Mauro Ferreira no G1

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quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Autobiografia '50 anos a mil' expõe jorros (sinceros) das memórias de Lobão

Resenha de livro
Título: 50 anos a mil
Autor: Lobão (com Claudio Tognolli)
Editora: Nova Fronteira
Cotação: * * * *

♪ Em certo dia do primeiro semestre de 1999, ao tentar mostrar para um ex-empresário o repertório do que viria a ser seu primeiro disco independente, A vida é doce (1999), Lobão ouviu do executivo a sugestão de abortar esse repertório (considerado "de vanguarda" pelo empresário), regravar Me chama e capitalizar o sucesso que ele havia obtido nos anos 80. Deprimido com a sentença de morte ao cancioneiro no qual depositava tanta esperança, Lobão tomou um porre, engoliu um vidro de calmantes, cortou os pulsos e tentou se atirar da varanda do apartamento. Foi salvo da morte pela mulher, a fiel escudeira Regina Lopes, acordando em clínica de hospital com a recomendação de que deveria permanecer com um enfermeiro ao lado nos próximos meses. A passagem turbulenta - a rigor, mais uma dentre tantas vivenciadas pelo artista ao longo de sua vida - é contada pelo próprio Lobão na recém-lançada autobiografia, 50 anos a mil. Escrito na primeira pessoa, com auxílio do jornalista Claudio Tognolli (responsável pela detalhista pesquisa que reconstitui o enfoque da obra e da vida de Lobão pela mídia), o livro expõe o jorro sincero e espontâneo da memória de um artista controvertido. Sem maquiar os fatos, inclusive os imbróglios familiares com a mãe super-protetora e autodestrutiva, Lobão reconta a vida em ordem cronológica em narrativa envolvente. O tom é informal, quase como se estivesse na mesa de um bar, reavivando os momentos marcantes da trajetória de um garoto retraído que, como ele mesmo sentencia na abertura do livro, tinha tudo para se tornar um bundão. Mas Lobão virou o jogo na adolescência, tomou as rédeas da própria vida e iniciou trajetória emblemática na música brasileira. E agora conta os lances principais do jogo da (sua) vida em autobiografia que não se preocupa com o rigor de datas, mas com a importância dos fatos em si. Notícia que abalou Lobão, a morte de Cássia Eller (1962 - 2001), por exemplo, é situada no final de 2002 quando, na realidade, a cantora saiu de cena em dezembro do ano anterior. São erros comuns e desculpáveis quando uma narrativa é ditada pelo fluxo nem sempre lógico da memória. Mas está tudo lá em 50 anos a mil: a relação tensa com a mãe, os desajustes colegiais na adolescência, a descoberta do sexo, a iniciação nas drogas e o envolvimento redentor com a música. E haja história! Afinal, Lobão passou pelo Vímana - grupo dos anos 1970 que teve também Ritchie (que se tornaria um amigo fiel nas horas difíceis) e Lulu Santos em sua formação - e pela Blitz, antes de se lançar em carreira solo em 1982 (ano do estouro da Blitz) com Cena de cinema, álbum que Lobão acredita ter sido clonado pelos Paralamas do Sucesso no disco de estreia do trio, Cinema mudo (1983). Herbert Vianna - desafeto notório de Lobão ao longo dos anos 1980 - não é poupado de acusações de plágio, mas é tratado com carinho e respeito em relato que fica impressionante quando Lobão revive os tempos passados na prisão. Mesmo que estes fatos já tenham sido expostos pela mídia em entrevistas concedidas pelo próprio Lobão, a narrativa do inferno vivido na prisão ainda soa impactante. Por ser livro autobiográfico, escrito sob ótica sempre pessoal, 50 anos a mil não expõe as contradições de Lobão. A decisão do artista de gravar um Acústico MTV em 2006, por exemplo, é pretexto para ataques à mídia, que detectou no lançamento do disco - em abril de 2007 - contradição na atitude de um artista que vinhando afiando suas garras contra o formato da MTV e contra o modelo empresarial das gravadoras multinacionais (Lobão se acertou com a Sony Music para gravar o acústico). Mas isso não tira o mérito e o interesse da narrativa de 50 anos a mil. Lobão sempre foi um artista que se expôs com sinceridade - e com as contradições inerentes a todo ser humano - e sua autobiografia parece estar em fina sintonia com a verdade dos fatos ditados pela memória do artista. O livro é bom e (até mesmo) essencial para quem gosta de Lobão.

6 comentários:

Mauro Ferreira disse...

