Mauro Ferreira no G1

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quinta-feira, 5 de março de 2015

Com Bernardes, Andreia Dias viaja ao fundo de tempos nublados de Rita

Resenha de CD
Título: Prisioneira do amor
Artista: Andreia Dias
Gravadora: Joia Moderna
Cotação: * * * *

A discografia de Rita Lee fora do grupo Mutantes começou a alcançar relevância a partir do encontro da cantora e compositora paulistana - então uma ovelha desgarrada de seu rebanho tropicalista - com os músicos do grupo Tutti Frutti, em 1974. O álbum de 1975, Fruto proibido (Som Livre, 1975), projetou definitivamente a artista com a pegada desse tal de rock'n'roll. Mas o fato é que existe uma pré-história na trajetória musical da cantora. Entre 1970 e 1973, Rita lançou dois álbuns via Polydor - Build up (1970) e Hoje é o primeiro dia do resto de sua vida (1972), este um disco feito à moda dos Mutantes, mas não creditado ao trio - e formou a dupla Cilibrinas do Éden com a guitarrista paulistana Lúcia Turnbull após sua saída (expulsão?) do grupo. É nesse repertório - ora kitsch, ora psicodélico - que está centrado o quarto álbum de Andreia Dias, Prisioneira do amor, lançado neste mês de março de 2015 pela gravadora Joia Moderna, do DJ Zé Pedro. Guiada por seu diretor musical Tim Bernardes, líder do superestimado grupo paulistano O Terno, a cantora paulistana viaja com segurança em Prisioneira do amor ao fundo desses tempos nublados da obra de Rita. O valor do disco nem reside nas dez músicas lançadas entre 1968 e 1978 - várias renegadas pela própria Rita, com razão - mas no belo tratamento dado a esse repertório por Bernardes neste disco gravado em maio de 2014 sob a direção artística de Marcus Preto, de forma literalmente caseira, já que as dez faixas de Prisioneira do amor foram arranjadas e formatadas no quarto de Bernardes. Das dez músicas, somente uma, Ovelha negra (Rita Lee, 1975), alcançou o status de hit. Só que sua presença nem soa destoante nesse monte de lados B. A novidade é a melancolia entranhada no canto de Ovelha negra para explicitar o significado de versos que, afinal, relatam o desajuste familiar e existencial da juvenil personagem da composição. Da época da dupla Cilibrinas do Éden, Bad trip (Rita Lee, 1973) também faria certo sucesso na versão reformulada, reescrita e intitulada Shangrilá (Rita Lee, 1980), quando Rita já vivia sua lua de mel pop com o parceiro de vida e de música Roberto de Carvalho, creditado como coautor dessa versão de 1980. Mas a música ouvida em Prisioneira do amor é a Bad trip original, oficialmente inédita em disco, já que até então circulou somente no bootleg lançado com as gravações do que seria o primeiro álbum das Cilibrinas do Éden. Bad trip é o grande momento de Tim Bernardes como formatador do disco. O arranjo de Bernardes sugere clima paranoico condizente com o bode relatado na letra. Contudo, Prisioneira do amor também sabe se desviar dos grilos da época quando preciso. Ouvida com os versos censurados na gravação original de 1972 ("Beije-me a boca / Com tua boca vermelha / Para que eu sinta a saliva / E o gosto de cuspe / Escorrendo entre os dentes meus"), Beija-me, amor (Arnaldo Baptista e Élcio Decário) sensualiza e marcha no passo carnavalizante que (também) dá o tom do pop rock de Rita. Levada em clima folk, Tempo nublado (Rita Lee e Élcio Decário, 1970) é canção de Build up, o álbum que abriu a carreira solo de Rita em 1970 e que apresentou Viagem ao fundo de mim (Rita Lee, 1970) - música que abre o disco de Andreia em tom etéreo, espacial, dando a pista da trilha psicodélica seguida por Bernardes - e a delirante Precisamos de irmãos (Élcio Decário, 1970), música harmonizada em Prisioneira de amor com os vocais melódicos dos manos Beto Nardo e Rubens Nardo. A própria música-título Prisioneira do amor (Élcio Decário, 1970) vem de Build up. Nesta música, Rita exercitou seu espírito mutante, brincando de ser cafona ao dar voz a uma paródia das canções sentimentais que, anos depois, seriam rotuladas como bregas. No fim, Prisioneira do amor liberta do esquecimento uma raridade da discografia dos Mutantes - Glória aos reis dos confins do além (Paulo César de Castro, 1968), composição lançada pelo grupo somente no LP II Festival estudantil da música popular brasileira (Philips, 1968) - e escancara a psicodelia embutida nos versos imaginativos de Superfície do planeta (Arnaldo Baptista, 1972) antes de tirar um som de viola na trilha caipira de Modinha (Rita Lee, 1978), música do álbum Babilônia (Som Livre, 1978), o último de Rita com o Tutti Frutti. Enfim, a viagem ao fundo dos tempos nublados da música de Rita Lee chega sem sobressaltos ao destino final por conta da habilidade da tripulação.

