Mauro Ferreira no G1

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quarta-feira, 19 de agosto de 2015

'Som e fúria' ascende quando vozes de Rita e Jussara ressoam na imensidão

Resenha de CD
Título: Som e fúria
Artistas: Rita Benneditto & Jussara Silveira
Gravadora: Maianga Discos (edição física, 2014) e Dubas Música (edição digital, 2015)
Cotação: * * * 1/2

A maranhense Rita Benneditto e a mineira (de vivência baiana) Jussara Silveira são duas cantoras extremamente afinadas, de emissões vocais cristalinas. Quando faz ecoar na imensidão do som e do espaço as vozes dessas duas excelentes cantoras, Som e fúria - o álbum gravado por Rita com Jussara em julho de 2013 em estúdio improvisado no Vale do Capão, na Chapada Diamantina (BA) - faz mais sentido e alcança dimensão maior. É o que acontece nas duas músicas que se entrelaçam na abertura desse disco idealizado por Sérgio Guerra para sua gravadora baiana Maianga Discos e produzido por Alê Siqueira sob a direção de José Miguel Wisnik. Com seu canto quase a capella, Rita solta sua voz límpida em Milagre (Pedro Ayres Magalhães e Rodrigo Leão, 2014) enquanto, ao fim da faixa, o ouvinte escuta alguém cantando longe dali. É a voz de Jussara Silveira, intérprete de Alguém cantando (Caetano Veloso, 1977), música (como Milagre) adornada com sutis toques dos teclados de Mikael Mutti. Se seguisse sempre por essa trilha, Som e fúria seria o disco que os fãs das cantoras esperavam. Mas as vozes nem sempre ressoam soberanas, em primeiro plano, a partir da terceira faixa, o medley que agrega A sílaba (Zeca Baleiro, 2014) com o tema de domínio público Trem trole e trilho. É quando as vozes se entrelaçam não somente com as programações e teclados de Mutti, mas também com os batuques de Gabi Guedes - como acontece com o medley que linka Maricotinha (Dorival Caymmi, 1994) com sambas de roda da Bahia. Unido no disco à Saudação a Oxossi, o canto indígena Yo Paraná - reforçado por coro infantil - conduz Som e fúria por uma trilha mais experimental que dificulta sua assimilação. Para amantes das vozes, o álbum soa mais sedutor quando Jussara canta Ave Maria (Schubert, 1825) com o toque menos invasivo da percussão de Mutti e dos teclados de Wisnik. É o canto em feitio de oração. A propósito, com a liberdade do sincretismo religioso que pauta a música do Brasil, Rita refaz sua tecnomacumba ao juntar Caboclo das sete encruzilhadas (Terecó da Tenda São José - Pirapemas / MA) e Pisei na terra de caboclo (Tambor de Minas da Casa Fanti). Mais surpreendente, o entrelaçamento do samba Para não contrariar você (Paulinho da Viola, 1970) - cantado por Jussara com percussão típica do gênero - com o samba-canção Matriz ou filial (Lúcio Cardim, 1965), revivido na voz de Rita, reitera que Som e fúria procura tons e sons para adornar as vozes nem sempre perto do formato convencional da canção. Dentro dessa atmosfera experimental, A rosa de Hiroshima (Gerson Conrad sobre poema de Vinicius de Moraes, 1973) desabrocha com belo arranjo vocal que embute o mesmo coro infantil do canto indígena Yo Paraná. Ao fim da faixa, a voz de Wisnik recita trechos de outro poema de Vinicius de Moraes (1913 - 1980) em tom quase celestial - contando no fim com o recorrente recurso do coro infantil recrutado para o disco - enquanto A rosa de Hiroshima volta a ser ouvida. Encerrando o disco (lançado em edição física em CD via Maianga em novembro de 2014, com distribuição restrita à Bahia, e ora disponibilizado em edição digital via Dubas Música), Tom de voz (Cezar Mendes e Quito Ribeiro, 2014) apazigua Som e fúria nas vozes em uníssono dessas cantoras (re)unidas na trilha inusitada de álbum amoroso, sem fúria, com som.

5 comentários:

Mauro Ferreira disse...

