Mauro Ferreira no G1

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terça-feira, 11 de agosto de 2015

Aydar carrega lirismos (e estranhezas) de Nuno Ramos em 'Pedaço duma asa'

Resenha de álbum
Título: Pedaço duma asa
Artista: Mariana Aydar
Gravadora: Brisa Records / Pommelo Distribuições
Cotação: * * * *

Ao surgir no mercado fonográfico há nove anos com o álbum Kavita 1 (Universal Music, 2006), Mariana Aydar deixou a impressão de que seguiria a trilha aberta por Roberta Sá no ano anterior com seu estupendo álbum Braseiro (MP,B Discos / Universal Music, 2005). Mas essa cantora paulistana contrariou expectativas (sobretudo as de sua gravadora), cresceu e se impôs como compositora a partir do segundo álbum, Peixes, pássaros, pessoas (Universal Music, 2009), passando a trilhar o caminho da estranheza em rota que culminou com o impactante Cavaleiro selvagem aqui te sigo (Universal Music, 2011). As ousadias estilísticas da artista a empurraram para o mercado indie, por onde o público vai ter acesso, a partir de 21 de agosto de 2015, ao quarto álbum de Aydar, Pedaço duma asa, editado numa parceria do selo da cantora, Brisa Records, com a Pommelo Distribuições. Inteiramente dedicado à obra do compositor e artista plástico paulista Nuno Ramos, parceiro de Clima e Romulo Fróes, Pedaço duma asa carrega em doze faixas todas as estranhezas e lirismos do cancioneiro de Ramos. Dando voz a sete músicas inéditas entre as 12 que compõem o repertório do disco produzido por Duani Martins, Aydar joga luz sobre compositor interessante e apresenta álbum que se alinha com as ambições de sua personalidade artística. Aydar cai no samba de Ramos. Mas cai em samba esquema noise, como a música inédita que abre o disco, Mamãe papai (Clima e Nuno Ramos, 2015), dá a pista após seu primeiro minuto, quando sobressai o toque distorcido da guitarra de Guilherme Held, músico fundamental na formatação das músicas. Travado em músicas como Poeira (Mariana Aydar e Nuno Ramos, 2014) e a imperativa Caia na risada (Clima e Nuno Ramos, 2009), o diálogo entre a guitarra do rock e a percussão do samba pontua boa parte de Pedaço duma asa. Inédita, Dedo duro (Clima e Nuno Ramos) aponta para a árida trilha de singularidades seguida por Mariana com alternância de climas, andamentos e tons. De início quase a capella, o canto de Atrás dessa amizade (Nuno Ramos, 2006)  - música lançada por Romulo Fróes em seu álbum Cão (YB Music, 2006) - expõe a beleza lírica de um cancioneiro que versa sobre a solidão no caos urbano. O vazio existencial do homem solitário na selva das cidades é recorrente na música que fecha o disco com mais de seis minutos de beleza cool, Barulho feio (Romulo Fróes e Nuno Ramos, 2014), música que batizou o quinto disco solo de Romulo Fróes em gravação que desconstruiu a canção. Feito somente com o toque de uma guitarra, em arranjo vazio que traduz o estado de espírito da personagem da canção, o registro de Aydar evidencia a força poética do cancioneiro de Ramos, soando com grito solitário parado no ar rarefeito. Elevado à máxima potência cool, Samba triste (Clima, 2015) é cantado em tons baixos por Aydar em clima que parece reverenciar a aura da Bossa Nova. Por isso, faz todo sentido que Samba triste esteja alocado no disco ao lado de Saiba ficar quieto (Nuno Ramos, 2009), outro samba triste gravado e levado com violão que presta tributo a João Gilberto. "Saiba não compor / Não fale do deserto / Nem metrifique a flor / Saiba não dizer que o sol te dá calor / Saiba nunca achar bonita a minha dor / Não queira ser poeta / Não queira ser cantor / Pegar o violão / Como se fosse o amor", suplica Aydar em versos cantados no mesmo tom suave de Samba triste. Já Isso pode (Nuno Ramos, 2015) insere a pegada do rock nas veredas do grande sertão nordestino, com poesia seca e com o toque do samba entranhado em todo o disco. A faixa embute passagem instrumental de cerca de 30 segundos que evidencia o recorrente diálogo da guitarra noise do rock com a batida do samba. Com o ronco choroso de uma cuíca, a música-título Pedaço duma asa (Nuno Ramos, 2015) se ambienta em clima cool, mas Aydar faz seu Carnaval com poesia, realçando a mortalha de beleza que cobre a obra musical de Ramos. Em Dentro das rosas (Clima e Nuno Ramos, 2015), o canto de Aydar começa longe até desabrochar. Quando a faixa já contabiliza um minuto e 18 segundos, entra uma guitarra noise, desarmonizando intencionalmente a batida do tema. É assim, entre estranhezas e lirismos, que caminha este disco originado de show apresentado pela artista em agosto de 2014 na sétima edição do projeto Palavras cruzadas. Mesmo que o canto de Aydar pareça sem energia em Cabou (Clima e Nuno Ramos, 2015), Pedaço duma asa se impõe como mais um álbum provocante de artista inquieta que deu grito de independência antes que fosse tragada pela voraz indústria do disco.

