Mauro Ferreira no G1

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segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Voz de Elba ainda arde no sertão de Gonzaga, afins e 'paixões jagunças'

Resenha de show
Título: Cordas, Gonzaga e afins
Artista: Elba Ramalho (em foto de Alex Ribeiro)
Local: Teatro Castro Alves (Salvador, BA)
Data: 23 de agosto de 2014
Cotação: * * * * *

 "Na voz que canta tudo ainda arde". Espetáculo de arquitetura teatral, Cordas, Gonzaga e afins está em sintonia com o histórico honroso de Elba Ramalho em palcos brasileiros, repondo a carreira da intérprete paraibana nos trilhos após discos e shows pautados por menor ambição artística. A criação de um espetáculo centrado na obra seminal de Luiz Gonzaga (1912 - 1989) - a mais perfeita tradução das alegrias e tristezas do Nordeste do Brasil - pode até sugestionar paralelismo com o show derivado do álbum Elba canta Luiz (BMG, 2002) e perpetuado no DVD e CD Elba ao vivo (BMG, 2003). Mas nada é do jeito que já foi um dia porque - tal como mentalizado pela jornalista e produtora cultural Margot Rodrigues, idealizadora do espetáculo patrocinado pelo projeto Natura Musical - Elba divide a bela cena com o grupo pernambucano SaGRAMA e com as cordas do também pernambucano Quarteto Encore. O uso dessa formação clássica na abordagem do cancioneiro popular de Gonzaga - e dos compositores afinados com sua obra - dá frescor a todo o repertório costurado pelo diretor André Brasileiro com textos do dramaturgo pernambucano Newton Moreno em roteiro sagaz que faz o sertão virar mar na transposição do primeiro para o segundo ato. Não são apenas cordas - e elas já seriam muito. Elba canta Gonzaga com arranjos calcados em mix renovador de cordas, percussões, sopros e a sanfona de Beto Hortis. De certa maneira, a temática do primeiro ato de Cordas, Gonzaga e afins remete a um dos melhores espetáculos da carreira da cantora, Leão do Norte (1996), por focar as agruras do sertanejo que precisa ser um forte para vencer a batalha cotidiana de sua vida seca - como cantou o rei da nação nordestina no baião Algodão (Luiz Gonzaga e Zé Dantas, 1983), uma das músicas de Gonzaga selecionadas para o roteiro repleto de novidades na voz valente de Elba, ora ouvida nos tons mais graves da maturidade. Leoa, Elba também teve que ser forte na travessia Paraíba-Rio de Janeiro feita em 1974, há 40 longos anos. Por isso, há verdade quando ela entra em cena, da plateia, dando voz a Pau de arara (Luiz Gonzaga e Guio de Moraes, 1952)  Por isso, também, poucas vozes têm - como a de Elba - credibilidade para cantar um repertório de paixões jagunças, para citar termo usado em um dos imagéticos textos de Newton Moreno salpicados no roteiro bem urdido. Quando o telão exibe imagens de Elba no início da carreira, enquanto a intérprete revive Não sonho mais (Chico Buarque, 1979), tudo faz sentido porque Cordas, Gonzaga e afins é - também - o espetáculo comemorativo dos 35 anos de carreira fonográfica da leoa. Brava, Elba não se deixa dominar e apagar em cena pela imponência das orquestrações do SaGRAMA - grupo pernambucano criado em 1995 pelo flautista e maestro Sérgio Campelo, diretor musical do espetáculo - e do Quarteto Encore. A introdução e as passagens villa-lobianas do arranjo de Súplica cearense (Gordurinha e Nelinho, 1967) exemplificam a maestria dos grupos no tratamento orquestral da obra de Gonzaga. Súplica cearense é o primeiro grande momento do show, cuja estreia nacional foi realizada em 23 de agosto de 2014 em apresentação que lotou o Teatro Castro Alves, em Salvador (BA). Mas outros grandes momentos se seguiram - como o link