Mauro Ferreira no G1

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domingo, 22 de março de 2015

Ana Costa pega a rota lusófona na viagem pelos belos caminhos de Martinho

Resenha de show - Gravação de DVD
Título: Pelos caminhos do som - Ana Costa canta Martinho da Vila
Artista: Ana Costa (com Mart'nália na foto de Cristina Granato)
Local: Imperator - Centro Cultural João Nogueira (Rio de Janeiro, RJ)
Data: 12 de março de 2015
Cotação: * * * 1/2

A viagem de Ana Costa pelos caminhos lusófonos do som do compositor fluminense Martinho da Vila teve muitas paradas. Excessivas repetições de números - por questões técnicas - testaram a paciência do espectador que testemunhou no Imperator, no Rio de Janeiro (RJ), a gravação ao vivo de Pelos caminhos do som - Ana Costa canta Martinho da Vila, show que estreou de forma embrionária em outubro de 2013, ganhou corpo em 2014 e foi registrado para edição de CD e DVD em 12 de março de 2015 em apresentação na casa do Centro Cultural João Nogueira, situada no subúrbio da cidade do Rio de Janeiro (RJ). Sem falar nas intervenções constrangedoras de um casal de apresentadores sem noção do ridículo. No entanto, o produto resultante da gravação ao vivo - feita sob a direção de Bianca Calcagni numa parceria das empresas Zambo e MDM que teve coprodução do Canal Brasil - tem tudo para contentar os admiradores de Ana Costa, cantora e compositora carioca que iniciou sua caminhada musical em 1989 e que caiu no samba ao longo dos anos 1990. Inclusive pela beleza do cenário de Iza Valente. Por sua intimidade com a obra de Martinho, abordada por Ana desde que integrava o grupo Coeur Sambá na primeira metade da década de 1990, a cantora soube pegar rotas menos óbvias na viagem pelos caminhos seguidos por compositor que parte do samba para chegar a outros ritmos enraizados nas culturas brasileira e africana. O norte do roteiro do show - dirigido por Analimar Ventapane - foi o repertório de um álbum pouco ouvido de Martinho, Lusofonia (Sony Music, 2000), disco em que o compositor ressaltou afinidades entre os sons de países que falam a língua portuguesa numa rota que inclui locais africanos como Cabo Verde. Daí a abertura do show ter sido feita com o Semba dos ancestrais (Martinho da Vila e Rosinha de Valença, 1985), após sagaz citação vocal de Salve a mulata brasileira (Martinho da Vila, 1975) pelas backings Jussara Lourenço e Verônica Bonfim. Cabo Verde foi evocado em Dança ma mi criola (Toy Vieira em versão em português de Martinho da Vila, 2000), número agraciado com o charme pop de Mart'nália. Já a escala em Portugal foi feita com o fado Dar e receber (Martinho da Vila, 2005) em número minimalista em que a voz da cantora se afinou com o toque do violão eletroacústico do guitarrista Maurício Massunaga. A propósito: aos 46 anos, Ana Costa está no auge da forma vocal. Sua segurança na interpretação de músicas como Pelos caminhos do som (1989) - feita com a adesão do cavaquinho luminoso de Alceu Maia, parceiro de Martinho na composição - e Odilê, Odilá (Martinho da Vila e João Bosco, 1986)  foi show à parte. Um dos pontos altos do show, a lembrança da marota Quer amar mamãe (Martinho da Vila, 1996) - joia da obra de Martinho lançada no único CD do grupo Coeur Sambá e revivida por Ana no seu álbum mais arejado, Novos alvos (Zambo Discos, 2009) - atestou a maturação da cantora entre a trama dos tambores do percussionista Daniel Félix. Mesmo quando pegou atalhos mais óbvios para chegar ao público refratário a músicas obscuras, Ana Costa surpreendeu. Seja cantando Disritmia (Martinho da Vila, 1974) somente com a pulsação do baixo de Júlio Florindo, diretor musical do show, seja alternando a cadência de Madalena do Jucú (tema do folclore capixaba em adaptação de Martinho da Vila, 1989), cantada em tons mais suaves, em sintonia com a sutileza da percussão de Daniel Félix. Até a já desgastada Canta canta, minha gente (Martinho da Vila, 1974) teve seu interesse renovado por ter sido o samba escolhido por Ana para cantar com sua parceira Zélia Duncan. De todo modo, o baú de Martinho da Vila guarda muitas pérolas - e Ana Costa soube remexer nesse baú. Foi difícil resistir à cadência bonita do samba-enredo Yayá do Cais Dourado, composto para o desfile da escola de samba Unidos de Vila Isabel no Carnaval de 1969. Outro acerto foi a escolha dos convidados. Sem se preocupar em convidar estrelas populares para a gravação, Ana recebeu nomes afins com o cancioneiro de Martinho. Gente como o cantor, compositor e percussionista Marcelinho Moreira, que entrou em cena com seu reco-reco para fazer duo com a cantora em Filosofia de vida (Martinho da Vila, Marcelinho Moreira e Fred Camacho, 2008), samba que Ana já registrara em seu terceiro e por ora último disco de estúdio, Hoje é o melhor lugar (Zambo Discos / Biscoito Fino, 2012). Já Agrião temperou a interpretação de O pai da alegria, samba que compôs com Martinho e que deu título ao álbum lançado por seu parceiro em 1989. Quatro números antes, as Meninas da Serrinha - trio de jongo que resiste nas terras imperiais - reforçou toda a carga de ancestralidade que há em Assim não, Zambi (Martinho da Vila, 1979), momento de toque sócio-político em que Ana Costa recitou o texto (impressionantemente atual) ouvido na voz ascendente de Clementina de Jesus (1901 - 1987) na antológica gravação feita há 36 anos com a participação do próprio Martinho. Enfim, Ana Costa soube transitar com firmeza pelos caminhos do som lusófono de Martinho da Vila em um show (em si) ótimo.

