Mauro Ferreira no G1

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segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Livro sobre 'Tábua de esmeralda' é mais sobre Ben do que sobre o disco

Resenha de livro
Título: O livro do disco A tábua de esmeralda Jorge Ben Jor
Autor: Paulo da Costa e Silva
Editora: Cobogó
Cotação: * * * 

Dos três inéditos títulos brasileiros da primeira fornada da série O livro do disco, na qual álbuns marcantes da música brasileira são analisados a fundo, o volume sobre A tábua de esmeralda é o que mais trai o conceito da oportuna coleção publicada pela editora carioca Cobogó com inspiração na série 33 e 1/3, da editora norte-americana Bloomsbury. Autor do livro, o crítico e pesquisador musical Paulo da Costa e Silva parte deste álbum antológico lançado por Jorge Ben Jor em 1974 - quando o cantor e compositor carioca ainda era tão somente Jorge Ben - para fazer ensaio sobre a revolução estética e as particularidades da obra deste artista que quebrou paradigmas ao surgir na música brasileira em 1963 com seu samba de esquema realmente novo. A rigor, o livro é mais sobre Ben do que sobre o disco em si. De todo modo, quando fala de A tábua de esmeralda ou do artista, Paulo da Costa e Silva é sempre preciso na sua análise musical ou social. Nesse sentido, o livro é recomendado para quem quer ter noção da dimensão alcançada pelo cancioneiro autoral de Ben - o (compositor) que nunca teve censura nem nunca terá no exercício de sua livre criação musical - na cena brasileira pós-Bossa Nova. Paulo da Costa e Silva mostra, ao longo das 136 páginas do livro, como a obra de Ben Jor foi ficando cada vez mais épica e impregnada de negritude, esta enfocada sob prisma positivo, guerreiro, com autoestima elevada que jamais se deixou contaminar pela raiva e a mágoa provocadas por séculos de injustiças sociais praticadas contra os negros. É uma obra que partiu do samba, alimentada pela revolução estética promovida por João Gilberto em 1958, para incorporar o rock, o soul, o funk e elementos associados ao universo medieval. O autor sustenta a tese de que A tábua de esmeralda simbolizou "a pequena renascença" de Ben. Para tal, gasta páginas (em excesso) para explicar o conceito de livro em que o historiador norte-americano Stephen Toulmin defende a teoria de ter havido, nos anos 1960, uma revalorização de valores renascentistas. Mais para o fim do livro, Costa e Silva também dedica generoso espaço aos Racionais MC's para explicar a conexão do grupo paulistano de rap com a música negra de Ben. Embora por vezes o livro perca o foco principal (o disco e o artista), o autor consegue explicar para o leitor a singularidade do cancioneiro de Jorge Ben, criador de música associada a certo primitivismo, inclusive por ter rejeitado a riqueza de acordes proposta pela Bossa Nova. Ao construir obra que parece intuitiva e simples, mas que oculta engenhosidade nessa aparente simplicidade, Ben Jor se deslocou de qualquer movimento musical, embora tenha transitado pela Jovem Guarda e tenha feito conexões com os Tropicalistas. Costa e Silva, aliás, ressalta que um dos arquitetos do movimento, Gilberto Gil, ficou impactado ao conhecer a obra de Ben (com quem, aliás, dividiria álbum em 1975). É uma obra enigmática que o oportuno livro ajuda a decifrar, servindo como homenagem aos 70 anos que Jorge Duílio Lima Meneses vai completar em 22 de março de 2015 - em tese, já que a verdadeira idade do Zé Pretinho parece ser tão enigmática quanto sua obra, uma vez que há fontes que sustentam que Ben veio ao mundo em 1942. Seja como for, este pequeno livro sobre A tábua de esmeralda - disco emblemático em obra marcada pela alquimia musical - dá sua contribuição ao jogar luz sobre o artista, o alquimista que chegou em 1963 para fazer História na música brasileira.

2 comentários:

Mauro Ferreira disse...

♪ Dos três inéditos títulos brasileiros da primeira fornada da série O livro do disco, na qual álbuns marcantes da música brasileira são analisados a fundo, o volume sobre A tábua de esmeralda é o que mais trai o conceito da oportuna coleção publicada pela editora carioca Cobogó com inspiração na série 33 e 1/3, da editora norte-americana Bloomsbury. Autor do livro, o crítico e pesquisador musical Paulo da Costa e Silva parte deste álbum antológico lançado por Jorge Ben Jor em 1974 - quando o cantor e compositor carioca ainda era tão somente Jorge Ben - para fazer ensaio sobre a revolução estética e as particularidades da obra deste artista que quebrou paradigmas ao surgir na música brasileira em 1963 com seu samba de esquema realmente novo. A rigor, o livro é mais sobre Ben do que sobre o disco em si. De todo modo, quando fala de A tábua de esmeralda ou do artista, Paulo da Costa e Silva é sempre preciso na sua análise musical ou social. Nesse sentido, o livro é recomendado para quem quer ter noção da dimensão alcançada pelo cancioneiro autoral de Ben - o (compositor) que nunca teve censura nem nunca terá no exercício de sua livre criação musical - na cena brasileira pós-Bossa Nova. Paulo da Costa e Silva mostra, ao longo das 136 páginas do livro, como a obra de Ben Jor foi ficando cada vez mais épica e impregnada de negritude, esta enfocada sob prisma positivo, guerreiro, com autoestima elevada que jamais se deixou contaminar pela raiva e a mágoa provocadas por séculos de injustiças sociais praticadas contra os negros. É uma obra que partiu do samba, alimentada pela revolução estética promovida por João Gilberto em 1958, para incorporar o rock, o soul, o funk e elementos associados ao universo medieval. O autor sustenta a tese de que A tábua de esmeralda simbolizou "a pequena renascença" de Ben. Para tal, gasta páginas (em excesso) para explicar o conceito de livro em que o historiador norte-americano Stephen Toulmin defende a teoria de ter havido, nos anos 1960, uma revalorização de valores renascentistas. Mais para o fim do livro, Costa e Silva também dedica generoso espaço aos Racionais MC's para explicar a conexão do grupo paulistano de rap com a música negra de Ben. Embora por vezes o livro perca o foco principal (o disco e o artista), o autor consegue explicar para o leitor a singularidade do cancioneiro de Jorge Ben, criador de música associada a certo primitivismo, inclusive por ter rejeitado a riqueza de acordes proposta pela Bossa Nova. Ao construir obra que parece intuitiva e simples, mas que oculta engenhosidade nessa aparente simplicidade, Ben Jor se deslocou de qualquer movimento musical, embora tenha transitado pela Jovem Guarda e tenha feito conexões com os Tropicalistas. Costa e Silva, aliás, ressalta que um dos arquitetos do movimento, Gilberto Gil, ficou impactado ao conhecer a obra de Ben (com quem dividiria álbum em 1975). É uma obra enigmática que o oportuno livro ajuda a decifrar, servindo como homenagem aos 70 anos que Jorge Duílio Lima Meneses vai completar em 22 de março de 2015 - em tese, já que a verdadeira idade do Zé Pretinho parece ser tão enigmática quanto sua obra, uma vez que há fontes que sustentam que Ben veio ao mundo em 1942. Seja como for, este pequeno livro sobre A tábua de esmeralda - disco emblemático em obra marcada pela alquimia musical - dá sua contribuição ao jogar luz sobre o artista, o alquimista que chegou em 1963 para fazer História na música brasileira.

italo vinicius disse...

Com certeza esta entre os 5 mais importantes músicos do Brasil que afetaram todo o mundo com sua singularidade e sua genialidade