Mauro Ferreira no G1

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quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Caixa com obra solo de Arnaldo Baptista expõe lucidez assustadora do 'loki'

Resenha de caixa de CDs
Título: Arnaldo Baptista
Artista: Arnaldo Baptista
Gravadora: Canal 3
Cotação: * * * *

"É um pouco assustador, não é? / ... / Somos todos engolidos pelo sistema, não?", pergunta Arnaldo Dias Baptista já embutindo a resposta afirmativa na entonação dos versos de É um pouco assustador - Versão II, uma das seis músicas de um dos títulos mais raros da discografia do cantor, compositor e pianista paulista, "Faremos uma noitada excelente..." (Vinil Urbano, 1988), disco ao vivo gravado em show feito em 13 de maio de 1978 pelo então ex-Mutante com a banda Patrulha do Espaço, no Teatro São Pedro, em São Paulo (SP). Lançado em LP em 1988, dez anos depois da gravação do show, em edição independente do selo Vinil Urbano, "Faremos uma noitada excelente..." ganha a primeira edição em CD, embutida na caixa Arnaldo Baptista. Lançada com tiragem limitada de 1,5 mil cópias, a caixa embala cinco álbuns da discografia construída pelo artista fora do grupo Os Mutantes, do qual sempre o principal cérebro. A rigor, a caixa - curiosa e coincidentemente lançada no momento em que Rita Lee, colega e namorada de Arnaldo no grupo mais tropicalista do rock brasileiro, também embala discografia pós-Mutantes em caixa - omite um título da discografia solo de Arnaldo, Disco voador Arnaldo paz (Baratos Afins, 1987), álbum de registros caseiros de tom tosco, mas de alto valor documental. De todo modo, a caixa Arnaldo Baptista presta grande serviço à memória fonográfica nacional ao apresentar as primeiras edições em CD dos dois álbuns gravados por Arnaldo com a banda Patrulha do Espaço. Além de "Faremos uma noitada excelente...", a caixa traz a primeira edição em CD de Elo perdido, álbum gravado no estúdio paulistano Vice-Versa no fim de 1977 por Arnaldo com a Patrulha do Espaço, banda que formara em 1975. Elo perdido chega ao CD com outra capa e com um + acrescido ao título. É que Elo perdido + apresenta todas as 13 músicas registradas por Arnaldo - com John Flavin (guitarra), Osvaldo Gennari Filho (baixo) e Rolando Castello Júnior (bateria) - nas sessões de gravação do disco. Os registros de cinco das 13 músicas de autoria de Arnaldo - Singin' again, The cowboy, Sanguinho novo, Imagino e Sem empresário - permaneciam inéditos até então. É que o disco foi lançado mais de uma década após a gravação (daí o título Elo perdido). Quando o material daquela sessão foi achado (a partir de uma gravação de dois canais), o álbum foi - enfim - editado em 1988, pelo selo Vinil Urbano, com oito das 13 músicas registradas nas até então perdidas sessões de gravação de 1977. De acordo com nota escrita no encarte da edição em CD de Elo perdido +, os registros das cinco músicas omitidas no LP foram entregues a Arnaldo na década de 1980 por Osvaldo Gennari Filho, o baixista da banda Patrulha do Espaço que participou da gravação. Álbuns pautados pelo rock, com eventuais toques progressivos e/ou psicodélicos, os dois discos do artista com a Patrulha do Espaço justificam a edição e aquisição da caixa Arnaldo Baptista. Os outros três álbuns - Loki? (Fontana / Philips, 1974), Singin' alone (Baratos Afins, 1982) e Let it bed (Independente, 2004) - são mais facilmente encontráveis no mercado fonográfico, já tendo ganhado edições em CD (Let it bed, álbum produzido por John Ulhoa, já foi originalmente lançado no formato de CD). De todo modo, as edições destes três títulos na caixa são caprichosas, com reprodução das letras e da arte gráfica dos álbuns originais. Tal como os dois discos de Arnaldo com a Patrulha do Espaço, Singin' alone foi inclusive remasterizado para a edição da discografia de Arnaldo em formato digital, em 2013, e para a produção da caixa com as edições em CD (Loki? já tinha sido remasterizado e Let it bed já veio ao mundo em CD). São álbuns pautados por  sonoridade menos pesada - às vezes até serena, como a de Let it bed - que, nos casos de Loki? e Singin' alone, contrariam o espírito pesado do artista na época da feitura dos discos. Um dos álbuns fundamentais do rock brasileiro, Loki? é disco de letras atormentadas pela dor de Arnaldo, então recém-separado de Rita Lee. Mas é um disco que curte a dor com beleza. Singin' alone dá continuidade à trilha depressiva e solitária de Arnaldo, evidenciada já no título. No resumo da ópera-rock, a caixa Arnaldo Baptista expõe a lucidez assustadora de um artista que sobreviveu à loucura e que parece ter encontrado paz de espírito. Mas que caminha no fundo sempre sozinho, eterno e real mutante, sem se deixar engolir pelo sistema que quase o devorou na década de 1980.

8 comentários:

Mauro Ferreira disse...

