Mauro Ferreira no G1

Aviso aos navegantes: desde 6 de julho de 2016, o jornalista Mauro Ferreira atualiza diariamente uma coluna sobre o mercado fonográfico brasileiro no portal G1. Clique aqui para acessar a coluna. O endereço é http://g1.globo.com/musica/blog/mauro-ferreira/


terça-feira, 10 de março de 2015

Aline confirma em cena apuro de disco solo e gera 'grãozinho' que ficará

Resenha de show
Título: Batucada canção
Artista: Aline Paes (em foto de Mauro Ferreira)
Local: Teatro do Solar de Botafogo (Rio de Janeiro, RJ)
Data: 7 de março de 2015
Cotação: * * * *

Convidado especial do show em que Aline Paes lançou seu primeiro álbum solo, Batucada canção, o flautista Carlos Malta cometeu ato falho ao elogiar em cena a cantora carioca. Malta se disse feliz por saber que a música brasileira já tinha uma bela voz "no século XX". De fato, o repertório dessa excelente cantora - voltado para o Brasil barroco de festejos, batuques e fés - faz mesmo supor que Aline Paes é uma voz do século passado. Ao menos para ouvidos urbanos já habituados aos sons e às maravilhas contemporâneas do universo pop do século XXI. Tanto no disco quanto no show, apresentado em 7 de março de 2015 no teatro do Solar de Botafogo para uma plateia lotada por amigos, Aline faz a festa dos ancestrais, seja cantando um afro-samba de Baden Powell (1937 - 2000) e Vinicius de Moraes (1913 - 1980), Canto de Xangô (1966), seja mostrando as músicas de acento quase folclórico de seu personalíssimo primeiro álbum, lançado pela gravadora Biscoito Fino neste primeiro trimestre de 2015. Festa dos ancestrais, aliás, é o nome da inédita música do compositor mineiro Luiz Nascimento, novidade do roteiro aberto com Roda de dança (Manuela Trindade e Lúcio Sanfilippo, 2015), de cuja letra foi extraído o título Batucada canção.  Em cena, Aline Paes confirmou as qualidades perenes de seu surpreendente disco solo. É cantora de técnica firme e de personalidade artística forte, qualidades às quais alia segurança e desenvoltura na cena. Basta dizer que sua abordagem de Zera a reza (2000) - samba em que o compositor baiano Caetano Veloso dá engenhosa visão lírica desse Brasil barroco de amor, festa e devoção aos deuses - expôs no palco e no disco a beleza da composição, meio embaçada no registro original do próprio Caetano. Fora do universo pop, Aline dá voz a um Brasil já quase riscado do mapa urbano. Mas há um frescor no seu canto e no toque de seus músicos - perceptível no solo do violão de André Siqueira, luz de Quando o lampião apaga (Pedro Ivo e Diogo Brandão, 2015) - que faz com que a música da cantora soe mais tradicional do que antiga. Mas o Brasil de Aline Paes é o Brasil romantizado de Jobins, sabiás e confins, como poetiza Paulo César Feital nos versos de Destoada (2004), sua parceria com Guinga revivida em cena por Aline com o sopro do flautista Carlos Malta, apresentado ao público como "escultor do vento". Ao tocar sua flauta de bambu, Malta de fato arejou Destoada, soprando o vento que, já sem Malta, também bafejou a canção praieira Quem vem pra beira do mar (Dorival Caymmi, 1954), lindamente entoada por Aline somente com o toque virtuoso da gaita de Gabriel Grossi, outro convidado especial da apresentação. Os vocalises da cantora valorizaram o número. Ainda que o show tenha forte base percussiva para sustentar músicas como Festejo e fé (Marcelo Fedrá e Frederico Demarca, 2015), tema também levado na batida do baião, Batucada canção abarca números de instrumental mais minimalista. De ponta a ponta tudo é praia palma (2013) - música de Thiago Amud que há dois anos deu título ao segundo álbum desse talentoso compositor carioca - se bastou somente com a voz de Aline e o violão de André Siqueira. Em clima de samba-repente, Malunguinho (Guitinho da Xambá, 2013) fez sobressair o toque do pandeiro de Bernardo Aguiar, parceiro de Aline na produção do disco e arquiteto da sonoridade nacionalista de Batucada canção. Fora das fronteiras brasileiras, Petit Pays (Fernando da Cruz, 1999) louvou Cabo Verde, país africano que a cantora Cesaria Évora (1941 - 2011) pôs no mapa-múndi musical. No bis, Aline Paes ampliou o leque estético de seu repertório, indo além do disco que inspirou o show. No medley que juntou o choro Teco teco (Pereira Costa e Milton Vilela, 1950) com o samba sincopado O que vier eu traço (Alvaiade e Zé Maria, 1945), sucessos na voz ágil da cantora potiguar Ademilde Fonseca (1921 - 2012), Aline mostrou insuspeita destreza no canto de músicas que não são para uma qualquer. Ali foram somente ela e o pandeiro sagaz de Bernardo Aguiar. E o senso rítmico da cantora se mostrou impecável. No fim, com a banda e com os convidados de volta à cena, a cantora ainda acertou o passo do Frevo de Itamaracá (1970), tema menos ouvido do cancioneiro magistral do compositor carioca Edu Lobo. Tais escolhas de repertório, a propósito, reiteraram a segurança de Aline Paes na arte de cantar. Emocionada nos agradecimentos, a artista disse que, com o disco e show Batucada canção, tivera a intenção de criar um "primeiro grãozinho" que ficasse na Terra. Pelo visto e ouvido no palco do teatro do Solar de Botafogo, na noite de 7 de março de 2015, esse grãozinho tem tudo para germinar e torná-la uma cantora de renome nacional.

