Mauro Ferreira no G1

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sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Regina Machado soma ao reunir canções de Tom Zé em 'Multiplicar-se única'

Resenha de CD
Título: Multiplicar-se única - Canções de Tom Zé
Artista: Regina Machado
Gravadora: Canto Discos / Tratore 
Cotação: * * * * *

"Toda canção quer se multiplicar / Na multidão, única se tornar", sentencia Regina Machado, por meio de versos de Tom Zé, entre toques da percussão minimalista de Guilherme Kastrup e da guitarra de Norberto Vinhas. A sentença é dada em Multiplicar-se única (1992), música que dá título ao quarto álbum da cantora paulistana, dedicado às canções do compositor baiano Tom Zé. Tropicalista pela própria natureza, Tom Zé nunca deixou de experimentar e de fazer esse cancioneiro autoral caminhar para frente, mesmo quando encontrou portas fechadas no mercado fonográfico brasileiro. Por isso mesmo, há canções de Zé ainda ansiosas para se multiplicar e fazer ouvir na multidão. Nesse sentido, o irretocável disco independente de Regina Machado vem somar pelo prazer com que proporciona ao ressoar noves canções de Tom Zé com a produção revigorante de Dante Ozzetti. A escolha de Dante deu sentido ao disco porque os arranjos do produtor multiplica o sentido das canções, ora valorizando a melodia, como em O amor é velho-menina (1992), ora enfatizando o ritmo, como em Lua-sol-girar (1992), cujo arranjo reproduz em sons o movimento circular proposto pelos versos do tema. Curiosamente, as três primeiras das nove músicas do disco de Regina - Lua-gira-sol, Multiplicar-se única e O amor é velho-menina - são do álbum que marcou a volta de Tom Zé à cena na década de 1990 por iniciativa do compositor e produtor musical norte-americano (de origem escocesa) David Byrne, The hips of tradition - The return of Tom Zé (Warner Music, 1992). Contudo, Regina também volta no tempo e mergulha em canções lançadas por Tom Zé nos anos 1970, década produtiva para o compositor, caso de Menina Jesus (1978). O conhecido samba Augusta, Angélica e Consolação (1973) ganha gravação primorosa que amplia o significado dos versos por conta dos contracantos e intervenções vocais de Suzana Salles e Wandi Doratiotto. Tais intervenções destilam ironia e injetam humor ao pontuar o relacionamento do narrador do samba - gravado com acento bem paulistano que remete inclusive à obra do bamba de Sampa, Adoniran Barbosa (1910 - 1982) - com as mulheres batizadas com nomes de ruas de São Paulo, cidade que adotou o baiano de Irará (BA). Cantora de formação técnica e belo timbre, Regina Machado jamais joga nota fora para demonstrar erudição ao cantar Tom Zé, de quem foi vocalista ao iniciar carreira na década de 1980. A cantora, aliás, mostra pleno entendimento da obra do compositor, brilhando no registro meio cantado meio falado de Complexo de épico (1973), música com que Tom Zé abriu o álbum Todos os olhos (Continental, 1973) - o disco que apresentou o samba Augusta, Angélica e Consolação - e afrontou os (na época, já entronizados) reis da MPB com versos que reduziam a pó a pretensão dos que se levavam demasiadamente a sério. Versos - "Todo compositor brasileiro é um complexado / Por que então essa mania danada, essa preocupação / De falar tão sério / De parecer tão sério / De ser tão sério?" - que ajudaram a desgarrar Tom Zé do rebanho e que, reouvidos 42 anos depois na voz de Regina Machado, resistem ao tempo e parecem dirigidos a certos nomes da atual geração indie que se levam demasiadamente a sério sem ter um milésimo do talento dos reis da MPB. Condenado a ser jogado à fogueira da geladeira mercadológica, Tom Zé jamais foi para a prisão criativa. Estudou o samba - em álbum do qual Regina rebobina (Tom Zé e Elton Medeiros, 1976) e Só (Solidão) (1976) - e, décadas depois, estudou a Bossa Nova em álbum de 2008 no qual pôs João nos tribunais, música em que dá ganho de causa ao revolucionário João Gilberto. Regina Machado e Dante Ozzetti sabem falar a língua da música de Tom Zé. Tal entendimento é perceptível nas intervenções intencionalmente confusas das cordas que explicam o samba , de arquitetura aparentemente tradicional. Em Só (Solidão), os ruídos e o toque do fagote de Ronaldo Pacheco soam como a poeira leve que evidencia o descompasso da personagem do tema em gravação bela de doer. Com canto singular valorizado pela atuação brilhante de Dante Ozzetti como produtor e arranjador do CD,  Regina Machado soma bastante ao dar voz a Tom Zé em  Multiplicar-se única.

6 comentários:

Mauro Ferreira disse...