4 comentários:

Mauro Ferreira disse...

♪ A discografia de Rita Lee fora do grupo Mutantes começou a alcançar relevância a partir do encontro da cantora e compositora paulistana - então uma ovelha desgarrada de seu rebanho tropicalista - com os músicos do grupo Tutti Frutti, em 1974. O álbum de 1975, Fruto proibido (Som Livre, 1975), projetou definitivamente a artista com a pegada desse tal de rock'n'roll. Mas o fato é que existe uma pré-história na trajetória musical da cantora. Entre 1970 e 1973, Rita lançou dois álbuns via Polydor - Build up (1970) e Hoje é o primeiro dia do resto de sua vida (1972), este um disco feito à moda dos Mutantes, mas não creditado ao trio - e formou a dupla Cilibrinas do Éden com a guitarrista paulistana Lúcia Turnbull após sua saída (expulsão?) do grupo. É nesse repertório - ora kitsch, ora psicodélico - que está centrado o quarto álbum de Andreia Dias, Prisioneira do amor, lançado neste mês de março de 2015 pela gravadora Joia Moderna, do DJ Zé Pedro. Guiada por seu diretor musical Tim Bernardes, líder do superestimado grupo paulistano O Terno, a cantora paulistana viaja com segurança em Prisioneira do amor ao fundo desses tempos nublados da obra de Rita. O valor do disco nem reside nas dez músicas lançadas entre 1968 e 1978 - várias renegadas pela própria Rita, com razão - mas no belo tratamento dado a esse repertório por Bernardes neste disco gravado em maio de 2014 sob a direção artística de Marcus Preto, de forma literalmente caseira, já que as dez faixas de Prisioneira do amor foram arranjadas e formatadas no quarto de Bernardes. Das dez músicas, somente uma, Ovelha negra (Rita Lee, 1975), alcançou o status de hit. Só que sua presença nem soa destoante nesse monte de lados B. A novidade é a melancolia entranhada no canto de Ovelha negra para explicitar o significado de versos que, afinal, relatam o desajuste familiar e existencial da juvenil personagem da composição. Da época da dupla Cilibrinas do Éden, Bad trip (Rita Lee, 1973) também faria certo sucesso na versão reformulada, reescrita e intitulada Shangrilá (Rita Lee, 1980), quando Rita já vivia sua lua de mel pop com o parceiro de vida e de música Roberto de Carvalho, creditado como coautor dessa versão de 1980. Mas a música ouvida em Prisioneira do amor é a Bad trip original, oficialmente inédita em disco, já que até então circulou somente no bootleg lançado com as gravações do que seria o primeiro álbum das Cilibrinas do Éden. Bad trip é o grande momento de Tim Bernardes como formatador do disco. O arranjo de Bernardes sugere clima paranoico condizente com o bode relatado na letra. Contudo, Prisioneira do amor também sabe se desviar dos grilos da época quando preciso.

Mauro Ferreira disse...

Ouvida com os versos censurados na gravação original de 1972 ("Beije-me a boca / Com tua boca vermelha / Para que eu sinta a saliva / E o gosto de cuspe / Escorrendo entre os dentes meus"), Beija-me, amor (Arnaldo Baptista e Élcio Decário) sensualiza e marcha no passo carnavalizante que (também) dá o tom do pop rock de Rita. Levada em clima folk, Tempo nublado (Rita Lee e Élcio Decário, 1970) é canção de Build up, o álbum que abriu a carreira solo de Rita em 1970 e que apresentou Viagem ao fundo de mim (Rita Lee, 1970) - música que abre o disco de Andreia em tom etéreo, espacial, dando a pista da trilha psicodélica seguida por Bernardes - e a delirante Precisamos de irmãos (Élcio Decário, 1970), música harmonizada em Prisioneira de amor com os vocais melódicos dos manos Beto Nardo e Rubens Nardo. A própria música-título Prisioneira do amor (Élcio Decário, 1970) vem de Build up. Nesta música, Rita exercitou seu espírito mutante, brincando de ser cafona ao dar voz a uma paródia das canções sentimentais que, anos depois, seriam rotuladas como bregas. No fim, Prisioneira do amor liberta do esquecimento uma raridade da discografia dos Mutantes - Glória aos reis dos confins do além (Paulo César de Castro, 1968), composição lançada pelo grupo somente no LP II Festival estudantil da música popular brasileira (Philips, 1968) - e escancara a psicodelia embutida nos versos imaginativos de Superfície do planeta (Arnaldo Baptista, 1972) antes de tirar um som de viola na trilha caipira de Modinha (Rita Lee, 1978), música do álbum Babilônia (Som Livre, 1978), o último de Rita com o Tutti Frutti. Enfim, a viagem ao fundo dos tempos nublados da música de Rita Lee chega sem sobressaltos ao destino final por conta da habilidade da tripulação.

Rafael M. disse...

Tô super curioso para saber como ficou a gravação desse disco. Vamos ver se essa cantora honra com dignidade as músicas da Rita.

Chico disse...

o disco está ótimo, como tudo que a Andreia Dias já fez