Mauro Ferreira no G1

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domingo, 27 de dezembro de 2015

Terceiro livro de Lobão cresce ao expor afetos do artista na criação de álbum

Resenha de livro
Título: Em busca do rigor e da misericórdia - Reflexões de um ermitão urbano
Autor: Lobão
Editora: Record
Cotação: * * * 1/2

Autor de dois recentes best-sellers do minguado mercado literário brasileiro, 50 anos a mil (Nova Fronteira, 2010) e Manifesto do nada na terra do nunca (Nova Fronteira, 2013), Lobão lança um terceiro livro que se debate entre dar continuidade à manifestação das opiniões do artista - no caso, destilando ódio e argumentos contra os líderes do partido político PT - e dissecar a criação solitária do álbum de inéditas, O rigor e a misericórdia, que o cantor, compositor e músico carioca vai lançar em 2016. É uma "estranha mistura", como o próprio Lobão caracteriza na introdução do livro que marca a estreia do escritor na editora Record. Manifestações políticas à parte, o supra-sumo do livro - a parte que de fato justifica a edição de Em busca do rigor e da misericórdia - são as reflexões do roqueiro ermitão advindas do processo de composição das 14 músicas do disco no estúdio que montou na casa em que vive no Sumaré, bairro da cidade de São Paulo (SP). Ao relatar detalhadamente como chegou a cada uma das 14 músicas do primeiro álbum de inéditas desde Canções dentro da noite escura (Independente / Tratore, 2005), João Luiz Woerdenbag Filho expõe a alma, revelando sensibilidades e delicadezas comumente abafadas pela persona artística que construiu e que domina as aparições do cantor, compositor, músico e escritor carioca na mídia. É quando fala das músicas ainda inéditas - e sobretudo das motivações que o levaram a compor essas músicas - que Lobão esconde as garras afiadas (às vezes, necessárias em tempos politicamente corretos além da conta) e mostra a alma amorosa oculta nas investidas públicas como cidadão político em pleno exercício da democracia. Descrito logo no início do livro, o processo de reconciliação póstuma com o pai - concretizada entre lágrimas ao fim da composição da música intitulada Ação fantasmagórica à distância - exemplifica a veia afetiva que salta ao longo do livro entre denúncias de perseguição pelas manifestações públicas de opiniões contra o PT e contra outros desafetos do artista. É fato que, por vezes, o relato da criação de uma composição - caso, por exemplo, de Profunda e deslumbrante como o sol, nascida em junho de 2014 de inspiração pinkfloydiana - soa excessivamente técnico, diluindo o poder de sedução da narrativa político-musical. Em contrapartida, Lobão soa até comovente quando relata como o câncer que acabaria matando uma das cunhadas (Mônica, irmã mais velha da mulher e fiel escudeira do artista, Regina Lopes) o afetou e o levou a compor A esperança é a praia de um outro mar, única música gravada com o toque de outro músico - no caso, o filho de Mônica, João Puig, responsável pelo solo da guitarra da faixa do álbum em que Lobão toca todos os instrumentos e assina todas as 14 músicas sem parceiros. "Tenho clareza sobre meu novo disco. É um solitário manifesto musical que retrata um tempo triste, época ignorada pelos covardes ou preguiçosos ou míopes artistas do país, o que faz ainda mais relevante meu trabalho", conceitua e dimensiona Lobão no capítulo em que discorre sobre Dilacerar, música composta em 6 de fevereiro deste ano de 2015. Dilacerar é uma das últimas músicas feitas para álbum que reverbera influências do rock clássico da década de 1970 - sobretudo o hard rock do grupo inglês Led Zeppelin - em temas como Os vulneráveis. Disco que inclui Alguma coisa qualquer, música de 1997 feita para Cássia Eller (1962 - 2001), a pedido da cantora carioca, mas que seria deixada de lado e esquecida quando a gravadora PolyGram decidiu que Cássia iria gravar naquele ano disco inteiramente dedicado ao repertório de Cazuza (1958 - 1990). Enfim, ao longo da gestação do álbum O rigor e a misericórdia, Lobão vivenciou emoções reais entre dias turbulentos por conta de falar o que pensa, com ou sem razão. São essas emoções reais que ampliam o sentido das reflexões do ermitão urbano em livro que cresce quando expõe a alma e os afetos do politizado artista.  Sim, é quando esconde as garras que Lobão fica mais forte.

11 comentários:

Mauro Ferreira disse...