13 comentários:

Mauro Ferreira disse...

♪ Ao surgir no mercado fonográfico há nove anos com o álbum Kavita 1 (Universal Music, 2006), Mariana Aydar deixou a impressão de que seguiria a trilha aberta por Roberta Sá no ano anterior com seu estupendo álbum Braseiro (MP,B Discos / Universal Music, 2005). Mas essa cantora paulistana contrariou expectativas (sobretudo as de sua gravadora), cresceu e se impôs como compositora a partir do segundo álbum, Peixes, pássaros, pessoas (Universal Music, 2009), passando a trilhar o caminho da estranheza em rota que culminou com o impactante Cavaleiro selvagem aqui te sigo (Universal Music, 2011). As ousadias estilísticas da artista a empurraram para o mercado indie, por onde o público vai ter acesso, a partir de 21 de agosto de 2015, ao quarto álbum de Aydar, Pedaço duma asa, editado numa parceria do selo da cantora, Brisa Records, com a Pommelo Distribuições. Inteiramente dedicado à obra do compositor e artista plástico paulista Nuno Ramos, parceiro de Clima e Romulo Fróes, Pedaço duma asa carrega em doze faixas todas as estranhezas e lirismos do cancioneiro de Ramos. Dando voz a oito músicas inéditas entre as 12 que compõem o repertório do disco produzido por Duani Martins, Aydar joga luz sobre compositor interessante e apresenta álbum que se alinha com as ambições de sua personalidade artística. Aydar cai no samba de Ramos. Mas cai em samba esquema noise, como a música inédita que abre o disco, Mamãe papai (Clima e Nuno Ramos, 2015), dá a pista após seu primeiro minuto, quando sobressai o toque distorcido da guitarra de Guilherme Held, músico fundamental na formatação das músicas. Travado em músicas como Poeira (Mariana Aydar e Nuno Ramos, 2014) e a imperativa Caia na risada (Clima e Nuno Ramos, 2009), o diálogo entre a guitarra do rock e a percussão do samba pontua boa parte de Pedaço duma asa. Inédita, Dedo duro (Clima e Nuno Ramos) aponta para a árida trilha de singularidades seguida por Mariana com alternância de climas, andamentos e tons. De início quase a capella, o canto de Atrás dessa amizade (Nuno Ramos, 2006) - música lançada por Romulo Fróes em seu álbum Cão (YB Music, 2006) - expõe a beleza lírica de um cancioneiro que versa sobre a solidão no caos urbano. O vazio existencial do homem solitário na selva das cidades é recorrente na música que fecha o disco com mais de seis minutos de beleza cool, Barulho feio (Romulo Fróes e Nuno Ramos, 2014), música que batizou o quinto disco solo de Romulo Fróes em gravação que desconstruiu a canção.

Mauro Ferreira disse...

