Mauro Ferreira no G1

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quinta-feira, 14 de maio de 2015

Box embala reedições oportunas dos cinco álbuns de Leo Jaime nos anos 80

Nada mudou. Leo Jaime continua sendo um dos artistas mais interessantes da geração pop projetada nos anos 1980 por ter feito um som e uma discografia que passaram pelo funil estreito do tempo. Por isso mesmo, o título Nada mudou – tomado emprestado do nome de um hit radiofônico do artista em 1986 - é perfeitamente adequado para esse box em que a Sony Music embala os cinco álbuns de estúdio gravados pelo cantor e compositor naqueles anos de sexo e rock’n’roll, década do auge artístico da produção musical desse artista multimídia. Remasterizados por Carlos Savalla e Luigi Hoffer, os álbuns – Phodas “C” (1983), Sessão da tarde (1985), Vida difícil (1986), Direto do meu coração pro seu (1988) e Avenida das desilusões (1989) ­– voltam ao mercado fonográfico com faixas-bônus que completam a discografia de Leonardo Jaime, hoje com 55 bem vividos anos, naquela década. Vida difícil era - até então inédito - no formato de CD.

Para os jovens de hoje, da era dos selfies e das redes sociais, o nome de Leo Jaime está instantaneamente mais conectado à televisão, visto que o artista participa das temporadas do programa Amor & sexo, exibido sazonalmente pela TV Globo com trilha sonora assinada por Jaime. Tudo a ver. Artista multimídia, que concilia a música com trabalhos na TV e no teatro, Leo Jaime afinal expandiu seu campo de atuação ao longo de seus mais de 30 anos de carreira. Paralelamente à carreira musical, o artista exercitou sua versatilidade como cronista de jornais e revistas, ator de novelas e de séries – integrando, por exemplo, o elenco da atual temporada do programa juvenil Malhação (TV Globo) – e apresentador de reality show na TV paga. Tudo ao mesmo tempo agora!!

Para quem foi jovem no Brasil dos anos 1980, Leo Jaime foi um dos mais perfeitos tradutores pop das angústias, êxtases e decepções dessa fase dourada e doída da vida. Tanto que o primeiro álbum do box, Phodas “C, saiu em 1983, cheio de testosterona. Aos 23 anos, Leo Jaime pensava somente naquilo. Com o som tecnopop de sua época, Phodas “C” é, dos cinco álbuns da caixa, o que resulta mais irregular e datado. Mas é um retrato do som daquela época. Tem uma euforia adolescente, mas não ignorou o mal que assombrou aquela década. AIDS, uma das músicas do disco, tem hoje caráter histórico por trazer no título o nome da doença que ocuparia as mentes e as manchetes daquela década numa época em que o mal do século ainda era, no Brasil, assunto somente da comunidade científica e de um pequeno círculo antenado com os acontecimentos de Nova York (EUA) naquela era pré-webPhodas “C”, contudo, era um disco desencanado. O tom jocoso era perceptível já no título, que supostamente usava o nome de um navio – Leo posava de marinheiro na capa – para dar o recado pretendido. Mas a censura arbitrária da época não entrou de gaiata nesse navio e proibiu a execução pública de Sônia, por conta dos versos que nominavam práticas sexuais. Aos olhos e ouvidos da censura, tais versos tornavam a versão de Sunny – música lançada em 1966 por seu autor, o cantor e compositor norte-americano Bobby Hebb (1938 – 2010) – inadequada para a família brasileira. O que fez com que Phodas “C” chegasse lacrado às lojas de discos. Lançado no fim de 1983, Phodas “C” fez sucesso moderado, aquém das expectativas de Leo Jaime, mas a reduzida repercussão foi suficiente para dar rumo à carreira do artista. Goiano nascido na interiorana cidade de Anápolis, em 23 de abril de 1960, Leo Jaime teve a vida difícil que explicitou no título de seu terceiro álbum. Foi office-boy e faxineiro, entre outras profissões menos qualificadas na pirâmide social, antes de migrar para o Rio de Janeiro (RJ), à beira dos 17 anos, em busca de melhores oportunidades profissionais. Antes, a viagem teve escala em Brasília (DF), cidade em que Leo trabalhou como ator de musical e de espetáculo de dança, já mostrando a veia multimídia que afloraria mais forte a partir dos anos 1990. No Rio, Leo Jaime logo se enturmou na efervescente e emergente cena pop da época. E fez história.  Por ser amigo de Cazuza (1958 – 1990), indicou o Exagerado para o posto de vocalista de uma banda de rock stoniano que estava sendo formada na cidade. O convite tinha sido feito a Leo, mas este, além de já estar cantando em duas outras bandas, percebeu que sua praia musical era outra, mais voltada para o rockabilly, para a Jovem Guarda de Erasmo Carlos e para o humor. Mesmo assim, topou ouvir o som do Barão Vermelho já com o intuito de sugerir outra pessoa para o posto de vocalista da banda. Ao indicar Cazuza, o iniciante cantor retribuiu de certa forma as refeições que filou na casa do amigo em tempos em que a fome de comida era tanta ou até maior do que a fome de vida. De todo modo, Leo Jaime já tinha encontrado sua turma, integrando a formação original do divertido grupo João Penca e seus Miquinhos Amestrados. Só que a brincadeira era tanta que, percebendo que o grupo não levava a sério a possibilidade de seguir carreira profissional, Leo preferiu o porto seguro de um contrato com a gravadora CBS – a atual Sony Music – e partiu para a carreira solo, cujo pontapé inicial foi a gravação e edição de um compacto simples, em 1983, com as músicas O bolha e Vinte garotas num fim de semana. Essas duas raras gravações foram alocadas como faixas-bônus na presente reedição de Phodas “C”, com a terceira faixa adicional, Johnny pirou, versão de Johnny B. Goode, rock lançado por seu compositor Chuck Berry, a lenda viva do rock’n’roll dos anos 1950. 

