Mauro Ferreira no G1

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sábado, 31 de janeiro de 2015

Ivan chega aos 70 anos de idade - e 50 de música - como um gigante da MPB

 EDITORIAL - Para os ouvidos apurados dos jazzistas, sobretudo os dos Estados Unidos, Ivan Lins é um gigante da MPB. Um nobre descendente da linhagem soberana de Antonio Carlos Jobim (1927 - 1994). O fino acabamento harmônico do cancioneiro autoral do cantor, compositor e pianista carioca é fato incontestável que vai ser celebrado ao longo deste ano de 2015 em que Ivan completa 70 anos de vida - já que nasceu em 16 de junho de 1945 - e também 50 anos de música, já que, em 1965, o artista iniciante começou a tocar nas noites da Tijuca (bairro da Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro) com seu primeiro trio, o Alfa Trio. Com o Alfa Trio, Ivan começou a pôr em prática as lições que aprendeu ouvindo seu mestre Luiz Eça (1936 - 1992) tocar o piano do Tamba Trio, ícone do samba-jazz nascido nos anos 1960 a partir da Bossa Nova. Formado na escola jobiniana da Bossa Nova, aliás, Ivan despontou para o sucesso nacional em 1970, ano em que defendeu sua composição O amor é o meu país (feita em parceria com Ronaldo Monteiro de Souza) no V Festival Internacional da Canção e também o ano em que a sempre antenada Elis Regina (1945 - 1982) deu voz a Madalena (outra parceria com Ronaldo), samba cheio de soul que abriu alas para a música de Ivan Lins na MPB emergida e projetada na era dos festivais a partir de 1965. A propósito, o músico Ivan Lins entrou em cena quando nasceu a MPB. Talvez por isso seu nome seja indissociável dessa MPB que se solidificou ao longo dos anos 1970, década em que o cancioneiro de Ivan frutificou, sobretudo a partir de 1974, quando suas melodias refinadas, mas geralmente acessíveis ao grande público, entraram definitivamente no tom ao ganharem os versos conscientes do letrista e poeta paulista Vitor Martins, afastando do nome de Ivan o cálice ufanista que o compositor, a bem da verdade, nunca bebera. Após três álbuns iniciais - Ivan Lins, agora... (Forma / Philips, 1970), Deixa o trem seguir (Forma / Philips, 1971) e Quem sou eu? (Phonogram, 1972) - nos quais o artista ainda tateou à procura de sua identidade musical, Ivan Lins mostrou quem era, e a que veio, com o álbum Modo livre (RCA Victor, 1974), título que inaugurou sua parceria com Vitor Martins, desenvolvida no álbum seguinte, Chama acesa (RCA Victor, 1975), e consolidada na segunda metade dos anos 1970, período em que Ivan lançou discos históricos pela gravadora Odeon. Os quatro álbuns feitos nessa já desativada companhia - Somos todos iguais nessa noite (1977), Nos dias de hoje (1978), A noite (1979) e Novo tempo (1980) - estão entre os mais inspirados do artista. São discos que, a despeito de sua força musical, alcançaram importância social e política pelo recado de resistência dado através das músicas. Com olhos e ouvidos abertos, Ivan Lins não lavou as mãos diante da repressão imposta pelo regime militar que vigoraria até 1985. De todo modo, a força política de seu cancioneiro jamais abafou o romantismo dramático tão ao gosto das cantoras do Brasil da época. Sua canção Começar de novo (Ivan Lins e Vitor Martins) - pensada para Maria Bethânia, mas gravada por Simone em 1979 para a abertura da série Malu mulher, exibida pela TV Globo naquele ano - foi a trilha sonora preferencial da liberação feminina que deu o tom da MPB na época. Canção lançada em 1980, Bilhete (Ivan Lins e Vitor Martins) ajudou Fafá de Belém em 1982 a se livrar definitivamente do rótulo de cantora regional. Nos anos 1980, Ivan deixou de lançar álbuns anuais - em geral, demorou dois anos entre um e outro - enquanto viu sua música conquistar o universo jazzístico norte-americano. Sua obra ganhou a voz dos maiores cantores de jazz em celebração que, Jobim à parte, somente encontra paralelo na MPB na devoção dos jazzistas ao cancioneiro de Djavan. Mas Ivan nunca saiu do Brasil. Na década de 1990, o artista fundou - com Vitor Martins e com o produtor Paulinho Albuquerque - uma gravadora, a Velas, que desafiou as leis ditadas pelas multinacionais do disco numa época em que ainda não era moda e necessário ser independente. A partir daí, com a progressiva quebra da corrente que ligava a MPB ao povo brasileiro, os sucessos populares do cantor diminuíram, mas sua obra permaneceu sofisticada. Ivan Lins - visto em foto de Leo Aversa - lançou disco de Natal, explicitou a influência de Tom no álbum Jobiniando (Abril Music, 2001) e seguiu fazendo e levando, pelo Brasil e pelo mundo, uma música que agiganta o nome do compositor na cena musical do país, 50 anos após aqueles primeiros shows com o  Alfa Trio.

