Mauro Ferreira no G1

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sábado, 24 de janeiro de 2015

Valéria mistura cores da obra do poeta da Vila em 'Noel Rosa, preto e branco'

Resenha de CD
Título: Noel Rosa, preto e branco
Artista: Valéria Lobão
Gravadora: Tenda da Raposa
Cotação: * * * 1/2


O título do segundo álbum solo da cantora carioca Valéria Lobão, Noel Rosa, preto e branco (2014), sugere ao menos três significados. O mais aparente é o que relaciona o "preto e branco" do nome do disco duplo às cores das teclas do piano, único instrumento usado na abordagem de 22 músicas do cancioneiro do compositor carioca Noel de Medeiros Rosa (11 de dezembro de 1910 - 4 de maio de 1937). Outro sentido para o título poderia ser o fato de que, a grosso modo, Noel Rosa foi um branco de classe média que se aventurou a compor sua obra no então nascente ritmo surgido da musicalidade dos pretos cariocas - o samba e seus derivados. Por fim, o título Noel Rosa, preto e branco também pode sinalizar o fato de que Valéria Lobão e os 22 pianistas convidados do álbum, a rigor, tocam uma música de preto num ambiente musical de branco, já que o tom camerístico do disco sugere um salão de música de ambiente mais formal, importado da Europa pelo Brasil dos tempos imperiais. Seja como for, Valéria Lobão faz com seu canto límpido - de emissão precisa como o toque dos 22 pianistas arregimentados para o disco - abordagem interessante da obra de Noel, com o mérito de tirar verdadeiras joias do baú do compositor. São pérolas como o fox-canção Julieta (Noel Rosa e Erastótenes Frazão, 1931) - repaginado com ênfase na melancolia dos versos em registro melodioso que junta a voz da cantora ao piano de Rafael Martini - e o samba-canção Suspiro, feito por Noel em parceria com o compositor carioca Orestes Barbosa (1893 - 1966) na década de 1930 em ano ignorado. Valéria reaviva Suspiro - anos após as gravações pouco ouvidas das cantoras Aracy de Almeida (1914 - 1988) e Isaura Garcia (1923 - 1993) - com arranjo e piano de Gabriel Geszil. É fato que, no registro pianístico do disco produzido por Carlos Fuchs, o cancioneiro de Noel adquire tom por vezes solene que se ajusta com maior ou menor precisão ao espírito da obra. No primeiro caso, está a gravação do samba Pra que mentir? (Noel Rosa e Vadico, 1937), feita com o piano de Vitor Gonçalves. No segundo, há o registro da marcha-rancho As pastorinhas (Noel Rosa e João de Barro, 1934) que abre o CD 1 com notas salpicadas com leveza pelo piano divino de André Mehmari. Há faixas cujo arranjo pedia mais do que um piano, mais precisamente pedia uma percussão. É o caso de Positivismo (Noel Rosa e Orestes Barbosa, 1933), samba cantado por Valéria com o piano de Cliff Korman. Em contrapartida, há pianistas que tiram sons percussivos do instrumento. Fernando Leitzke, por exemplo, parece batucar nas teclas de seu piano quando toca o samba Eu agora fiquei mal (Noel Rosa e Antenor Gargalhada, 1931), título pouco conhecido do cancioneiro de Noel. Sons percussivos também ecoam no registro da ruralista Minha viola (Noel Rosa, 1929), faixa arranjada e tocada por Leandro Braga. A propósito, o poeta  eventualmente saía das fronteiras musicais de sua Vila e fazia incursões pelo universo caipira. Arranjada por André Mehmari com o piano de Roberto Fuchs, a sertaneja Sinhá Ritinha (Noel Rosa e Moacyr Pinto, 1931) - outra pérola tirada do baú por Valéria para selecionar repertório que mistura clássicos e raridades da obra do compositor - é exemplo da veia caipira de Noel. Cantora de afinação exemplar, treinada e exercitada no grupo vocal Equale, Valéria Lobão convidou alguns cantores para dividir com ela as interpretações das músicas de Noel. Joyce Moreno canta com a anfitriã o desconhecido samba Só pode ser você (Noel Rosa e Vadico, 1935). João Cavalcanti e Moyseis Marques se juntam a Valéria no samba Eu vou pra Vila (Noel Rosa, 1930), faixa de bissexta descontração no disco. Cantora em ascensão, Nina Wirti exercita a leveza na interpretação do pouco ouvido samba Eu sei sofrer (Noel Rosa, 1937). Já Mariana Baltar figura em outro samba, Pela décima vez (Noel Rosa, 1935). Enfim, por mais que soe eventualmente linear, no mesmo tom camerístico que dilui por vezes  a espirituosidade da obra do Poeta da Vila, o álbum duplo Noel Rosa, preto e branco reitera a precisão do canto de Valéria Lobão enquanto mistura as cores originais da obra de compositor que marcou a época dele com cancioneiro moderno, de valor perene.

6 comentários:

Mauro Ferreira disse...