♪ A maranhense Rita Benneditto e a mineira (de vivência baiana) Jussara Silveira são duas cantoras extremamente afinadas, de emissões vocais cristalinas. Quando faz ecoar na imensidão do som e do espaço as vozes dessas duas excelentes cantoras, Som e fúria - o álbum gravado por Rita com Jussara em julho de 2013 em estúdio improvisado no Vale do Capão, na Chapada Diamantina (BA) - faz mais sentido e alcança dimensão maior. É o que acontece nas duas músicas que se entrelaçam na abertura desse disco idealizado por Sérgio Guerra para sua gravadora baiana Maianga Discos e produzido por Alê Siqueira sob a direção de José Miguel Wisnik. Com seu canto quase a capella, Rita solta sua voz límpida em Milagre (Pedro Ayres Magalhães e Rodrigo Leão, 2014) enquanto, ao fim da faixa, o ouvinte escuta alguém cantando longe dali. É a voz de Jussara Silveira, intérprete de Alguém cantando (Caetano Veloso, 1977), música (como Milagre) adornada com sutis toques dos teclados de Mikael Mutti. Se seguisse sempre por essa trilha, Som e fúria seria o disco que os fãs das cantoras esperavam. Mas as vozes nem sempre ressoam soberanas, em primeiro plano, a partir da terceira faixa, o medley que agrega A sílaba (Zeca Baleiro, 2014) com o tema de domínio público Trem trole e trilho. É quando as vozes se entrelaçam não somente com as programações e teclados de Mutti, mas também com os batuques de Gabi Guedes - como acontece com o medley que linka Maricotinha (Dorival Caymmi, 1994) com sambas de roda da Bahia. Unido no disco à Saudação a Oxossi, o canto indígena Yo Paraná - reforçado por coro infantil - conduz Som e fúria por uma trilha mais experimental que dificulta sua assimilação. Para amantes das vozes, o álbum soa mais sedutor quando Jussara canta Ave Maria (Schubert, 1825) com o toque menos invasivo da percussão de Mutti e dos teclados de Wisnik. É o canto em feitio de oração. A propósito, com a liberdade do sincretismo religioso que pauta a música do Brasil, Rita refaz sua tecnomacumba ao juntar Caboclo das sete encruzilhadas (Terecó da Tenda São José - Pirapemas / MA) e Pisei na terra de caboclo (Tambor de Minas da Casa Fanti). Mais surpreendente, o entrelaçamento do samba Para não contrariar você (Paulinho da Viola, 1970) - cantado por Jussara com percussão típica do gênero - com o samba-canção Matriz ou filial (Lúcio Cardim, 1965), revivido na voz de Rita, reitera que Som e fúria procura tons e sons para adornar as vozes nem sempre perto do formato convencional da canção. Dentro dessa atmosfera experimental, A rosa de Hiroshima (Gerson Conrad sobre poema de Vinicius de Moraes, 1973) desabrocha com belo arranjo vocal que embute o mesmo coro infantil do canto indígena Yo Paraná. Ao fim da faixa, a voz de Wisnik recita trechos de outro poema de Vinicius de Moraes (1913 - 1980) em tom quase celestial - contando no fim com o recorrente recurso do coro infantil recrutado para o disco - enquanto A rosa de Hiroshima volta a ser ouvida. Encerrando o disco (lançado em edição física em CD via Maianga em novembro de 2014, com distribuição restrita à Bahia, e ora disponibilizado em edição digital via Dubas Música), Tom de voz (Cezar Mendes e Quito Ribeiro, 2014) apazigua Som e fúria nas vozes em uníssono dessas cantoras (re)unidas na trilha inusitada de álbum amoroso, sem fúria, com som.

Rafael M. disse...

Esse disco é perfeito, adoro ele... Pena que é difícil de se achar o mesmo para comprar...

Coisas do Sertão disse...

Emanuel Andrade disse

Os discos delas independentes são todos bons demais. O outro encontro também, mas esse é ruim, não convence. Alguém Cantando, desnecessária, só mesmo a gravação do disco Bicho. Elas podem muito muito muito mais que isso.

jose ferreira Calado disse...

Rafael,este belo trabalho de Jussara e Rita desde dezembro de 2014 está à venda na Pérola Negra (loja de cds raros na Ba),mas com o lançamento nacional,os amantes da boa música,com certeza,irão se deleitar com as duas belas vozes destas artistas espetaculares.

Rhenan Soares disse...

Eu tbm acho o disco excelente. Ouvi muito. Tem um paranauê muito do bom! :)