12 comentários:

Mauro Ferreira disse...

♪ Editorial - Para os ouvidos apurados dos jazzistas, sobretudo os dos Estados Unidos, Ivan Lins é um gigante da MPB. Um nobre descendente da linhagem soberana de Antonio Carlos Jobim (1927 - 1994). O fino acabamento harmônico do cancioneiro autoral do cantor, compositor e pianista carioca é fato incontestável que vai ser celebrado ao longo deste ano de 2015 em que Ivan completa 70 anos de vida - já que nasceu em 16 de junho de 1945 - e também 50 anos de música, já que, em 1965, o artista iniciante começou a tocar nas noites da Tijuca (bairro da Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro) com seu primeiro trio, o Alfa Trio. Com o Alfa Trio, Ivan começou a pôr em prática as lições que aprendeu ouvindo seu mestre Luiz Eça (1936 - 1992) tocar o piano do Tamba Trio, ícone do samba-jazz nascido nos anos 1960 a partir da Bossa Nova. Formado na escola jobiniana da Bossa Nova, aliás, Ivan despontou para o sucesso nacional em 1970, ano em que defendeu sua composição O amor é o meu país (feita em parceria com Ronaldo Monteiro de Souza) no V Festival Internacional da Canção e também o ano em que a sempre antenada Elis Regina (1945 - 1982) deu voz a Madalena (outra parceria com Ronaldo), samba cheio de soul que abriu alas para a música de Ivan Lins na MPB emergida e projetada na era dos festivais a partir de 1965. A propósito, o músico Ivan Lins entrou em cena quando nasceu a MPB. Talvez por isso seu nome seja indissociável dessa MPB que se solidificou ao longo dos anos 1970, década em que o cancioneiro de Ivan frutificou, sobretudo a partir de 1974, quando suas melodias refinadas, mas geralmente acessíveis ao grande público, entraram definitivamente no tom ao ganharem os versos conscientes do letrista e poeta paulista Vitor Martins, afastando do nome de Ivan o cálice ufanista que o compositor, a bem da verdade, nunca bebera. Após três álbuns iniciais - Ivan Lins, agora... (Forma / Philips, 1970), Deixa o trem seguir (Forma / Philips, 1971) e Quem sou eu? (Phonogram, 1972) - nos quais o artista ainda tateou à procura de sua identidade musical, Ivan Lins mostrou quem era, e a que veio, com o álbum Modo livre (RCA Victor, 1974), título que inaugurou sua parceria com Vitor Martins, desenvolvida no álbum seguinte, Chama acesa (RCA Victor, 1975), e consolidada na segunda metade dos anos 1970, período em que Ivan lançou discos históricos pela gravadora Odeon. Os quatro álbuns feitos nessa já desativada companhia - Somos todos iguais nessa noite (1977), Nos dias de hoje (1978), A noite (1979) e Novo tempo (1980) - estão entre os mais inspirados do artista. São discos que, a despeito de sua força musical, alcançaram importância social e política pelo recado de resistência dado através das músicas. Com olhos e ouvidos abertos, Ivan Lins não lavou as mãos diante da repressão imposta pelo regime militar que vigoraria até 1985.

Mauro Ferreira disse...

