Mauro Ferreira no G1

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quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Criolo fermenta em 'Convoque seu Buda' a massa que modelou seu som

Resenha de CD
Título: Convoque seu Buda
Artista: Criolo
Gravadora: Oloko Records
Cotação: * * * * *

A chapa está quente, existe em SP ódio fomentado por injustiças socais e Criolo se joga de cabeça no caldeirão fervente que agita as periferias da cidade de São Paulo (SP). Em seu terceiro álbum, Convoque seu Buda, o rapper paulistano põe na panela, na pressão, todos os ricos ingredientes que moldaram seu som multifacetado, que parte do universo do hip hop, mas não se limita ao rap, abrangendo ritmos como samba e reggae. Convoque seu Buda fermenta a massa modelada no antecessor Nó na orelha (Independente, 2011), álbum que projetou e consagrou Kleber Cavalcante Gomes, cantor e compositor das quebradas que, comendo pelas beiradas, vem flertando com ícones da linha de frente da MPB, tendo versos cantados em show por Chico Buarque, fazendo turnê com Milton Nascimento e sendo gravado por Gal Costa em disco previsto para 2015. Convoque seu Buda jamais ultrapassa a fronteira delimitada por Nó na orelha, mas aprimora a receita sonora do álbum anterior. O som ganha pressão. Tudo está no seu lugar. Efeito da mixagem pilotada por Mario Caldato no MCJ Studio de Los Angeles (EUA) e da masterização comandada por Robert Carranza, também em Los Angeles. Mas a massa sonora foi preparada no Brasil pelos produtores Daniel Ganjaman e Marcelo Cabral sob a direção artística de Ganjaman - o que garante a conexão imediata com Nó na orelha. Com scratches do DJ DanDan, o rap que dá nome ao disco, Convoque seu Buda (Criolo e Daniel Ganjaman), capta a fervura da chapa na periferia de São Paulo (SP), "cidade podre" na visão exposta nos versos tensos que rogam aos deuses equilíbrio ao trabalhador que corre atrás do pão. "É humilhação demais que não cabe nesse refrão", resume Criolo. Rap ouvido na sequência do disco, Esquiva da esgrima (Criolo, Daniel Ganjaman e Marcelo Cabral) não foge à luta, caindo em certo suingue sem deixar de exprimir a ideologia social de quem vê o mundo pela ótica da periferia oprimida. "É o céu da boca do inferno esperando você", avisa o refrão. Embalado dentro do universo do hip hop, Cartão de visita (Criolo, Daniel Ganjaman e Marcelo Cabral) sintoniza os luxos e os lixos de gente indigesta entre ruídos, interferências e ecos da black music norte-americana no rap aditivado com a voz da cantora paulista Tulipa Ruiz. Com arranjo majestoso que remete eventualmente às orquestrações do genial maestro pernambucano Moacir Santos (1926 - 2006), Casa de papelão (Criolo, Daniel Ganjaman, Marcelo Cabral e Guilherme Held) edifica letra de contrastes habitacionais, contrapondo prédios que vão se erguer às malocas da cidade de céu poluído e torneiras sem água. "A cidade tá toda travada", reitera Criolo em verso de Fermento pra massa (Criolo), samba de cadência tão bonita quanto tradicional, em que as percussões se harmonizam com o cavaco de Rodrigo Campos, a guitarra de Kiko Dinucci e os vocais de Juçara Marçal e Verônica Ferriani. Em outra praia, a do reggae, Pé de breque (Criolo) é a versão fermentada do tema instrumental Não bolou por que? (Criolo, 2011). É o dub do Criolo Doido que respeita a filosofia Rastáfari e a ascendência nordestina, evocada na música Pegue pra ela (Criolo) pelos pífanos de Thiago França que conectam Caruaru (PE) ao bairro paulistano do Grajaú, terra de Criolo. Com a adesão do Síntese, duo paulista de hip hop, Plano de voo (Criolo, Síntese, Daniel Ganjaman, Guilherme Held e Marcelo Cabral) alça alta altitude no passo do rap, cuspindo fogo pela consciência de que o povo oprimido nas filas, vilas e favelas fermenta sonho com pranto. "Desigualdade faz tristeza", resume Criolo em verso de Duas de cinco (Criolo, Rodrigo Campos, Daniel Ganjaman e Marcelo Cabral). No fim, Fio de prumo (Padê onã) (Criolo e Douglas Germano) abre caminho no toque afro-brasileiro do Candomblé, no som do clavinete de Money Mark (colaborador habitual do grupo norte-americano The Beastie Boys) e na voz de Juçara Marçal. Tire seu sorriso do caminho e convoque seu Buda que Criolo está passando com a dor e o resto de esperança que move o povo desse Brasil insano.

6 comentários:

Mauro Ferreira disse...

