Mauro Ferreira no G1

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terça-feira, 4 de agosto de 2015

Arlindo, Martinho e Ivone Lara são partidos (mais) altos do CD 'Sambabook 2'

Resenha de CD
Título: Sambabook Dona Ivone Lara 2
Artista: vários
Gravadora: Universal Music
Cotação: * * *

 Ligeiramente menos sedutor do que o primeiro volume, o CD Sambabook Dona Ivone Lara 2 destaca quem é do ramo, quem tem real intimidade com o fundo dos quintais e dos terreiros em que brotam o samba e o partido alto. Martinho da Vila, por exemplo, é intérprete à altura do partido Andei para curimá (1974), tema em que Ivone Lara assina música e letra, mostrando que também domina a arte de fazer versos - função habitualmente entregue ao seu principal parceiro, Délcio Carvalho (1939 - 2013), na composição da obra poética da dupla. Quarto título do projeto multimídia criado pela empresa Musickeria, o Sambabook Dona Ivone Lara teve sua parte musical feita sob a direção artística de Afonso Carvalho e a direção musical de Alceu Maia. Como se trata de tributo ao legado desta grande compositora carioca que abriu alas para as mulheres no reduto historicamente masculino do samba, a opção pelo respeito à obra se revela acertada. O que torna o partido mais ou menos alto é a escolha dos intérpretes. Arlindo Cruz valoriza Força da imaginação (1982), parceria bissexta de Ivone com Caetano Veloso, que abre o segundo CD com interpretação insossa de Alguém me avisou (1980), samba à moda baiana que o próprio Caetano já gravou com mais viço como convidado do registro original feito por sua irmã Maria Bethânia no álbum Talismã (Philips, 1980). O Fundo de Quintal parece em casa ao defender Preá comeu (1982), outro tema criado por Ivone sem parceiros. Já Lu Carvalho ainda não tem estrada e maturidade vocal para celebrar Bodas de ouro (Ivone Lara e Paulo César Pinheiro, 1997), samba talhado para sua tia, Beth Carvalho, ausência sentida no elenco (Beth, a principal intérprete do cancioneiro de Ivone Lara, não pôde participar do Sambabook da compositora por problemas de saúde). Diferentemente do CD 1, calcado somente em regravações, o CD 2 apresenta título inédito do cancioneiro de Ivone Lara. Parceria da compositora com o neto André Lara, com Bruno Castro e com Diogo Nogueira (intérprete do samba inédito), Amor relativo ostenta as principais características da obra da artista - uma melodia lírica e uma letra impregnada de melancolia e de paradoxal fé na vida e no amor - e, mesmo sem cacife para se tornar um dos clássicos dessa obra, deixa boa impressão. Já Elba Ramalho e Zélia Duncan defendem duas músicas de 1981 - A sereia Guiomar (Ivone Lara e Délcio Carvalho) e Tendência (Ivone Lara e Jorge Aragão - sem um brilho especial que as faça sobressair. Por sua vez, Áurea Martins parece ter posto mais alma em Alvorecer (Ivone Lara e Délcio Carvalho, 1974), embora jamais atinja a maestria da interpretação precisa de Clara Nunes (1942 - 1983), cantora que lançou este lindo samba que, 41 anos depois, ainda paira como um dos mais belos da obra de Ivone e Délcio. Xande de Pilares lembra com mera correção um bonito samba triste, Liberdade (Ivone Lara e Délcio Carvalho), lançado em 1977 pelo cantor fluminense Roberto Ribeiro (1940 - 1996) no embalo do sucesso de Acreditar (Ivone Lara e Délcio Carvalho, 1976), samba que alavancara sua carreira fonográfica no ano anterior. Também meramente correto, Reinado dá voz a Dizer não pro adeus (Ivone Lara, Bruno Castro e Luiz Carlos da Vila, 2005) enquanto Wilson das Neves repõe na avenida a nobreza histórica do samba-enredo Os cinco bailes da história do Rio (Ivone Lara, Silas de Oliveira e Bacalhau, 1965), título que justificou a entrada de Ivone Lara na ala de compositores da escola Império Serrano. Por fim, a própria Ivone Lara se junta aos convidados em registro coletivo de Sonho meu (Ivone Lara e Délcio Carvalho, 1978), reiterando sua majestade.

5 comentários:

Mauro Ferreira disse...