De todo modo, a força política de seu cancioneiro jamais abafou o romantismo dramático tão ao gosto das cantoras do Brasil da época. Sua canção Começar de novo (Ivan Lins e Vitor Martins) - pensada para Maria Bethânia, mas gravada por Simone em 1979 para a abertura da série Malu mulher, exibida pela TV Globo naquele ano - foi a trilha sonora preferencial da liberação feminina que deu o tom da MPB na época. Canção lançada em 1980, Bilhete (Ivan Lins e Vitor Martins) ajudou Fafá de Belém em 1982 a se livrar definitivamente do rótulo de cantora regional. Nos anos 1980, Ivan deixou de lançar álbuns anuais - em geral, demorou dois anos entre um e outro - enquanto viu sua música conquistar o universo jazzístico norte-americano. Sua obra ganhou a voz dos maiores cantores de jazz em celebração que, Jobim à parte, somente encontra paralelo na MPB na devoção dos jazzistas ao cancioneiro de Djavan. Mas Ivan nunca saiu do Brasil. Na década de 1990, o artista fundou - com Vitor Martins e com o produtor Paulinho Albuquerque - uma gravadora, a Velas, que desafiou as leis ditadas pelas multinacionais do disco numa época em que ainda não era moda e necessário ser independente. A partir daí, com a progressiva quebra da corrente que ligava a MPB ao povo brasileiro, os sucessos populares do cantor diminuíram, mas sua obra permaneceu sofisticada. Ivan Lins - visto em foto de Leo Aversa - lançou disco de Natal, explicitou a influência de Tom no álbum Jobiniando (Abril Music, 2001) e seguiu fazendo e levando, pelo Brasil e pelo mundo, uma música que agiganta o nome de seu criador na cena musical do país 50 anos depois dos primeiros shows com o Alfa Trio.

Rafael M. disse...

Grande gênio da MPB. Ótimo cantor e compositor que merece todas as honrarias possíveis. Um verdadeiro medalhão. Parabéns Ivan!!!

Euclydes Martins disse...

Na minha modesta opinião Ivan Lins é um dos maiores nomes da mpb de qualquer tempo. E, posso até estar enganado, não o vejo recebendo o reconhecimento que sua obra merecia. Quem compõe uma canção como DOCE PRESENÇA ou LEMBRA DE MIM, sem esquecer das maravilhas que você já citou, merecia ter uma estátua em praça pública. Grande abraço. E parabéns ao extraordinário Ivan.

Marcelo Barbosa disse...

Pelo visto 2015 é o ano das bodas de ouro de quatro gigantes da MPB: Ivan, Beth Carvalho, Maria Bethânia e Gal Costa.
Mais alguém, Mauro??

Mauro Ferreira disse...

Bom, Marcelo, Caetano Veloso também grava seu primeiro disco em 1965. Abs, MauroF

rogerio machado disse...

Claudya comemora seus 50 anos de carreira neste ano!

Lembremos que Claudya foi comparada a Elis nos primeiros anos de carreira das delas.

Claudya pelo que sei foi a cantora brasileira mais premiada no exterior. E é uma excelente cantora, injustamente pouco reconhecida por seu talento.

Marcelo Barbosa disse...

Obrigado, Mauro! Que ano frutífero esse de 65, "igualzinho" aos tempos atuais.

Átila Real disse...

Ivan Lula é único. Incomparável. Genial.

ggermanodiniz disse...

Palmas pra ele que ele merece!!!

Rafael M. disse...

Rogério, concordo contigo. Cláudia é uma excelente cantora esquecida pela mídia. Deveria-se dar mais voz e vez ao talento dela também, que neste ano se fazem dos seus 50 anos de carreira.

Julio Cesar disse...

A Claudya é uma cantora maravilhosa, uma das melhores do Brasil. Pena que jamais manteve contato com o clube dos grandes compositores brasileiros, o que praticamente a deixou fora dos hit-parades. Com exceção, talvez, da aplaudida e considerada por muitos a melhor versão de "JESUS CRISTO" (Roberto/Erasmo) e de "COM MAIS DE 30" (Marcos/Paulo Valle), Claudya pouco tocou nas estações de rádio.