Mauro Ferreira no G1

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domingo, 13 de dezembro de 2015

Trato dado à obra de Fátima redime baixo teor de novidade de 'Transparente'

Resenha de CD
Título: Transparente
Artista: Fátima Guedes
Gravadora: Fina Flor
Cotação: * * * * 1/2

Primeiro álbum autoral de Fátima Guedes desde Muito intensa (Velas, 1999), Transparente provoca misto de encantamento e decepção, mas o arrebatamento dilui a frustração. O encantamento vem do tratamento sofisticado dado ao cancioneiro desta compositora carioca que já surgiu pronta em 1979, ano marcado por explosão do canto feminino na MPB. Capitaneada pela própria artista ao lado de Bororó, a luxuosa produção de Transparente enquadra a singular obra autoral de Fátima em moldura invariavelmente refinada. Nesse sentido, o 14º título da discografia da artista se impõe de imediato como um dos melhores álbuns de Fátima. Já a decepção é provocada pelo baixo teor de novidade do repertório de Transparente. Das 14 músicas do álbum, apenas quatro são de fato  inéditas em disco. Mesmo que algumas músicas sejam inéditas na voz da autora e por isso se justifiquem no disco, caso de E agora? (2003), música lançada pela cantora carioca Carol Saboya no álbum Presente (MP,B Discos, 2003), a frustração persiste pelo fato de Fátima ter baú de músicas inéditas à espera de gravação. Algumas dessas inéditas poderiam ocupar o lugar de Cheiro de mato (1980), Condenados (1979) - música que simboliza o espontâneo movimento feminino que sensualizou a partir de 1979 a então masculinizada MPB - e da cortante Faca (1992). Até porque essas músicas já estão belamente gravadas pela autora. Em contrapartida, há regravações que acrescentam dado novo à música. Rearranjada por Bororó, Onze fitas (1979) recai no samba com arranjo vocal - a cargo do grupo carioca Arranco de Varsóvia - que evoca o clima das vozes dispostas em Saudade do Brasil, show de 1980 em que Elis Regina (1945 - 1982) deu voz a Onze fitas, um ano após a música abrir o primeiro álbum de Fátima, lançado no ano anterior via EMI-Odeon. O Arranco figura também numa das quatro reais novidades do repertório, Sempre bate o sol, samba luminoso capaz de dissipar treva. Toada lançada na voz soberana de Maria Bethânia, Flor de ir embora (1990) também está plenamente justificada em Transparente por juntar o canto de Fátima com o de Dori Caymmi, cuja voz parece brotar da terra, ampliando os sentidos dos versos melancólicos da letra. Minha Nossa Senhora (1995) paira acima de tudo e todos em feitio de oração em gravação que consegue a proeza de superar o registro já pungente lançado há 20 anos por Fátima no álbum Grande tempo (Velas, 1995). Grande tempo e Sétima arte (PolyGram, 1985) são dois dos quatro álbuns de Fátima produzidos por Paulo Roberto de Medeiros e Albuquerque (1942 - 1986), o saudoso produtor musical Paulinho Albuquerque, a quem Transparente é dedicado (há inclusive texto escrito por Fátima para o encarte para explicar a importância de Paulinho na obra que elabora desde a década de 1970). De Sétima arte, aliás, Fátima rebobina Criatura (1985), samba-canção que expõe a influência menos aparente de Antonio Carlos Jobim (1927 - 1994) na construção da obra da artista  (e não foi por acaso que Fátima cantou Jobim em Outros tons, álbum lançado pela Rob Digital em 2006). A presença de Paulinho está entranhada no disco, nos arranjos - criados dentro de um tempo atemporal, sem conexões com modernidades musicais - e no canto preciso de Fátima. A compositora foi se revelando, aos poucos, uma excelente cantora. Em Transparente, o único deslize de Fátima no quesito é o registro demasiadamente apressado de A vida que a gente leva (2005) que contraria a serenidade da letra e o próprio tom violeiro do arranjo de Bororó. A vida que a gente leva já tinha sido gravada por Fátima em disco ao vivo de 2011 que registrava show feito pela artista com a cantora Alaíde Costa. Só que este CD teve comercialização interrompida ainda na fase inicial de distribuição, por decisão da própria Fátima. O que justifica os registros autorais de A vida que a gente leva e de Ela (2011), outra música presente no roteiro captado para o abortado disco ao vivo. Ela ganha gravação perfeita, na qual Fátima traça com o habitual rigor o perfil da bipolar personagem-título. Real novidade do repertório, a boa música-título Transparente retoma sensualidade que brotara já em Condenados. Já Ética - outra inédita do disco - exemplifica a habilidade da compositora para abordar questões afetivas com densidade melódica e poética. Fátima é da canção, mas também do samba. Iluminado por arranjo do violonista Cláudio Jorge, Lua de cereja fecha o disco com colorido, leveza e os vocais de Dori Caymmi. Enfim, mesmo não sendo o álbum de inéditas que o público de Fátima Guedes esperava com ansiedade, Transparente é mais um grande disco desta artista que conduz a carreira com coerência com os princípios musicais nos quais acredita. Mesmo com baixo teor de (real) novidade no refinado repertório, Transparente é bálsamo para ouvidos diplomados na grande escola da MPB.