5 comentários:

Mauro Ferreira disse...

♪ Convidado especial do show em que Aline Paes lançou seu primeiro álbum solo, Batucada canção, o flautista Carlos Malta cometeu ato falho ao elogiar em cena a cantora carioca. Malta se disse feliz por saber que a música brasileira já tinha uma bela voz "no século XX". De fato, o repertório dessa excelente cantora - voltado para o Brasil barroco de festejos, batuques e fés - faz mesmo supor que Aline Paes é uma voz do século passado. Ao menos para ouvidos urbanos já habituados aos sons e às maravilhas contemporâneas do universo pop do século XXI. Tanto no disco quanto no show, apresentado em 7 de março de 2015 no teatro do Solar de Botafogo para uma plateia lotada por amigos, Aline faz a festa dos ancestrais, seja cantando um afro-samba de Baden Powell (1937 - 2000) e Vinicius de Moraes (1913 - 1980), Canto de Xangô (1966), seja mostrando as músicas de acento quase folclórico de seu personalíssimo primeiro álbum, lançado pela gravadora Biscoito Fino neste primeiro trimestre de 2015. Festa dos ancestrais, aliás, é o nome da inédita música do compositor mineiro Luiz Nascimento, novidade do roteiro aberto com Roda de dança (Manuela Trindade e Lúcio Sanfilippo, 2015), de cuja letra foi extraído o título Batucada canção. Em cena, Aline Paes confirmou as qualidades perenes de seu surpreendente disco solo. É cantora de técnica firme e de personalidade artística forte, qualidades às quais alia segurança e desenvoltura na cena. Basta dizer que sua abordagem de Zera a reza (2000) - samba em que o compositor baiano Caetano Veloso dá engenhosa visão lírica desse Brasil barroco de amor, festa e devoção aos deuses - expôs no palco e no disco a beleza da composição, meio embaçada no registro original do próprio Caetano. Fora do universo pop, Aline dá voz a um Brasil já quase riscado do mapa urbano. Mas há um frescor no seu canto e no toque de seus músicos - perceptível no solo do violão de André Siqueira, luz de Quando o lampião apaga (Pedro Ivo e Diogo Brandão, 2015) - que faz com que a música da cantora soe mais tradicional do que antiga. Mas o Brasil de Aline Paes é o Brasil romantizado de Jobins, sabiás e confins, como poetiza Paulo César Feital nos versos de Destoada (2004), sua parceria com Guinga revivida em cena por Aline com o sopro do flautista Carlos Malta, apresentado ao público como "escultor do vento". Ao tocar sua flauta de bambu, Malta de fato arejou Destoada, soprando o vento que, já sem Malta, também bafejou a canção praieira Quem vem pra beira do mar (Dorival Caymmi, 1954), lindamente entoada por Aline somente com o toque virtuoso da gaita de Gabriel Grossi, outro convidado especial da apresentação. Os vocalises da cantora valorizaram o número.

Mauro Ferreira disse...

Ainda que o show tenha forte base percussiva para sustentar músicas como Festejo e fé (Marcelo Fedrá e Frederico Demarca, 2015), tema também levado na batida do baião, Batucada canção abarca números de instrumental mais minimalista. De ponta a ponta tudo é praia palma (2013) - música de Thiago Amud que há dois anos deu título ao segundo álbum desse talentoso compositor carioca - se bastou somente com a voz de Aline e o violão de André Siqueira. Em clima de samba-repente, Malunguinho (Guitinho da Xambá, 2013) fez sobressair o toque do pandeiro de Bernardo Aguiar, parceiro de Aline na produção do disco e arquiteto da sonoridade nacionalista de Batucada canção. Fora das fronteiras brasileiras, Petit Pays (Fernando da Cruz, 1999) louvou Cabo Verde, país africano que a cantora Cesaria Évora (1941 - 2011) pôs no mapa-múndi musical. No bis, Aline Paes ampliou o leque estético de seu repertório, indo além do disco que inspirou o show. No medley que juntou o choro Teco teco (Pereira Costa e Milton Vilela, 1950) com o samba sincopado O que vier eu traço (Alvaiade e Zé Maria, 1945), sucessos na voz ágil da cantora potiguar Ademilde Fonseca (1921 - 2012), Aline mostrou insuspeita destreza no canto de músicas que não são para uma qualquer. Ali foram somente ela e o pandeiro sagaz de Bernardo Aguiar. E o senso rítmico da cantora se mostrou impecável. No fim, com a banda e com os convidados de volta à cena, a cantora ainda acertou o passo do Frevo de Itamaracá (1970), tema menos ouvido do cancioneiro magistral do compositor carioca Edu Lobo. Tais escolhas de repertório, a propósito, reiteraram a segurança de Aline Paes na arte de cantar. Emocionada nos agradecimentos, a artista disse que, com o disco e show Batucada canção, tivera a intenção de criar um "primeiro grãozinho" que ficasse na Terra. Pelo visto e ouvido no palco do teatro do Solar de Botafogo, na noite de 7 de março de 2015, esse grãozinho tem tudo para germinar e torná-la uma cantora de renome nacional.

Denilson Santos disse...

Que linda resenha.
Muito bom saber que ainda há espaço para uma grande cantora nesse país.
Abração
Denilson

Rafael M. disse...

Aline Paes tem uma voz lindíssima. Espero que sua carreira seja recheada de sucessos.

Clayton Moreira disse...

"O escultor do vento" não é criação de Aline Paes e sim o nome de um disco lançado por Carlos Malta em 1998.