Mauro Ferreira no G1

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terça-feira, 10 de março de 2015

Aline confirma em cena apuro de disco solo e gera 'grãozinho' que ficará

Resenha de show
Título: Batucada canção
Artista: Aline Paes (em foto de Mauro Ferreira)
Local: Teatro do Solar de Botafogo (Rio de Janeiro, RJ)
Data: 7 de março de 2015
Cotação: * * * *

♪ Convidado especial do show em que Aline Paes lançou seu primeiro álbum solo, Batucada canção, o flautista Carlos Malta cometeu ato falho ao elogiar em cena a cantora carioca. Malta se disse feliz por saber que a música brasileira já tinha uma bela voz "no século XX". De fato, o repertório dessa excelente cantora - voltado para o Brasil barroco de festejos, batuques e fés - faz mesmo supor que Aline Paes é uma voz do século passado. Ao menos para ouvidos urbanos já habituados aos sons e às maravilhas contemporâneas do universo pop do século XXI. Tanto no disco quanto no show, apresentado em 7 de março de 2015 no teatro do Solar de Botafogo para uma plateia lotada por amigos, Aline faz a festa dos ancestrais, seja cantando um afro-samba de Baden Powell (1937 - 2000) e Vinicius de Moraes (1913 - 1980), Canto de Xangô (1966), seja mostrando as músicas de acento quase folclórico de seu personalíssimo primeiro álbum, lançado pela gravadora Biscoito Fino neste primeiro trimestre de 2015. Festa dos ancestrais, aliás, é o nome da inédita música do compositor mineiro Luiz Nascimento, novidade do roteiro aberto com Roda de dança (Manuela Trindade e Lúcio Sanfilippo, 2015), de cuja letra foi extraído o título Batucada canção.  Em cena, Aline Paes confirmou as qualidades perenes de seu surpreendente disco solo. É cantora de técnica firme e de personalidade artística forte, qualidades às quais alia segurança e desenvoltura na cena. Basta dizer que sua abordagem de Zera a reza (2000) - samba em que o compositor baiano Caetano Veloso dá engenhosa visão lírica desse Brasil barroco de amor, festa e devoção aos deuses - expôs no palco e no disco a beleza da composição, meio embaçada no registro original do próprio Caetano. Fora do universo pop, Aline dá voz a um Brasil já quase riscado do mapa urbano. Mas há um frescor no seu canto e no toque de seus músicos - perceptível no solo do violão de André Siqueira, luz de Quando o lampião apaga (Pedro Ivo e Diogo Brandão, 2015) - que faz com que a música da cantora soe mais tradicional do que antiga. Mas o Brasil de Aline Paes é o Brasil romantizado de Jobins, sabiás e confins, como poetiza Paulo César Feital nos versos de Destoada (2004), sua parceria com Guinga revivida em cena por Aline com o sopro do flautista Carlos Malta, apresentado ao público como "escultor do vento". Ao tocar sua flauta de bambu, Malta de fato arejou Destoada, soprando o vento que, já sem Malta, também bafejou a canção praieira Quem vem pra beira do mar (Dorival Caymmi, 1954), lindamente entoada por Aline somente com o toque virtuoso da gaita de Gabriel Grossi, outro convidado especial da apresentação. Os vocalises da cantora valorizaram o número. Ainda que o show tenha forte base percussiva para sustentar músicas como Festejo e fé (Marcelo Fedrá e Frederico Demarca, 2015), tema também levado na batida do baião, Batucada canção abarca números de instrumental mais minimalista. De ponta a ponta tudo é praia palma (2013) - música de Thiago Amud que há dois anos deu título ao segundo álbum desse talentoso compositor carioca - se bastou somente com a voz de Aline e o violão de André Siqueira. Em clima de samba-repente, Malunguinho (Guitinho da Xambá, 2013) fez sobressair o toque do pandeiro de Bernardo Aguiar, parceiro de Aline na produção do disco e arquiteto da sonoridade nacionalista de Batucada canção. Fora das fronteiras brasileiras, Petit Pays (Fernando da Cruz, 1999) louvou Cabo Verde, país africano que a cantora Cesaria Évora (1941 - 2011) pôs no mapa-múndi musical. No bis, Aline Paes ampliou o leque estético de seu repertório, indo além do disco que inspirou o show. No medley que juntou o choro Teco teco (Pereira Costa e Milton Vilela, 1950) com o samba sincopado O que vier eu traço (Alvaiade e Zé Maria, 1945), sucessos na voz ágil da cantora potiguar Ademilde Fonseca (1921 - 2012), Aline mostrou insuspeita destreza no canto de músicas que não são para uma qualquer. Ali foram somente ela e o pandeiro sagaz de Bernardo Aguiar. E o senso rítmico da cantora se mostrou impecável. No fim, com a banda e com os convidados de volta à cena, a cantora ainda acertou o passo do Frevo de Itamaracá (1970), tema menos ouvido do cancioneiro magistral do compositor carioca Edu Lobo. Tais escolhas de repertório, a propósito, reiteraram a segurança de Aline Paes na arte de cantar. Emocionada nos agradecimentos, a artista disse que, com o disco e show Batucada canção, tivera a intenção de criar um "primeiro grãozinho" que ficasse na Terra. Pelo visto e ouvido no palco do teatro do Solar de Botafogo, na noite de 7 de março de 2015, esse grãozinho tem tudo para germinar e torná-la uma cantora de renome nacional.