10 comentários:

Mauro Ferreira disse...

♪ Primeiro álbum autoral de Fátima Guedes desde Muito intensa (Velas, 1999), Transparente provoca misto de encantamento e decepção, mas o arrebatamento dilui a frustração. O encantamento vem do tratamento sofisticado dado ao cancioneiro desta compositora carioca que já surgiu pronta em 1979, ano marcado por explosão do canto feminino na MPB. Capitaneada pela própria artista ao lado de Bororó, a luxuosa produção de Transparente enquadra a singular obra autoral de Fátima em moldura invariavelmente refinada. Nesse sentido, o 14º título da discografia da artista se impõe de imediato como um dos melhores álbuns de Fátima. Já a decepção é provocada pelo baixo teor de novidade do repertório de Transparente. Das 14 músicas do álbum, apenas quatro são de fato inéditas em disco. Mesmo que algumas músicas sejam inéditas na voz da autora e por isso se justifiquem no disco, caso de E agora? (2003), música lançada pela cantora carioca Carol Saboya no álbum Presente (MP,B Discos, 2003), a frustração persiste pelo fato de Fátima ter baú de músicas inéditas à espera de gravação. Algumas dessas inéditas poderiam ocupar o lugar de Cheiro de mato (1980), Condenados (1979) - música que simboliza o espontâneo movimento feminino que sensualizou a partir de 1979 a então masculinizada MPB - e da cortante Faca (1992). Até porque essas músicas já estão belamente gravadas pela autora. Em contrapartida, há regravações que acrescentam dado novo à música. Rearranjada por Bororó, Onze fitas (1979) recai no samba com arranjo vocal - a cargo do grupo carioca Arranco de Varsóvia - que evoca o clima das vozes dispostas em Saudade do Brasil, show de 1980 em que Elis Regina (1945 - 1982) deu voz a Onze fitas, um ano após a música abrir o primeiro álbum de Fátima, lançado no ano anterior via EMI-Odeon. O Arranco figura também numa das quatro reais novidades do repertório, Sempre bate o sol, samba luminoso capaz de dissipar treva. Toada lançada na voz soberana de Maria Bethânia, Flor de ir embora (1990) também está plenamente justificada em Transparente por juntar o canto de Fátima com o de Dori Caymmi, cuja voz parece brotar da terra, ampliando os sentidos dos versos melancólicos da letra. Minha Nossa Senhora (1995) paira acima de tudo e todos em feitio de oração em gravação que consegue a proeza de superar o registro já pungente lançado há 20 anos por Fátima no álbum Grande tempo (Velas, 1995). Grande tempo e Sétima arte (PolyGram, 1985) são dois dos quatro álbuns de Fátima produzidos por Paulo Roberto de Medeiros e Albuquerque (1942 - 1986), o saudoso produtor musical Paulinho Albuquerque, a quem Transparente é dedicado (há inclusive texto escrito por Fátima para o encarte para explicar a importância de Paulinho na obra que elabora desde a década de 1970). De Sétima arte, aliás, Fátima rebobina Criatura (1985), samba-canção que expõe a influência menos aparente de Antonio Carlos Jobim (1927 - 1994) na construção da obra da artista (e não foi por acaso que Fátima cantou Jobim em Outros tons, álbum lançado pela Rob Digital em 1996).