♪ "É um pouco assustador, não é? / ... / Somos todos engolidos pelo sistema, não?", pergunta Arnaldo Dias Baptista já embutindo a resposta afirmativa na entonação dos versos de É um pouco assustador - Versão II, uma das seis músicas de um dos títulos mais raros da discografia do cantor, compositor e pianista paulista, "Faremos uma noitada excelente..." (Vinil Urbano, 1988), disco ao vivo gravado em show feito em 13 de maio de 1978 pelo então ex-Mutante com a banda Patrulha do Espaço, no Teatro São Pedro, em São Paulo (SP). Lançado em LP em 1988, dez anos depois da gravação do show, em edição independente do selo Vinil Urbano, "Faremos uma noitada excelente..." ganha a primeira edição em CD, embutida na caixa Arnaldo Baptista. Lançada com tiragem limitada de 1,5 mil cópias, a caixa embala cinco álbuns da discografia construída pelo artista fora do grupo Os Mutantes, do qual sempre o principal cérebro. A rigor, a caixa - curiosa e coincidentemente lançada no momento em que Rita Lee, colega e namorada de Arnaldo no grupo mais tropicalista do rock brasileiro, também embala discografia pós-Mutantes em caixa - omite um título da discografia solo de Arnaldo, Disco voador Arnaldo paz (Baratos Afins, 1987), álbum de registros caseiros de tom tosco, mas de alto valor documental. De todo modo, a caixa Arnaldo Baptista presta grande serviço à memória fonográfica nacional ao apresentar as primeiras edições em CD dos dois álbuns gravados por Arnaldo com a banda Patrulha do Espaço. Além de "Faremos uma noitada excelente...", a caixa traz a primeira edição em CD de Elo perdido, álbum gravado no estúdio paulistano Vice-Versa no fim de 1977 por Arnaldo com a Patrulha do Espaço, banda que formara em 1975. Elo perdido chega ao CD com outra capa e com um + acrescido ao título. É que Elo perdido + apresenta todas as 13 músicas registradas por Arnaldo - com John Flavin (guitarra), Osvaldo Gennari Filho (baixo) e Rolando Castello Júnior (bateria) - nas sessões de gravação do disco. Os registros de cinco das 13 músicas de autoria de Arnaldo - Singin' again, The cowboy, Sanguinho novo, Imagino e Sem empresário - permaneciam inéditos até então. É que o disco foi lançado mais de uma década após a gravação (daí o título Elo perdido). Quando o material daquela sessão foi achado (a partir de uma gravação de dois canais), o álbum foi - enfim - editado em 1988, pelo selo Vinil Urbano, com oito das 13 músicas registradas nas até então perdidas sessões de gravação de 1977. De acordo com nota escrita no encarte da edição em CD de Elo perdido +, os registros das cinco músicas omitidas no LP foram entregues a Arnaldo na década de 1980 por Osvaldo Gennari Filho, o baixista da banda Patrulha do Espaço que participou da gravação. Álbuns pautados pelo rock, com eventuais toques progressivos e/ou psicodélicos, os dois discos do artista com a Patrulha do Espaço justificam a edição e aquisição da caixa Arnaldo Baptista.

Mauro Ferreira disse...

Os outros três álbuns - Loki? (Fontana / Philips, 1974), Singin' alone (Baratos Afins, 1982) e Let it bed (Independente, 2004) - são mais facilmente encontráveis no mercado fonográfico, já tendo ganhado edições em CD (Let it bed, álbum produzido por John Ulhoa, já foi originalmente lançado no formato de CD). De todo modo, as edições destes três títulos na caixa são caprichosas, com reprodução das letras e da arte gráfica dos álbuns originais. Tal como os dois discos de Arnaldo com a Patrulha do Espaço, Singin' alone foi inclusive remasterizado para a edição da discografia de Arnaldo em formato digital, em 2013, e para a produção da caixa com as edições em CD (Loki? já tinha sido remasterizado e Let it bed já veio ao mundo em CD). São álbuns pautados por sonoridade menos pesada - às vezes até serena, como a de Let it bed - que, nos casos de Loki? e Singin' alone, contrariam o espírito pesado do artista na época da feitura dos discos. Um dos álbuns fundamentais do rock brasileiro, Loki? é disco de letras atormentadas pela dor de Arnaldo, então recém-separado de Rita Lee. Mas é um disco que curte a dor com beleza. Singin' alone dá continuidade à trilha depressiva e solitária de Arnaldo, evidenciada já no título. No resumo da ópera-rock, a caixa Arnaldo Baptista expõe a lucidez assustadora de um artista que sobreviveu à loucura e que parece ter encontrado paz de espírito. Mas que caminha no fundo sempre sozinho, eterno e real mutante, sem se deixar engolir pelo sistema que quase o devorou na década de 1980.

italo vinicius disse...

Isso ai é que uma historia o resto são meras pequenez

Mauro Silva disse...

Mauro, os Cd's vem em caixa acrílica ou Mini-Lp ?

Mauro Ferreira disse...

Mauro Silva, os discos foram encaixotados em embalagem digipack. Abs, MauroF

Rhenan Soares disse...

Da obra solo do Arnaldo eu só me envolvi com o Loki, que ainda ouço, mas a caixa parece muito boa. Quero providenciar! É com certeza um dos artistas mais geniais e absurdamente sensíveis do Brasil. Muito menos reverenciado do que merecia, infelizmente -- mesmo com a importância do documentário, que é lindo e emocionante.

Douglas Carvalho disse...

Adoro ser chato, portanto lá vai: acho a obra solo de Arnaldo Baptista um porre. Rita Lee era o sal, o açúcar e o tempero dos Mutantes. Sem ela, os outros dois são pra escutar uma vez e nunca mais.

Marcos Rizzo disse...

Eu concordo com o "Douglas Carvalho".