Feito somente com o toque de uma guitarra, em arranjo vazio que traduz o estado de espírito da personagem da canção, o registro de Aydar evidencia a força poética do cancioneiro de Ramos, soando com grito solitário parado no ar rarefeito. Elevado à máxima potência cool, Samba triste (Clima, 2015) é cantado em tons baixos por Aydar em clima que parece reverenciar a aura da Bossa Nova. Por isso, faz todo sentido que Samba triste esteja alocado no disco ao lado de Saiba ficar quieto (Nuno Ramos, 2015), samba inédito gravado e levado com violão que presta tributo a João Gilberto. "Saiba não compor / Não fale do deserto / Nem metrifique a flor / Saiba não dizer que o sol te dá calor / Saiba nunca achar bonita a minha dor / Não queira ser poeta / Não queira ser cantor / Pegar o violão / Como se fosse o amor", suplica Aydar em versos cantados no mesmo tom suave de Samba triste. Já Isso pode (Nuno Ramos, 2015) insere a pegada do rock nas veredas do grande sertão nordestino, com poesia seca e com o toque do samba entranhado em todo o disco. A faixa embute passagem instrumental de cerca de 30 segundos que evidencia o recorrente diálogo da guitarra noise do rock com a batida do samba. Com o ronco choroso de uma cuíca, a música-título Pedaço duma asa (Nuno Ramos, 2015) se ambienta em clima cool, mas Aydar faz seu Carnaval com poesia, realçando a mortalha de beleza que cobre a obra musical de Ramos. Em Dentro das rosas (Clima e Nuno Ramos, 2015), o canto de Aydar começa longe até desabrochar. Quando a faixa já contabiliza um minuto e 18 segundos, entra uma guitarra noise, desarmonizando intencionalmente a batida do tema. É assim, entre lirismos e estranhezas, que caminha Pedaço duma asa, disco originado de show apresentado pela artista em agosto de 2014 na sétima edição do projeto Palavras cruzadas. Mesmo que o canto de Aydar pareça sem energia em Cabou (Clima e Nuno Ramos, 2015), Pedaço duma asa se impõe, coeso, como mais um álbum provocante dessa artista inquieta que deu seu grito de independência antes que fosse engolida pela voraz indústria do disco.

Victor Barreto de Chaves disse...

Onde você ouviu o CD?

Mauro Ferreira disse...

Não revelo fontes, Victor. Mas adianto que o disco ainda não está na web. abs, MauroF

Rafael M. disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Rodrigo Oliveira disse...

Obviamente ainda não ouvi, mas como sempre costumo concordar com suas resenhas, já estou chorando de emoção por mais um cd sensacional na discografia da Kavita. Quero ouvi-lo pra ontem! :)

Rafael M. disse...

Tô louco para ouvir esse CD... Quero saber se realmente está bom mesmo como você disse, Mauro...

lucas disse...

com muita vontade de ouvir o novo trabalho da aydar!
mas só uma observação: "saiba ficar quieto" não é inédita; o romulo fróes gravou essa canção no álbum dúplo "no chão sem o chão" de 2009. o disco/sessão em que está, inclusive, leva o nome da canção.

Daทilo disse...

Acompanho a Mariana desde Kavita. É perceptível que ela conseguiu, assim como a Céu(esta um pouco mais rápido), uma identidade muito própria em meio a tantas jovens cantoras. E Estranhezas é a palavra mais atraente da resenha. Ela é muito bem vinda nesses nossos tempos. Resta conferir.

Mauro Ferreira disse...

Lucas, tem razão. 'Saiba ficar quieto' foi lançada tb pelo Romulo. Grato pelo toque. Abs, obrigado

BIGODE disse...

Torço pela Mariana acho ela uma grande cantora, mas que vem de uma fase ruim... essa busca pelo dificil é chata

Vi um show dela esse ano no Sesc ela estava apática, a filha dela que é linda invadiu o palco várias vezes e ficava correndo no meio dos instrumentos ai ela parava o show chegou uma hora que ninguem mais prestava atenção no que ela cantava

Pena porque é um belo e denso repertório de uma grande cantora, mas que infelizmente não está sabendo admistrar o trabalho, é preciso saber separar as coisas....

Luca disse...

Ela não é isso tudo, não

Sergio Dias disse...

Mariana é singular.