Mauro Ferreira disse...

A presença de Paulinho está entranhada no disco, nos arranjos - criados dentro de um tempo atemporal, sem conexões com modernidades musicais - e no canto preciso de Fátima. A compositora foi se revelando, aos poucos, uma excelente cantora. Em Transparente, o único deslize de Fátima no quesito é o registro demasiadamente apressado de A vida que a gente leva (2005) que contraria a serenidade da letra e o próprio tom violeiro do arranjo de Bororó. A vida que a gente leva já tinha sido gravada por Fátima em disco ao vivo de 2011 que registrava show feito pela artista com a cantora Alaíde Costa. Só que este CD teve comercialização interrompida ainda na fase inicial de distribuição, por decisão da própria Fátima. O que justifica os registros autorais de A vida que a gente leva e de Ela (2011), outra música presente no roteiro captado para o abortado disco ao vivo. Ela ganha gravação perfeita, na qual Fátima traça com o habitual rigor o perfil da bipolar personagem-título. Real novidade do repertório, a boa música-título Transparente retoma sensualidade que brotara já em Condenados. Já Ética - outra inédita do disco - exemplifica a habilidade da compositora para abordar questões afetivas com densidade melódica e poética. Fátima é da canção, mas também do samba. Iluminado por arranjo do violonista Cláudio Jorge, Lua de cereja fecha o disco com colorido, leveza e os vocais de Dori Caymmi. Enfim, mesmo não sendo o álbum de inéditas que o público de Fátima Guedes esperava com ansiedade, Transparente é mais um grande disco desta artista que conduz a carreira com coerência com os princípios musicais nos quais acredita. Mesmo com baixo teor de (real) novidade no refinado repertório, Transparente é bálsamo para ouvidos diplomados na grande escola da MPB.

Marcelo disse...

Mil vezes regravações de Fátima Guedes do que esses lançamentos horrorosos dos dias de hoje ! Em prol de uma pseudo modernidade parece que esqueceram o que é boa música! Viva a Fatima inédita e viva a Fatima de regravações! Absolutamente necessária!

maroca disse...

Augusto Flávio (Petrolina-Pe/Juazeiro-Ba)

Outros tons, foi lançado em 2006 e não em 1996.

Mauro Ferreira disse...

Tem razão, Augusto. Grato por mais esse toque. Grato pelo olhar sempre atento sobre os textos de Notas Musicais. São leitores como você que me estimulam a continuar com o blog. Abs, MauroF

Saulo Araujo disse...

oque me entristecesse como fa é saber q ela tem um baú maravilhoso de musicas uneditas en pos isso pra fora pra gente ouvir e delirar eu mesmo tenho um cd demo so de ineditas dela, entao tem mto repertorio a cantoria e achei lindo o cd porem precisava de musicas ineditas q ela mesma possui cada uma lindissima

AII - Academia Internacional de Intercâmbio disse...

Fatima querida. .grava outro logo só das inéditas...e deixe os críticos felizes ..eu já tô feliz coM a trasparencia que nos.destes. ..te amo!!

Rafael M. disse...

O disco é lindo, mas achei totalmente desnecessária as regravações... Só com poucas inéditas ficou um sabor de quero mais... Pena ela ter pisado feio na bola...

Otaviano Wanderley Wanderley disse...

Ainda não escutei, mas vou correndo adquirir essa pérola. De fato, como bem observado, " Fátima já nasceu pronta" e acrescento: está a cada ano melhor!

Eduardo disse...

Fátima é ótima, mas essa capa tá uó.