inteligente de Assum branco (José Miguel Wisnik e Tom Zé, 1994) com Assum preto (Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, 1950). Esta toada dolente é pungentemente cantada por Elba com os olhos vendados por suas mãos, em belo efeito cênico e de interpretação. Surte efeito também a ação de Elba abrir um livro ou um envelope ao dizer os textos de Newton Moreno. Sem inventar moda, o diretor André Brasileiro - ligado ao teatro do Recife (PE) - conduz Elba com delicadeza e sensibilidade por roteiro de músicas como O ciúme (Caetano Veloso, 1987), majestosamente emoldurada pelas cordas do Encore e entoada com Elba sentada em caixote que complementa o cenário construído com elementos de tom apropriadamente rústico. O tom de Béradêro (Chico César, 1995), número-vinheta em que Elba reproduz os tons agrestes de seu canto nos anos 1970. Na sequência, Ave Maria sertaneja (Júlio Ricardo e Osvaldo de Oliveira, 1964) abre bloco de clima sacro em que vida, religião e morte se entrelaçam, culminando com Funeral de um lavrador (Chico Buarque sobre texto de João Cabral de Melo Neto, 1964). A propósito, a lembrança do poeta recifense João Cabral de Melo Neto (1920 - 1999) - cujo texto da cigana em sua obra-prima Morte e vida severina (1955) é dito em cena por Elba - é oportuna porque a obra de João Cabral também retrata com fidelidade e poesia esse universo de paixões jagunças. Balaio de sementes, como poetizado por Elba em outro texto de Cordas, Gonzaga e afins, o cancioneiro do Rei do Baião frutifica em cena ao som dos compositores afins como o cantor e compositor pernambucano Accioly Neto (1950 - 2000) - de quem Elba revive A natureza das coisas (2000) em número de empatia popular - e o cantor e compositor pernambucano Alceu Valença, representado por Tomara (Alceu Valença e Rubem Valença Filho, 1990). Mas o eixo do roteiro reside na obra de Gonzagão, cuja pouco ouvida toada Adeus, Iracema (Luiz Gonzaga e Zé Dantas, 1962) faz o sertão virar mar a partir do segundo ato, iniciado com a itinerante A violeira (Antonio Carlos Jobim e Chico Buarque, 1983). Esse mar fundo abarca a Ciranda praieira (1998) de Lenine e Paulo César Pinheiro, remexendo em águas de Pernambuco, terra do frevo de bloco Aquela rosa (Geraldo Azevedo e Carlos Fernando, 1979) e de maracatus como Braia dengosa (Luiz Gonzaga e Guio de Moraes, 1952), outro título pouco ouvido do cancioneiro de um rei que extrapolou o universo do baião. Para quem acompanha a trajetória de Elba, Cordas, Gonzaga e afins mostra músicas nunca encaradas pela leoa, que, mesmo insegura com a letra de Domingo no parque (Gilberto Gil, 1967), oferece boa interpretação deste clássico da fase tropicalista da obra do compositor baiano Gilberto Gil. Nessa música, o SaGRAMA se guia pela orquestração emblemática do maestro Rogério Duprat (1932 - 2006) sem deixar de pôr seu toque pessoal no tema. Na sequência, Sanfona sentida (Dominginhos e Anastácia, 1973) e Sete meninas (Dominguinhos e Toinho Alves, 1975) reiteram a salutar intenção de renovação do repertório de Elba que pareceu pautar os criadores de Cordas, Gonzaga e afins, espetáculo que culmina com bloco de temas juninos em arremate que ainda pode ficar mais espontaneamente animado à medida em que o show ganhar chão na turnê nacional que vai passar por mais seis capitais do Brasil até novembro de 2014. No todo, Cordas, Gonzaga e afins devolve a Elba Ramalho o status de grande intérprete dos palcos. "Tanta gente canta, tanta gente cala". Sobre toda a estrada, pavimentada no Rio de Janeiro há 40 anos, paira a monstruosa força dessa voz que ainda arde.

9 comentários:

Mauro Ferreira disse...

