Mauro Ferreira no G1

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quarta-feira, 6 de maio de 2015

Zélia se equilibra no trem mineiro em movimento ao cantar Milton com afeto

Resenha de show
Título: Inusitado - Zélia Duncan canta Milton Nascimento
Artista: Zélia Duncan (em foto de Rodrigo Goffredo) com Jaques Morelenbaum (violoncelo)
Local: Teatro de Câmara - Fundação Cidade das Artes (Rio de Janeiro, RJ)
Data: 5 de maio de 2015
Cotação: * * * *
♪ Show com transmissão ao vivo agendada pelo Canal Bis para as 21h de 6 de maio de 2015

Zélia Duncan ficou na defensiva na primeira vez em que se dirigiu ao público que foi ao Teatro de Câmara da Cidade das Artes, no Rio de Janeiro (RJ), na noite de 5 de maio de 2015, para ver a estreia do show em que a cantora fluminense aborda o repertório de Milton Nascimento. Zélia disse que iria apresentar as canções de Milton sem "reinventar a roda". E que procurava "nem lembrar" que boa parte dessas canções do compositor carioca de alma mineira tinha sido gravada por intérpretes como Elis Regina (1945 - 1982), Nana Caymmi e Simone. Pois, mesmo sem reinventar a roda, Zélia provou - a quem porventura ainda não soubesse - que ela também faz parte do time de grandes cantoras do Brasil. Sua grandeza consistiu em cantar (bem) Milton com uma formação que - mais do que a abordagem inédita do repertório de Milton por Zélia - foi o toque mais inusitado deste show criado para a terceira edição do Inusitado, o projeto do executivo André Midani em que artistas trilham caminhos musicais ainda inexplorados. Zélia dividiu o palco somente com Jaques Morelenbaum, virtuose do violoncelo, instrumento que, pela própria natureza, não oferece base segura para uma cantora. Ou seja, de certa forma, Zélia pegou o trem mineiro sem chão. E jamais caiu dele ao longo dos 19 números do show, se confirmando grande cantora. Já na primeira música, Ponta de areia (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1974), ficou evidente que Zélia optou por cantar Milton com ternura e com afeto, suavizando os tons de sua voz grave. É um caminho coerente com um cancioneiro que reflete fraternidade, sentimento já explicitado no título da Canção amiga (Milton Nascimento e Carlos Drummond de Andrade, 1978). Ao lado de Zélia, Morelenbaum também caminhou bem por essa estrada natural. Por ter o total domínio de seu instrumento, o virtuoso Morelenbaum forneceu o adorno, o floreio, da cada canção, explorando possibilidades de seu violoncelo, que eventualmente soou como baixo, como na introdução de Encontros e despedidas (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1981) - música em que o canto de Zélia embutiu simultaneamente a saudade e a expectativa contidas na letra - e como em algumas passagens de Beijo partido (Toninho Horta, 1975). Sim, Morelenbaum foi além do tom lírico normalmente associado ao violoncelo, instrumento típico de espetáculo de câmara, tirando até um inusitado suingue no toque das cordas de seu cello em Peixinhos do mar (Cantiga de marujada em adaptação de Tavinho Moura). Sem se ater exclusivamente ao repertório composto por Milton, Zélia selecionou 20 músicas gravadas pelo cantor em período que vai de 1967 a 1981 - não por acaso, a  fase áurea da produção autoral e fonográfica do sócio majoritário e fundador do Clube da Esquina em 1972. Zélia, aliás, mergulha com leveza neste cancioneiro, dando voz a músicas como Tudo que você podia ser (Lô Borges e Márcio Borges, 1972) e Nada será como antes (Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, 1972) - número, aliás, em que o toque do violoncelo de Morelenbaum pareceu evocar o barulho dos pés na estrada. Sim, há músicas que pediam os tambores de Minas Gerais no arranjo, caso de Caxangá (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1977). Ainda assim, Zélia se equilibrou bem no trem mineiro em movimento, afiando o ritmo de Fé cega, faca amolada (Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, 1974) na batida da palma da mão, acompanhando muito bem o (com)passo de Volver a los 17 (Violeta Parra, 1976) - música que simboliza a conexão de Milton Nascimento com a música da América Latina, em especial com a obra resistente da cantora argentina Mercedes Sosa (1935 - 2009) - e adicionando a Cravo e canela (Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, 1971)  a ternura que temperou todo o show. Sim, é fato que quase todas essas canções já ganharam registros emblemáticos de Elis Regina e do próprio Milton - o que torna injustas comparações inevitáveis como a suscitada por O que será (À flor da pele) (Chico Buarque, 1976), quando Zélia reproduz o vocal da introdução da gravação feita por Milton para o álbum Geraes (EMI-Odeon, 1976) em momento divino, e por Canção da América (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1979), já ouvida em registros mais pungentes. Mas Zélia acertou ao evitar se transformar em outras para cantar Milton. Zélia cantou Milton como Zélia - e também emocionou quando interpretou San Vicente (Milton Nascimento e  Fernando Brant, 1972) e quando soltou a voz na sua estrada para encerrar o show com Travessia (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1967), música de tons escuros como a luz do espetáculo, iluminada pelo coro da plateia. Em harmonia consigo mesma, Zélia Duncan honrou a obra de Milton Nascimento ao lado de Jaques Morelenbaum, levando o belo trem mineiro por sua estrada natural, sem sobressaltos, rumo à cidade e suas luzes.

