao cangaceiro sergipano Volta Seca (1911 - 1997), do bando de Lampião (1897 - 1938) - e Festejo e fé (Marcelo Fedrá e Frederico Demarca) enfatizam a opção corajosa da cantora por dar voz a compositores identificados com a música desse Brasil já quase folclórico. Festejo e fé, a propósito, tem citação de Alvoradinha, cantiga tradicional da festa maranhense do Divino Espírito Santo. Alocada na abertura do disco, a sagaz regravação de Zera a reza (Caetano Veloso, 2000) - samba em que Caetano Veloso dá engenhosa visão lírica do Brasil barroco de amor, festa e devoção aos deuses - apresenta, de cara, cantora apta a surpreender e a driblar o óbvio na escolha de seu repertório. "Pé descalço no chão / Misturei pó e pé / Poesia invenção / Como um laço de fé", sacoleja Aline em versos de Roda de dança (Manuela Trindade e Lucio Sanfilippo). A cantora não é óbvia mesmo quando se debruça eventualmente sobre um standard da MPB, como Quem vem pra beira do mar (Dorival Caymmi, 1954), canção praieira lindamente entoada por Aline quase a capella, somente com o toque da harmônica de Gabriel Grossi. O clássico de Caymmi se alinha naturalmente no disco em link marítimo com a ciranda As mãos de Yemanjá (de Pedro Ivo com Diego Brandão). Cantoras como Aline Paes são ideais para dar vazão e voz às obras de compositores como Thiago Amud, de quem a intérprete revive De ponta a ponta tudo é praia-palma (2013), música-título do segundo álbum do ótimo Amud. Enfim, não é todo dia que surge na música brasileira uma cantora segura como Aline Paes, voz que entra na roda e chega para ficar neste país de cantoras.

6 comentários:

Mauro Ferreira disse...

♪ "Eu cheguei agora / Foi agora que eu cheguei foi pra vadiar", anuncia a carioca Aline Paes através de versos de Congo vadio (Bernardo Aguiar), tema que compõe com tradicionais sambas de roda o pot-pourri Chegada, quarta das 11 faixas de seu primeiro excelente álbum solo. Primeiro lançamento da gravadora Biscoito Fino neste ano de 2015, o CD Batucada canção revela cantora igualmente excelente, dona de canto quente, seguro e extremamente afinado. Em cena desde 2009, ano em que debutou nos palcos com o show solo Noite aberta, Aline Paes venceu o I Prêmio Divas da Música Brasileira em 2010, ano em que também se juntou a outras intérpretes para dar voz à obra do compositor Pedro Ivo Frota em show que gerou o CD coletivo Leve o porto - Mulheres que cantam Pedro Ivo (Tundum, 2010). Cinco anos depois, o lançamento de Batucada canção mostra uma cantora com voz, técnica, personalidade e identidade artística pronta para se fazer ouvir neste Brasil de fés, festejos, batuques e canções. É sobre esse Brasil caboclo e de barro, poetizado por Paulo César Feital em Destoada - parceria com Guinga lançada por Feital em 2004 e ora revivida por Aline - que Batucada canção se debruça com a intenção de aliar o calor dos batuques nacionais ao lirismo das canções. Valorizado pela direção musical de Bernardo Aguiar, percussionista que produziu o álbum em parceria com a própria Aline Paes, Batucada canção é disco enraizado na tradições percussivas da música brasileira. Músicas como Malunguinho (Guitinho da Xambá), Quando o lampião apaga (Pedro Ivo e Diogo Brandão) - introduzida por citação de Acorda, Maria Bonita, tema de autoria atribuída ao cangaceiro sergipano Volta Seca (1911 - 1997), do bando de Lampião (1897 - 1938) - e Festejo e fé (Marcelo Fedrá e Frederico Demarca) enfatizam a opção corajosa da cantora por dar voz a compositores identificados com a música desse Brasil já quase folclórico. Festejo e fé, a propósito, tem citação de Alvoradinha, cantiga tradicional da festa maranhense do Divino Espírito Santo. Alocada na abertura do disco, a sagaz regravação de Zero a reza (Caetano Veloso, 2000) - samba em que Caetano Veloso dá engenhosa visão lírica do Brasil barroco de amor, festa e devoção aos deuses - apresenta uma cantora apta a surpreender e a driblar o óbvio na escolha de seu repertório. "Pé descalço no chão / Misturei pó e pé / Poesia invenção / Como um laço de fé", canta Aline em versos de Roda de dança (Manuela Trindade e Lucio Sanfilippo). A cantora não é óbvia mesmo quando se debruça eventualmente sobre um standard da MPB, como Quem vem pra beira do mar (Dorival Caymmi, 1954), canção praieira lindamente entoada por Aline quase a capella, somente com o toque da harmônica de Gabriel Grossi. O clássico de Caymmi se alinha naturalmente no disco em link marítimo com a ciranda As mãos de Yemanjá (Pedro Ivo e Diego Brandão). Cantoras como Aline Paes são ideais para dar vazão e voz às obras de compositores como Thiago Amud, de quem a intérprete revive De ponta a ponta tudo é praia-palma (2013), música-título do segundo álbum do ótimo Amud. Enfim, não é todo dia que surge na música brasileira uma cantora segura como Aline Paes, voz que entra na roda e chega para ficar neste país de cantoras.

Luca disse...

ih, esse tipo de disco costuma ser chaaaatoooo demais...

Rafael M. disse...

Adorei a versão que ela fez para "Zera A Reza".

Mauro Silva disse...

A capa deste CD, lembra bem a capa de "Norma Bengell,canta Mulheres" de 1977.

CelloPiazza disse...

disco ótimo... opinar sem ouvir é tão fácil...

Ricardo Santos disse...

Que preciosidade. Tem gente que prefere Kelly Key e/ou Anitta. Fazer-o-quê?