"Na voz que canta tudo ainda arde". Espetáculo de arquitetura teatral, Cordas, Gonzaga e afins está em sintonia com o histórico honroso de Elba Ramalho em palcos brasileiros, repondo a carreira da intérprete paraibana nos trilhos após discos e shows pautados por menor ambição artística. A criação de um espetáculo centrado na obra seminal de Luiz Gonzaga (1912 - 1989) - a mais perfeita tradução das alegrias e tristezas do Nordeste do Brasil - pode até sugestionar paralelismo com o show derivado do álbum Elba canta Luiz (BMG, 2002) e perpetuado no DVD e CD Elba ao vivo (BMG, 2003). Mas nada é do jeito que já foi um dia porque - tal como mentalizado pela jornalista e produtora cultural Margot Rodrigues, idealizadora do espetáculo patrocinado pelo projeto Natura Musical - Elba divide a bela cena com o grupo pernambucano SaGRAMA e com as cordas do também pernambucano Quarteto Encore. O uso dessa formação clássica na abordagem do cancioneiro popular de Gonzaga - e dos compositores afinados com sua obra - dá frescor a todo o repertório costurado pelo diretor André Brasileiro com textos do dramaturgo pernambucano Newton Moreno em roteiro sagaz que faz o sertão virar mar na transposição do primeiro para o segundo ato. Não são apenas cordas - e elas já seriam muito. Elba canta Gonzaga com arranjos calcados em mix renovador de cordas, percussões, sopros e a sanfona de Beto Hortis. De certa maneira, a temática do primeiro ato de Cordas, Gonzaga e afins remete a um dos melhores espetáculos da carreira da cantora, Leão do Norte (1996), por focar as agruras do sertanejo que precisa ser um forte para vencer a batalha cotidiana de sua vida seca - como cantou o rei da nação nordestina no baião Algodão (Luiz Gonzaga e Zé Dantas, 1983), uma das músicas de Gonzaga selecionadas para o roteiro repleto de novidades na voz valente de Elba, ora ouvida nos tons mais graves da maturidade. Leoa, Elba também teve que ser forte na travessia Paraíba-Rio de Janeiro feita em 1974, há 40 longos anos. Por isso, há verdade quando ela entra em cena, da plateia, dando voz a Pau de arara (Luiz Gonzaga e Guio de Moraes, 1952) Por isso, também, poucas vozes têm - como a de Elba - credibilidade para cantar um repertório de paixões jagunças, para citar termo usado em um dos imagéticos textos de Newton Moreno salpicados no roteiro bem urdido. Quando o telão exibe imagens de Elba no início da carreira, enquanto a intérprete revive Não sonho mais (Chico Buarque, 1979), tudo faz sentido porque Cordas, Gonzaga e afins é - também - o espetáculo comemorativo dos 35 anos de carreira fonográfica da leoa. Brava, Elba não se deixa dominar e apagar em cena pela imponência das orquestrações do SaGRAMA - grupo pernambucano criado em 1995 pelo flautista e maestro Sérgio Campelo, diretor musical do espetáculo - e do Quarteto Encore. A introdução e as passagens villa-lobianas do arranjo de Súplica cearense (Gordurinha e Nelinho, 1967) exemplificam a maestria dos grupos no tratamento orquestral da obra de Gonzaga. Súplica cearense é o primeiro grande momento do show, cuja estreia nacional foi realizada em 23 de agosto de 2014 em apresentação que lotou o Teatro Castro Alves, em Salvador (BA). Mas outros grandes momentos se seguiram - como o link inteligente de Assum branco (José Miguel Wisnik e Tom Zé, 1994) com Assum preto (Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, 1950). Esta toada dolente é pungentemente cantada por Elba com os olhos vendados por suas mãos, em belo efeito cênico e de interpretação. Surte efeito também a ação de Elba abrir um livro ou um envelope ao dizer os textos de Newton Moreno.

Mauro Ferreira disse...