8 comentários:

Mauro Ferreira disse...

♪ Zélia Duncan ficou na defensiva na primeira vez em que se dirigiu ao público que foi ao Teatro de Câmara da Cidade das Artes, no Rio de Janeiro (RJ), na noite de 5 de maio de 2015, para ver a estreia do show em que a cantora fluminense aborda o repertório de Milton Nascimento. Zélia disse que iria apresentar as canções de Milton sem "reinventar a roda". E que procurava "nem lembrar" que boa parte dessas canções do compositor carioca de alma mineira tinha sido gravada por intérpretes como Elis Regina (1945 - 1982), Nana Caymmi e Simone. Pois, mesmo sem reinventar a roda, Zélia provou - a quem porventura ainda não soubesse - que ela também faz parte do time de grandes cantoras do Brasil. Sua grandeza consistiu em cantar (bem) Milton com uma formação que - mais do que a abordagem inédita do repertório de Milton por Zélia - foi o toque mais inusitado deste show criado para a terceira edição do Inusitado, o projeto do executivo André Midani em que artistas trilham caminhos musicais ainda inexplorados. Zélia dividiu o palco somente com Jaques Morelenbaum, virtuose do violoncelo, instrumento que, pela própria natureza, não oferece base segura para uma cantora. Ou seja, de certa forma, Zélia pegou o trem mineiro sem chão. E jamais caiu dele ao longo dos 19 números do show, se confirmando grande cantora. Já na primeira música, Ponta de areia (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1974), ficou evidente que Zélia optou por cantar Milton com ternura e com afeto, suavizando os tons de sua voz grave. É um caminho coerente com um cancioneiro que reflete fraternidade, sentimento já explicitado no título da Canção amiga (Milton Nascimento e Carlos Drummond de Andrade, 1978). Ao lado de Zélia, Morelenbaum também caminhou bem por essa estrada natural. Por ter o total domínio de seu instrumento, o virtuoso Morelenbaum forneceu o adorno, o floreio, da cada canção, explorando possibilidades de seu violoncelo, que eventualmente soou como baixo, como na introdução de Encontros e despedidas (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1981) - música em que o canto de Zélia embutiu simultaneamente a saudade e a expectativa contidas na letra - e como em algumas passagens de Beijo partido (Toninho Horta, 1975). Sim, Morelenbaum foi além do tom lírico normalmente associado ao violoncelo, instrumento típico de espetáculo de câmara, tirando até um inusitado suingue no toque das cordas de seu cello em Peixinhos do mar (Cantiga de marujada em adaptação de Tavinho Moura).

Mauro Ferreira disse...

Sem se ater exclusivamente ao repertório composto por Milton, Zélia selecionou 20 músicas gravadas pelo cantor em período que vai de 1967 a 1981 - não por acaso, a fase áurea da produção autoral e fonográfica do sócio majoritário e fundador do Clube da Esquina em 1972. Zélia, aliás, mergulha com leveza neste cancioneiro, dando voz a músicas como Tudo que você podia ser (Lô Borges e Márcio Borges, 1972) e Nada será como antes (Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, 1972) - número, aliás, em que o toque do violoncelo de Morelenbaum pareceu evocar o barulho dos pés na estrada. Sim, há músicas que pediam os tambores de Minas Gerais no arranjo, caso de Caxangá (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1977). Ainda assim, Zélia se equilibrou bem no trem mineiro em movimento, afiando o ritmo de Fé cega, faca amolada (Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, 1974) na batida da palma da mão, acompanhando muito bem o (com)passo de Volver a los 17 (Violeta Parra, 1976) - música que simboliza a conexão de Milton Nascimento com a música da América Latina, em especial com a obra resistente da cantora argentina Mercedes Sosa (1935 - 2009) - e adicionando a Cravo e canela (Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, 1971) a ternura que temperou todo o show. Sim, é fato que quase todas essas canções já ganharam registros emblemáticos de Elis Regina e do próprio Milton - o que torna injustas comparações inevitáveis como a suscitada por O que será (À flor da pele) (Chico Buarque, 1976), quando Zélia reproduz o vocal da introdução da gravação feita por Milton para o álbum Geraes (EMI-Odeon, 1976) em momento divino, e por Canção da América (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1979), já ouvida em registros mais pungentes. Mas Zélia acertou ao evitar se transformar em outras para cantar Milton. Zélia cantou Milton como Zélia - e também emocionou quando interpretou San Vicente (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1972) e quando soltou a voz na sua estrada para encerrar o show com Travessia (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1967), música de tons escuros como a luz do espetáculo, iluminada pelo coro da plateia. Em harmonia consigo mesma, Zélia Duncan honrou a obra de Milton Nascimento ao lado de Jaques Morelenbaum, levando o belo trem mineiro por sua estrada natural, sem sobressaltos, rumo à cidade e suas luzes.

Rafael M. disse...

Tá aí um show que eu gostaria de ver...

italo vinicius disse...

Vamos ver no Bis , não perco por nada

Rhenan Rodrigo disse...

Perdi a transmissão do BIS! :(
Zélia tem acertado em tudo, está maravilhosa.

italo vinicius disse...

Assisti o show ontem belíssimo Zélia esta se superando a cada projeto

noca disse...

Parabéns Zélia e Jaques...Muito lindo!

Fabiano Duncan disse...

Tudo o que Zélia se propoe a fazer faz muito bem feito, com qualidade, talento e muito esmero, belissimo este trabalho, baixei e nao paro de assistir.