Mauro Ferreira no G1

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quinta-feira, 19 de março de 2015

Ava ainda soa estranha em disco solo que flerta com um pop mais melódico

Resenha de álbum
Título: Ava Patrya Yndia Yracema
Artista: Ava Rocha
Gravadora: Maravilha 8
Cotação: * * 1/2

 De certa forma, o primeiro álbum solo de Ava Rocha - Ava Patrya Yndia Yracema, batizado com o incomum nome de batismo dessa cantora, compositora e cineasta carioca - pode ser considerado o segundo. Afinal, o primeiro álbum da artista, Diurno (Warner Music, 2011), embora creditado à banda Ava, era em essência um disco de Rocha, alma e cérebro da Ava. Tanto que a avaliação de Diurno vai influir no juízo sobre Ava Patrya Yndia Yracema. Quem se afinou com as estranhezas do álbum da Ava talvez ache mais estranho as incursões de Ava Patrya Yndia Yracema por trilhas mais melódicas que conduzem a cantora a um destino mais pop, embora distante do trivial radiofônico. Música assinada pelo produtor do disco, Jonas Sá, O jardim é o exemplo de como a voz grave e quente de Rocha parece abafada - aprisionada? - entre cordas e um formato pop bem mais convencional. Até uma música composta pela própria Ava Rocha, Transeunte coração, parece ter sido desviada de sua origem no estúdio, pegando esse atalho mais pop que contrasta com a esquisitice embutida no próprio canto da artista. Em contrapartida, quem teve dificuldade em embarcar na viagem de Diurno vai detectar evolução neste disco em que Ava dosou sua obra autoral em favor de músicas de compositores da cena contemporânea carioca, como Marcelo Callado, autor da concretista Oceanos. A questão - percebida logo na faixa que abre o disco, Boca do céu (Ava Rocha) - é que o canto de Ava parece inapropriado para gravações e temas mais melódicos. Ava parece ser mais a voz da música estranha de Negro Leo, compositor de quatro das 12 músicas do disco, sendo uma, Mar ao fundo, assinada em parceria com a própria Ava Rocha. O canto errático da artista parece se afinar mais com as dissonâncias de Você não vai passar (Negro Leo) e com as distorções de Auto das Bacantes (Negro Leo), música que reverbera a boa influência da obra do compositor carioca Jards Macalé no som de Rocha. "Esse som cabeça oca / Miolo mole / De concreto solitud sound / Não serve se for hermético / Não serve se for hermético não / Serve se for / Hermeticamente", joga Leo com as palavras da letra de Hermética, parceria sua com Luísa Augusto. Seja como for, faixas como Beijo no asfalto (Ava Rocha) e Doce é o amor (Bruno Di Lullo e Domenico Lancellotti) têm sonoridades e timbres mais incomuns do que o canto da artista no disco. Timbres, aliás, tirados por time de músicos do naipe de Pedro Sá, Ricardo Dias Gomes e Domenico Lancellotti e Gustavo Benjão. Enfim, Rocha está bem acompanhada em Ava Patrya Yndia Yracema. Mas outra questão é saber se essa é sua turma. Até porque, como compositora, Ava continua apresentando produção bem irregular, como sinaliza Uma, quase um transamba. De toda forma, para o bem ou para o mal, Ava Rocha ainda soa estranha neste disco que, por vezes, parece contradizer a natureza da artista como intérprete e porta-voz do inusitado.

7 comentários:

Mauro Ferreira disse...