♪ A chapa está quente, existe em SP ódio fomentado por injustiças socais e Criolo se joga de cabeça no caldeirão fervente que agita as periferias da cidade de São Paulo (SP). Em seu terceiro álbum, Convoque seu Buda, o rapper paulistano põe na panela, na pressão, todos os ricos ingredientes que moldaram seu som multifacetado, que parte do universo do hip hop, mas não se limita ao rap, abrangendo ritmos como samba e reggae. Convoque seu Buda fermenta a massa modelada no antecessor Nó na orelha (Independente, 2011), álbum que projetou e consagrou Kleber Cavalcante Gomes, cantor e compositor das quebradas que, comendo pelas beiradas, vem flertando com ícones da linha de frente da MPB, tendo versos cantados em show por Chico Buarque, fazendo turnê com Milton Nascimento e sendo gravado por Gal Costa em disco previsto para 2015. Convoque seu Buda jamais ultrapassa a fronteira delimitada por Nó na orelha, mas aprimora a receita sonora do álbum anterior. O som ganha pressão. Tudo está no seu lugar. Efeito da mixagem pilotada por Mario Caldato no MCJ Studio de Los Angeles (EUA) e da masterização comandada por Robert Carranza, também em Los Angeles. Mas a massa sonora foi preparada no Brasil pelos produtores Daniel Ganjaman e Marcelo Cabral sob a direção artística de Ganjaman - o que garante a conexão imediata com Nó na orelha. Com scratches do DJ DanDan, o rap que dá nome ao disco, Convoque seu Buda (Criolo e Daniel Ganjaman), capta a fervura da chapa na periferia de São Paulo (SP), "cidade podre" na visão exposta nos versos tensos que rogam aos deuses equilíbrio ao trabalhador que corre atrás do pão. "É humilhação demais que não cabe nesse refrão", resume Criolo. Rap ouvido na sequência do disco, Esquiva da esgrima (Criolo, Daniel Ganjaman e Marcelo Cabral) não foge à luta, caindo em certo suingue sem deixar de exprimir a ideologia social de quem vê o mundo pela ótica da periferia oprimida. "É o céu da boca do inferno esperando você", avisa o refrão. Embalado dentro do universo do hip hop, Cartão de visita (Criolo, Daniel Ganjaman e Marcelo Cabral) sintoniza os luxos e os lixos de gente indigesta entre ruídos, interferências e ecos da black music norte-americana no rap aditivado com a voz da cantora paulista Tulipa Ruiz. Com arranjo majestoso que remete eventualmente às orquestrações do genial maestro pernambucano Moacir Santos (1926 - 2006), Casa de papelão (Criolo, Daniel Ganjaman, Marcelo Cabral e Guilherme Held) edifica letra de contrastes habitacionais, contrapondo prédios que vão se erguer às malocas da cidade de céu poluído e torneiras sem água. "A cidade tá toda travada", reitera Criolo em verso de Fermento pra massa (Criolo), samba de cadência tão bonita quanto tradicional, em que as percussões se harmonizam com o cavaco de Rodrigo Campos, a guitarra de Kiko Dinucci e os vocais de Juçara Marçal e Verônica Ferriani. Em outra praia, a do reggae, Pé de breque (Criolo) é a versão fermentada do tema instrumental Não bolou por que? (Criolo, 2011). É o dub do Criolo Doido que respeita a filosofia Rastáfari e a ascendência nordestina, evocada em Pegue pra ela (Criolo, 2011) pelos pífanos de Thiago França que conectam Caruaru (PE) ao bairro paulistano do Grajaú, terra de Criolo. Com a adesão do Síntese, duo paulista de hip hop, Plano de voo (Criolo, Síntese, Daniel Ganjaman, Guilherme Held e Marcelo Cabral) alça alta altitude no passo do rap, cuspindo fogo pela consciência de que o povo oprimido nas filas, vilas e favelas fermenta sonho com pranto. "Desigualdade faz tristeza", resume Criolo em verso de Duas de cinco (Criolo, Rodrigo Campos, Daniel Ganjaman e Marcelo Cabral). No fim, Fio de prumo (Padê onã) (Criolo e Douglas Germano) abre caminho no toque afro-brasileiro do Candomblé, no som do clavinete de Money Mark (colaborador habitual do grupo norte-americano The Beastie Boys) e na voz de Juçara Marçal. Tire seu sorriso do caminho e convoque seu Buda que Criolo está passando com a dor e o resto de esperança que move o povo desse Brasil insano.

José Antonio Pimenta disse...

A lista dos melhores do ano terá que ser revista!!

Mauro Silva disse...

Fraquíssimo..Não achei tudo isso não, mas não mesmoooo, como diz Bethânia: É muita antena e ninguém ligado :(

Rhenan Rodrigo disse...

Só ouviu o disco uma vez. Gosto muito, muitíssimo, do discurso, mas não acho que a sonoridade do álbum tenha evoluído algo além do Nó na orelha.

Luca disse...

gostei do disco mas não é disco pra cinco estrelas, mesmo, acho que o Mauro tá apaixonado pelo Criolo

lurian disse...

Achei mediano como Nó na orelha, umas músicas interessantes, mas a verdade é que esse estilo rapper me cansa.