Em certo dia do primeiro semestre de 1999, ao tentar mostrar para um ex-empresário o repertório do que viria a ser seu primeiro disco independente, A Vida É Doce (1999), Lobão ouviu do executivo a sugestão de abortar esse repertório (considerado "de vanguarda" pelo empresário), regravar Me Chama e capitalizar o sucesso que ele havia obtido nos anos 80. Deprimido com a sentença de morte ao cancioneiro no qual depositava tanta esperança, Lobão tomou um porre, engoliu um vidro de calmantes, cortou os pulsos e tentou se atirar da varanda do apartamento. Foi salvo da morte por sua mulher e fiel escudeira, Regina Lopes, acordando numa clínica de hospital com a recomendação de que deveria permanecer com um enfermeiro ao seu lado nos próximos meses. A passagem turbulenta - a rigor, mais uma dentre tantas vivenciadas pelo artista ao longo de sua vida - é contada pelo próprio Lobão na sua recém-lançada autobiografia, 50 Anos a Mil. Escrito na primeira pessoa, com auxílio do jornalista Claudio Tognolli (responsável pela detalhista pesquisa que reconstitui o enfoque da obra e da vida de Lobão pela mídia), o livro expõe o jorro sincero e espontâneo da memória de um artista controvertido. Sem maquiar os fatos, inclusive os imbróglios familiares com a mãe superprotetora e autodestrutiva, Lobão reconta sua vida em ordem cronológica em narrativa envolvente. O tom é informal, quase como se estivesse na mesa de um bar, reavivando os momentos marcantes da trajetória de um garoto retraído que, como ele mesmo sentencia na abertura do livro, tinha tudo para se tornar um bundão. Mas Lobão virou o jogo na adolescência, tomou as rédeas da própria vida e iniciou trajetória emblemática na música brasileira. E agora conta os lances principais do jogo de sua vida em autobiografia que não se preocupa com o rigor das datas, mas com a importância dos fatos em si. Notícia que abalou Lobão, a morte de Cássia Eller (1962 - 2001), por exemplo, é situada no final de 2002 quando, na realidade, a cantora saiu de cena em dezembro do ano anterior. São erros comuns e desculpáveis quando uma narrativa é ditada pelo fluxo nem sempre lógico da memória. Mas está tudo lá em 50 Anos a Mil: a relação tensa com a mãe, os desajustes colegiais na adolescência, a descoberta do sexo, a iniciação nas drogas e o envolvimento redentor com a música. E haja história! Afinal, Lobão passou pelo Vímana - o grupo dos anos 70 que teve também Ritchie (que se tornaria um amigo fiel nas horas difíceis) e Lulu Santos em sua formação - e pela Blitz antes de se lançar em carreira solo em 1982 - o ano do estouro da Blitz - com Cena de Cinema, álbum que Lobão acredita ter sido clonado pelos Paralamas do Sucesso em seu disco de estreia, Cinema Mudo (1983). Herbert Vianna - desafeto notório de Lobão ao longo dos anos 80 - não é poupado das acusações de plágio, mas é tratado com carinho e respeito num relato que fica impressionante quando Lobão revive os tempos passados na prisão. Mesmo que estes fatos já tenham sido expostos pela mídia em entrevistas concedidas pelo próprio Lobão, a narrativa do inferno vivido na prisão ainda soa impactante. Por ser livro autobiográfico, escrito sob ótica sempre pessoal, 50 Anos a Mil não expõe as contradições de Lobão. A decisão do artista de gravar um Acústico MTV em 2006, por exemplo, é pretexto para ataques a mídia, que detectou no lançamento no disco - em abril de 2007 - o comportamento contraditório de um artista que vinhando afiando suas garras contra o formato da MTV e o contra o modelo empresarial das gravadoras multinacionais (Lobão se acertou com a Sony Music para gravar o acústico). Mas isso não tira o mérito e o interesse da narrativa de 50 Anos a Mil. Lobão sempre foi um artista que se expõe com sinceridade - e com as contradições inerentes a todo ser humano - e sua autobiografia parece estar em fina sintonia com a verdade dos fatos ditados pela memória do artista. Seu livro é bom e essencial.

Ismael Angelus disse...

Biografias de artistas 'ainda vivos' sempre soam imcompletas pelo fato deles ainda continuarem vivos. Mas ainda assim essa parece uma ótima leitura para todo aquele que reconhece a importância que Lobão teve para o Rock Nacional dos anos 80. E que reverbera ainda hoje.

Gill disse...

Lobão é um dos caras mais desagradáveis que já conheci. A crítica ácida, muitas vezes certeira, para com a política, a imprensa, etc. perde-se completamente num mar de exageros e contradições. É uma pessoa muito perdida, problemática e é um milagre já não ter morrido. Bom, já não leio biografia de artista, autobiografia, pior, pois é para mim inválida e a de Lobão, então, é completamente desinteressante.

Gill disse...

Mauro, há diversos problemas nesse texto, veja:
1.
A decisão do artista de gravar um Acústico MTV em 2006, por exemplo, é pretexto para ataques a mídia...
*"ataques à mídia"

2.
...artista que vinhando afiando suas garras contra o formato da MTV e o contra o modelo...
*?

3.
...Lobão sempre foi um artista que se expõe com sinceridade...
* Se ele "foi", então "se expôs", eu prefiro: "Lobão é um artista que sempre se expõe..."

Não sou de ficar corrigindo o texto dos outros, apesar de sempre observar desvios de norma. Mas como esses problemas atrapalham a interpretação do texto, resolvi me manifestar. Não precisa e não precisa mesmo postar.
Caso não goste de correções, me avise. Abraço.

lurian disse...

Bola fora do executivo. A vida é doce é um disco realmente de vanguarda, fantástico, que Lobão vendeu um-a-um e em bancas de revista fazendo considerável sucesso de vendas e crítica. Ótima sacada do grande Lobão! É até hoje um dos meus 100 discos de mpb!

Mauro Ferreira disse...

Gill, obrigado por me alertar dos erros do texto, frutos da correria de fim de ano. Abs, mauroF