Mauro Ferreira no G1

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domingo, 31 de agosto de 2014

CD 'Barulho feio' é outro passo torto de Fróes em poética trilha experimental

Resenha de CD
Título: Barulho feio
Artista: Romulo Fróes
Gravadora: YB Music 
Cotação: * * * 1/2
Disco disponível para download gratuito e legalizado no site oficial do artista

 Quinto álbum solo de Romulo Fróes, Barulho feio é outro passo torto de Romulo Fróes em sua caminhada experimental. Trilha pavimentada à margem do mercado fonográfico desde 2001, ano do lançamento do primeiro disco do cantor, compositor e músico paulistano - um EP que abriu caminho para a edição, três anos mais tarde, do primeiro álbum de Fróes, Calado (Bizarre Music, 2004), apresentado já há uma década. De lá para cá, o artista solidificou sua parceria com os compositores e artistas plásticos paulistanos Eduardo Climachauska (o Clima) e Nuno Ramos, nomes recorrentes na ficha técnica de Barulho feio, hábeis na construção de letras embebidas em poesia contemporânea, cujos versos saltam aos ouvidos entre os ruídos sonoros e humanos que pautam Barulho feio, disco em que Fróes experimenta (des)caminhos para a canção popular brasileira. Não por acaso, a primeira das 15 músicas do disco - Não há, mas derruba (Romulo Fróes e Nuno Ramos) - é introduzida com o sopro torto do saxofone de Thiago França, músico fundamental na arquitetura de Barulho feio ao lado de Guilherme Held (na guitarra) e de Marcelo Cabral (no baixo acústico). O caminho seguido é o mais difícil. Firme nessa rota sem atalhos, Fróes impede o salto da veia de um samba-canção que circula embutida nessa faixa de abertura. O que salta aos ouvidos já de cara e sempre são os ruídos, as interferências, os barulhos feios inseridos nas músicas - como se o álbum quisesse captar a (des)organização urbana de uma metrópole. No caso, o caos e a poesia da cidade de São Paulo (SP), matérias-primas do bom disco. Os ruídos e a poesia estão por toda parte, aclimatando músicas como Na minha boca (Romulo Fróes e Alice Coutinho), Pra comer (Romulo Fróes e Clima) - visão poética do voo de um urubu à espreita aérea da carniça? - e a composição-título Barulho feio (Romulo Fróes e Nuno Ramos) em ambiente dissonante, distante do formato convencional da canção. Mas a canção está lá, ecoando citações e influências do samba e da bossa entranhada na levada básica que nortei a faixa O que era meu (Romulo Fróes e Alice Coutinho). "Dizem por aí que eu não sou nada / A pessoa mais errada / Que eu perdi a direção / Dizem que eu deixei no violão / O que em mim tinha de bom", rumina Fróes, a sós com seu violão, em versos de Como um raio (Romulo Fróes e Nuno Ramos) que evocam a morbeza romântica do cancioneiro do compositor carioca Nelson Cavaquinho (1911 - 1986) - cuja obra, a propósito, vai ser abordada por Fróes em disco previsto para ser lançado em 2015. Entoada a capella pelo cantautor de voz grave (e extremamente bem colocada neste disco produzido por Fróes com Cacá Lima), Poeira - parceria de Mariana Aydar com Nuno Ramos - espalha a poesia urbana que sobressai no disco entre melodias de moderado poder de sedução. Em Peixinho triste (Lanny Gordin, Guilherme Held e Nuno Ramos), a guitarra cria o clima dessa canção que anuncia o sol, já desaparecido na música seguinte, Cadê (Marcelo Cabral e Clima), cuja letra cita Assum preto (Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, 1950). Cadê explicita a importância paradoxal do silêncio neste disco ruidoso. Entre silêncios e atonalidades, Fróes faz dueto com a cantora paulistana Juçara Marçal em Espera (Rodrigo Campos, Romulo Fróes e Alice Coutinho) e faz barulho ao amplificar a guitarra noise de Guilherme Held em Se você me quiser (Romulo Fróes e Clima) e em Noite morta (Romulo Fróes e Nuno Ramos). Já A luz dói (Clima e Nuno Ramos) clareia somente a voz de Fróes neste tema cantado a capella que encerra o disco na penumbra, mas já com a certeza de que a luz voltará. Possível metáfora para adiantar o próximo passo torto de Fróes, caminhante noturno de trilha experimental que espalha poesia no chão, sem chão. Até que o barulho não é tão feio assim.

4 comentários:

Mauro Ferreira disse...