♪ De certa forma, o primeiro álbum solo de Ava Rocha - Ava Patrya Yndia Yracema, batizado com o incomum nome de batismo dessa cantora, compositora e cineasta carioca - pode ser considerado o segundo. Afinal, o primeiro álbum da artista, Diurno (Warner Music, 2011), embora creditado à banda Ava, era em essência um disco de Rocha, alma e cérebro da Ava. Tanto que a avaliação de Diurno vai influir no juízo sobre Ava Patrya Yndia Yracema. Quem se afinou com as estranhezas do álbum da Ava talvez ache mais estranho as incursões de Ava Patrya Yndia Yracema por trilhas mais melódicas que conduzem a cantora a um destino mais pop, embora distante do trivial radiofônico. Música assinada pelo produtor do disco, Jonas Sá, O jardim é o exemplo de como a voz grave e quente de Rocha parece abafada - aprisionada? - entre cordas e um formato pop bem mais convencional. Até uma música composta pela própria Ava Rocha, Transeunte coração, parece ter sido desviada de sua origem no estúdio, pegando esse atalho mais pop que contrasta com a esquisitice embutida no próprio canto da artista. Em contrapartida, quem teve dificuldade em embarcar na viagem de Diurno vai detectar evolução neste disco em que Ava dosou sua obra autoral em favor de músicas de compositores da cena contemporânea carioca, como Marcelo Callado, autor da concretista Oceanos. A questão - percebida logo na faixa que abre o disco, Boca do céu (Ava Rocha) - é que o canto de Ava parece inapropriado para gravações e temas mais melódicos. Ava parece ser mais a voz da música estranha de Negro Leo, compositor de quatro das 12 músicas do disco, sendo uma, Mar ao fundo, assinada em parceria com a própria Ava Rocha. O canto errático da artista parece se afinar mais com as dissonâncias de Você não vai passar (Negro Leo) e com as distorções de Auto das Bacantes (Negro Leo), música que reverbera a boa influência da obra do compositor carioca Jards Macalé no som de Rocha. "Esse som cabeça oca / Miolo mole / De concreto solitud sound / Não serve se for hermético / Não serve se for hermético não / Serve se for / Hermeticamente", joga Leo com as palavras da letra de Hermética, parceria sua com Luísa Augusto. Seja como for, faixas como Beijo no asfalto (Ava Rocha) e Doce é o amor (Bruno Di Lullo e Domenico Lancellotti) têm sonoridades e timbres mais incomuns do que o canto da artista no disco. Timbres, aliás, tirados por time de músicos do naipe de Pedro Sá, Ricardo Dias Gomes e Domenico Lancellotti e Gustavo Benjão. Enfim, Rocha está bem acompanhada em Ava Patrya Yndia Yracema. Mas outra questão é saber se essa é sua turma. Até porque, como compositora, Ava continua apresentando produção bem irregular, como sinaliza Uma, quase um transamba. De toda forma, para o bem ou para o mal, Ava Rocha ainda soa estranha neste disco que, por vezes, parece contradizer a sua natureza.

Fabio disse...

Eu curti!!!!!!!!! Outros artistas tb deveriam seguir o exemplo da Ava e liberar álbuns para dowload de graça. Bravo Ava pela iniciativa.

Raffa disse...

Adorei esse disco! Um dos mais legais de 2015 até agora!

Rafael M. disse...

Eu não morri de amores pelo álbum, mas também não achei ruim... Tambem acho que outros artistas deveriam seguir o exemplo e liberar álbuns gratuitamente para download.

lurian disse...

Gostei do disco, acho que tem muito a ver com o que esperar de uma filha de Glauber Rocha: provocações, estranhezas...

BIGODE disse...

Que disco!!!
Incrivel, experimental, poético, melódico....

Como no trabalho da Alice nada é realmente novo, há um pouco de dezenas de cantoras no trabalho dela, mas tudo tem uma identidade própria

Ava é poderosa, uma comparação meio baixa seria uma Tulipa com muito bom gosto

jean godoi disse...

Me parece mais uma crítica baseada somente em 'certos' e 'errados' técnicos, sem mergulho poético e sem preocupar-se em entender o pq dessas escolhas dissonantes. Ela não me parece burra e inconsciente das suas escolhas. Evidentemente a arte que inovou ou que se tornou atemporal foi baseado em 'erros' que os artistas resolveram peitar para abrir os olhos a novos modelos.