Mauro Ferreira no G1

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terça-feira, 31 de março de 2015

Retrô 1º trimestre de 2015: Mais do que discos, shows marcam início do ano

RETROSPECTIVA 1º TRIMESTRE DE 2015 - Com o disco cada vez mais banalizado como produto, sendo oferecido de graça por artistas independentes em busca de público e visibilidade, o primeiro trimestre de 2015 sai hoje de cena com a sensação de que houve mais álbuns e singles do que ouvintes interessados e/ou dispostos a escutá-los com a devida atenção. Tanto que parece ter faltado um disco que arrebatou e rompeu nichos de mercado nestes três primeiros meses do ano. Na seara fonográfica, a cantora paraibana Elba Ramalho se destacou com um de seus melhores e mais arrojados álbuns, Do meu olhar pra fora, arremessado no (que sobrou do) mercado neste mês de março pela mesma Coqueiro Verde Records que lançou o segundo (excelente) álbum do cantor e compositor carioca Jonas Sá, BLAM! BLAM! (Coqueiro Verde / Pommelo / Rockit!), disco cheio de testosterona que fez barulho nos ouvidos mais antenados ao unir sexo, suingue negro e eletrônica. No rastro dos elogios unânimes colhidos pela produção do segundo álbum de Alice Caymmi (cantora que quase deu tiro no próprio pé ao tirar o foco de seu grande disco com a edição de single carnavalesco fora de hora), Diogo Strausz mostrou habilidade e progresso em primeiro álbum solo, Spectrum vol. 1 (Independente), que merecia ter sido mais ouvido, comentado e elogiado ao ser lançado em janeiro. Da mesma forma, o bom álbum em que Chitãozinho & Xororó trazem as músicas de Antonio Carlos Jobim (1927 - 1994) para seu universo sertanejo - Tom do sertão (Universal Music), também lançado em janeiro - também merecia menções mais honrosas. Em fevereiro, a paulistana Andreia Dias viajou ao fundo de tempos nublados da obra inicial de Rita Lee em disco, Prisioneira do amor (Joia Moderna), em que o maior mérito parece ter sido do produtor Tim Bernardes. Em março, Seu Jorge acertou novamente o ponto da carne em Músicas para churrasco II, álbum de suingue mais diversificado, com doses bem temperadas de samba, soul e funky-pop-disco. De olho no retrovisor, a reboque de indústria habituada a revitalizar discos e sucessos do passado, o trio carioca Paralamas do Sucesso e o cantor e compositor carioca Paulinho da Viola lançaram caixas que reiteraram a coerência que pauta suas respectivas discografias. Já o tempo presente sinaliza futuros discos com cacife para diluir a apatia do ouvinte. Chegarão, ao longo do ano, álbuns inéditos de Fafá de Belém (produzido por Felipe Cordeiro e Manoel Cordeiro para a gravadora Joia Moderna), Filipe Catto, Gal Costa (Estratosférica, previsto para maio via Sony Music), Ná Ozzetti (dois discos, um calcado na modernidade do grupo Passo Torto e outro baseado na tradição de José Miguel Wisnik), Roberta Sá, Tulipa Ruiz e Zeca Pagodinho, entre outros nomes. Mas o fato é que, neste primeiro trimestre de 2105, os shows soaram (bem) mais marcantes e memoráveis do que os discos. Números antológicos ficarão nas retinas de espectadores privilegiados. Sob a direção artística de J. Velloso e Marcus Preto, Gal Costa - em foto de Rodrigo Goffredo - fez o show mais arrojado do trimestre. Já forte candidato a melhor show do ano, Ela disse-me assim - Canções de Lupicínio Rodrigues oxigenou o coração magoado do compositor gaúcho Lupícínio Rodrigues (1914 - 1974), deixando especialmente na memória o número em que cantora clama aos santos e demônios sua arrebatadora Vingança (Lupicínio Rodrigues, 1951). Fiel ao seu drama, Maria Bethânia também baixou forte no seu habitual terreiro com o (con)sagrado show comemorativo de seus 50 anos de carreira, Abraçar e agradecer. A interpretação apoteótica de Non, je ne regrette rien (Charles Dumont e Michael Vaucaire, 1956) foi veículo para reiteração de princípios e escolhas da cantora-orixá. Também em linha teatral, a cantora e atriz paranaense Simone Mazzer ganhou maior visibilidade com a edição de seu primeiro disco solo, Férias em videotape (Dubas Música, 2014), e a estreia do show homônimo, que veio à cena no Rio de Janeiro (RJ) com Caetano Veloso na entusiasmada plateia. Antes de o sucesso de Mazzer dar sinais de que o império cool pode começar a ruir, Thiago Pethit também brilhou ao se jogar - inclusive literalmente, na plateia - no seu libidinoso show Rock'n'roll sugar darling. Enfim, a música brasileira continua vívida, em nichos, sem um som que aglutine o país em torno de um disco ou artista. Mas com gana de continuar na história. Com cada artista no seu quadrado (do seu palco), o pulso ainda pulsou, ressuscitando mortos como Wilson Simonal (1938 - 2000) em musicais. E que venha já o segundo trimestre de 2015!

5 comentários:

Mauro Ferreira disse...