3 comentários:

Mauro Ferreira disse...

♪ A viagem de Ana Costa pelos caminhos lusófonos do som do compositor fluminense Martinho da Vila teve muitas paradas. Excessivas repetições de números - por questões técnicas - testaram a paciência do espectador que testemunhou no Imperator, no Rio de Janeiro (RJ), a gravação ao vivo de Pelos caminhos do som - Ana Costa canta Martinho da Vila, show que estreou de forma embrionária em outubro de 2013, ganhou corpo em 2014 e foi registrado para edição de CD e DVD em 12 de março de 2015 em apresentação na casa do Centro Cultural João Nogueira, situada no subúrbio da cidade do Rio de Janeiro (RJ). Sem falar nas intervenções constrangedoras de um casal de apresentadores sem noção do ridículo. No entanto, o produto resultante da gravação ao vivo - feita sob a direção de Bianca Calcagni numa parceria das empresas Zambo e MDM que teve coprodução do Canal Brasil - tem tudo para contentar os admiradores de Ana Costa, cantora e compositora carioca que iniciou sua caminhada musical em 1989 e que caiu no samba ao longo dos anos 1990. Inclusive pela beleza do cenário de Iza Valente. Por sua intimidade com a obra de Martinho, abordada por Ana desde que integrava o grupo Coeur Sambá na primeira metade da década de 1990, a cantora soube pegar rotas menos óbvias na viagem pelos caminhos seguidos por compositor que parte do samba para chegar a outros ritmos enraizados nas culturas brasileira e africana. O norte do roteiro do show - dirigido por Analimar Ventapane - foi o repertório de um álbum pouco ouvido de Martinho, Lusofonia (Sony Music, 2000), disco em que o compositor ressaltou afinidades entre os sons de países que falam a língua portuguesa numa rota que inclui locais africanos como Cabo Verde. Daí a abertura do show ter sido feita com o Semba dos ancestrais (Martinho da Vila e Rosinha de Valença, 1985), após sagaz citação vocal de Salve a mulata brasileira (Martinho da Vila, 1975) pelas backings Jussara Lourenço e Verônica Bonfim. Cabo Verde foi evocado em Dança ma mi criola (Toy Vieira em versão em português de Martinho da Vila, 2000), número agraciado com o charme pop de Mart'nália. Já a escala em Portugal foi feita com o fado Dar e receber (Martinho da Vila, 2005) em número minimalista em que a voz da cantora se afinou com o toque do violão eletroacústico do guitarrista Maurício Massunaga. A propósito: aos 46 anos, Ana Costa está no auge da forma vocal. Sua segurança na interpretação de músicas como Pelos caminhos do som (1989) - feita com a adesão do cavaquinho luminoso de Alceu Maia, parceiro de Martinho na composição - e Odilê, Odilá (Martinho da Vila e João Bosco, 1986) foi show à parte. Um dos pontos altos do show, a lembrança da marota Quer amar mamãe (Martinho da Vila, 1996) - joia da obra de Martinho lançada no único CD do grupo Coeur Sambá e revivida por Ana no seu álbum mais arejado, Novos alvos (Zambo Discos, 2009) - atestou a maturação da cantora entre a trama dos tambores do percussionista Daniel Félix.

Mauro Ferreira disse...

