Mauro Ferreira no G1

Aviso aos navegantes: desde 6 de julho de 2016, o jornalista Mauro Ferreira atualiza diariamente uma coluna sobre o mercado fonográfico brasileiro no portal G1. Clique aqui para acessar a coluna. O endereço é http://g1.globo.com/musica/blog/mauro-ferreira/


domingo, 17 de agosto de 2014

Maranhão reitera inspiração autoral na rota miscigenada do CD 'Itinerário'

Resenha de CD
Título: Itinerário
Artista: Rodrigo Maranhão
Gravadora: MP,B Discos / Universal Music
Cotação: * * * *

Por mais que esteja situado na rota Rio-Nordeste que norteia o expressivo cancioneiro de Rodrigo Maranhão, Itinerário - terceiro álbum deste que é um dos melhores compositores de sua geração - é disco pautado pela mistura que dá o tom miscigenado da música brasileira desde que o samba é samba. Fusão sintetizada no mix de células rítmicas de baião, samba de roda, maxixe e samba à moda carioca que moldam Fuzuê (Rodrigo Maranhão, 2014), música que ainda cita a morna de Cabo Verde e que abre o disco produzido pelo próprio Maranhão sob a direção artística do empresário João Mário Linhares. Mesmo sem reeditar a maestria sublime do perfeito álbum anterior do artista carioca, Passageiro (MP,B Discos e Universal Music, 2010), Itinerário reedita a fina costura de Bordado (MP,B Disco e Universal Music, 2007), reiterando a inspiração de Maranhão. A mistura brasileira nem sempre é aparente, mas pode ser detectada nos toques refinados dos instrumentos dos três ótimos músicos - Marcelo Caldi (sanfona e piano), Nando Duarte (violão de sete cordas) e Pretinho da Serrinha (percussão) - arregimentados para executar os arranjos das onze músicas do disco. A esse trio, soma-se o próprio Rodrigo Maranhão ao violão. O fantástico quarteto arma a cama instrumental que leva Maré (Rodrigo Maranhão, 2012), uma das mais belas canções do disco, lançada na voz do cantor português António Zambujo em seu álbum Quinto (Universal Music Portugal, 2012) e ora revivida pelo autor em arranjo em que o canto soa quase incidental. Zambujo, a propósito, evidencia o ponto fraco de Maranhão - o canto meramente eficaz, sem viço capaz de projetar sua relevante obra autoral - quando solta sua voz potente como convidado de Madrugada (Rodrigo Maranhão), dando sotaque de além-mar a essa canção quase fado que remete ao lirismo das serenatas do começo do século XX. Também convidado para cantar em Itinerário, PC Castilho ajuda Maranhão a dar voz à Rua da preguiça (2014) - tema que dialoga com Ladeira da preguiça (Gilberto Gil, 1973) na evocação da manemolência baiana - e ao samba meio baião Flor de cajueiro (Rodrigo Maranhão, 2014). Rua da preguiça é uma das duas parcerias de Castilho com Maranhão apresentadas em Itinerário. A outra é o samba Iara (2014), que perfila a suburbana personagem-título com leveza moderna que contrasta com o toque mais clássico do violão de sete cordas de Nando Duarte, hábil ao evocar tradições do samba e do choro. Nesse cruzamento sutil de referências que pauta Itinerário, a sanfona de Marcelo Caldi faz com que Eu não sei seu telefone (Rodrigo Maranhão, 2014) - canção de amor não vivido - ganhe leve toque de toada nordestina em clima similar ao que ambienta Chapeuzinho amarelo (Rodrigo Maranhão, 2014), música em que o compositor usa signos da célebre história infantil para alinhar medos da vida adulta. Leveza, aliás, é palavra-chave que abre as portas para a percepção deste terceiro álbum de Rodrigo Maranhão. Mesmo quando revolve raízes doídas que remetem ao samba-canção, como em Maria da Graça (Rodrigo Maranhão, 2014), o cantautor se recusa a fazer (melo)drama em forma de canção. "Sou mais um brasileiro na cadeia social", autodefine-se em verso de Itinerário, música-título no qual o artista se situa como observador do movimento contínuo da plataforma da vida. Música gravada por Maria Rita em seu álbum Segundo (Warner Music, 2005), Mantra - música de Maranhão com Pedro Luís, parceiro com o qual o compositor se lançou no mercado fonográfico em 1999 - encerra Itinerário sublinhando que o movimento do artista é conduzido pela paixão. Qualquer que seja sua rota, siga o Itinerário de Rodrigo Maranhão. Ele o conduz à boa música.

4 comentários:

Mauro Ferreira disse...