♪ Autor de dois recentes best-sellers do minguado mercado literário brasileiro, 50 anos a mil (Nova Fronteira, 2010) e Manifesto do nada na terra do nunca (Nova Fronteira, 2013), Lobão lança um terceiro livro que se debate entre dar continuidade à manifestação das opiniões do artista - no caso, destilando ódio e argumentos contra os líderes do partido político PT - e dissecar a criação solitária do álbum de inéditas, O rigor e a misericórdia, que o cantor, compositor e músico carioca vai lançar em 2016. É uma "estranha mistura", como o próprio Lobão caracteriza na introdução do livro que marca a estreia do escritor na editora Record. Manifestações políticas à parte, o supra-sumo do livro - a parte que de fato justifica a edição de Em busca do rigor e da misericórdia - são as reflexões do roqueiro ermitão advindas do processo de composição das 14 músicas do disco no estúdio que montou na casa em que vive no Sumaré, bairro da cidade de São Paulo (SP). Ao relatar detalhadamente como chegou a cada uma das 14 músicas do primeiro álbum de inéditas desde Canções dentro da noite escura (Independente / Tratore, 2005), João Luiz Woerdenbag Filho expõe a alma, revelando sensibilidades e delicadezas comumente abafadas pela persona artística que construiu e que domina as aparições do cantor, compositor, músico e escritor carioca na mídia. É quando fala das músicas ainda inéditas - e sobretudo das motivações que o levaram a compor essas músicas - que Lobão esconde as garras afiadas (às vezes, necessárias em tempos politicamente corretos além da conta) e mostra a alma amorosa oculta nas investidas públicas como cidadão político em pleno exercício da democracia. Descrito logo no início do livro, o processo de reconciliação póstuma com o pai - concretizada entre lágrimas ao fim da composição da música intitulada Ação fantasmagórica à distância - exemplifica a veia afetiva que salta ao longo do livro entre denúncias de perseguição pelas manifestações públicas de opiniões contra o PT e contra outros desafetos do artista. É fato que, por vezes, o relato da criação de uma composição - caso, por exemplo, de Profunda e deslumbrante como o sol, nascida em junho de 2014 de inspiração pinkfloydiana - soa excessivamente técnico, diluindo o poder de sedução da narrativa político-musical. Em contrapartida, Lobão soa até comovente quando relata como o câncer que acabaria matando uma das cunhadas (Mônica, irmã mais velha da mulher e fiel escudeira do artista, Regina Lopes) o afetou e o levou a compor A esperança é a praia de um outro mar, única música gravada com o toque de outro músico - no caso, o filho de Mônica, João Puig, responsável pelo solo da guitarra da faixa do álbum em que Lobão toca todos os instrumentos e assina todas as 14 músicas sem parceiros. "Tenho clareza sobre meu novo disco. É um solitário manifesto musical que retrata um tempo triste, época ignorada pelos covardes ou preguiçosos ou míopes artistas do país, o que faz ainda mais relevante meu trabalho", conceitua e dimensiona Lobão no capítulo em que discorre sobre Dilacerar, música composta em 6 de fevereiro deste ano de 2015. Dilacerar é uma das últimas músicas feitas para álbum que reverbera influências do rock clássico da década de 1970 - sobretudo o hard rock do grupo inglês Led Zeppelin - em temas como Os vulneráveis. Disco que inclui Alguma coisa qualquer, música de 1997 feita para Cássia Eller (1962 - 2001), a pedido da cantora carioca, mas que seria deixada de lado e esquecida quando a gravadora PolyGram decidiu que Cássia iria gravar naquele ano disco inteiramente dedicado ao repertório de Cazuza (1958 - 1990). Enfim, ao longo da gestação do álbum O rigor e a misericórdia, Lobão vivenciou emoções reais entre dias turbulentos por conta de falar o que pensa, com ou sem razão. São essas emoções reais que ampliam o sentido das reflexões do ermitão urbano em livro que cresce quando expõe a alma e os afetos do politizado artista. Sim, é quando esconde as garras que Lobão fica mais forte.

pq.vc.faz.tv? disse...

...e ele continua morando no Brasil ? Caramba! Enfim, é um dos caras que fez boa contribuição a musica brasileira, mais atualmente, poderia se enterrar ! Mais enfim, enquanto vivo ele precisa se fazer existente, não? Aff !

Johnny Cesar disse...

Tantas cantoras surgem a cada dia e nenhuna (re) grava Lobão... Eu gosto da obra dos 80 mas ele é um mala.

italo vinicius disse...

Um dos caras que ainda valem apena pois tem muita modinha por ai na mpb que sao muito chatos sao cool de mais. As pessoas se prendem aos anos 80 lobao hj esta bem melhor do que nos 80 tao falado por muitos que venha o disco agora.
Um viva ao lobo

Bernardo Barroso Neto disse...

Pode se não concordar com suas opiniões políticas mas não dá para negar que o velho Lobo é sempre bem vindo nesses tempos dificeis que vivemos, especialmente na música. Salve Lobão!

Rhenan Soares disse...

O título já é uma piada pronta, mas quero ler algum dia... Lobão é um artista incrível, mas sua caricatura política é muito melhor (me diverte, de tão ordinário). Em todo caso, sempre acredito que cabeça de artista é um troço muito interessante, independentemente da qualidade do que nasce.

Elis disse...

Lobão é um grande artista. Poupe-se disso rapaz.

Mara Loiola disse...

Podem até não gravarem , mais cantam nos shows provavelmente ..."curta a página (elas cantam lobão) vc verá mulhres cantando suas músicas "pra gravar e faturar precisa de uma autorização e o lobão não vai permitir qualquer um gravar" e as músicas dele só ficam bonitas na sua própria voz se encaixa perfeitamente bem além de ter uma legítima identidade!

Mara Loiola disse...

Podem até não gravarem ,mas cantam nos seus shows "curta a pagina (elas cantam lobão) vc verá mulheres cantando suas músicas, agora pra gravar oficialmente e faturar é necessário autorização do lobão, e além do mais as suas músicas só ficam bonitas na sua própria voz se emcaixa perfeito a voz do lobão é linda !

Mara Loiola disse...

Verdade ..italo vinicius

Mara Loiola disse...

A cabeça do lobão é um mundo que muita gente gostaria de habitar