Aline Paes cai no choro (e no samba) em show que teve sopro de Malta

♪ Aline Paes caiu duplamente no choro ao longo do show de lançamento de seu primeiro álbum, Batucada canção (Biscoito Fino, 2015), apresentado na noite de sábado, 7 de março de 2015, no teatro do Solar de Botafogo, no Rio de Janeiro (RJ), cidade natal dessa cantora de técnica exemplar. A artista caiu no choro ao se emocionar durante os agradecimentos e também ao voltar para o bis, quando reviveu - a sós com o pandeiro de Bernardo Aguiar - o choro Teco teco (Pereira Costa e Milton Vilela, 1950) e o samba sincopado O que vier eu traço (Alvaiade e Zé Maria, 1945) em medley que atestou seu apurado senso rítmico e agilidade vocal. Além desses dois sucessos da cantora potiguar Ademilde Fonseca (1921 - 2012), Aline Paes caiu no afro-samba Canto de Xangô (Baden Powell e Vinicius de Moraes, 1966) e acertou o passo do Frevo de Itamaracá (Edu Lobo, 1970) já na companhia da banda e dos músicos convidados como o gaitista Gabriel Grossi e o flautista Carlos Malta (visto com Aline na foto de Mauro Ferreira). Malta, aliás, foi liricamente caracterizado como o "escultor do vento" ao ser convidado pela cantora para entrar em cena. Contudo, apesar da diversidade do repertório do bis, o show teve roteiro centrado no repertório brasileiríssimo de Batucada canção, álbum (produzido por Aline e Bernardo Aguiar) em que a cantora dá voz a um Brasil barroco de festejos e fés. Eis o roteiro seguido em 7 de março de 2105 por Aline Paes na estreia do show Batucada canção, no Solar de Botafogo, no Rio de Janeiro (RJ):

1. Roda de dança (Manuela Trindade e Lucio Sanfilippo, 2015) /
2. Eu cheguei agora (tema de domínio público) /
3. Congo vadio (Bernardo Aguiar, 2015)
4. Zera a reza (Caetano Veloso, 2000)
5. Festejo e fé (Marcelo Fedrá e Frederico Demarca, 2015)
6. Quando o lampião apaga (Pedro Ivo e Diogo Brandão, 2015)
7. Ribeirinho (Pedro Ivo e Marcelo Fedrá)
8. Destoada (Guinga e Paulo César Feital, 2004) - com Carlos Malta
9. De ponta a ponta tudo é praia-palma (Thiago Amud, 2013)
10. Flor voadeira (Marcelo Fedrá, Renato Frazão e Lucas Dain, 2015)
11. As mãos de Yemanjá (Pedro Ivo e Diogo Brandão, 2015)
12. Quem vai pra beira do mar (Dorival Caymmi, 1954) - com Gabriel Grossi
13. Malunguinho (Guitinho da Xambá, 2013)
14. Festa dos ancestrais (Luiz Nascimento) - música inédita em disco
15. Petit Pays (Fernando da Cruz, 1999)
Bis:
16. Teco teco (Pereira Costa e Milton Vilela, 1950) /
17. O que vier eu traço (Alvaiade e Zé Maria, 1945)
18. Canto de Xangô (Baden Powell e Vinicius de Moraes, 1966)
19. Frevo de Itamaracá (Edu Lobo, 1970)

