Mauro Ferreira no G1

Aviso aos navegantes: desde 6 de julho de 2016, o jornalista Mauro Ferreira atualiza diariamente uma coluna sobre o mercado fonográfico brasileiro no portal G1. Clique aqui para acessar a coluna. O endereço é http://g1.globo.com/musica/blog/mauro-ferreira/


quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Coletânea 'Axé Bahia 2015' expõe a decadência do diluído gênero 'trintão'

Resenha de CD
Título: Axé Bahia 2015
Artista: Vários
Gravadora: Universal Music
Cotação: * * 

Tradicional coletânea anual que reúne gravações candidatas a hits da temporada carnavalesca de Salvador (BA), Axé Bahia 2015 expõe a decadência do gênero no momento em que o ritmo completa 30 anos. Alocada na faixa lateral da capa do CD Axé Bahia 2015, posto nas lojas em dezembro de 2014 pela Universal Music, a frase "30 anos de axé" linka a compilação com a efeméride musical. Mas a seleção é atual, evitando caráter retrospectivo que contrariaria o conceito da série de coletâneas. As 19 faixas do disco Axé Bahia 2015 - 24 na edição digital lançada no iTunes - são fonogramas recentes que mostram como o gênero perdeu parte de sua sedução, ainda que eventuais gravações - como Tuck tuck (Carlinhos Brown), faixa do grupo Timbalada - evoquem a origem batuqueira do axé. Surgido oficialmente em 1985 a partir da propagação nacional de fonograma emblemático do cantor e compositor baiano Luiz Caldas (Fricote, parceria de Caldas com Paulinho Camafeu), a assim chamada axé music - termo cunhado pelo jornalista baiano Hagamenon Brito - é a rigor um mix de ritmos caribenhos e nordestinos sustentado por baticum de tom afro-brasileiro. Sem o rótulo logo adotado pela indústria da música, o gênero já existia latente nos anos 1970 nas discografias de nomes como Moraes Moreira, artista baiano cuja obra descende da linhagem nobre dos pioneiros Dodô & Osmar, criadores do trio elétrico. Aliás, o que caracteriza a música rotulada de axé music é uma eletrificação pop desse mix de ritmos caribenhos e nordestinos, incluído no fervido caldeirão o samba-reggae, ritmo-matriz do repertório de grupos originados de blocos afros. O Olodum e o Ilê Aiyê, entre eles. Mas o fato é que, aos poucos, a voraz indústria da música diluiu o gênero, exauriu as discografias dos artistas baianos com sucessivos e redundantes registros ao vivo de shows e desvalorizou a boa produção de compositores como Alain Tavares, Gerônimo, Gilson Babilônia, Luciano Gomes, Pierre Onassis, Vevé Calazans (1947 - 2012), entre outros que forneciam repertório para cantores e bandas do gênero. Carlinhos Brown ainda resiste heroicamente - não é à toa que todas as principais cantoras do gênero ainda recorrem a Brown quando precisam desesperadamente de um hit. Saulo Fernandes - representado na compilação com Planta na cabeça (Saulo Fernandes, Emerson Taquari, Leonardo Reis e Magary Lord - tem tentado evocar as origens do axé em sua discografia solo. Mas o fato é que nenhuma das 19 músicas da coletânea Axé Bahia 2015 tem a força rítmica dos sucessos do gênero nos anos 1980 e 1990. E - coincidência ou não - nenhuma cantora tem emplacado hits como em seus tempos áureos. Até porque o tempo provou que Daniela Mercury, Ivete Sangalo e Margareth Menezes são melhores cantoras do que compositoras, embora insistam em gravar sua produção autoral. Na atual temporada, dá para identificar compositores afinados com o universo do axé. Magno Sant'Anna e Filipe Escandurras são nomes que têm conseguido algum destaque na cena pop baiana sem, no entanto, mostrar força suficiente para disfarçar o fato de que o pagode baiano tem mais vigor atualmente no mercado de Salvador (BA) - uma ilha regida por suas próprias leis musicais - do que o axé propriamente dito. Enfim, a axé music chega aos 30 anos com fôlego de 70. É cada vez mais difícil encontrar uma melodia inspirada em gênero sempre pautado pelo ritmo ágil e folião. Em essência, o axé é música pra pular brasileira. Só que está cada vez mais difícil tirar o pé do chão...

