Mauro Ferreira no G1

Aviso aos navegantes: desde 6 de julho de 2016, o jornalista Mauro Ferreira atualiza diariamente uma coluna sobre o mercado fonográfico brasileiro no portal G1. Clique aqui para acessar a coluna. O endereço é http://g1.globo.com/musica/blog/mauro-ferreira/


sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Embora fluente, a biografia de Edu paira na superfície rasa dos perfis oficiais

Resenha de livro
Título: Edu Lobo - São bonitas as canções - Uma biografia musical
Autor: Eric Nepomuceno
Editora: Edições de Janeiro
Cotação: * * *

Ao fim da biografia oficial de Edu Lobo, (bem) escrita pelo jornalista Eric Nepomuceno, há um capítulo intitulado Notas pessoais em que o autor expõe os efeitos que a ausência do pai provocou na infância do cantor, compositor, músico e arranjador carioca, que completa hoje 71 anos. O pai era o compositor e jornalista pernambucano Fernando Lobo (1915 -1996), autor de músicas como Chuvas de verão (1949). Pai e filho nunca foram íntimos, mesmo quando Edu passou a conviver mais com Fernando, na adolescência e início da juventude. Mesmo feita sem aprofundamento, a abordagem dessa questão familiar é um dos raros momentos em que Eric Nepomuceno aproxima o homem Edu Lobo do leitor de São bonitas as canções. Escrita com fluência, a biografia paira na superfície dos perfis oficiais. Até porque o biógrafo é amigo pessoal do biografado há quase 50 anos. Para preservar a amizade e o caráter chapa branca do luxuoso livro recém-posto no mercado via Edições de Janeiro, o escritor jamais ultrapassa o limite da intimidade consentida e tampouco desrespeita os interesses do amigo. Na sequência desse único capítulo de tom mais pessoal, há outro - intitulado Ainda música - em que o autor revela curiosidades sobre a vida cotidiana de Edu, como sua habilidade no preparo de risotos (sobretudo o de lagosta com abóbora) e na imitação de colegas compositores como o carioca Antonio Carlos Jobim (1927 - 1994) e o pernambucano Lenine. De todo modo, justiça seja feita, o livro cumpre o que promete na capa: é uma confiável biografia musical de Edu Lobo. Nepomuceno reconstitui os principais passos da vida profissional do artista com conhecimento de causa - como fica claro no capítulo 12, Uma obra com cheiro de mato e de mar, de tom mais analítico. Embora nem sempre se detenha no detalhamento da gênese de títulos importantes da discografia de Edu, como o álbum Limite das águas (Continental, 1976), o autor traça com propriedade os caminhos trilhados pelo compositor. Do apogeu comercial da era dos festivais, duplamente vencidos com Arrastão (Edu Lobo e Vinicius de Moraes, 1965) e Ponteio (Edu Lobo e José Carlos Capinam, 1967), ao progressivo recolhimento voluntário para se dedicar ao ofício de compositor e arranjador de trilhas criadas sob encomenda, Edu Lobo seguiu rota coerente, sem concessões ao volátil mercado. "É bom saber como a fama é, e pular fora quando ainda há tempo. Porque, quando você assume um compromisso com a fama, tem que se comprometer com todas as suas ramificações. Tem de acompanhar de perto o que está tocando no rádio, o que está vendendo, e vai acabar compondo não pensando na sua música, mas no que vende. Vai compor para o mercado. Você vai ter de se transformar para não perder o tamanho da fama conquistada, e essa fama acaba sendo seu maior compromisso. A única saída será deixar de ser você para virar aquele produto da fama. Eu jamais quis isso", ratifica Edu, coberto de razão, para Nepomuceno em depoimento lapidar que aponta os certeiros caminhos seguidos pelo artista na pavimentação de sua obra, de sua estrada nobre. É pena que, em nome do compromisso com a amizade e com o tom oficial do livro, o biógrafo tenha se contentado com algumas respostas vagas. A insatisfação do compositor com a trilha sonora do musical Deus lhe pague (1976) - composta por Edu com Vinicius de Moraes (1913 - 1980) - poderia ter sido mais investigada, para citar somente um exemplo de que como a amizade entre biógrafo e biografado pode ter sido um entrave que impediu o livro de abordar a obra do artista com mais detalhes e profundidade. Mesmo assim, o bom acabamento do texto - que amarra o início ao fim da narrativa com histórias da primeira parceria de Edu com Vinicius - torna o livro recomendável. A exposição de fotos raras - de todas as fases da vida de Edu - também contribui para aumentar bastante o poder de atração da biografia São bonitas as canções. Embora muitas vezes superficial, é bonito o livro de tom oficial.

3 comentários:

Mauro Ferreira disse...

