Mauro Ferreira no G1

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quinta-feira, 26 de março de 2015

Com o fado na ponta da língua lusa, Jussara se banha em águas límpidas

Resenha de show
Título: Água lusa
Artista: Jussara Silveira (em foto de Rodrigo Goffredo)
Local: Theatro Net Rio (Rio de Janeiro, RJ)
Data: 23 de março de 2015
Cotação: * * * *

Foi na penumbra que Jussara Silveira abriu a apresentação carioca do show Água lusa cantando um dos mais belos fados de todos os tempos, Foi Deus (Alberto Janes, 1952), com sua voz límpida sendo emoldurada somente pelos sons sintetizados tirados pelo pianista Sacha Ambach dos teclados. Ali, naquele pungente número inicial, a cantora mineira (de vivência baiana) já ganhou o público que foi na noite de 23 de março de 2015 ao Theatro Net Rio, no Rio de Janeiro (RJ), assistir à estreia carioca do show baseado no disco Água lusa (Dubas Música / Universal Music, 2013). Neste álbum, Jussara se banhou de portugalidade ao dar sua voz a fados e a canções portuguesas que têm em comum o fato de terem versos do poeta Tiago Torres da Silva. Compositor, Tiago pôs novas letras em melodias de fados tradicionais como o Fado Margaridas, tema dos anos 1930 que, desde 2013, passou a se chamar também Na companhia de fadistas por conta da parceria póstuma de Tiago com o compositor português Miguel Ramos (1904 - 1982) lançada por Jussara no disco. Em cena, tendo como mote a própria língua portuguesa, Água lusa também abarca músicas brasileiras e temas angolanos gravados pela cantora em seus álbuns Ame ou se mande (Joia Moderna, 2011) e Flor bailarina (Maianga Discos, 2012), respectivamente. Uma das grandes cantoras do Brasil, Jussara Silveira não canta fado em tom magoado de dor e de pranto. Ao contrário, seu canto é delicado, mas, pelo filtro dessa suavidade, passam os sentimentos contidos em versos como os de Tenho dó das estrelas, escritos pelo poeta português Fernando Pessoa (1888 - 1935) e recentemente musicados pelo compositor paulista José Miguel Wisnik para feitura de canção de 2011, levada por Jussara no ritmo da morna, ritmo de Cabo Verde, país africano que se avizinha do Brasil pela lusofonia. Mesmo que tenha tropeçado nos versos da canção A voz do coração (Celso Fonseca e Ronaldo Bastos, 2011) e do fado Beijo alentejano (Carlos Gonçalves e Tiago Torres da Silva, 2013), Jussara jamais deixou de se portar em cena como a grande cantora que sempre foi. Jussara nunca perdeu a classe em cena, seja cantando clássico fado-canção como Confesso (José Galhardo e Frederico Valério, 1952), número feito sem a percussão sutil de Marcelo Costa, seja caindo no semba angolano em temas como Canta meu semba (Paulo Flores, 1996). Número de voz e piano (o de Sacha Amback), O mar fala de ti (Ernesto Leite e Tiago Torres da Silva, 2013) engoliu com sua beleza pungente qualquer eventual resistência dos espectadores ao nobre repertório português reunido por Jussara em roteiro que somente pareceu sair do tom em Babylon (Zeca Baleiro, 2000), já que a prosódia informal da canção de Baleiro se banha em outra praia, mais pop. Babylon foi um dos números cantados por Jussara com Emanuelle Araújo, convidada da apresentação carioca de Água lusa. Fora das águas movidas por seu grupo Moinho, a baiana Emanuelle mostrou boa presença vocal e cênica no canto de Doce esperança (Roberto Mendes e J. Velloso, 1992). O violonista Fabio Nin também entrou em cena, a partir de Meu amor abre a janela (Fado Santa Luzia) (Armando Machado e Tiago Torres da Silva, 2013), e permaneceu no palco na maior parte dos números, ajudando Jussara a harmonizar fados, canções e sembas com unidade, delicadeza e até algum humor, detectável no maroto Fado da contradição (João Nobre e Lourenço Rodrigues, 1957), tema do repertório da fadista Hermínia Silva (1907 - 1993). No fim, quando arrematou o bis com citação a capella de Maria particularmente (Luiz Melodia, 1991) quando já estava saindo de cena, Jussara Silveira sintetizou o espírito do show. Em Água lusa, o fado esteve (quase sempre) na ponta da língua (lusa) e o samba - ou o semba... - na ponta do pé, emergindo de águas límpidas.