Sem inventar moda, o diretor André Brasileiro - ligado ao teatro do Recife (PE) - conduz Elba com delicadeza e sensibilidade por roteiro de músicas como O ciúme (Caetano Veloso, 1987), majestosamente emoldurada pelas cordas do Encore e entoada com Elba sentada em caixote que complementa o cenário construído com elementos de tom apropriadamente rústico. O tom de Béradêro (Chico César, 1995), número-vinheta em que Elba reproduz os tons agrestes de seu canto nos anos 1970. Na sequência, Ave Maria sertaneja (Júlio Ricardo e Osvaldo de Oliveira, 1964) abre bloco de clima sacro em que vida, religião e morte se entrelaçam, culminando com Funeral de um lavrador (Chico Buarque sobre texto de João Cabral de Melo Neto, 1964). A propósito, a lembrança do poeta recifense João Cabral de Melo Neto (1920 - 1999) - cujo texto da cigana em sua obra-prima Morte e vida severina (1955) é dito em cena por Elba - é oportuna porque a obra de João Cabral também retrata com fidelidade e poesia esse universo de paixões jagunças. Balaio de sementes, como poetizado por Elba em outro texto de Cordas, Gonzaga e afins, o cancioneiro do Rei do Baião frutifica em cena ao som dos compositores afins como o cantor e compositor cearense Accioly Neto (1950 - 2000) - de quem Elba revive A natureza das coisas (2000) em número de empatia popular - e o cantor e compositor pernambucano Alceu Valença, representado por Tomara (Alceu Valença e Rubem Valença Filho, 1992). Mas o eixo do roteiro reside na obra de Gonzagão, cuja pouco ouvida toada Adeus, Iracema (Luiz Gonzaga e Zé Dantas, 1962) faz o sertão virar mar a partir do segundo ato, iniciado com a itinerante A violeira (Antonio Carlos Jobim e Chico Buarque, 1983). Esse mar fundo abarca a Ciranda praieira (1998) de Lenine e Paulo César Pinheiro, remexendo em águas de Pernambuco, terra do frevo de bloco Aquela rosa (Geraldo Azevedo e Carlos Fernando, 1979) e de maracatus como Braia dengosa (Luiz Gonzaga e Guio de Moraes, 1952), outro título pouco ouvido do cancioneiro de um rei que extrapolou o universo do baião. Para quem acompanha a trajetória de Elba, Cordas, Gonzaga e afins mostra músicas nunca encaradas pela leoa, que, mesmo insegura com a letra de Domingo no parque (Gilberto Gil, 1967), oferece boa interpretação deste clássico da fase tropicalista da obra do compositor baiano Gilberto Gil. Nessa música, o SaGRAMA se guia pela orquestração emblemática do maestro Rogério Duprat (1932 - 2006) sem deixar de pôr seu toque pessoal no tema. Na sequência, Sanfona sentida (Dominginhos e Anastácia, 1973) e Sete meninas (Dominguinhos e Toinho Alves, 1975) reiteram a salutar intenção de renovação do repertório de Elba que pareceu pautar os criadores de Cordas, Gonzaga e afins, espetáculo que culmina com bloco de temas juninos em arremate que ainda pode ficar mais espontaneamente animado à medida em que o show ganhar chão na turnê nacional que vai passar por mais seis capitais do Brasil até novembro de 2014. No todo, Cordas, Gonzaga e afins devolve a Elba Ramalho o status de grande intérprete dos palcos. "Tanta gente canta, tanta gente cala". Sobre toda a estrada, pavimentada no Rio de Janeiro há 40 anos, paira a monstruosa força dessa voz que ainda arde.

Fábio Passadisco disse...

Que belo texto Mauro... Parabéns.

P.: Accioly Neto era pernambucano

Mauro Ferreira disse...

Obrigado, Fábio, pelo toque e pelo elogio do texto. Abs, MauroF

Jorge Luiz B. Barros. disse...

Bela crítica Mauro, abraço!!

Rafael Martins disse...

Que texto lindo, Mauro.

lurian disse...

Ansiedade define meu estado de espírito por ver esse espetáculo!

Nelson disse...

Um grande espetáculo que merece mais apresentaçōes. Público não falta.

Luiz Antonio Maciel disse...

Obrigado meu Deus por esta vivo para ver esse show de cultura ,artes e Pernambucanidade. ..