Obra-prima da discografia de Leo Jaime, seu segundo álbum, Sessão da tarde, lançado em março de 1985, deu enfim ao cantor o sucesso nacional e avassalador que ele esperava ter obtido com Phodas “C”. A pose rockabilly do cantor na capa em preto e branco explicitava a mudança de rumo. Com atitude, Leo abandonou a estética tecnopop vigente na década e fez um disco mais new wave, mais Erasmo Carlos – a quem Sessão da tarde é sintomaticamente dedicado – e mais Leo Jaime, enfim. Um disco com topete, mas também melancólico, agridoce, pois focava o amor pela ótica desiludida dos menos favorecidos na pirâmide social – sentimento que Jaime conhecia bem. Tanto que a música pop que abria o disco se chamava O pobre. Com músicas deliciosas, leves e soltas, próprias para se ouvir numa sessão da tarde, o álbum enfileirou hits nas paradas. , A vida não presta, A fórmula do amor – exemplo do pop perfeito, gravado em dueto com Paula Toller, a carioca que despontava como vocalista do grupo Kid Abelha – e As sete vampiras (tema-título do filme de ‘terrir’ do cineasta Ivan Cardoso, composto por Leo para a trilha sonora do longa-metragem) se embolaram na preferência popular, quebrando a resistência inicial da diretoria da CBS com o disco. Detalhe: Sessão da tarde ainda tinha uma faixa que alcançou eco por ser endereçada à principal censora da época, Solange Hernandez. Versão de So lonely, sucesso do trio inglês The Police em 1978, Solange era o troco dado por Leo (com seu parceiro Leoni) na censura ao seu álbum Phodas “C”. Leo Jaime era o cara. Tanto que, entre este consagrador segundo álbum e o terceiro, o cantor ainda estourou nas rádios em 1986 com uma música que não fazia parte do repertório de Sessão da tarde: Rock estrela, tema-título do filme pop do cineasta paulistano Lael Rodrigues (1951 - 1989). Gravação nunca incluída nos álbuns oficiais de Leo Jaime, Rock estrela é a preciosa faixa-bônus da atual edição de Sessão da tarde. Joia (do fundo) do baú.

