Mauro Ferreira no G1

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quinta-feira, 28 de maio de 2015

Hoineff documenta grandeza da voz de Cauby em (bom) filme sem didatismo

Resenha de filme
Título: Cauby - Começaria tudo outra vez
Direção: Nelson Hoineff
Produção: Comalt / Coprodução: Canal Brasil
Cotação: * * * 
Documentário em cartaz nos cinemas do Brasil a partir de hoje, 28 de maio de 2015

Não há didatismo no roteiro do documentário em que o cineasta Nelson Hoineff foca o cantor fluminense Cauby Peixoto. Tampouco há uma exposição cronológica de fatos que permitam ao espectador ter ideia clara da evolução da carreira do artista desde a década de 1950 aos anos 2010. Contudo, entre o aparente caos que rege o seu roteiro, Hoineff consegue documentar a grandeza deste cantor nascido em 1931 e ainda em atividade, aos bravos 84 anos. O subtítulo Começaria tudo outra vez - tomado emprestado do bolero do compositor carioca Luiz Gonzaga Jr. (1945 - 1991), ouvido no filme na voz de Cauby - alude ao fato de o cantor ter renascido das cinzas diversas vezes ao longo de seus 64 anos de carreira fonográfica. Cauby já entrou e saiu de moda ao longo de sua trajetória. Mas atualmente já paira acima do bem e do mal, na galeria dos mitos imortais da música brasileira. Hoineff reverencia o mito com respeito, escorado em vasto e valioso material de arquivo. Somente o fato de o documentário mostrar Cauby cantando rock no filme Minha sogra é da polícia (Brasil, 1958) e de focar o cantor no filme norte-americano Jamboree! (Estados Unidos, 1957) - longa-metragem feito pelo artista brasileiro na época em que ele tentou (em vão) construir carreira nos EUA com o pseudônimo de Ron Coby - já vale uma ida ao cinema para ver o filme que entrou hoje, 28 de maio de 2015, em circuito nos cinemas de cinco estados do Brasil (Distrito Federal, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e São Paulo). As sequências clipadas em que Cauby é visto cantando Conceição (Jair Amorim e Valdemar de Abreu, o Dunga, 1956) e Bastidores (Chico Buarque, 1980) em diversas fases da carreira também valorizam o filme e promovem a apoteose da voz do artista, ao qual Hoineff teve acesso. O documentário é costurado por imagens de bastidores de shows recentes feitos pelo (já fisicamente debilitado) cantor nas cidades de Rio de Janeiro (RJ) e São Paulo (SP) sob os cuidados de Thiago Marques Luiz, produtor responsável pela continuidade da carreira de Cauby após os anos 2000 e, por isso mesmo, não devidamente relevado por Hoinneff no filme. Em vez disso, Hoineff direciona suas câmeras para um jovem fã carioca de Cauby, Tadeu Kebian, mostrado no filme como o exemplo (raro) de que o canto de Cauby atravessa gerações, não ficando restrito somente ao público idoso. Contudo, todas as cenas filmadas na casa de Kebian carecem de naturalidade, soando artificiais, como se estivessem sido armadas para o filme. Essa mesma artificialidade dilui a emoção do encontro do fã com seu ídolo. Mais natural soa o encontro de velhas e fiéis fãs em confeitaria do Rio de Janeiro - cena em que se destaca a ex-secretária Lídia de Souza. Nesses momentos, o documentário deixa entrever os ciúmes que corroem correntes de fãs passionais como o repertório do cantor. Mas quase tudo no filme fica nas entrelinhas. Os depoimentos mais claros e diretos são os dados pelos pesquisadores musicais Ricardo Cravo Albin e Rodrigo Faour (biógrafo de Cauby). O próprio Cauby é quase sempre vago, exceto quando tece loas ao já falecido (em 2005) empresário Edson Colaço Veras, o Di Veras, arquiteto de estratégias de marketing que elevaram a popularidade de Cauby nos anos 1950. A revelação do cantor de que ia para o morro "transar com os veados" na meninice tem sido usada pela mídia para atestar a admissão de uma homossexualidade que, afinal, não existe no filme, já que, na sequência do breve depoimento sobre o assunto, Cauby diz que posteriormente passou a "andar direito". Para quem prefere música a (falsas) polêmicas, Cauby - Começaria tudo outra vez mostra um então jovem cantor interpretando seu sucesso Nono mandamento (Renê Bittencourt e Raul Sampaio, 1957) no filme De pernas pro ar (Brasil,1957), no ano em que Cauby lançou a música. Enfim, entre altos e baixos, paira no documentário a voz única de Cauby Peixoto. Evidenciar na tela a grandeza dessa voz é o mérito do filme de Nelson Hoineff...

9 comentários:

Mauro Ferreira disse...