2 comentários:

Mauro Ferreira disse...

♪ Tradicional coletânea anual que reúne gravações candidatas a hits da temporada carnavalesca de Salvador (BA), Axé Bahia 2015 expõe a decadência do gênero no momento em que o ritmo completa 30 anos. Alocada na faixa lateral da capa do CD Axé Bahia 2015, posto nas lojas em dezembro de 2014 pela Universal Music, a frase "30 anos de axé" linka a compilação com a efeméride musical. Mas a seleção é atual, evitando caráter retrospectivo que contrariaria o conceito da série de coletâneas. As 19 faixas do disco Axé Bahia 2015 - 24 na edição digital lançada no iTunes - são fonogramas recentes que mostram como o gênero perdeu parte de sua sedução, ainda que eventuais gravações - como Tuck tuck (Carlinhos Brown), faixa do grupo Timbalada - evoquem a origem batuqueira do axé. Surgido oficialmente em 1985 a partir da propagação nacional de fonograma emblemático do cantor e compositor baiano Luiz Caldas (Fricote, parceria de Caldas com Paulinho Camafeu), a assim chamada axé music - termo cunhado pelo jornalista baiano Hagamenon Brito - é a rigor um mix de ritmos caribenhos e nordestinos sustentado por baticum de tom afro-brasileiro. Sem o rótulo logo adotado pela indústria da música, o gênero já existia latente nos anos 1970 nas discografias de nomes como Moraes Moreira, artista baiano cuja obra descende da linhagem nobre dos pioneiros Dodô & Osmar, criadores do trio elétrico. Aliás, o que caracteriza a música rotulada de axé music é uma eletrificação pop desse mix de ritmos caribenhos e nordestinos, incluído no fervido caldeirão o samba-reggae, ritmo-matriz do repertório de grupos originados de blocos afros. O Olodum e o Ilê Aiyê, entre eles. Mas o fato é que, aos poucos, a voraz indústria da música diluiu o gênero, exauriu as discografias dos artistas baianos com sucessivos e redundantes registros ao vivo de shows e desvalorizou a boa produção de compositores como Alain Tavares, Gerônimo, Gilson Babilônia, Luciano Gomes, Pierre Onassis, Vevé Calazans (1947 - 2012), entre outros que forneciam repertório para cantores e bandas do gênero. Carlinhos Brown ainda resiste heroicamente - não é à toa que todas as principais cantoras do gênero ainda recorrem a Brown quando precisam desesperadamente de um hit. Saulo Fernandes - representado na compilação com Planta na cabeça (Saulo Fernandes, Emerson Taquari, Leonardo Reis e Magary Lord - tem tentado evocar as origens do axé em sua discografia solo. Mas o fato é que nenhuma das 19 músicas da coletânea Axé Bahia 2015 tem a força rítmica dos sucessos do gênero nos anos 1980 e 1990. E - coincidência ou não - nenhuma cantora tem emplacado hits como em seus tempos áureos. Até porque o tempo provou que Daniela Mercury, Ivete Sangalo e Margareth Menezes são melhores cantoras do que compositoras, embora insistam em gravar sua produção autoral. Na atual temporada, dá para identificar compositores afinados com o universo do axé. Magno Sant'Anna e Filipe Escandurras são nomes que têm conseguido algum destaque na cena pop baiana sem, no entanto, mostrar força suficiente para disfarçar o fato de que o pagode baiano tem mais vigor atualmente no mercado de Salvador (BA) - uma ilha regida por suas próprias leis musicais - do que o axé propriamente dito. Enfim, a axé music chega aos 30 anos com fôlego de 70. É cada vez mais difícil encontrar uma melodia inspirada em gênero sempre pautado pelo ritmo ágil e folião. Em essência, o axé é música pra pular brasileira. Só que está cada vez mais difícil tirar o pé do chão...

italo vinicius disse...

Música baiana ainda mas a axe music é o canto afro é o samba reggea são as músicas pra tirar o pé do chão é religiosidade é a força da rítmica só que cada vez menos esta se ouvindo o som do tambor