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Aline Paes chega - bem - no Brasil de fés, festejos, batuques e canções

Resenha de CD
Título: Batucada canção
Artista: Aline Paes
Gravadora: Biscoito Fino
Cotação: * * * *

♪ "Eu cheguei agora / Foi agora que eu cheguei foi pra vadiar", anuncia a carioca Aline Paes através de versos de Congo vadio (Bernardo Aguiar), tema que compõe com tradicionais sambas de roda o pot-pourri Chegada, quarta das 11 faixas de seu primeiro excelente álbum solo. Primeiro lançamento da gravadora Biscoito Fino neste ano de 2015, o CD Batucada canção revela cantora igualmente excelente, dona de canto quente, seguro e extremamente afinado. Em cena desde 2009, ano em que debutou nos palcos com o show solo Noite aberta, Aline Paes venceu o I Prêmio Divas da Música Brasileira em 2010, ano em que também se juntou a outras intérpretes para dar voz à obra do compositor Pedro Ivo Frota em show que gerou o CD coletivo Leve o porto - Mulheres que cantam Pedro Ivo (Tundum, 2010). Cinco anos depois, o lançamento de Batucada canção mostra uma cantora com voz, técnica, personalidade e identidade artística, pronta para se fazer ouvir neste Brasil de fés, festejos, batuques e canções. É sobre esse Brasil caboclo e de barro, poetizado por Paulo César Feital em Destoada - parceria com Guinga lançada por Feital em 2004 e ora revivida por Aline - que Batucada canção se debruça com a intenção de aliar o calor dos batuques nacionais ao lirismo das canções. Valorizado pela direção musical de Bernardo Aguiar, percussionista que produziu o álbum em parceria com a própria Aline Paes, Batucada canção é disco enraizado na tradições percussivas da música brasileira. Músicas como Malunguinho (Guitinho da Xambá), Quando o lampião apaga (Pedro Ivo e Diogo Brandão) - introduzida por citação de Acorda, Maria Bonita, tema de autoria atribuída ao cangaceiro sergipano Volta Seca (1911 - 1997), do bando de Lampião (1897 - 1938) - e Festejo e fé (Marcelo Fedrá e Frederico Demarca) enfatizam a opção corajosa da cantora por dar voz a compositores identificados com a música desse Brasil já quase folclórico. Festejo e fé, a propósito, tem citação de Alvoradinha, cantiga tradicional da festa maranhense do Divino Espírito Santo. Alocada na abertura do disco, a sagaz regravação de Zera a reza (Caetano Veloso, 2000) - samba em que Caetano Veloso dá engenhosa visão lírica do Brasil barroco de amor, festa e devoção aos deuses - apresenta, de cara, cantora apta a surpreender e a driblar o óbvio na escolha de seu repertório. "Pé descalço no chão / Misturei pó e pé / Poesia invenção / Como um laço de fé", sacoleja Aline em versos de Roda de dança (Manuela Trindade e Lucio Sanfilippo). A cantora não é óbvia mesmo quando se debruça eventualmente sobre um standard da MPB, como Quem vem pra beira do mar (Dorival Caymmi, 1954), canção praieira lindamente entoada por Aline quase a capella, somente com o toque da harmônica de Gabriel Grossi. O clássico de Caymmi se alinha naturalmente no disco em link marítimo com a ciranda As mãos de Yemanjá (de Pedro Ivo com Diego Brandão). Cantoras como Aline Paes são ideais para dar vazão e voz às obras de compositores como Thiago Amud, de quem a intérprete revive De ponta a ponta tudo é praia-palma (2013), música-título do segundo álbum do ótimo Amud. Enfim, não é todo dia que surge na música brasileira uma cantora segura como Aline Paes, voz que entra na roda e chega para ficar neste país de cantoras.