Quinto álbum solo de Romulo Fróes, Barulho feio é outro passo torto de Romulo Fróes em sua caminhada experimental. Trilha pavimentada à margem do mercado fonográfico desde 2001, ano do lançamento do primeiro disco do cantor, compositor e músico paulistano - um EP que abriu caminho para a edição, três anos mais tarde, do primeiro álbum de Fróes, Calado (Bizarre Music, 2004), apresentado já há uma década. De lá para cá, o artista solidificou sua parceria com os compositores e artistas plásticos paulistanos Eduardo Climachauska (o Clima) e Nuno Ramos, nomes recorrentes na ficha técnica de Barulho feio, hábeis na construção de letras embebidas em poesia contemporânea, cujos versos saltam aos ouvidos entre os ruídos sonoros e humanos que pautam Barulho feio, disco em que Fróes experimenta (des)caminhos para a canção popular brasileira. Não por acaso, a primeira das 15 músicas do disco - Não há, mas derruba (Romulo Fróes e Nuno Ramos) - é introduzida com o sopro torto do saxofone de Thiago França, músico fundamental na arquitetura de Barulho feio ao lado de Guilherme Held (na guitarra) e de Marcelo Cabral (no baixo acústico). O caminho seguido é o mais difícil. Firme nessa rota sem atalhos, Fróes impede o salto da veia de um samba-canção que circula embutida nessa faixa de abertura. O que salta aos ouvidos já de cara e sempre são os ruídos, as interferências, os barulhos feios inseridos nas músicas - como se o álbum quisesse captar a (des)organização urbana de uma metrópole. No caso, o caos e a poesia da cidade de São Paulo (SP), matérias-primas do bom disco. Os ruídos e a poesia estão por toda parte, aclimatando músicas como Na minha boca (Romulo Fróes e Alice Coutinho), Pra comer (Romulo Fróes e Clima) - visão poética do voo de um urubu à espreita aérea da carniça? - e a composição-título Barulho feio (Romulo Fróes e Nuno Ramos) em ambiente dissonante, distante do formato convencional da canção. Mas a canção está lá, ecoando citações e influências do samba e da bossa entranhada na levada básica que nortei a faixa O que era meu (Romulo Fróes e Alice Coutinho). "Dizem por aí que eu não sou nada / A pessoa mais errada / Que eu perdi a direção / Dizem que eu deixei no violão / O que em mim tinha de bom", rumina Fróes, a sós com seu violão, em versos de Como um raio (Romulo Fróes e Nuno Ramos) que evocam a morbeza romântica do cancioneiro do compositor carioca Nelson Cavaquinho (1911 - 1986) - cuja obra, a propósito, vai ser abordada por Fróes em disco previsto para ser lançado em 2015. Entoada a capella pelo cantautor de voz grave (e extremamente bem colocada neste disco produzido por Fróes com Cacá Lima), Poeira - parceria de Mariana Aydar com Nuno Ramos - espalha a poesia urbana que sobressai no disco entre melodias de moderado poder de sedução. Em Peixinho triste (Lanny Gordin, Guilherme Held e Nuno Ramos), a guitarra cria o clima dessa canção que anuncia o sol, já desaparecido na música seguinte, Cadê (Marcelo Cabral e Clima), cuja letra cita Assum preto (Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, 1950). Cadê explicita a importância paradoxal do silêncio neste disco ruidoso. Entre silêncios e atonalidades, Fróes faz dueto com a cantora paulistana Juçara Marçal em Espera (Rodrigo Campos, Romulo Fróes e Alice Coutinho) e faz barulho ao amplificar a guitarra noise de Guilherme Held em Se você me quiser (Romulo Fróes e Clima) e em Noite morta (Romulo Fróes e Nuno Ramos). Já A luz dói (Clima e Nuno Ramos) clareia tão somente a voz de Fróes neste tema cantado a capella que encerra o disco na penumbra, mas já com a certeza de que a luz voltará. Possível metáfora para adiantar o próximo passo torto de Romulo Fróes, caminhante noturno de trilha experimental que espalha poesia no chão, sem o chão. Até que o barulho não é tão feio assim.

Pedro Progresso disse...

fiquei muito feliz com esse disco. ouvi muito os discos de Rômulo e vejo uma "linha de raciocínio" em seus discos, de forma que depois de "Um labirinto em cada pé" e dos discos do Passo Torto já tinha me preparado pra algo nessa linha de experimentação.

"Espera" já nasceu favorita.

Val Js disse...

Barulho feio e... soporífero.

lurian disse...

Gostei mais dos primeiros discos dele, mas vejo que há a cara das dificuldades e ruidos dos centros urbanos. Só pela coragem de faz~e-lo já vale!