Mauro Ferreira no G1

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segunda-feira, 30 de março de 2015

Elba lança seu 33º álbum, 'Do meu olhar pra fora', editado via Coqueiro Verde

Com 12 músicas, selecionadas entre as cerca de 20 gravadas com produção de Luã Mattar e Yuri Queiroga, o 33º álbum da discografia oficial de Elba Ramalho, Do meu olhar pra fora, já está disponível no mercado fonográfico brasileiro com distribuição da Coqueiro Verde Records. A convite da cantora e da gravadora, o editor de Notas Musicais, Mauro Ferreira, assina o texto que apresenta o disco aos críticos e aos formadores de opinião. Trata-se do release, no jargão da imprensa. Eis o texto:

A visão livre de Elba Ramalho nos caminhos da música

Em um de seus melhores e mais arrojados discos, Do meu olhar pra fora, cantora exterioriza humanismo positivista com som pop contemporâneo formatado pelos produtores Luã Mattar e Yuri Queiroga

“O meu andar pelo mundo
É um andar bem profundo
Vai onde tem um forró
Uma alegria, uma dança
Meu coração não se cansa
De uma festa encontrar...”

Os versos iniciais da primeira das 12 músicas do 33º álbum da discografia oficial de Elba Ramalho, Do meu olhar pra fora, sintetizam a caminhada desta grande cantora do Brasil. Intitulada Olhando o coração, a música é uma parceria inédita de Dominguinhos (1941 – 2013) com Climério Ferreira que parece feita sob medida para o canto valente da Leoa do Norte. Olhando o coração é um perfeito cartão de visitas para introduzir este disco que marca a estreia de Elba na gravadora Coqueiro Verde Records. O acordeom de Rafael Meninão se harmoniza com as batidas eletrônicas do DJ Dolores e com os pífanos de Dirceu Leite num arranjo que remete ao balanço de ritmos como xote e baião com pegada pop contemporânea.

Mantida na pressão, essa sonoridade pop contemporânea é mérito do carioca Luã Mattar e do pernambucano Yuri Queiroga, os dois produtores que formataram Do meu olhar pra fora no estúdio Gigante de pedra, na cidade do Rio de Janeiro (RJ). Fruto da união de Elba com o ator e cantor Maurício Mattar, Luã cresceu e agora aparece como um produtor antenado, cheio de jovialidade e de  informações cruzadas com a de Yuri, que já havia trabalhado com Elba num dos álbuns da cantora mais aclamados pela crítica, Qual o assunto que mais lhe interessa?, de 2007. A sintonia entre a cantora e os produtores afinou um dos melhores e mais arrojados discos de Elba.

O título do álbum – Do meu olhar pra fora, extraído de versos da canção É o que me interessa (Lenine e Dudu Falcão, 2008) – traduz com precisão o espírito do disco e o momento de maturidade, de colheita, que pauta o canto livre de Elba. Feito com liberdade, palavra-chave para o entendimento desse trabalho, Do meu olhar pra fora expande o legado dessa celebrada intérprete de veia teatral que carrega a bandeira do seu Nordeste com orgulho e com independência desde os anos 1970, década em que migrou da Paraíba natal para a cidade do Rio de Janeiro (RJ) em busca de maior projeção como cantora. Mas que há muito já ficou maior do que o Nordeste.

Com as raízes fincadas na terra de Elba, mas com as antenas ligadas no mundo, Do meu olhar pra fora exterioriza o humanismo positivista que caracteriza não somente o canto da intérprete, mas também o discurso e a postura da cidadã diante da vida e do universo. Elba tem pregado sua fé católica no Bem e nos homens de bem. Sem procurar catequizar seu imenso público, a cantora vem imprimindo na sua música a harmonia e a paz que regem sua vida dentro e fora dos palcos e dos estúdios.

