Mauro Ferreira no G1

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quarta-feira, 13 de maio de 2015

Voz destacada em musicais de teatro, Lilian Valeska encara riscos em 'Elas'

Resenha de CD
Título: Elas
Artista: Lilian Valeska
Gravadora: Edição independente da artista
Cotação: * * *

Lilian Valeska corre riscos ao longo das 10 faixas de seu primeiro álbum solo, Elas, disco ainda sem distribuição comercial. Atriz e cantora carioca revelada em musicais de teatro, nos quais costuma roubar a cena quando solta seu vozeirão diplomado na escola da black music e lapidado no coral de Igreja Presbiteriana situada no bairro carioca da Penha, Valeska encara músicas já gravadas de forma emblemática por cantoras importantes em suas formação musical. Sob a direção musical de Josimar Carneiro e Jorge Aílton, autores dos arranjos do CD, Valeska  enfrenta o desafio de cantar músicas associadas a elas - o que impede o disco-tributo de começar a cavar um terreno musical próprio para essa artista projetada em escala nacional no ano passado como uma das quatro protagonistas da série Sexo e as nega (TV Globo, 2014). No disco, gravado sob a direção artística da própria Lilian Valeska, são elas por ela. Equação injusta quando, no meio delas, há cantoras icônicas como Elis Regina (1945 - 1982) - de cujo repertório Valeska pesca a pérola Jardins de infância (João Bosco e Aldir Blanc, 1975), música do show e disco Falso brilhante (Philips, 1976) - e Marlene (1922 - 2014), celebrada com reverente abordagem do samba Lata d'água (Jota Junior e Luiz Antônio, 1952). Injustas com Valeska, mas inevitáveis porque algumas escolhas de repertório soam óbvias, as comparações mostram que uma cantora de recursos vocais precisa ficar atenta ao criar o conceito de um disco para fugir da armadilha de soar como genérica de colegas como Elza Soares. Valeska cai bem no suingue de Edmundo (1960) - a versão marota de Aloysio de Oliveira (1914 - 1955) para In the mood (Wingy Manone, Joe Garland e Andy Razaf, 1939) - sem que seu registro seja páreo para a gravação original da Mulata assanhada. De todo modo, a beleza da voz de Valeska salta aos ouvidos no disco, sobretudo no registro - em tom de câmara - de Derradeira primavera (Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, 1962), música lançada em disco por Elza Laranjeira (1925 - 1986), porém mais associada à divina Elizeth Cardoso (1920 - 1990). Aberto com Me deixa em paz (Monsueto e Aírton Amorim, 1952), música associada à voz de Alaíde Costa, o disco reapresenta música de autoria da própria Lilian Valeska. Trata-se de Procura, balada sensual de alma soul lançada em disco, em 1990, por ninguém menos do que Lady Zu, uma das rainhas nativas da disco music. A propósito, o fraseado soul da voz de Valeska está entranhado em todo o álbum, mesmo quando a cantora cai no samba, como em Não vá (Sandra e Mirna, 1986) - faixa que tributa a pioneira voz feminina da era Black Rio, Sandra de Sá, que lançou o tema em gravação de registro mais caloroso do que o tom ameno adotado por Valeska - e em Não deixe o samba morrer (Edson e Aloísio, 1975), carro-chefe do primeiro álbum de Alcione. Por causa de você (Antonio Carlos Jobim e Dolores Duran, 1957) reitera a beleza da voz de Valeska, mesmo que essa voz transite no disco - gravado no estúdio Tenda da Raposa, no Rio de Janeiro (RJ) - sem a dramaticidade imponente dos registros feitos pela cantora nos palcos em que encena musicais de teatro. A faixa de maior dramaticidade do disco é Dancei, inédita versão em português - escrita pelo ator e dramaturgo carioca Miguel Falabella - de Last dance (Paul Jabara, 1978), um dos sucessos da cantora norte-americana Donna Summer (1948 - 2012) na era da disco music. Ao mesmo tempo em que evoca o som dos dancin' days, a música embute atitude que valoriza o canto - vocacionado para o drama - de Lilian Valeska, cantora que corre riscos neste merecido disco solo.