♪ Ligeiramente menos sedutor do que o primeiro volume, o CD Sambabook Dona Ivone Lara 2 destaca quem é do ramo, quem tem real intimidade com o fundo dos quintais e dos terreiros em que brotam o samba e o partido alto. Martinho da Vila, por exemplo, é intérprete à altura do partido Andei para curimá (1974), tema em que Ivone Lara assina música e letra, mostrando que também domina a arte de fazer versos - função habitualmente entregue ao seu principal parceiro, Délcio Carvalho (1939 - 2013), na composição da obra poética da dupla. Quarto título do projeto multimídia criado pela empresa Musickeria, o Sambabook Dona Ivone Lara teve sua parte musical feita sob a direção artística de Afonso Carvalho e a direção musical de Alceu Maia. Como se trata de tributo ao legado desta grande compositora carioca que abriu alas para as mulheres no reduto historicamente masculino do samba, a opção pelo respeito à obra se revela acertada. O que torna o partido mais ou menos alto é a escolha dos intérpretes. Arlindo Cruz valoriza Força da imaginação (1982), parceria bissexta de Ivone com Caetano Veloso, que abre o segundo CD com interpretação insossa de Alguém me avisou (1980), samba à moda baiana que o próprio Caetano já gravou com mais viço como convidado do registro original feito por sua irmã Maria Bethânia no álbum Talismã (Philips, 1980). O Fundo de Quintal parece em casa ao defender Preá comeu (1982), outro tema criado por Ivone sem parceiros. Já Lu Araújo ainda não tem estrada e maturidade vocal para celebrar Bodas de ouro (Ivone Lara e Paulo César Pinheiro, 1998), samba talhado para sua tia, Beth Carvalho, ausência sentida no elenco (Beth, a principal intérprete do cancioneiro de Ivone Lara, não pôde participar do Sambabook da compositora por problemas de saúde). Diferentemente do CD 1, calcado somente em regravações, o CD 2 apresenta título inédito do cancioneiro de Ivone Lara. Parceria da compositora com o neto André Lara, com Bruno Castro e com Diogo Nogueira (intérprete do samba inédito), Amor relativo ostenta as principais características da obra da artista - uma melodia lírica e uma letra impregnada de melancolia e de paradoxal fé na vida e no amor - e, mesmo sem cacife para se tornar um dos clássicos dessa obra, deixa boa impressão. Já Elba Ramalho e Zélia Duncan defendem duas músicas de 1981 - A sereia Guiomar (Ivone Lara e Délcio Carvalho) e Tendência (Ivone Lara e Jorge Aragão - sem um brilho especial que as faça sobressair. Por sua vez, Áurea Martins parece ter posto mais alma em Alvorecer (Ivone Lara e Délcio Carvalho, 1974), embora jamais atinja a maestria da interpretação precisa de Clara Nunes (1942 - 1983), cantora que lançou este lindo samba que, 41 anos depois, ainda paira como um dos mais belos da obra de Ivone e Délcio. Xande de Pilares lembra com mera correção um bonito samba triste, Liberdade (Ivone Lara e Délcio Carvalho), lançado em 1977 pelo cantor fluminense Roberto Ribeiro (1940 - 1996) no embalo do sucesso de Acreditar (Ivone Lara e Délcio Carvalho, 1976), samba que alavancara sua carreira fonográfica no ano anterior. Também meramente correto, Reinado dá voz a Dizer não pro adeus (Ivone Lara, Bruno Castro e Luiz Carlos da Vila, 2005) enquanto Wilson das Neves repõe na avenida a nobreza histórica do samba-enredo Os cinco bailes da história do Rio (Ivone Lara, Silas de Oliveira e Bacalhau, 1965), título que justificou a entrada de Ivone Lara na ala de compositores da escola Império Serrano. Por fim, a própria Ivone Lara se junta aos convidados em registro coletivo de Sonho meu (Ivone Lara e Délcio Carvalho, 1978), reiterando sua majestade.

Rafael M. disse...

Os 2 CD's estão realmente imperdíveis... É um belo tributo a grande dama do samba...

Marcelo Barbosa disse...

Por aqui ainda não chegou e estou ansioso. Mauro, o correto é Lu Carvalho, você se confundiu, a Araújo é a mãe do Cazuza. rsrsrs
E triste ao saber que esse problema sério de coluna da Beth a retira de mais um projeto, ainda mais sendo de Dona Ivone. Saúde às duas Rainhas do nosso Samba.
Acho o Dizer não pro Adeus uma das belas músicas de Dona Ivone, Luiz Carlos da Vila e Bruno Castro. E o Zeca soube interpretar maravilhosamente bem.
E sempre bom e necessário relembrar do saudoso e GRANDE cantor Roberto Ribeiro. Esse deixou uma lacuna imensa no ritmo.

Mauro Ferreira disse...

Claro, Marcelo, tem toda razão. Grato pelo toque. abs, MauroF

Luca disse...

acreditar ficou ruim demais com a Vanessa da Mata