Mauro Ferreira no G1

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quinta-feira, 12 de março de 2015

'Brasil' de Lisa Ono e de Adnet ainda é o país do suingue dos anos 1960

Resenha de CD
Título: Brasil
Artista: Lisa Ono
Gravadora: Deck
Cotação: * * * *

Para o Japão, o Brasil ainda é o país do suingue dos anos 1960 e da Bossa Nova da década de 1950. Por isso mesmo, Brasil - o álbum de Lisa Ono ora editado pela gravadora Deck no mercado fonográfico do país que dá nome ao disco - talvez faça bem mais sentido para ouvidos japoneses. Lá, no Japão, Brasil foi lançado em maio de 2014, celebrando os 25 anos de carreira da artista. Aqui, no Brasil, o CD saiu em injusto silêncio em fevereiro de 2015. Azar do Brasil, pois o disco - produzido por Ono com o violonista e arranjador Mario Adnet - é bonito, transcorrendo leve, coeso, com frescor, ainda que sem um real sopro de novidade. Cantora, compositora e violonista paulista criada no Japão desde os dez anos de idade, Ono é - como acentua Adnet no texto que escreveu para o encarte do CD - uma espécie de embaixatriz da música brasileira na terra do sol nascente. Melhor cantora do que compositora, Lisa está em cena desde 1989. Já gravou álbuns com músicas japonesas, com standards da canção norte-americana, com temas italianos e até com boleros hispânicos. Mas foi com os discos no qual deu voz à bossa brasileira que a cantora se fez mais ouvir tanto no Brasil como no Japão. Aos 53 anos, ela cai bem no suingue da música produzida no Brasil nos anos 1960. Embora o repertório inclua até um samba de 1945, Eu quero um samba (Haroldo Barbosa e Janet de Almeida), o mote do disco é o balanço da década de 1960, um dos períodos mais férteis da música brasileira. Sem inventar moda, Adnet cria arranjos que preservam o suingue original de músicas como Upa neguinho (Edu Lobo e Gianfrancesco Guarnieri, 1967), Lapinha (Baden Powell e Paulo César Pinheiro, 1968) e Roda (Gilberto Gil e João Augusto, 1966). Os ares de novidade são sutis, como o toque serelepe do piano de Marcos Nimritcher em Reza (Edu Lobo e Ruy Guerra, 1965) e em Sá Marina (Antonio Adolfo e Tibério Gaspar, 1968). Mas não havia mesmo o que inventar. A fluidez do canto de Lisa Ono valoriza o repertório, sobretudo O cantador (Dori Caymmi e Nelson Motta, 1966). Em seleção de standards, as únicas surpresas para ouvidos nacionais são Tim dom dom (João Mello e Clodoaldo Brito, o Codó) - tema sincopado de 1963, há anos esquecido no Brasil, mas imortalizado no Japão e nos Estados Unidos por conta da gravação feita por Sergio Mendes em 1966 - e Bossa na praia (Peri Ribeiro e Geraldo Cunha,1963), música que sintetiza o clima arejado deste disco que tem faixas cantadas por Ono com Mario Adnet e com Chico Adnet. Brasil exala uma (leve) saudade do Brasil.

9 comentários:

Mauro Ferreira disse...

