Mauro Ferreira no G1

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sábado, 3 de janeiro de 2015

Sambas de enredo dos anos 1980 sobressaem na (digna...) safra de 2015

Resenha de CD
Título: Sambas de enredo 2015
Artista: Vários
Gravadora: Gravadora Escola de Samba / Universal Music
Cotação: * * * 

A expressiva tiragem inicial de 100 mil cópias do CD Sambas de enredo 2015 é indício de que discos do gênero ainda mobilizam o público. No caso, um público concentrado no Estado do Rio de Janeiro, já que o CD alinha os sambas-enredos das 12 escolas do Grupo Especial do Carnaval carioca. São agremiações oriundas da cidade do Rio de Janeiro (RJ), da Baixada Fluminense (RJ) e de Niterói (RJ). Aliás, é de uma escola de Niterói, Unidos do Viradouro, o melhor samba de enredo da safra de 2015, Nas veias do Brasil, é a Viradouro em um dia de graça!, de autoria do compositor carioca Luiz Carlos da Vila (1949 - 2008). Só que - curiosa e sintomaticamente - o melhor samba de 2015 foi criado com a junção de dois sambas lançados nos anos 1980. Ao samba-enredo Nas veias do Brasil (1986), originalmente gravado por Beth Carvalho no álbum Beth (RCA-Victor, 1986), a Viradouro adicionou estrofe de Por um dia de graça (1984), samba lançado por Simone no álbum Desejos (CBS, 1984). O resultado é um samba contagiante, interpretado por Zé Paulo Sierra, que deve explodir na avenida por conter duas grandes melodias criadas por Luiz Carlos da Vila sob a luz da inspiração, em estado de graça. O que torna o samba da Viradouro hors-concours nessa seleção de 2015 que, no todo, é digna, mas até certo ponto previsível pelo fato de inexistir na safra um grande samba capaz de passar para a posteridade. O que tampouco quer dizer que inexistam bons sambas. Os das escolas Beija-Flor de Nilopólis, Imperatriz Leopoldinense, Mangueira e Unidos de Vila Isabel são bons sambas que deverão ajudar essas agremiações a conquistar notas altas no quesito. Com enredo sobre a recorrente África (Um griô conta a história: um olhar sobre a África e o despontar da Guiné Equatorial. Caminhemos sobre a trilha de nossa felicidade), a Beija-Flor vai entrar na avenida com samba superior ao do desfile de 2014. Também com um olhar sobre a mãe África no enredo Axé, Nkenda! Um ritual de liberdade "E que a voz da igualdade seja sempre a nossa voz", a Imperatriz surpreende com samba que se eleva no disco, quebrando a sequência de sambas esquecíveis da escola de Ramos. Introduzida por citação do samba Mulher brasileira (Benito Di Paula, 1975), feita na voz de Alcione, a gravação do samba da Mangueira chega mais rosa do que verde com enredo (Agora chegou a vez vou cantar: mulher da Mangueira, mulher brasileira em primeiro lugar) que exalta a força feminina nacional. Por fim, completando o naipe de bons sambas inéditos de 2015, a Unidos de Vila Isabel celebra os 80 anos do maestro paulista Isaac Karabtchevsky com o enredo O maestro brasileiro está na terra de Noel... A partitura azul e branca da nossa Vila Isabel. Já a Portela - que vai celebrar na avenida Marquês de Sapucaí os 450 anos da cidade do Rio de Janeiro - apresenta samba (Imaginário, 450 janeiros de uma cidade surreal) aquém de seu histórico recente no quesito. Outra escola cujo enredo resulta superior ao samba é a União da Ilha do Governador, que vai falar de vaidade (Beleza pura? é o título espirituoso do enredo) com samba que poderia soar tão leve quanto o tema. Por sua vez, a atual campeã Unidos da Tijuca aposta em samba, Um conto marcado no tempo - O olhar suíço de Clóvis Bornay, de refrão poderoso. Enfim, com dose maior ou menor de inspiração, os 11 inéditos sambas de enredo do Grupo Especial do Carnaval carioca são apenas dignos. Nenhum soa memorável. O que dá postumamente ao bamba Luiz Carlos da Vila o título de campeão do Carnaval do Rio de Janeiro em 2015 no (crucial) quesito.

7 comentários:

Mauro Ferreira disse...