3 comentários:

Mauro Ferreira disse...

♪ Lilian Valeska corre riscos ao longo das 10 faixas de seu primeiro álbum solo, Elas, disco ainda sem distribuição comercial. Atriz e cantora carioca revelada em musicais de teatro, nos quais costuma roubar a cena quando solta seu vozeirão diplomado na escola da black music e lapidado no coral de Igreja Presbiteriana situada no bairro carioca da Penha, Valeska encara músicas já gravadas de forma emblemática por cantoras importantes em suas formação musical. Sob a direção musical de Josimar Carneiro e Jorge Aílton, autores dos arranjos do CD, Valeska enfrenta o desafio de cantar músicas associadas a elas - o que impede o disco-tributo de começar a cavar um terreno musical próprio para essa artista projetada em escala nacional no ano passado como uma das quatro protagonistas da série Sexo e as nega (TV Globo, 2014). No disco, gravado sob a direção artística da própria Lilian Valeska, são elas por ela. Equação injusta quando, no meio delas, há cantoras icônicas como Elis Regina (1945 - 1982) - de cujo repertório Valeska pesca a pérola Jardins de infância (João Bosco e Aldir Blanc, 1975), música do show e disco Falso brilhante (Philips, 1976) - e Marlene (1922 - 2014), celebrada com reverente abordagem do samba Lata d'água (Jota Junior e Luiz Antônio, 1952). Injustas com Valeska, mas inevitáveis porque algumas escolhas de repertório soam óbvias, as comparações mostram que uma cantora de recursos vocais precisa ficar atenta ao criar o conceito de um disco para fugir da armadilha de soar como genérica de colegas como Elza Soares. Valeska cai bem no suingue de Edmundo (1960) - a versão marota de Aloysio de Oliveira (1914 - 1955) para In the mood (Wingy Manone, Joe Garland e Andy Razaf, 1939) - sem que seu registro seja páreo para a gravação original da Mulata assanhada. De todo modo, a beleza da voz de Valeska salta aos ouvidos no disco, sobretudo no registro - em tom de câmara - de Derradeira primavera (Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, 1962), música lançada em disco por Elza Laranjeira (1925 - 1986), porém mais associada à divina Elizeth Cardoso (1920 - 1990). Aberto com Me deixa em paz (Monsueto e Aírton Amorim, 1952), música associada à voz de Alaíde Costa, o disco reapresenta música de autoria da própria Lilian Valeska. Trata-se de Procura, balada sensual de alma soul lançada em disco, em 1990, por ninguém menos do que Lady Zu, uma das rainhas nativas da disco music. A propósito, o fraseado soul da voz de Valeska está entranhado em todo o álbum, mesmo quando a cantora cai no samba, como em Não vá (Sandra e Mirna, 1986) - faixa que tributa a pioneira voz feminina da era Black Rio, Sandra de Sá, que lançou o tema em gravação de registro mais caloroso do que o tom ameno adotado por Valeska - e em Não deixe o samba morrer (Edson e Aloísio, 1975), carro-chefe do primeiro álbum de Alcione. Por causa de você (Antonio Carlos Jobim e Dolores Duran, 1957) reitera a beleza da voz de Valeska, mesmo que essa voz transite no disco - gravado no estúdio Tenda da Raposa, no Rio de Janeiro (RJ) - sem a dramaticidade imponente dos registros feitos pela cantora nos palcos em que encena musicais de teatro. A faixa de maior dramaticidade do disco é Dancei, inédita versão em português - escrita pelo ator e dramaturgo carioca Miguel Falabella - de Last dance (Paul Jabara, 1978), um dos sucessos da cantora norte-americana Donna Summer (1948 - 2012) na era da disco music. Ao mesmo tempo em que evoca o som dos dancin' days, a música embute atitude que valoriza o canto - vocacionado para o drama - de Lilian Valeska, cantora que corre riscos neste merecido disco solo.

Rafael M. disse...

Gostaria de ouvir o CD... Aonde posso encontrá-lo???

Mauro Ferreira disse...

O disco ainda não foi lançado, como está dito no texto. Abs, MauroF