Com a fama, veio a ressaca do sucesso. Vida difícil, terceiro álbum de Leo Jaime, lançado em 1986, foi produto de crise existencial do artista. Incomodado com o capitalismo selvagem que transformava bandas e cantores do rock numa propaganda de refrigerante, Jaime esboçou virada neste disco menos irreverente, precocemente mais maduro. O grande sucesso foi a balada Nada mudou, boa o suficiente para fazer o álbum vender mais de 200 mil cópias. Leo Jaime queria uma ideologia para viver de música sem entrar na engrenagem. E começou a transitar por outros universos musicais. Incluída como faixa-bônus de Vida difícil, a regravação avulsa de A lua e eu (Cassiano e Paulo Zdan) – sucesso do soulman brasileiro Cassiano em 1976 – sinalizava que o coração de Leo Jaime começava a bater em outras direções. Direto do meu coração pro seu – quarto álbum do cantor, lançado em 1988 – já explicitava no título um romantismo quase pueril. Mas, no álbum, o artista também voltava a beber da fonte do rock’n’roll dos anos 1950, como deixavam claro as versões de Hound dog (Hot dog, título bem-humorado do blues de 1952 que Elvis Presley trouxe para o universo do rock em 1956) e Tutti frutti (o hit seminal de Little Richards em 1955). A faixa-título, aliás, era versão de Directly from my heart, canção gravada por Little Richards em 1959 que Jaime veio a conhecer em registro de Frank Zappa (1940 – 1993). Ao regravar ternamente a dengosa canção Gatinha manhosa, sucesso de Erasmo Carlos em 1966, Jaime mais uma vez indicava de onde vinha a sua música pop. Só que, naqueles tempos em que o rock brasileiro se engajava na luta contra a corrupção galopante de Brasília (DF), um disco de romantismo explícito soava como atentado ao pudor. Direto do meu coração pro seu fez sucesso, mas em proporções reduzidas e abriu caminho para um disco que já expressava melancolia no seu título, Avenida das desilusões, lançado em 1989. Apesar de bater em teclas antigas do cancioneiro do artista, como a irreverência sexista (nas faixas Eterno enquanto duro e Sucesso sexual) e o romantismo direto (Eu perco o rumo sem você), alguma coisa já parecia fora da ordem naquele momento. Apesar da beleza de sua música-título e da precisão da regravação de Índios (em afinada abordagem da canção da banda Legião Urbana, lançada em 1986), Avenida das desilusões jamais encontrou seu endereço, seu caminho. Não por acaso, foi o último álbum de Leo Jaime na CBS. Daí em diante, a carreira fonográfica do artista multimídia seria progressivamente desacelerada. Mas os fonogramas destes cinco álbuns – ora reunidos neste oportuno box produzido por Hugo Pereira Nunes com reprodução da arte dos LPs originais – são provas de que nada mudou. Leo Jaime ainda é – e sempre será – um dos artistas mais talentosos da geração pop dos anos 1980.

18 comentários:

Mauro Ferreira disse...

♪ Nada mudou. Leo Jaime continua sendo um dos artistas mais interessantes da geração pop projetada nos anos 1980 por ter feito um som e uma discografia que passaram pelo funil estreito do tempo. Por isso mesmo, o título Nada mudou – tomado emprestado do nome de um hit radiofônico do artista em 1986 - é perfeitamente adequado para esse box em que a Sony Music embala os cinco álbuns de estúdio gravados pelo cantor e compositor naqueles anos de sexo e rock’n’roll, década do auge artístico da produção musical desse artista multimídia. Remasterizados por Carlos Savalla e Luigi Hoffer, os álbuns – Phodas “C” (1983), Sessão da tarde (1985), Vida difícil (1986), Direto do meu coração pro seu (1988) e Avenida das desilusões (1989) ­– voltam ao mercado fonográfico com faixas-bônus que completam a discografia de Leonardo Jaime, hoje com 55 bem vividos anos, naquela década. Vida difícil era - até então inédito - no formato de CD.

Rafael M. disse...

Box mais do que necessário para quem é fã de Léo Jaime...

CelloPiazza disse...

A Sony parece que acordou ! Está lançando também um box louvável de Renato Teixeira.

Eduardo disse...

Texto sensacional, à altura da obra do grande Leo.

Parabéns, Mauro! E obrigado por tanta boa informação.

Cláudio disse...

Mauro, parece que o "Direto do Meu Coração Para o Seu" também era inédito em CD e não apenas o "Vida Difícil". O Box é oportuno porém o formato do box não ficou muito bom: Os encartes dos discos vêm em um livreto (até aí, tudo bem!). O problema é a forma das capinhas dos CDs que vieram alargadas, deixando os discos totalmente livres. Se isso é uma inovação para os formatos de boxes, acho que seria bom colher a opinião dos consumidores antes de fazer o mesmo para outros artistas. Será que o de Renato Teixeira é igual?

Mauro Ferreira disse...