Mas paz, no dicionário de Elba, rima com festa, com dança, com alegria de viver. Formatado com gravações adicionais em estúdios de São Paulo (SP), Olinda (PE) e Recife (PE), Do meu olhar pra fora não nega a força de sua raça. “Vou fazê, vou fazê / Música pra enriquecer / Os corações e o planeta”, dá a pista nos versos arretados de Fazê o quê? (Pedro Luís), música lançada pelo coletivo carioca Pedro Luís e a Parede em seu primeiro álbum, Astronauta Tupy, de 1997. Esse misto de rap-repente com embolada ganha explosiva batida roqueira no arranjo que combina um naipe de metais em brasa com a guitarra de Paulo Rafael e as programações do DJ Dolores.

Na sequência, Só pra lembrar é uma parceria inédita do compositor paulista Dani Black com a cantora e compositora fluminense Zélia Duncan. O acento pop da faixa sublinha a pressão posta pelos produtores Luã Mattar e Lula Queiroga no arranjo moldado com cordas orquestradas por Ney Conceição e com flauta (do mestre nos sopros Dirceu Leite) que remete ao universo musical dos Pífanos de Caruaru (PE). Entre raízes e antenas, Elba dá sua voz maturada a versos que brilham como fachos de luz em escuridão existencial. Na faixa, a cantora celebra o amor, alento em tempo de esperanças cansadas.

Ao mesmo tempo em que faz a festa, com a explosão de energia que a tornou uma das cantoras de maior potência e animação no palco, Elba Ramalho traz também sossego e acalma pressas em mundo assombrado pelas sobras do passado e pelas sombras do futuro. Por isso, a oportuna lembrança de É o que me interessa (Lenine e Dudu Falcão, 2008) – uma daquelas baladas encantadoras nascidas da inspiração melódica do pernambucano Lenine, companheiro de Elba nas andanças atrevidas da Leoa – faz todo o sentido no disco. A harpa celestial de Cristina Braga sobressai no arranjo adequado ao tom mais sereno da canção.

Luxo em qualquer gravação, a harpa de Cristina Braga reaparece na faixa seguinte, Nossa Senhora da Paz (Clayton Barros, Emerson Calado, José Paes Lira, Nego Henrique e Rafael Almeida, 2002), música que traduz o olhar atual de Elba diante do mundo. Mas o tom celestial reside mais no sentimento posto pela cantora na interpretação dessa música lançada há 13 anos pelo já desativado grupo pernambucano Cordel do Fogo Encantado. Composição do  primeiro álbum do grupo, Nossa Senhora da Paz ganha feitio de oração no canto de Elba, mas o incendiário mix de tambores e guitarras do arranjo tem a pressão que é motor e marca pop do álbum Do meu olhar pra fora.

Instante de melancolia em álbum repleto de energia positiva, Contrato de separação reconecta Elba com o cancioneiro do cantor, compositor e sanfoneiro pernambucano José Domingos de Morais, o Seu Domingos – Dominguinhos, para o Brasil. O fato de três das 12 músicas do álbum Do meu olhar pra fora levarem a assinatura de Dominguinhos diz muito sobre a forte ligação que sempre uniu Elba ao herdeiro de Luiz Gonzaga (1912 – 1989), eterno Rei do Baião. Tanto que Elba chegou a gravar e assinar um álbum com Dominguinhos. Lançado em 2005, este disco teve repertório centrado no cancioneiro autoral de Seu Domingos. Foi uma espécie de best of da obra do sanfoneiro. Mas Contrato de separação não integrou o repertório desse disco. O que legitima a inclusão em Do meu olhar pra fora dessa canção doída de saudade, composta por Dominguinhos em parceria com sua então mulher Anastácia, lançada na voz sublime de Nana Caymmi em 1979 e ora revivida por Elba em registro valorizado pelo toque magistral do acordeom de Toninho Ferragutti. Esse acordeom tem o poder de evocar na faixa todo o rico universo musical de Dominguinhos. É como se o mestre estivesse na gravação, evocado pelas teclas manuseadas com precisão por Ferragutti.