♪ RETROSPECTIVA 1º TRIMESTRE DE 2015 - Com o disco cada vez mais banalizado como produto, sendo oferecido de graça por artistas independentes em busca de público e visibilidade, o primeiro trimestre de 2015 sai hoje de cena com a sensação de que houve mais álbuns e singles do que ouvintes interessados e/ou dispostos a escutá-los com a devida atenção. Tanto que parece ter faltado um disco que arrebatou e rompeu nichos de mercado nestes três primeiros meses do ano. Na seara fonográfica, a cantora paraibana Elba Ramalho se destacou com um de seus melhores e mais arrojados álbuns, Do meu olhar pra fora, arremessado no (que sobrou do) mercado neste mês de março pela mesma Coqueiro Verde Records que lançou o segundo (excelente) álbum do cantor e compositor carioca Jonas Sá, BLAM! BLAM! (Coqueiro Verde / Pommelo / Rockit!), disco cheio de testosterona que fez barulho nos ouvidos mais antenados ao unir sexo, suingue negro e eletrônica. No rastro dos elogios unânimes colhidos pela produção do segundo álbum de Alice Caymmi (cantora que quase deu tiro no próprio pé ao tirar o foco de seu grande disco com a edição de single carnavalesco fora de hora), Diogo Strausz mostrou habilidade e progresso em primeiro álbum solo, Spectrum vol. 1 (Independente), que merecia ter sido mais ouvido e comentado ao ser lançado em janeiro. Da mesma forma, o bom álbum em que Chitãozinho & Xororó trazem as músicas de Antonio Carlos Jobim (1927 - 1994) para seu universo sertanejo - Tom do sertão (Universal Music), também lançado em janeiro - também merecia menções mais honrosas. Em fevereiro, a paulistana Andreia Dias viajou ao fundo de tempos nublados da obra inicial de Rita Lee em disco, Prisioneira do amor (Joia Moderna), em que o maior mérito parece ter sido do produtor Tim Bernardes. Em março, Seu Jorge acertou novamente o ponto da carne em Músicas para churrasco II, álbum de suingue mais diversificado, com doses bem temperadas de samba, soul e funky-pop-disco. De olho no retrovisor, a reboque de indústria habituada a revitalizar discos e sucessos do passado, o trio carioca Paralamas do Sucesso e o cantor e compositor carioca Paulinho da Viola lançaram caixas que reiteraram a coerência que pauta suas respectivas discografias.

Mauro Ferreira disse...

Já o tempo presente sinaliza futuros discos com cacife para diluir a apatia do ouvinte. Chegarão, ao longo do ano, álbuns inéditos de Fafá de Belém (produzido por Felipe Cordeiro e Manoel Cordeiro para a gravadora Joia Moderna), Filipe Catto, Gal Costa (Estratosférica, previsto para maio via Sony Music), Ná Ozzetti (dois discos, um calcado na modernidade do grupo Passo Torto e outro baseado na tradição de José Miguel Wisnik), Roberta Sá, Tulipa Ruiz e Zeca Pagodinho, entre outros nomes. Mas o fato é que, neste primeiro trimestre de 2105, os shows soaram mais marcantes e memoráveis do que os discos. Números antológicos ficarão nas retinas de espectadores privilegiados. Sob a direção artística de J. Velloso e Marcus Preto, Gal Costa - em foto de Rodrigo Goffredo - fez o show mais arrojado do trimestre. Já forte candidato a melhor show do ano, Ela disse-me assim - Canções de Lupicínio Rodrigues oxigenou o coração magoado do compositor gaúcho Lupícínio Rodrigues (1914 - 1974), deixando especialmente na memória o número em que cantora clama aos santos e demônios sua arrebatadora Vingança (Lupicínio Rodrigues, 1951). Fiel ao seu drama, Maria Bethânia também baixou forte no seu habitual terreiro com o (con)sagrado show comemorativo de seus 50 anos de carreira, Abraçar e agradecer. A interpretação apoteótica de Non, je ne regrette rien (Charles Dumont e Michael Vaucaire, 1956) foi veículo para reiteração de princípios e escolhas da cantora-orixá. Também em linha teatral, a cantora e atriz paranaense Simone Mazzer ganhou maior visibilidade com a edição de seu primeiro disco solo, Férias em videotape (Dubas Música, 2014), e a estreia do show homônimo, que veio à cena no Rio de Janeiro (RJ) com Caetano Veloso na entusiasmada plateia. Antes de o sucesso de Mazzer dar sinais de que o império cool pode começar a ruir, Thiago Pethit também brilhou ao se jogar - inclusive literalmente, na plateia - no seu libidinoso show Rock'n'roll sugar darling. Enfim, a música brasileira continua vívida, em nichos, sem um som que aglutine o país em torno de um disco ou artista. Mas com gana de entrar na história. Com cada artista no seu quadrado (do seu palco), o pulso ainda pulsou, ressuscitando mortos como Wilson Simonal (1938 - 2000) em musicais. Que venha o segundo trimestre de 2015!

Rafael M. disse...

Esse show da Gal em homenagem a Lupicínio já pode entrar na lista dos melhores do ano. Salve Gal!!!

Eduardo Cáffaro disse...

Adorei o texto Mauro. Eu tenho uma pequena impressão de que fora a parte da tecnologia, onde imperam os downloads, e o novo perfil do consumidor de música esteja mais minimalista , pois se atem mais a uma ou duas músicas de um artista do que ao álbum completo. A grande apatia , ao meu ver, se deu por conta das gravadoras injetarem no mercado investimento pesado apenas em artistas de retorno imediato e extremamente popularescos e de baixa qualidade musical. Agora jogaram tanta M..... no ventilador que estão colhendo a própria falência. E os artistas que realmente possuem arte estão achando formas alternativas de se relacionarem com seu público, e as grandes gravadoras estão ficando de fora da brincadeira.

Rafael M. disse...

Uma pena que adiaram o lançamento do disco da Gal de abril para maio... Já estou ansioso para ouvir esse novo trabalho dela!!!