♪ "Toda canção quer se multiplicar / Na multidão, única se tornar", sentencia Regina Machado, por meio de versos de Tom Zé, entre toques da percussão minimalista de Guilherme Kastrup e da guitarra de Norberto Vinhas. A sentença é dada em Multiplicar-se única (1992), música que dá título ao quarto álbum da cantora paulistana, dedicado às canções do compositor baiano Tom Zé. Tropicalista pela própria natureza, Tom Zé nunca deixou de experimentar e de fazer esse cancioneiro autoral caminhar para frente, mesmo quando encontrou portas fechadas no mercado fonográfico brasileiro. Por isso mesmo, há canções de Zé ainda ansiosas para se multiplicar e fazer ouvir na multidão. Nesse sentido, o irretocável disco independente de Regina Machado vem somar pelo prazer com que proporciona ao ressoar noves canções de Tom Zé com a produção revigorante de Dante Ozzetti. A escolha de Dante deu sentido ao disco porque os arranjos do produtor multiplica o sentido das canções, ora valorizando a melodia, como em O amor é velho-menina (1992), ora enfatizando o ritmo, como em Lua-sol-girar (1992), cujo arranjo reproduz em sons o movimento circular proposto pelos versos do tema. Curiosamente, as três primeiras das nove músicas do disco de Regina - Lua-gira-sol, Multiplicar-se única e O amor é velho-menina - são do álbum que marcou a volta de Tom Zé à cena na década de 1990 por iniciativa do compositor e produtor musical norte-americano (de origem escocesa) David Byrne, The hips of tradition - The return of Tom Zé (Warner Music, 1992). Contudo, Regina também volta no tempo e mergulha em canções lançadas por Tom Zé nos anos 1970, década produtiva para o compositor, caso de Menina Jesus (1978). O conhecido samba Augusta, Angélica e Consolação (1973) ganha gravação primorosa que amplia o significado dos versos por conta dos contracantos e intervenções vocais de Suzana Salles e Wandi Doratiotto. Tais intervenções destilam ironia e injetam humor ao pontuar o relacionamento do narrador do samba - gravado com acento bem paulistano que remete inclusive à obra do bamba de Sampa, Adoniran Barbosa (1910 - 1982) - com as mulheres batizadas com nomes de ruas de São Paulo, cidade que adotou o baiano de Irará (BA). Cantora de formação técnica e belo timbre, Regina Machado jamais joga nota fora para demonstrar erudição ao cantar Tom Zé, de quem foi vocalista ao iniciar carreira na década de 1980. A cantora, aliás, mostra pleno entendimento da obra do compositor, brilhando no registro meio cantado meio falado de Complexo de épico (1973), música com que Tom Zé abriu o álbum Todos os olhos (Continental, 1973) - o disco que apresentou o samba Augusta, Angélica e Consolação - e afrontou os (na época, já entronizados) reis da MPB com versos que reduziam a pó a pretensão dos que se levavam demasiadamente a sério.

Mauro Ferreira disse...

Versos - "Todo compositor brasileiro é um complexado / Por que então essa mania danada, essa preocupação / De falar tão sério / De parecer tão sério / De ser tão sério?" - que ajudaram a desgarrar Tom Zé do rebanho e que, reouvidos 42 anos depois na voz de Regina Machado, resistem ao tempo e parecem dirigidos a certos nomes da atual geração indie que se levam demasiadamente a sério sem ter um milésimo do talento dos reis da MPB. Condenado a ser jogado à fogueira da geladeira mercadológica, Tom Zé jamais foi para a prisão criativa. Estudou o samba - em álbum do qual Regina rebobina Tô (Tom Zé e Elton Medeiros, 1976) e Só (Solidão) (1976) - e, décadas depois, estudou a Bossa Nova em álbum de 2008 no qual pôs João nos tribunais, música em que dá ganho de causa ao revolucionário João Gilberto. Regina Machado e Dante Ozzetti sabem falar a língua da música de Tom Zé. Tal entendimento é perceptível nas intervenções intencionalmente confusas das cordas que explicam o samba Tô, de arquitetura aparentemente tradicional. Em Só (Solidão), os ruídos e o toque do fagote de Ronaldo Pacheco soam como a poeira leve que evidencia o descompasso da personagem do tema em gravação bela de doer. Com canto singular valorizado pela atuação brilhante de Dante Ozzetti como produtor e arranjador do CD, Regina Machado soma bastante ao dar voz a Tom Zé em Multiplicar-se única.

Mauro Silva disse...

É sempre bom reverenciar Tom Zé, fiquei curioso para escutar este trabalho.

Manoel Neves disse...

Mauro Ferreira,
Este cd é genial!
Seu blog é imprescindível para quem gosta de música de boa qualidade!
Obrigado, meu caro!
Grande abraço.

Luca disse...

acredito que o disco seja interessante mas só acho tem tanta coisa na obra do Tom Zé, pra quê regravar o Tô?

Fred Alves disse...

Acabei de ouvir o cd,uma cantora impecável num cd maravilhoso