Ao fim da biografia oficial de Edu Lobo, (bem) escrita pelo jornalista Eric Nepomuceno, há um capítulo intitulado Notas pessoais em que o autor expõe os efeitos que a ausência do pai provocou na infância do cantor, compositor, músico e arranjador carioca, que completa hoje 71 anos. O pai era o compositor e jornalista pernambucano Fernando Lobo (1915 -1996), autor de músicas como Chuvas de verão (1949). Pai e filho nunca foram íntimos, mesmo quando Edu passou a conviver mais com Fernando, na adolescência e início da juventude. Mesmo feita sem aprofundamento, a abordagem dessa questão familiar é um dos raros momentos em que Eric Nepomuceno aproxima o homem Edu Lobo do leitor de São bonitas as canções. Escrita com fluência, a biografia paira na superfície dos perfis oficiais. Até porque o biógrafo é amigo pessoal do biografado há quase 50 anos. Para preservar a amizade e o caráter chapa branca do luxuoso livro recém-posto no mercado via Edições de Janeiro, o escritor jamais ultrapassa o limite da intimidade consentida e tampouco desrespeita os interesses do amigo. Na sequência desse único capítulo de tom mais pessoal, há outro - intitulado Ainda música - em que o autor revela curiosidades sobre a vida cotidiana de Edu, como sua habilidade no preparo de risotos (sobretudo o de lagosta com abóbora) e na imitação de colegas compositores como o carioca Antonio Carlos Jobim (1927 - 1994) e o pernambucano Lenine. De todo modo, justiça seja feita, o livro cumpre o que promete na capa: é uma confiável biografia musical de Edu Lobo. Nepomuceno reconstitui os principais passos da vida profissional do artista com conhecimento de causa - como fica claro no capítulo 12, Uma obra com cheiro de mato e de mar, de tom mais analítico. Embora nem sempre se detenha no detalhamento da gênese de títulos importantes da discografia de Edu, como o álbum Limite das águas (Continental, 1976), o autor traça com propriedade os caminhos trilhados pelo compositor. Do apogeu comercial da era dos festivais, duplamente vencidos com Arrastão (Edu Lobo e Vinicius de Moraes, 1965) e Ponteio (Edu Lobo e José Carlos Capinam, 1967), ao progressivo recolhimento voluntário para se dedicar ao ofício de compositor e arranjador de trilhas criadas sob encomenda, Edu Lobo seguiu rota coerente, sem concessões ao volátil mercado. "É bom saber como a fama é, e pular fora quando ainda há tempo. Porque, quando você assume um compromisso com a fama, tem que se comprometer com todas as suas ramificações. Tem de acompanhar de perto o que está tocando no rádio, o que está vendendo, e vai acabar compondo não pensando na sua música, mas no que vende. Vai compor para o mercado. Você vai ter de se transformar para não perder o tamanho da fama conquistada, e essa fama acaba sendo seu maior compromisso. A única saída será deixar de ser você para virar aquele produto da fama. Eu jamais quis isso", ratifica Edu, coberto de razão, para Nepomuceno em depoimento lapidar que aponta os certeiros caminhos seguidos pelo artista na pavimentação de sua obra, de sua estrada nobre. É pena que, em nome do compromisso com a amizade e com o tom oficial do livro, o biógrafo tenha se contentado com algumas respostas vagas. A insatisfação do compositor com a trilha sonora do musical Deus lhe pague (1976) - composta por Edu com Vinicius de Moraes (1913 - 1980) - poderia ter sido mais investigada, para citar somente um exemplo de que como a amizade entre biógrafo e biografado pode ter sido um entrave que impediu o livro de abordar a obra do artista com mais detalhes e profundidade. Mesmo assim, o bom acabamento do texto - que amarra o início ao fim da narrativa com histórias da primeira parceria de Edu com Vinicius - torna o livro recomendável. A exposição de fotos raras - de todas as fases da vida de Edu - também contribui para aumentar bastante o poder de atração da biografia São bonitas as canções. Mesmo às vezes superficial, é bonito o livro...

Val Js disse...

Mauro, parabéns pelo texto, muito bem escrito.
Comprei e li o livro, muito bonito, por sinal, mas também fiquei com a sensação que faltaram informações para esclarecer alguns fatos relevantes, justamente quando situações de natureza pessoal acabaram por interferir na criação musical, uma vez que é impossível dissociar vida e obra do artista.
Edu Lobo tem uma obra belíssima, que deve ser apreciada e ouvida com prazer. Um verdadeiro legado para a cultura brasileira.

Eduardo Canntho disse...

Concordo: achei o livro um tanto raso e ausente de criatividade, embora o trabalho de Edu Lobo seja extremamente profundo, criativo e denso- isto gera um choque de sentimentos no leitor, deixando livre a interpretação...
Além disso, há, em alguns parágrafos, uma repetição de palavras e outros erros gramaticais que um revisor não podeira deixar passar.
No entanto, recomendo a leitura: Edu Lobo & Eric Nepomuceno compõem uma boa dupla- mas longe da criatividade das duplas Edu&Chico, Edu&Tom, Edu&Vinicius,...