♪ O título do segundo álbum solo da cantora carioca Valéria Lobão, Noel Rosa, preto e branco (2014), sugere ao menos três significados. O mais aparente é o que relaciona o "preto e branco" do nome do disco duplo às cores das teclas do piano, único instrumento usado na abordagem de 22 músicas do cancioneiro do compositor carioca Noel de Medeiros Rosa (11 de dezembro de 1910 - 4 de maio de 1937). Outro sentido para o título poderia ser o fato de que, a grosso modo, Noel Rosa foi um branco de classe média que se aventurou a compor sua obra no então nascente ritmo surgido da musicalidade dos pretos cariocas - o samba e seus derivados. Por fim, o título Noel Rosa, preto e branco também pode sinalizar o fato de que Valéria Lobão e os 22 pianistas convidados do álbum, a rigor, tocam uma música de preto num ambiente musical de branco, já que o tom camerístico do disco sugere um salão de música de ambiente mais formal, importado da Europa pelo Brasil dos tempos imperiais. Seja como for, Valéria Lobão faz com seu canto límpido - de emissão precisa como o toque dos 22 pianistas arregimentados para o disco - abordagem interessante da obra de Noel, com o mérito de tirar verdadeiras joias do baú do compositor. São pérolas como o fox-canção Julieta (Noel Rosa e Erastótenes Frazão, 1931) - repaginado com ênfase na melancolia dos versos em registro melodioso que junta a voz da cantora ao piano de Rafael Martini - e o samba-canção Suspiro, feito por Noel em parceria com o compositor carioca Orestes Barbosa (1893 - 1966) na década de 1930 em ano ignorado. Valéria reaviva Suspiro - anos após as gravações pouco ouvidas das cantoras Aracy de Almeida (1914 - 1988) e Isaura Garcia (1923 - 1993) - com arranjo e piano de Gabriel Geszil. É fato que, no registro pianístico do disco produzido por Carlos Fuchs, o cancioneiro de Noel adquire tom por vezes solene que se ajusta com maior ou menor precisão ao espírito da obra. No primeiro caso, está a gravação do samba Pra que mentir? (Noel Rosa e Vadico, 1937), feita com o piano de Vitor Gonçalves. No segundo, há o registro da marcha-rancho As pastorinhas (Noel Rosa e João de Barro, 1934) que abre o CD 1 com notas salpicadas com leveza pelo piano divino de André Mehmari.

Mauro Ferreira disse...

Há faixas cujo arranjo pedia mais do que um piano, mais precisamente pedia uma percussão. É o caso de Positivismo (Noel Rosa e Orestes Barbosa, 1933), samba cantado por Valéria com o piano de Cliff Korman. Em contrapartida, há pianistas que tiram sons percussivos do instrumento. Fernando Leitzke, por exemplo, parece batucar nas teclas de seu piano quando toca o samba Eu agora fiquei mal (Noel Rosa e Antenor Gargalhada, 1931), título pouco conhecido do cancioneiro de Noel. Sons percussivos também ecoam no registro da ruralista Minha viola (Noel Rosa, 1929), faixa arranjada e tocada por Leandro Braga. A propósito, o poeta eventualmente saía das fronteiras musicais de sua Vila e fazia incursões pelo universo caipira. Arranjada por André Mehmari com o piano de Roberto Fuchs, a sertaneja Sinhá Ritinha (Noel Rosa e Moacyr Pinto, 1931) - outra pérola tirada do baú por Valéria para selecionar repertório que mistura clássicos e raridades da obra do compositor - é exemplo da veia caipira de Noel. Cantora de afinação exemplar, treinada e exercitada no grupo vocal Equale, Valéria Lobão convidou alguns cantores para dividir com ela as interpretações das músicas de Noel. Joyce Moreno canta com a anfitriã o desconhecido samba Só pode ser você (Noel Rosa e Vadico, 1935). João Cavalcanti e Moyseis Marques se juntam a Valéria no samba Eu vou pra Vila (Noel Rosa, 1930), faixa de bissexta descontração no disco. Cantora em ascensão, Nina Wirti exercita a leveza na interpretação do pouco ouvido samba Eu sei sofrer (Noel Rosa, 1937). Já Mariana Baltar figura em outro samba, Pela décima vez (Noel Rosa, 1935). Enfim, por mais que soe eventualmente linear, no mesmo tom camerístico que dilui por vezes a espirituosidade da obra do Poeta da Vila, o álbum duplo Noel Rosa, preto e branco reitera a precisão do canto de Valéria Lobão enquanto mistura as cores originais da obra de compositor que marcou sua época com cancioneiro de valor perene.

lurian disse...

Tem muita coisa do Noel pouco gravada e que foi reavivada pelo disco. Parabéns à Valéria!

Rafael M. disse...

Esse disco é tudo de bom! Valéria, com seu talento e maestria ímpar, colocou nele o cancioneiro menos conhecido de Noel e deu um show de interpretação.

Luca disse...

Qualquer coisa vinda de Noel tem selo de qualidade

Rubens Lisboa disse...

Trata-se, na minha modesta opinião, de uma das cinco melhores cantoras da atualidade.