Por mais que esteja situado na rota Rio-Nordeste que norteia o expressivo cancioneiro de Rodrigo Maranhão, Itinerário - terceiro álbum deste que é um dos melhores compositores de sua geração - é disco pautado pela mistura que dá o tom miscigenado da música brasileira desde que o samba é samba. Fusão sintetizada no mix de células rítmicas de baião, samba de roda, maxixe e samba à moda carioca que moldam Fuzuê (Rodrigo Maranhão, 2014), música que ainda cita a morna de Cabo Verde e que abre o disco produzido pelo próprio Maranhão sob a direção artística do empresário João Mário Linhares. Mesmo sem reeditar a maestria sublime do perfeito álbum anterior do artista carioca, Passageiro (MP,B Discos e Universal Music, 2010), Itinerário reedita a fina costura de Bordado (MP,B Disco e Universal Music, 2007), reiterando a inspiração de Maranhão. A mistura brasileira nem sempre é aparente, mas pode ser detectada nos toques refinados dos instrumentos dos três ótimos músicos - Marcelo Caldi (sanfona e piano), Nando Duarte (violão de sete cordas) e Pretinho da Serrinha (percussão) - arregimentados para executar os arranjos das onze músicas do disco. A esse trio, soma-se o próprio Rodrigo Maranhão ao violão. O fantástico quarteto arma a cama instrumental que leva Maré (Rodrigo Maranhão, 2012), uma das mais belas canções do disco, lançada na voz do cantor português António Zambujo em seu álbum Quinto (Universal Music Portugal, 2012) e ora revivida pelo autor em arranjo em que o canto soa quase incidental. Zambujo, a propósito, evidencia o ponto fraco de Maranhão - o canto meramente eficaz, sem viço capaz de projetar sua relevante obra autoral - quando solta sua voz potente como convidado de Madrugada (Rodrigo Maranhão), dando sotaque de além-mar a essa canção quase fado que remete ao lirismo das serenatas do começo do século XX. Também convidado para cantar em Itinerário, PC Castilho ajuda Maranhão a dar voz à Rua da preguiça (2014) - tema que dialoga com Ladeira da preguiça (Gilberto Gil, 1973) na evocação da manemolência baiana - e ao samba meio baião Flor de cajueiro (Rodrigo Maranhão, 2014). Rua da preguiça é uma das duas parcerias de Castilho com Maranhão apresentadas em Itinerário. A outra é o samba Iara (2014), que perfila a suburbana personagem-título com leveza moderna que contrasta com o toque mais clássico do violão de sete cordas de Nando Duarte, hábil ao evocar tradições do samba e do choro. Nesse cruzamento sutil de referências que pauta Itinerário, a sanfona de Marcelo Caldi faz com que Eu não sei seu telefone (Rodrigo Maranhão, 2014) - canção de amor não vivido - ganhe leve toque de toada nordestina em clima similar ao que ambienta Chapeuzinho amarelo (Rodrigo Maranhão, 2014), música em que o compositor usa signos da célebre história infantil para alinhar medos da vida adulta. Leveza, aliás, é palavra-chave que abre as portas para a percepção deste terceiro álbum de Rodrigo Maranhão. Mesmo quando revolve raízes doídas que remetem ao samba-canção, como em Maria da Graça (Rodrigo Maranhão, 2014), o cantautor se recusa a fazer (melo)drama em forma de canção. "Sou mais um brasileiro na cadeia social", autodefine-se em verso de Itinerário, música-título no qual o artista se situa como observador do movimento contínuo da plataforma da vida. Música gravada por Maria Rita em seu álbum Segundo (Warner Music, 2005), Mantra - música de Maranhão com Pedro Luís, parceiro com o qual o compositor se lançou no mercado fonográfico em 1999 - encerra Itinerário sublinhando que o movimento do artista é conduzido pela paixão. Qualquer que seja sua rota, siga o Itinerário de Rodrigo Maranhão. Ele o conduz à boa música.

Fernando disse...

Depois de ter lido sua coluna da última segunda no jornal O Dia, fiquei com a impressão de que o novo disco de Rodrigo Maranhão não iria receber tantas estrelas aqui no seu blog. Lá você destacou que o "ponto fraco de Maranhão é seu canto, eficaz, mas não envolvente e arrebatador como suas músicas". Depois de ter a resenha do disco no blog, todavia, fiquei com impressão diferente daquela que tive quando li a coluna. A “deficiência” do canto de Maranhão pareceu ser menor frente à maestria do “fantástico quarteto” que compõe o disco. Na dúvida, vou seguir o “Itinerário”. Parabéns pela coluna e pelo blog!

Ronaldo disse...

Rodrigo Maranhão eh um craque que merece ser descoberto por todos os apreciadores da boa MPB!

Rhenan Rodrigo disse...

Completamente apaixonado por esse disco. Maravilhoso!