♪ Para o Japão, o Brasil ainda é o país do suingue dos anos 1960 e da Bossa Nova da década de 1950. Por isso mesmo, Brasil - o álbum de Lisa Ono ora editado pela gravadora Deck no mercado fonográfico do país que dá nome ao disco - talvez faça bem mais sentido para ouvidos japoneses. Lá, no Japão, Brasil foi lançado em maio de 2014, celebrando os 25 anos de carreira da artista. Aqui, no Brasil, o CD saiu em injusto silêncio em fevereiro de 2015. Azar do Brasil, pois o disco - produzido por Ono com o violonista e arranjador Mario Adnet - é bonito, transcorrendo leve, coeso, com frescor, ainda que sem um real sopro de novidade. Cantora, compositora e violonista paulista criada no Japão desde os dez anos de idade, Ono é - como acentua Adnet no texto que escreveu para o encarte do CD - uma espécie de embaixatriz da música brasileira na terra do sol nascente. Melhor cantora do que compositora, Lisa está em cena desde 1989. Já gravou álbuns com músicas japonesas, com standards da canção norte-americana, com temas italianos e até com boleros hispânicos. Mas foi com os discos no qual deu voz à bossa brasileira que a cantora se fez mais ouvir tanto no Brasil como no Japão. Aos 53 anos, ela cai bem no suingue da música produzida no Brasil nos anos 1960. Embora o repertório inclua até um samba de 1945, Eu quero um samba (Haroldo Barbosa e Janet de Almeida), o mote do disco é o balanço da década de 1960, um dos períodos mais férteis da música brasileira. Sem inventar moda, Adnet cria arranjos que preservam o suingue original de músicas como Upa neguinho (Edu Lobo e Gianfrancesco Guarnieri, 1967), Lapinha (Baden Powell e Paulo César Pinheiro, 1968) e Roda (Gilberto Gil e João Augusto, 1966). Os ares de novidade são sutis, como o toque serelepe do piano de Marcos Nimritcher em Reza (Edu Lobo e Ruy Guerra, 1965) e em Sá Marina (Antonio Adolfo e Tibério Gaspar, 1968). Mas não havia mesmo o que inventar. A fluidez do canto de Lisa Ono valoriza o repertório, sobretudo O cantador (Dori Caymmi e Nelson Motta, 1966). Em seleção de standards, as únicas surpresas para ouvidos nacionais são Tim dom dom (João Mello e Clodoaldo Brito, o Codó) - tema sincopado de 1963, há anos esquecido no Brasil, mas imortalizado no Japão e nos Estados Unidos por conta da gravação feita por Sergio Mendes em 1966 - e Bossa na praia (Peri Ribeiro e Geraldo Cunha,1963), música que sintetiza o clima arejado deste disco que tem faixas cantadas por Ono com Mario Adnet e com Chico Adnet. Brasil exala uma (leve) saudade do Brasil.

Rafael M. disse...

Esse é um dos mais belos discos de MPB da nossa querida Lisa Ono. Pena ela não ter mais reconhecimento do que deveria aqui no Brasil... Comprem este CD, eu recomendo cada segundo de cada canção. É belíssimo!!!

Rafael M. disse...

Só para constar: no fim do ano passado Lisa Ono lançou no Japão o seu disco "Japão 3", terceiro volume da série de canções japonesas, que infelizmente vejo que não chegará por aqui tão cedo.... Ou talvez nem chegará... Para quem quer dar uma espiada na capa e na relação de faixas do disco, pode ver no Memória Musical no www.memoriamusical.com.br

Val Js disse...

Este disco é lindíssimo: uma delícia de se ouvir, um carinho para os ouvidos, uma felicidade para a alma.
Lisa bebe na fonte de João Gilberto e Nara Leão e prova que uma grande cantora não se faz apenas com uma grande voz. Ela se faz grande na suavidade de sua voz. Sua discografia é impressionante pela quantidade e qualidade musical.
O repertório deste cd é de uma época em que a música brasileira se fez grande para o mundo e ainda se mantém, graças a estas músicas.
Os arranjos, sem invencionices, são primorosos.
Lisa também é grande compositora. Acho inclusive que ela deveria voltar a gravar suas composições.
Para comprovar, basta ouvir do cd Nanã, Passeio nas estrelas, A abelha e o zangão e Canto para Nanã; do cd Menina, O samba, Clea, Quem fala o que quer, e a lindíssima Cancela; do cd Serenata Carioca, Flor do Campo, a sublime Borboleta (parceria com Paulo Cesar Pinheiro) e a comovente Água de Moinho, apenas para citar algumas composições dela.
Que venha um próximo cd com músicas inéditas e composições próprias, como ela fazia no início de carreira.

Luca disse...

só vai fazer sucesso no Japão mesmo e olhe lá

Val Js disse...

O comentário acima parece ter sido feito com uma ponta de ironia. Porém, concordo que não fará sucesso no Brasil; por aqui só faz sucesso quem canta funk ou sertanejo pegaçâo. Vide Anitta, Ludimila, Naldo Benny, Valesca Popozuda, Fernando e Sorocaba, Luan Santana, Lucas Lucco...enfim, só música boa.

Marcelo disse...

Repertório maravilhoso e uma ótima cantora!!! Mas agora o espaço da mídia é pra sertanejo universitário ou então pra cantoras indie cabeçudas que cantam como se fossem retardadas... Viva Lisa e seu trabalho de qualidade!!!

Rafael M. disse...

Devo dizer aqui o quanto ficaram maravilhosas as versões de "Bim Bom", "Lapinha", "Mas Que Nada" e "Upa Neguinho". Essas deliciosas versões são um convite para um prazer iniguilável para a música da boa qualidade. Ninguém pode perder a chance de ter esse disco!!!

Val Js disse...

Cantoras indie cabeçudas que cantam como se fossem retardadas..kkk
Descrição perfeita.