3 comentários:

Mauro Ferreira disse...

♪ Foi na penumbra que Jussara Silveira abriu a apresentação carioca do show Água lusa cantando um dos mais belos fados de todos os tempos, Foi Deus (Alberto Janes, 1952), com sua voz límpida sendo emoldurada somente pelos sons sintetizados tirados pelo pianista Sacha Ambach dos teclados. Ali, naquele pungente número inicial, a cantora mineira (de vivência baiana) já ganhou o público que foi na noite de 23 de março de 2015 ao Theatro Net Rio, no Rio de Janeiro (RJ), assistir à estreia carioca do show baseado no disco Água lusa (Dubas Música / Universal Music, 2013). Neste álbum, Jussara se banhou de portugalidade ao dar sua voz a fados e a canções portuguesas que têm em comum o fato de terem versos do poeta Tiago Torres da Silva. Compositor, Tiago pôs novas letras em melodias de fados tradicionais como o Fado Margaridas, tema dos anos 1930 que, desde 2013, passou a se chamar também Na companhia de fadistas por conta da parceria póstuma de Tiago com o compositor português Miguel Ramos (1904 - 1982) lançada por Jussara no disco. Em cena, tendo como mote a própria língua portuguesa, Água lusa também abarca músicas brasileiras e temas angolanos gravados pela cantora em seus álbuns Ame ou se mande (Joia Moderna, 2011) e Flor bailarina (Maianga Discos, 2012), respectivamente. Uma das grandes cantoras do Brasil, Jussara Silveira não canta fado em tom magoado de dor e de pranto. Ao contrário, seu canto é delicado, mas, pelo filtro dessa suavidade, passam os sentimentos contidos em versos como os de Tenho dó das estrelas, escritos pelo poeta português Fernando Pessoa (1888 - 1935) e recentemente musicados pelo compositor paulista José Miguel Wisnik para feitura de canção de 2011, levada por Jussara no ritmo da morna, ritmo de Cabo Verde, país africano que se avizinha do Brasil pela lusofonia. Mesmo que tenha tropeçado nos versos da canção A voz do coração (Celso Fonseca e Ronaldo Bastos, 2011) e do fado Beijo alentejano (Carlos Gonçalves e Tiago Torres da Silva, 2013), Jussara jamais deixou de se portar em cena como a grande cantora que sempre foi. Jussara nunca perdeu a classe em cena, seja cantando clássico fado-canção como Confesso (José Galhardo e Frederico Valério, 1952), número feito sem a percussão sutil de Marcelo Costa, seja caindo no semba angolano em temas como Canta meu semba (Paulo Flores, 1996). Número de voz e piano (o de Sacha Amback), O mar fala de ti (Ernesto Leite e Tiago Torres da Silva, 2013) engoliu com sua beleza pungente qualquer eventual resistência dos espectadores ao nobre repertório português reunido por Jussara em roteiro que somente pareceu sair do tom em Babylon (Zeca Baleiro, 2000), já que a prosódia informal da canção de Baleiro se banha em outra praia, mais pop. Babylon foi um dos números cantados por Jussara com Emanuelle Araújo, convidada da apresentação carioca de Água lusa. Fora das águas movidas por seu grupo Moinho, a baiana Emanuelle mostrou boa presença vocal e cênica no canto de Doce esperança (Roberto Mendes e J. Velloso, 1992). O violonista Fabio Nin também entrou em cena, a partir de Meu amor abre a janela (Fado Santa Luzia) (Armando Machado e Tiago Torres da Silva, 2013), e permaneceu no palco na maior parte dos números, ajudando Jussara a harmonizar fados, canções e sembas com unidade, delicadeza e até algum humor, detectável no maroto Fado da contradição (João Nobre e Lourenço Rodrigues, 1957), tema do repertório da fadista Hermínia Silva (1907 - 1993). No fim, quando arrematou o bis com citação a capella de Maria particularmente (Luiz Melodia, 1991) quando já estava saindo de cena, Jussara Silveira sintetizou o espírito do show. Em Água lusa, o fado esteve (quase sempre) na ponta da língua (lusa) e o samba - ou o semba... - na ponta do pé, emergindo de águas límpidas.

Rafael M. disse...

Esses dois CD's de Jussara, "Flor Bailarina" e "Água Lusa" são os melhores trabalhos recentes de Jussara. É emoção à flor da pele!!!

Rafael M. disse...

Esses discos "Flor Bailarina" e "Água Lusa" são 2 dos melhores trabalhos recentes de Jussara. Ela enfatiza a beleza poética das canções em cada nota.