♪ A expressiva tiragem inicial de 100 mil cópias do CD Sambas de enredo 2015 é indício de que discos do gênero ainda mobilizam o público. No caso, um público concentrado no Estado do Rio de Janeiro, já que o CD alinha os sambas-enredos das 12 escolas do Grupo Especial do Carnaval carioca. São agremiações oriundas da cidade do Rio de Janeiro (RJ), da Baixada Fluminense (RJ) e de Niterói (RJ). Aliás, é de uma escola de Niterói, Unidos do Viradouro, o melhor samba de enredo da safra de 2015, Nas veias do Brasil, é a Viradouro em um dia de graça!, de autoria do compositor carioca Luiz Carlos da Vila (1949 - 2008). Só que - curiosa e sintomaticamente - o melhor samba de 2015 foi criado com a junção de dois sambas lançados nos anos 1980. Ao samba-enredo Nas veias do Brasil (1986), originalmente gravado por Beth Carvalho no álbum Beth (RCA-Victor, 1986), a Viradouro adicionou estrofe de Por um dia de graça (1984), samba lançado por Simone no álbum Desejos (CBS, 1984). O resultado é um samba contagiante, interpretado por Zé Paulo Sierra, que deve explodir na avenida por conter duas grandes melodias criadas por Luiz Carlos da Vila sob a luz da inspiração, em estado de graça. O que torna o samba da Viradouro hors-concours nessa seleção de 2015 que, no todo, é digna, mas até certo ponto previsível pelo fato de inexistir na safra um grande samba capaz de passar para a posteridade. O que tampouco quer dizer que inexistam bons sambas. Os das escolas Beija-Flor de Nilopólis, Imperatriz Leopoldinense, Mangueira e Unidos de Vila Isabel são bons sambas que deverão ajudar essas agremiações a conquistar notas altas no quesito. Com enredo sobre a recorrente África (Um griô conta a história: um olhar sobre a África e o despontar da Guiné Equatorial. Caminhemos sobre a trilha de nossa felicidade), a Beija-Flor vai entrar na avenida com samba superior ao do desfile de 2014. Também com um olhar sobre a mãe África no enredo Axé, Nkenda! Um ritual de liberdade "E que a voz da igualdade seja sempre a nossa voz", a Imperatriz surpreende com samba que se eleva no disco, quebrando a sequência de sambas esquecíveis da escola de Ramos. Introduzida por citação do samba Mulher brasileira (Benito Di Paula, 1975), feita na voz de Alcione, a gravação do samba da Mangueira chega mais rosa do que verde com enredo (Agora chegou a vez vou cantar: mulher da Mangueira, mulher brasileira em primeiro lugar) que exalta a força feminina nacional. Por fim, completando o naipe de bons sambas inéditos de 2015, a Unidos de Vila Isabel celebra os 80 anos do maestro paulista Isaac Karabtchevsky com o enredo O maestro brasileiro está na terra de Noel... A partitura azul e branca da nossa Vila Isabel. Já a Portela - que vai celebrar na avenida Marquês de Sapucaí os 450 anos da cidade do Rio de Janeiro - apresenta samba (Imaginário, 450 janeiros de uma cidade surreal) aquém de seu histórico recente no quesito. Outra escola cujo enredo resulta superior ao samba é a União da Ilha do Governador, que vai falar de vaidade (Beleza pura? é o título espirituoso do enredo) com samba que poderia soar tão leve quanto o tema. Por sua vez, a atual campeã Unidos da Tijuca aposta em samba, Um conto marcado no tempo - O olhar suíço de Clóvis Bornay, de refrão poderoso. Enfim, com dose maior ou menor de inspiração, os 11 inéditos sambas de enredo do Grupo Especial do Carnaval carioca são apenas dignos. Nenhum soa memorável. O que dá postumamente ao bamba Luiz Carlos da Vila o título de campeão do Carnaval do Rio de Janeiro em 2015 no (crucial) quesito.

Marcelo Barbosa disse...

Discordo apenas dos sambas esquecíveis da Imperatriz Leopoldinense que tem sido a mais regular no quesito conquistando os Estandartes de Ouro nos anos de 2008, 2010 e 2011. O de 2010 (Brasil de todos os deuses) é lindo e já nasceu clássico.
Sambas esquecíveis nos últimos anos tem a Mocidade, Salgueiro (exceto 2014) e a campeã Unidos da Tijuca. Abs

Rafael M. disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
caixacomtudodentro disse...

Como assim já lançaram o disco de carnaval ?... carnaval é em fevereiro queridão ! queria que lançasse qdo ? na época das festas caipiras ?...tem uma galera que não tem o que falar e ai resolve escrever qlquer coisa .

Marcelo Barbosa disse...

Pois é! Concordo também!
E entra ano e sai ano, nêgo reclama da qualidade dos sambas, se até a nossa música vive de regravações, jabás e etc.
Mauro, meu caro, a qualidade não é mais a mesma, pois infelizmente os sambas enredos vivem a fase dos escritórios e são viciados em sinopses cujos enredos nem sempre são satisfatórios, o patrocínio é que manda. Abs

Rafael M. disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Marcelo Barbosa disse...

E tem gente que gosta de bancar o imbecil. Um disco desses precisa ser lançado com bastante antecedência para que a comunidade, os componentes de alas e principalmente os amantes do gênero possam aprender a cantar os sambas e prestigiar a nossa festa maior.