Das três músicas de Dominguinhos cantadas por Elba em Do meu olhar pra fora, duas são inéditas em disco. Além de Olhando o coração, a outra novidade é Nos ares de Lisboa – Passarinho enganador, fado que mostra que, tal como o canto de Elba, a obra de Dominguinhos sempre cruzou oceanos rítmicos, sem fronteiras, embora esteja sempre associada ao universo musical da Nação Nordestina. Da lavra poética do compositor cearense Fausto Nilo, os versos da música são cantados por Elba em dueto com a portuguesa Carminho, a mais aplaudida cantora de fado da atualidade. A cumplicidade feminina das intérpretes é fundamental para realçar toda a beleza dessa canção que embute a melancolia típica dos fados na travessia que a conduz do sertão aos ares de Lisboa pelo toque do acordeom de Toninho Ferragutti, do bandolim de Armandinho e da viola portuguesa de Diogo Clemente, músico lusitano especialmente convidado para tocar no disco.

A rota pop universal do CD Do meu olhar pra fora inclui escala na Jamaica, feita através da Bahia. Árvore é iluminado reggae de autoria do cantor e compositor baiano Edson Gomes, lançado pelo autor em seu terceiro álbum, Campo de batalha, de 1991. Gomes é um dos artistas brasileiros mais compromissados com a ideologia positiva do reggae. Na gravação de sua música por Elba, os metais abrilhantam a abordagem da cantora. De certa forma, é como se a árvore do título simbolizasse a figura da própria Elba, balançando com suas raízes em suas andanças sobre a terra, munida de amor e música.

Inédita de Chico César, gravada por Elba com a participação do cantor e compositor paraibano, Patchuli perfuma o baile pop da cantora no toque vigoroso de metais orquestrados por Nilsinho Amarante. Nessa faixa, como em muitas outras do disco Do meu olhar pra fora, Elba parte do Nordeste para alcançar o mundo. E, nessa viagem pop por sons universais, o destino mais surpreendente é o apontado por La noyeé, música feita pelo compositor francês Serge Gainsbourg (1928 - 1991) há 44 anos para a trilha sonora do filme Romance de um ladrão (Iugoslávia / França / Itália, 1971). O criativo arranjo da faixa, que dialoga de forma moderna com as tradições da chanson française, é de Marcelo Jeneci, músico polivalente que toca piano, acordeom e cravo nessa gravação que se conecta, pelo idioma francês, como registro de La vie en rose (1945) - sucesso da cantora francesa Edith Piaf (1915 – 1963) – feito por Elba há 24 anos para um álbum em que também ampliou seus horizontes estéticos, Felicidade urgente, produzido em 1991 por Nelson Motta.

De Paris, o disco migra para a lama do mangue pernambucano, revolvida com a oportuna regravação de Risoflora (Chico Science, 1994), música menos badalada do primeiro álbum da banda pernambucana Nação Zumbi, pedra fundamental do movimento recifense dos anos 1990 batizado de Mangue Beat. Ao dar voz a Risoflora, Elba faz brotar uma pungente declaração de amor de um caranguejo arrependido que promete se regenerar. Para quem não sabe, Risoflora é música feita pelo compositor pernambucano Chico Science (1966 – 1997), mentor da Nação, para reconquistar o amor de uma ex-namorada, Maria Eduarda Belém, apelidada Maria Duda. Sem anular o romantismo, bissexto no universo incandescente do Mangue Beat, o arranjo da gravação de Elba é inserido em ambiência noise de progressiva intensidade.