Claudio, não estou seguro, mas me parece que o 'Direto do meu coração' chegou a ser editado em CD, numa tiragem reduzida, na época de seu lançamento, em 1988. Abs, MauroF

guidolino disse...

Mauro, o "Direto do meu coração pro seu" infelizmente não saiu em CD. Apenas o disco "Avenida das desilusões" saiu em cd na época e, futuramente, foram reeditados o "Phodas C", "Sessão da tarde" e a trilha do filme "Rock Estrela". O último disco de Leo Jaime pela WEA, o "Todo Amor" foi relançado nessa década com uma bonus track também. Só falta o "Sexo, drops e rock 'n' roll" ser reeditado para dar um frescor na discografia desse grande artista.
O meu box está à caminho, mas só o fato de lançarem o box já é uma prova de que música boa não tem idade. Parabéns à Sony.

Mauro Ferreira disse...

Guidolino, dê uma olhada nesse link: http://produto.mercadolivre.com.br/MLB-640149869-cd-leo-jaime-direto-do-meu-coraco-pro-seu-_JM

abs, MauroF

guidolino disse...

Mauro, essa é uma edição Fan Made, digitalizada do próprio LP, no próprio anúncio o vendedor diz isso...

Cláudio disse...

Mauro, este link que você colocou do ML é pertencente a um vendedor que faz as reedições dos vinis de forma artesanal. Não é produto original de fábrica. Este vendedor possui discos de Yahoo, Celso Blues Boy, Rádio Táxi e que não saíram originalmente. Parecem ser de boa qualidade mas não são originais, inclusive o de Léo Jaime "Direto do Meu Coração".

Damião Costa disse...

Em 1988 a CBS atual Sony lançou o lp remix Léo É uma festa.A música A lua e eu saiu no cd comentado pelo Leo Jaime de 2000 Rock estrela onde obviamente tem essa música tb, Jonny pirou já saiu em outras coletâneas. Ou seja vale comprar pelos dois trabalhos que nunca sairam em cd 1986 e 1988

Mauro Silva disse...

Passo longe...nunca gostei de Léo Jaime, ele sempre foi muito ruizinho, sempre gostei mais do Ritchie, do Lulu, do Leoni. Inclusive, o Ney Matogrosso lançou seu primeiro Box com os discos em CD remasterizados e obrigou a gravadora a tirar do disco "Pois é" de 1983 a música " Calúnias" de autoria a versão (Tell Me Once Again) de Léo Jaime, Ney alega que foi obrigado a gravar esta música na época por pressão da gravadora e que sempre á detestou e hoje se arrepende ..rsrsrs, diante disso já temos ideia do que foi Léo Jaime na época, fraquinho demais.

Marcelo Delfino disse...

A Sony continua resgatando os discos originais dos nomes do rock brasileiro dos anos 80. Avançou agora para a obra de Léo Jaime. Está mais adiantada que a Universal, que continua devendo a reedição de todos os seus discos originais de nomes fundamentais como Capital Inicial e Biquíni Cavadão.

ADEMAR AMANCIO disse...

Eu achava que a primeira música a abordar o problema da aids,fosse A Cura de Lulu Santos.

Mago do Horror disse...

É impressão minha, ou alguns segundos da introdução de "Adoro" em "Direto do meu coração pro seu" está cortada?

Damião Costa disse...

Alguém sabe se tem algum cd do Léo jaime com a versão família da música Sônia que teve um clip no fantástico?

Damião Costa disse...

Alguém sabe se tem alguma coletânea que possua a versão família de Sônia?

Eduardo disse...

Oi, Mauro, tudo bem? Tentei mandar pelo email do UOL, parece que não existe mais. No novo blog do G1, ainda não me entendi muito bem com a área de comentários.

Na terça-feira (13/09) assisti (ao vivo) o show que Leo Jaime fez para o Couvert Artístico da rádio JB FM.

Como de praxe no programa, houve muita conversa entre uma música e outra.

Leo contou que está se encontrando regularmente com os João Penca e Seus Miquinhos Amestrados, têm composto juntos. Disse que os Miquinhos preparam uma volta aos shows com músicas novas (de repente um novo álbum ou singles em plataformas digitais).

Leo, além do novo single de Charme do Mundo, cantou também músicas com Lágrimas e Chuva, Mais Feliz, Jumpin' Jack Flash e outros covers.

Abraços,
Eduardo.