Mesmo quando pegou atalhos mais óbvios para chegar ao público refratário a músicas obscuras, Ana Costa surpreendeu. Seja cantando Disritmia (Martinho da Vila, 1974) somente com a pulsação do baixo de Júlio Florindo, diretor musical do show, seja alternando a cadência de Madalena do Jucú (tema do folclore capixaba em adaptação de Martinho da Vila, 1989), cantada em tons mais suaves, em sintonia com a sutileza da percussão de Daniel Félix. Até a já desgastada Canta canta, minha gente (Martinho da Vila, 1974) teve seu interesse renovado por ter sido o samba escolhido por Ana para cantar com sua parceira Zélia Duncan. De todo modo, o baú de Martinho da Vila guarda muitas pérolas - e Ana Costa soube remexer nesse baú. Foi difícil resistir à cadência bonita do samba-enredo Yayá do Cais Dourado, composto para o desfile da escola de samba Unidos de Vila Isabel no Carnaval de 1969. Outro acerto foi a escolha dos convidados. Sem se preocupar em convidar estrelas populares para a gravação, Ana recebeu nomes afins com o cancioneiro de Martinho. Gente como o cantor, compositor e percussionista Marcelinho Moreira, que entrou em cena com seu reco-reco para fazer duo com a cantora em Filosofia de vida (Martinho da Vila, Marcelinho Moreira e Fred Camacho, 2008), samba que Ana já registrara em seu terceiro e por ora último disco de estúdio, Hoje é o melhor lugar (Zambo Discos / Biscoito Fino, 2012). Já Agrião temperou a interpretação de O pai da alegria, samba que compôs com Martinho e que deu título ao álbum lançado por seu parceiro em 1989. Quatro números antes, as Meninas da Serrinha - trio de jongo que resiste nas terras imperiais - reforçou toda a carga de ancestralidade que há em Assim não, Zambi (Martinho da Vila, 1979), momento de toque sócio-político em que Ana Costa recitou o texto (impressionantemente atual) ouvido na voz ascendente de Clementina de Jesus (1901 - 1987) na antológica gravação feita há 36 anos com a participação do próprio Martinho. Enfim, Ana Costa soube pisar com firmeza pelos caminhos do som de Martinho da Vila em show em si ótimo.

Reinaldo Lace disse...

Em 1995, Simone já havia gravado um CD dedicado à obra de mestre Martinho da Vila, o ótimo "Café com leite", muito provavelmente, o último grande disco daquela que já foi uma das melhores cantoras brasileiras, cujo rumo da carreira há muitos anos perdeu a direção - que me desculpem seus fãs confessos, os meus amigos Baba Aragao e Jose Avelino Filho Avelino.
Ana Costa, apesar dos 25 anos de carreira, mas não tão conhecida do grande público escolheu gravar um DVD todo voltado para a obra de Martinho da Vila chamado "Pelos caminhos do som", no último dia 12, no Centro Cultural João Nogueira-Imperator RJ. O show é inspirado em 'Lusofonia", CD lançado por Martinho, em 2000, pelas comemorações dos 500 anos do Descobrimento do Brasil, com canções de vários países de Língua Portuguesa, como Portugal, Cabo Verde, e claro, Brasil.
Mas Martinho não merecia este tributo por toda sua rica contribuição à cultura popular brasileira, pois se tratou de um show constrangedor e muito mal dirigido por uma das filhas de Martinho Analimar Valpane, revelando total falta de experiência da diretora.
O repertório era majoritariamente de samba, mas o clima estava mais para outro ritmo. Na pista, alguns espectadores já postavam nas redes sociais o desconforto com a repetição de várias músicas, inclusive a de abertura, por erros cometidos pelo diretor musical do show e sua equipe. Um desrespeito para com o público presente.
Claro que foi bom ouvir clássicos como "Disritmia", cuja gravação de Simone, em "Café com leite" é definitiva, e "Ex -amor", cuja gravação de Martinho da Vila e Simone no clássico CD "Casa de Samba" (1995) é superior.
Ana Costa não chega ao cúmulo de desafinar, mas sua voz tem pouco alcance. E as participações especias de Martin'ália, Zélia Duncan, Alceu Maia e outros nada acrescentou. Só o convidado Agrião esteve bem com seu carisma e vozeirão. As meninas da Serrinha, as talentosas cantoras Dely Monteiro, Lazir Sinval e Luiza Marmello foram muito mal aproveitadas. E garanto: elas tinham muito mais a oferecer se não fosse por uma direção desajustada. A diretora apareceu no palco algumas vezes para fazer reparos na hora. Não se ensaia mais? As agendas individuais dos artistas não permitem os ensaios e o público é quem paga o pato?
O cenário, de tão fraco que era o show, foi o melhor atrativo bela beleza visual do uso de materiais ecológicos.
O final, que ameaçou ser apoteótico com o clássico samba-enredo "Kizomba - A Festa da Raça", que não é uma composição do homenageado, mas do saudoso Luiz Carlos da Vila e que deu a tradicional escola de samba Vila Isabel seu primeiro campeonato, em 1988; não empolgou tanto quanto se podia.
Martinho da Vila merecia tributo mais digno. Tudo erro de direção.

(Reinaldo Lace, em 14/03/2015)

Obrigado a Candida Santos e Regina Lisboa pela belas companhias em todos os apectos.