No fim, Ser livre arremata o disco com o reforço do conceito de liberdade que pautou a criação do álbum Do meu olhar pra fora. A música é parceria inédita do bamba Arlindo Cruz com Zeca Pagodinho. Mas quem espera ouvir um samba – especialidade dos compositores cariocas – vai se deparar com uma canção de tom etéreo, viajante, condizente com a bela arte gráfica do disco, assinada por Daniel Edmundson. O arranjo de Ivo Senra foi urdido somente com o mix da guitarra de Luã Mattar com as programações e sintetizadores pilotados pelo próprio Senra.
 
“Vou romper de vez as algemas
(...)
Caminhar pelos bons caminhos
Num jardim com flor sem espinhos”.

Os versos de Ser livre se conectam com os de Olhando o coração pela mesma fina sintonia que liga as 12 músicas do disco. Em última instância, Do meu olhar pra fora é álbum conceitual sobre a caminhada de sua cantora ao longo de quatro décadas. Um andar atrevido que fez o canto bravo de Elba Maria Nunes Ramalho se fazer ouvir em todo o Brasil, desconstruindo a imagem masculinizada da mulher paraibana que estava enraizada no imaginário nacional com doses maciças de feminilidade, energia e valentia. Nascida em 17 de agosto de 1951, a Leoa sobreviveu na selva das cidades com uma voz que ganhou graves, maturidade, experiência e, sobretudo, liberdade nessa caminhada. Do meu ohar pra fora é fruto de tudo isso. É mais um firme passo de Elba Ramalho em direção ao infinito, ao eterno. Se os pés estão fincados nas suas raízes orgulhosamente nordestinas, as antenas captam os sinais do mundo e o espírito segue livre pelos caminhos do amor e da música.

Mauro Ferreira
Fevereiro de 2015

10 comentários:

Mauro Ferreira disse...

♪ Com 12 músicas, selecionadas entre as cerca de 20 gravadas com produção de Luã Mattar e Yuri Queiroga, o 33º álbum da discografia oficial de Elba Ramalho, Do meu olhar pra fora, já está disponível no mercado fonográfico brasileiro com distribuição da Coqueiro Verde Records. A convite da cantora e da gravadora, o editor de Notas Musicais, Mauro Ferreira, assina o texto que apresenta o disco aos críticos e formadores de opinião.

Rafael M. disse...

Mauro, quantas estrelas você dá para o álbum?

Rafael M. disse...

Achei o disco bom, mas não é um dos melhores que a Elba já fez... Gostei da versão de "Contrato de Separação".

jose ferreira Calado disse...

Não há como negar a beleza do canto de Nana Caymmi em "Contrato de separação",de Dominguinhos e Anastácia.É com certeza a melhor intérprete dessa canção.Mas também gostei do registro de Zizi Possi em "tudo se transformou",de Alcione,em Eterna alegria ao vivo e agora,Elba.Que bom grandes cantoras reverenciam o talento do grande mestre Domingos!

Gustavo Chaves disse...

Mauro, cadê Gravitacionallllllllllll? estava super ansioso por essa música... =/

Atrás da Cortina disse...

Gustavo,

Gravitacional está no DVD Cordas, Gonzaga e Afins com participação especialíssima de Marcelo Jeneci e que deve ser lancado no segundo semestre.

Rafael Martins disse...

Grande CD! Vai ficar marcado na longa carreira dela. Elba merece! Que venham outros!

Mauro Ferreira disse...

Gustavo, como já lhe responderam, 'Gravitacional' foi composta por Jeneci para o show 'Cordas, Gonzaga e afins'. Elba nunca disse que a música entraria em 'Do meu olhar pra fora'. Abs, obrigado, MauroF

italo vinicius disse...

Ouvi o álbum ontem no you tube gostei de quase tudo que ouvi menos de duas músicas mais não tira o brilho e o grande.trabalho de Elba neste álbum ...muito sucesso que ela merece

Gustavo Chaves disse...

huuum, agora faz sentido. de fato, tem um vídeo no youtube, com a participação do Jeneci, maravilhoso!
Obrigado pela informação!! ;)