♪ Não há didatismo no roteiro do documentário em que o cineasta Nelson Hoineff foca o cantor fluminense Cauby Peixoto. Tampouco há uma exposição cronológica de fatos que permitam ao espectador ter ideia clara da evolução da carreira do artista desde a década de 1950 aos anos 2010. Contudo, entre o aparente caos que rege o seu roteiro, Hoineff consegue documentar a grandeza deste cantor nascido em 1931 e ainda em atividade, aos bravos 84 anos. O subtítulo Começaria tudo outra vez - tomado emprestado do bolero do compositor carioca Luiz Gonzaga Jr. (1945 - 1991), ouvido no filme na voz de Cauby - alude ao fato de o cantor ter renascido das cinzas diversas vezes ao longo de seus 64 anos de carreira fonográfica. Cauby já entrou e saiu de moda ao longo de sua trajetória. Mas atualmente já paira acima do bem e do mal, na galeria dos mitos imortais da música brasileira. Hoineff reverencia o mito com respeito, escorado em vasto e valioso material de arquivo. Somente o fato de o documentário mostrar Cauby cantando rock no filme Minha sogra é da polícia (Brasil, 1958) e de focar o cantor no filme norte-americano Jamboree! (Estados Unidos, 1957) - longa-metragem feito pelo artista brasileiro na época em que ele tentou (em vão) construir carreira nos EUA com o pseudônimo de Ron Coby - já vale uma ida ao cinema para ver o filme que entrou hoje, 28 de maio de 2015, em circuito nos cinemas de cinco estados do Brasil (Distrito Federal, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e São Paulo). As sequências clipadas em que Cauby é visto cantando Conceição (Jair Amorim e Valdemar de Abreu, o Dunga, 1956) e Bastidores (Chico Buarque, 1980) em diversas fases da carreira também valorizam o filme e promovem a apoteose da voz do artista, ao qual Hoineff teve acesso. O documentário é costurado por imagens de bastidores de shows recentes feitos pelo (já fisicamente debilitado) cantor nas cidades de Rio de Janeiro (RJ) e São Paulo (SP) sob os cuidados de Thiago Marques Luiz, produtor responsável pela continuidade da carreira de Cauby após os anos 2000 e, por isso mesmo, não devidamente relevado por Hoinneff no filme. Em vez disso, Hoineff direciona suas câmeras para um jovem fã carioca de Cauby, Tadeu Kebian, mostrado no filme como o exemplo (raro) de que o canto de Cauby atravessa gerações, não ficando restrito somente ao público idoso. Contudo, todas as cenas filmadas na casa de Kebian carecem de naturalidade, soando artificiais, como se estivessem sido armadas para o filme. Essa mesma artificialidade dilui a emoção do encontro do fã com seu ídolo. Mais natural soa o encontro de velhas e fiéis fãs em confeitaria do Rio de Janeiro - cena em que se destaca a ex-secretária Lídia de Souza. Nesses momentos, o documentário deixa entrever os ciúmes que corroem correntes de fãs passionais como o repertório do cantor. Mas quase tudo no filme fica nas entrelinhas. Os depoimentos mais claros e diretos são os dados pelos pesquisadores musicais Ricardo Cravo Albin e Rodrigo Faour (biógrafo de Cauby). O próprio Cauby é quase sempre vago, exceto quando tece loas ao já falecido (em 2005) empresário Edson Colaço Veras, o Di Veras, arquiteto de estratégias de marketing que elevaram a popularidade de Cauby nos anos 1950. A revelação do cantor de que ia para o morro "transar com os veados" na meninice tem sido usada pela mídia para atestar a admissão de uma homossexualidade que, afinal, não existe no filme, já que, na sequência do breve depoimento sobre o assunto, Cauby diz que posteriormente passou a "andar direito". Para quem prefere música a (falsas) polêmicas, Cauby - Começaria tudo outra vez mostra um então jovem cantor interpretando seu sucesso Nono mandamento (Renê Bittencourt e Raul Sampaio, 1957) no filme De pernas pro ar (Brasil,1957), no ano em que Cauby lançou a música. Enfim, entre altos e baixos, paira no documentário a voz única de Cauby Peixoto. Evidenciar na tela a grandeza dessa voz é o mérito do filme de Nelson Hoineff...

Rafael M. disse...

E esse CD novo dele dedicado a Nat King Cole que não sai nem por lei... A gravadora Nova Estação está com uma péssima distribuição... As gravadoras deveriam aproveitar a chance e lançar a disocgrafia completa de Cauby no formato digital. Até hoje o seu primeiro disco "Blue Gardenia" continua inédito neste formato...

Nelson Hoineff disse...

Obrigado pela generosidade dos comentarios

Luca disse...

vi ontem aqui em sp, achei direito, nada mais

ADEMAR AMANCIO disse...

Polêmica vazia mesmo.Rapaziada fazer farra com gays não confere homossexualidade a ninguém.Se fosse assim...

Marcelo disse...

Tirando a cena desnecessária do garoto pegando o trem, o documentário é muito bom. Ver Cauby nas telonas é um prazer enorme. Um cantor único, verdadeiro e íntegro!! Viva Cauby!!!

Eduardo disse...

Tenho muita desconfiança do trabalho do diretor. Ele tem dois documentários muito ruins no currículo, um sobre Santos Dumont e outro sobre o Chacrinha.

O caso do Chacrinha é ainda mais grave: como conseguiu fazer um filme tão ruim tendo um personagem tão incrível?

Portanto, nem essa resenha medianamente favorável consegue me encorajar a ver esse doc sobre Cauby.

Mauro Ferreira disse...

Eduardo, eu entendo você. A minha expectativa era baixa justamente pelas razões expostas por você. Mas garanto. Vale a pena ver o filme do Cauby. Abs, grato pelo comentário, Mauro Ferreira

Fábio disse...

Pelos mesmos motivos, concordo com o leitor que está desconfiado pra assistir ao filme. E aviso: não vá!

Achei a crítica aqui bastante condescendente. Minha opinião sobre o filme é que é MUITO ruim. Como documentário, é uma piada. Você entra e sai sem saber de onde Cauby veio, onde nasceu, etc. Saber que ele é grande, todo mundo sabe, não preciso pagar ingresso de cinema pra ver o mais do mesmo numa obra tão malfeita.

O filme é pobre tecnicamente, tem uma montagem muito ruim, parece que apenas saíram colando imagens. Dá vergonha ver a captação das entrevistas. Fora que há poucos entrevistados de real relevância. Angela Maria, uma parceira história, mal é lembrada, muito menos entrevistada.

Nem vale a pena escrever muito. É a mais pura perda de tempo, parece um subproduto da Rede Tv.