Mauro Ferreira no G1

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quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Roberta canta Roberto sem emoção e empastela repertório áureo do 'Rei'

Resenha de CD
Título: Roberta canta Roberto
Artista: Roberta Miranda
Gravadora: Som Livre
Cotação: * *

Das cinco cantoras autorizadas por Roberto Carlos a gravar um álbum com as canções do Rei, Roberta Miranda é a única que alcançou resultado pouco satisfatório, perdendo a chance de fazer bom disco. A primeira foi Sonia Melo, cantora de origem pernambucana que, em 1976, já radicada no Rio de Janeiro (RJ) e contratada pela gravadora Odeon, lançou o LP Sonia Melo interpreta Roberto Carlos e Erasmo Carlos (projeto que teve um segundo volume editado em 1979). Segunda cantora a dedicar um álbum inteiramente às canções do Roberto em época em que elas, as canções, eram tidas como obras menores no círculo elitizado da MPB dos anos 1970, Nara Leão (1942 - 1989) mostrou evolução como intérprete no LP ...e que tudo mais vá pro inferno (Philips, 1978), fazendo história por ter sido a primeira cantora da elite da MPB a avalizar a obra popular e romântica de Roberto. Em 1993, Maria Bethânia voltou a vender disco em quantidades substanciais com álbum, As canções que você fez pra mim (PolyGram, 1993), de tom orquestral e de majestosas interpretações teatrais. Mais recentemente, a carioca Teresa Cristina - voz até então associada ao samba - se transformou em outra em revigorante álbum de vibe roqueira, Teresa Cristina + Os Outros = Roberto Carlos (Deck, 2012). Cantora e compositora paraibana, revelada no universo sertanejo na segunda metade dos anos 1980, Roberta Miranda canta Roberto Carlos sem emoções em disco que empastela o cancioneiro do Rei com arranjos repletos de teclados pilotados por Tutuca Borba e Marco Pontes Caixote. Custa a crer que o produtor de Roberta canta Roberto - CD posto nas lojas pela gravadora Som Livre neste mês de novembro de 2014 - é o mesmo Guto Graça Mello que, há 21 anos, pilotou o álbum em que Bethânia fez seu público acreditar que as canções do Roberto tinham sido feitas para ela. Roberta, aliás, abre seu disco com a mesma música que introduz o antológico disco de Bethânia, As canções que você fez pra mim (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1968). O acordeom de Tadeu Santiago sinaliza na faixa uma trilha sertaneja que, infelizmente, não é a seguida por Roberta ao longo das onze músicas seguintes. E o que se ouve, entre montanhas de teclados e cordas arranjadas de forma tradicional, são interpretações geralmente sem vida. Roberta poucas vezes acerta o tom das canções de Roberto, interpretando Fera ferida (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1982) com mais ternura do que vigor, diluindo a sensualidade entranhada em Proposta (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1973), anulando a jovialidade que dá sentido a Eu te darei o céu (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1966) e acentuando o melodrama de O show já terminou (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1973, para citar quatro músicas que nada ganham na voz da artista. Há ainda momentos piores, como o rock Se você pensa (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1968), revivido sem pegada, assim como o outro rock do CD, Quando (Roberto Carlos, 1967), que fecha o disco em clima morno com a participação afetiva de Dudu Braga - filho do Rei - e seu conjunto RC na Veia (Dudu toca bateria, além de cantar com Roberta). Dentro de quadro geralmente desolador, Roberta canta Roberto oferece algum alento quando a cantora põe fé no repertório católico do compositor. Nossa Senhora (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1993) reitera sua força emotiva. Já Quando eu quero falar com Deus (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1995) - menos envolvente, mas também bonita - é emoldurada em arranjo lacrimejante, condizente com o espírito da música. No repertório, nada ousado como o disco, há também a balada A distância (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1972) - faixa até bacana no contraponto com as demais - e a canção Como é grande o meu amor por você (Roberto Carlos, 1967), regravada sem toque pessoal. Este, aliás, é o maior problema do CD Roberta canta Roberto. Nada soa minimamente especial. No máximo, há gravações meramente corretas. Roberto Carlos não fez suas canções para Roberta Miranda...

6 comentários:

Mauro Ferreira disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Luca disse...

é impressionante como gravam sempre as mesmas músicas, o Roberto tem tanta coisa boa daquela fase de 60 e 70, o problema já começa na seleção das mpúsicas

Mauro Silva disse...

Belo texto Mauro! Vale somente lembrar que a Sylvia Telles foi a primeira cantora a gravar o Roberto lá no começo da década de 60.Claro que o seu texto refere-se as cantoras que gravaram um disco inteiro com a obra do Roberto. Porém em 1966 Sylvia Telles gravou "Não quero ver você triste assim" do disco "Roberto Carlos canta para a Juventude" de 1965, isso causou grande polêmica na época, por que o Roberto era amado pelo povo e "pichado" pela crítica conservadora da época. Claro que hoje isso mudou...Roberto foi gravado, por quase todas as nossas Grandes Cantoras de diferentes estilos:Sylvia Telles,Angela Maria,Bethênia,Elis,Zizi,Gal, Maysa,Nara Leão,Evinha,Ná ozzetti, Marisa Monte,Fafá de Belém,Zélia Duncan,Daniela Mercury,Marina,Tereza Cristina,Leny Andrade,Claudia,Nana caymmi, Simone, Adriana Calcanhotto...entre outras. A lista é grande..tem mais mulheres, é que eu não vou roubar aqui o espaço do Mauro, meu objetivo é apenas passar a informação. E fazendo uma rápida análise a gente percebe como foi importante a sementinha plantada pela Sylvia Telles lá no começo da década de 60, parece que ela sabia o que iria acontecer. Salve Roberto :)

Marcelo disse...

Paula Fernandes veio daí... Cruz credo..pra ambas!!!

eduardo bueno disse...

Tenho que admitir que ficou um disco muito pasteurizado. Uma voz como e dela não pode ficar tão sem emoção durante 70% do disco...uma pena pra ela, e pras músicas do Roberto, que no seu formato antigo são bregas, mas tomam força por suas letras e interpretação que Roberta não conseguiu encaixar.

CelloPiazza disse...

uma pena... gosto muito da Roberta, mas não foi dessa vez !