Mauro Ferreira no G1

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domingo, 10 de abril de 2016

Álbum duplo 'A luneta do tempo' foca sons da formação nordestina de Alceu

Resenha de álbum - Trilha sonora de filme
Título: A luneta do tempo
Artista: Alceu Valença
Gravadora: Deck
Cotação: * * * 1/2

Os vocais profundos postos por Alceu Valença na gravação de Sertão mourisco - um dos 28 temas compostos pelo artista pernambucano para a trilha sonora de A luneta do tempo, filme de 2014 dirigido pelo elétrico Alceu - ecoam a influência árabe na formação da música da nação nordestina. Perpetuada em álbum duplo editado pela gravadora Deck, a trilha sonora original de A luneta do tempo ecoa também os sons da infância vivida pelo cineasta estreante na interiorana cidade pernambucana de São Bento do Una (PE). Recebido com aplausos por público e crítica, o filme A luneta do tempo é folhetinesco cordel de amor e ódio, ambientado no sertão de Pernambuco. Composta com inspiração na literatura de cordel e no som dos cantadores e emboladores que embalam a aridez do sertão nordestino, a trilha sonora do longa-metragem resiste bem fora da tela por sintetizar a formação musical do cantor e compositor, projetado na década de 1970 ao mixar as ricas influências com a batida do rock e com as informações universais do universo pop. Na trilha, Alceu omite a informação pop e se concentra na forte essência da música do sertão. A reprodução de alguns diálogos do filme ao longo dos 28 temas dilui por vezes a fruição musical das composições, ainda que o coro dos atores valorize e legitime Incelença de cangaço, por exemplo. De qualquer modo, os sons do sertão estão todos entranhados na trilha sonora produzida pelo guitarrista Paulo Rafael. Temas como Aboio profundo - registrado somente com os vocais de Alceu e o toque fretless do violão de Rafael - são praticamente vinhetas. Só que, reunidos em discos, os temas-vinhetas montam painel vigoroso da trilha sonora do sertão nordestino, com referência à obra icônica de Luiz Gonzaga (1912 - 1989) em Ressurreição. Ora com a vivacidade do Tema do circo Nagib Mazzola, ora com a melancolia embutida tanto em O destino atrás do tempo quando no toque da Flauta da despedida, a trilha é seguida com viço. Nos 28 temas do disco, a trilha sonora dura cerca de meia hora (o que torna injustificável a edição de um álbum duplo, já que os 28 fonogramas caberiam em um único CD...), mas esse tempo é suficiente para que a trilha da vida de Alceu molde todo um universo musical que sobrevive nas entranhas e recantos dos interiores do Brasil. Mundo desumano e Lembrando dos olhos dela, por exemplo, ecoam todo o sentimento dos cantadores que levantam vozes no sertão para rogar proteção aos santos e para denunciar abusos de poder em terras sem lei. Calcado nos vocais do cantor, o álbum A luneta do tempo foca e sintetiza as informações musicais que moldaram o cancioneiro de Alceu Valença. Mesmo incapaz de adicionar hit à discografia do artista, a (boa) trilha sonora está à altura do histórico do compositor.

6 comentários:

Mauro Ferreira disse...

♪ Os vocais profundos postos por Alceu Valença na gravação de Sertão mourisco - um dos 28 temas compostos pelo artista pernambucano para a trilha sonora de A luneta do tempo, filme de 2014 dirigido pelo elétrico Alceu - ecoam a influência árabe na formação da música da nação nordestina. Perpetuada em álbum duplo editado pela gravadora Deck, a trilha sonora original de A luneta do tempo ecoa também os sons da infância vivida pelo cineasta estreante na interiorana cidade pernambucana de São Bento do Una (PE). Recebido com aplausos por público e crítica, o filme A luneta do tempo é folhetinesco cordel de amor e ódio, ambientado no sertão de Pernambuco. Composta com inspiração na literatura de cordel e no som dos cantadores e emboladores que embalam a aridez do sertão nordestino, a trilha sonora do longa-metragem resiste bem fora da tela por sintetizar a formação musical do cantor e compositor, projetado na década de 1970 ao mixar as ricas influências com a batida do rock e com as informações universais do universo pop. Na trilha, Alceu omite a informação pop e se concentra na essência da música do sertão. A preservação de diálogos do filme entre os 28 temas dilui por vezes a fruição musical das composições, ainda que o coro dos atores valorize e legitime Incelença de cangaço, por exemplo. De qualquer modo, os sons do sertão estão todos entranhados na trilha sonora produzida pelo guitarrista Paulo Rafael. Temas como Aboio profundo - registrado somente com os vocais de Alceu e o toque fretless do violão de Rafael - são praticamente vinhetas. Só que, reunidos em discos, os temas-vinhetas montam painel vigoroso da trilha sonora do sertão nordestino, com referência à obra icônica de Luiz Gonzaga (1912 - 1989) em Ressurreição. Ora com a vivacidade do Tema do circo Nagib Mazzola, ora com a melancolia embutida tanto em O destino atrás do tempo quando no toque da Flauta da despedida, a trilha é seguida com viço. Nos 28 temas do disco, a trilha sonora dura cerca de meia hora (o que torna injustificável a edição de um álbum duplo, já que os 28 fonogramas caberiam em um único CD...), mas esse tempo é suficiente para que a trilha da vida de Alceu molde todo um universo musical que sobrevive nas entranhas e recantos dos interiores do Brasil. Mundo desumano e Lembrando dos olhos dela, por exemplo, ecoam todo o sentimento dos cantadores que levantam vozes no sertão para rogar proteção aos santos e para denunciar abusos de poder em terras sem lei. Calcado nos vocais do cantor, o álbum A luneta do tempo foca e sintetiza as informações musicais que moldaram o cancioneiro de Alceu Valença. Mesmo incapaz de adicionar hit à discografia do artista, a (boa) trilha sonora está à altura do histórico do compositor.

Alexandre Machado disse...

Mauro Ferreira, você era a única razão pela qual eu ainda lia O Dia. Te considero o melhor crítico musical (música pop/mpb) da imprensa carioca, mas O Dia já deu. Infelizmente caímos de vez no monopólio da imprensa escrita no Rio *descontando o Meia Hora, mas aí só a primeira página é que merece ser lida)..
Vou acompanhar seu blog e torcer para que você consiga se manter na mídia impressa, porque os Leões da vida já deram. Tirando o falecido Horta, não leio a crítica musical d"O Globo, mesmo sendo assinante dessa merda de jornal - o único que sobrou na cidade.
Obrigado pelo trabalho e por ser uma voz equilibrada na crítica musical.

Alexandre Machado.

PS: há algum outro veículo impresso no qual vc escreva?

Mauro Ferreira disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Mauro Ferreira disse...

Alexandre, até disposição em contrário, eu continuo mantendo a minha coluna 'Estúdio' no jornal 'O Dia', publicada às segundas-feiras. Abs, MauroF

Rafael M. disse...

Alceu é incrível... Palmas para ele!!!

Luca disse...

se as 28 músicas duram meia hora, é tudo vinheta? é isso mesmo?